Inverno
9 Capítulo 09
Notas iniciais
(...)
— V-Você me beijou? L-liam? — Eu estava assustado ao final de tudo.
As orbes cinzas não davam respostas nem mesmo os seus lábios marcados após o beijo. O que diabos estávamos fazendo? Liam era meu amigo e nada, absolutamente nada além disso. O que se passava na cabeça dele para fazer algo assim? Eu sei o que acontece com duas pessoas assim. Se aquilo estava acontecendo então quer dizer que Liam é o que estou pensando? Não pode ser!
Mas... Por que eu gostei? Não! Não era possível!
Suas mãos encontraram meu rosto e logo se aproximavam para arrancar-me mais um beijo. Eu tive que dar um basta naquele momento.
— Não, Liam! — Falei em um tom rude, afastando-o — Você me beijou? Puta que pariu. O que aconteceu com você? — Me coloquei de pé, vendo que não conseguia olhá-lo nos olhos e dei de costas.
— P-perdão. — Disse, mansamente.
— Eu não sou gay! — Gritei e quando dei por si, meu corpo tremia.
— Perdão, John. E-eu, não sei explicar.
— Você me trouxe aqui achando que eu era uma garota de encontros? O que merda você fez? Você é gay? O que o tempo fez com você? — Eu não entendia ao certo o motivo do tamanho da minha fúria para usar de tais palavras.
— John... — Liam, levantou-se colocando a mão em meu ombro.
— Não me toca, Liam. Nós... nós... nos beijamos? Isso não é certo!
Eu ainda tentei entender o motivo do nervosismo, embora desconfiasse do porque. O fato de... ter gostado, para mim, era totalmente diferente das ideias propostas pela sociedade e até mesmo por minha mãe. As lágrimas desceram sem permissão mostrando para o loiro a minha fragilidade que na infância ele tentara ver e eu escondia inúmeras vezes.
Meus pés iniciaram o movimento e logo eu estava correndo, ao longe escutei sua voz pedindo-me para lhe esperar. Eu não sabia nem qual caminho eu estava percorrendo, apenas descia cortando as árvores a minha frente e me machucando na cerca que traçava o lugar. Acenei para o primeiro táxi informando-lhe o endereço certo, e ao chegar entrei para pegar o dinheiro e fazer o pagamento.
E quando o motorista partiu, as lágrimas voltaram a descer. Era errado o que fizemos, na verdade fora errado ter cedido. Mais errado ainda foi ter gostado do ocorrido. Minha mente estava a mil quando eu tentava dizer que Liam era apenas meu amigo de infância. Eu teria de evitá-lo para por um fim nisso, eu teria que fazer o possível para deixar de ser seu amigo para que eu continuasse a ter minha honra, mesmo se isso viesse a me machucar.
Abri a porta do quarto assustando Adam que dormia em minha cama. Eu não queria que o mesmo me encontrasse naquela situação. Queria somente ter a sua presença para poder dormir. Dormir para nunca mais acordar, se fosse possível.
(...)
— Consertar? Vamos, explique-me.
— Não tem nada para explicar, Adam. Vai me dizer onde ele mora ou não?
— Não antes de me falar o que você tem que consertar. — Adam me olhava atravessado.
— Na verdade eu... — eu tinha que pensar em algo imediatamente — preciso entregar a jaqueta que ele esqueceu comigo. — Disse, lembrando que a mesma estava jogada em minha cama.
— Será mesmo isso? — Ele sorriu. — Está bem, eu sei que não devo interferir em sua vida. Mas Liam mora um pouco distante daqui, seria necessário um táxi.
— Isso não é o problema. — Respondi imediatamente, demonstrando minha animação.
— Vou anotar o endereço, não será difícil encontrar a casa.
Enquanto fui pegar a jaqueta Adam anotava o endereço e me entregou em mãos. Apenas riu mas não disse nada. Eu o abracei agradecendo-o pela gentileza. As vezes eu estava incerto da decisão a qual aderi. Mas ao mesmo tempo precisava ter certeza de uma coisa: saber o que eu estava sentido àquele dia.
Não avisei que estava saindo e isso meu primo daria conta caso notassem a minha ausência. Rapidamente encontrei um táxi que iria me levar ao endereço indicado. Comecei a ficar nervoso desde o momento que o carro deu partida, podendo desistir a qualquer momento.
Perdi mais de dez minutos no trânsito por conta de um acidente que ocorreu na estrada que estávamos, no caminho vi de longe o local onde eu atualmente estava estudando e até mesmo vi lugares históricos um pouco distante dali e o que mais me chamou atenção fora uma casa que provavelmente estava abandonada e as árvores a sua frente deixava-a com um ar sombrio, porém espetacular no quesito beleza.
O táxi fora perdendo a velocidade de antes ao entrarmos em uma rua e pararmos em frente a nada mais nada menos que um... museu? Entreguei o dinheiro ao taxista e desci sentindo a pureza do vento naquele lugar, distante do barulho de carros da cidade.
Na entrada da casa haviam dois pilares e uma pequena escada ao centro, janelas enormes e algumas árvores completavam a beleza da entrada. Se eu não soubesse que Liam morava ali, com certeza diria que aquilo era um museu por tamanha semelhança tinha a faixada da casa. E mais uma vez pensei em desistir. Era patético estar ali. Subi os degraus e parei em frente a porta, apertando a campainha logo em seguida e esperei alguns segundos para que uma garotinha me atendesse.
Ela me olhava de uma forma estranha — afinal, eu era um estranho —, ficou calado por cerca de dez segundos, vendo aquilo eu tive que me apresentar.
— Bom dia, — embora fosse início de tarde — eu sou John, amigo de Liam.
Ela sorriu, depositando no rosto o mesmo sorriso que o maior tinha, dando-me a conclusão de que era sua irmã. A pequena não falou nada, apenas me segurou pela mão puxando-me para dentro da casa.
— Amigos do Liam são sempre bem vindos! — Disse a pequena, enquanto sorria e abraçava minhas pernas. — Eu irei chamá-lo. — Disse, correndo e desaparecendo ao dobrar o corredor.
Sentei no sofá em minha frente esperando ansiosamente a garota surgir com o loiro ao seu lado. Imaginei por diversas vezes a cena e aquilo deixava-me nervoso.
— Liam parece que não está afim de receber visitas. — A garota surgiu despertando-me dos pensamentos deixando-me desanimado ao ouvi-la terminar a frase.
— O que ele disse? — Indaguei curioso.
— Ele não disse nada, a porta do seu quarto está trancada, o som está alto. Acho melhor você voltar outra hora.
Ela tinha razão, eu teria de voltar outra hora, ou melhor, nunca mais voltar e deixar de pensar nisso de uma vez por todas. A garota, que sorriu estampando no rosto o mesmo sorriso que o maior tinha — o que me fez deduzir ser irmã dele — me acompanhou até a porta.
Era sair dali e nunca mais vê-lo.
— Você poderia me deixar ir ao banheiro? — Eu tinha uma ideia.
— Claro! Fica ao final do corredor.
— Muito obrigado, está vendo isso? — retirei do bolso uma moeda — é por você ser tão gentil. — E a entreguei.
Eu não sabia se pensava no que falar ou se admirava a beleza dos quadros da casa, encontrado no corredor a foto do dono dos olhos cinzas, abraçado com sua irmã, a mãe e um outro homem. — Que não era seu pai, algo muito estranho —. O som que antes a garotinha havia comentado estava cada vez mais próximo. Eu pude encontrar seu quarto por conta disso, conhecendo bem o dono da voz e música — Misery – The Maine —, por vezes bati a porta de madeira chamando-o. Mas não houve resposta, vendo que som estava alto e só ao final da música ouvi a sua voz, que por sinal, estava mansa.
— Hoje eu quero ficar sozinho, Lana.
— Não é a Lana... — fiz uma pausa — Sou eu, John. — Finalmente falei.
Uma nova música se iniciou e nenhuma palavra mais fora dita. Eu me senti um estúpido por estar ali e esperar vendo que ele não abriria, passando-se cerca de um minuto eu já estava dando as costas até ouvir a maçaneta girar e sua imagem surgir.
Olhos vermelhos e úmidos, cabelos molhados e usando apenas uma cueca vermelha. Vidros espalhados pelo chão, cobertores jogados por cima das cadeiras, porta de guarda roupas abertas, porta retratos quebrados. Roupas jogadas em cima da mesa de cabeceira. Anjo? Não mais.
— O que você quer? — Perguntou.
— Entregar sua jaqueta — falei, entregando-lhe. Quando Liam a recebeu tentou fechar a porta logo em seguida, porém, impedi a ação com meu pé — E falar com você, posso ao menos entrar?
Liam não disse nada, deu-me passagem, encostou a porta e caminhou até a escrivaninha de vidro encostada à parede. Me surpreendi ao vê-lo se preparar para inalar o que mais me pareceu cocaína.
— O que merda você acha que esta fazendo? — Corri, impedindo-o de cometer tal ato, jogando ao chão o pó branco.
— Agora você se importa? — Disse furioso, retirando minhas mãos da sua.
— Me importo sim, o que você acha que eu sou? Sou seu amigo e não quero te vê usando essas porcarias. Olha ao redor e veja o que você fez com seu quarto. Você quebrou tudo! E agora está usando drogas. Que putaria é essa, Liam?
— Me deixa, John, eu estou arcando com as consequências. — Disse, sem me olhar nos olhos e rasgando mais uma foto que encontrara em cima de sua cama.
(...)
Eu soltei minha mão da sua, mas logo, bateu arrependimento quando senti falta daquele contato que aquecia a região.
— Olha, eu pisei na merda do meu maldito orgulho e vim aqui. Hoje, você disse que não sabe quem sou eu, estou te dando a oportunidade de saber por onde ando e como eu vivo, para quem sabe, você decidir continuar sendo meu amigo, com isso, estou disposto a aceitar as consequências.
Eu pude vê sua expressão mudar nas últimas palavras. Tinha algo estranho.
— Consequências?
— Sobe na moto, depois você tira suas próprias conclusões. — Disse contornando o assunto.
(...)
— Ao que me parece, você está sendo o que era na infância, fraco. E o Liam que eu conheci por esses novos tempos não é nada parecido com aquele.
— Eu sempre continuei sendo o velho Liam, apesar da mudança, eu só quis tentar ser igual a você. Mas olha o que eu sou agora? Anda, John, pode me chamar de fracassado.
— Para com esse drama de novela mexicana, Liam.
— Puta que pariu, você não percebe que tudo isso é por sua causa? Que você é culpado disso tudo! Não é drama, caralho. — Liam jogou o vaso de vidro que estava ao seu lado em minha direção que passou alguns centímetros de distância do meu rosto, quebrando-se na parede atrás de mim. Apavorado, era a palavra que consegue definir o que eu estava sentido — Você sempre piora as coisas quando eu tento consertá-las. Chega de bancar o certinho, John. Chega de pagar de bom moço, de me dá lição de moral, desde que você chegou aqui você só sabe me repreender em relação a tudo.
— E-eu não entendi. — Eu realmente não estava entendendo a que ponto ele estava querendo chegar.
— Claro que entendeu. Não se faz de desentendido. Você não consegue ligar os fatos. Eu levava muita surra quando menor e você costumava me dá sermão por eu sempre abaixar a cabeça, eu cresci e mesmo assim continuei levando sermão seu por tal mudança achando que você teria orgulho de mim.
— Mas Liam... — Fui interrompido.
— Isso não quer dizer que eu não goste. Eu apenas acho que você deveria notar o que se passa com nós dois, que vai além da amizade desde quando éramos crianças. Pois quando menores, não entendíamos direito o que se passava e agora crescidos, sabemos muito bem o que passamos sozinhos durante todos esses anos na ausência do outro.
Liam descrevia cada pensamento que eu tive durante todos esses anos em sua ausência. Aquilo deixava-me constrangido mas ao mesmo tempo fascinado por vê-lo falar daquela forma, rude e autoritário, porém, tentava abrir minha mente.
— E agora, por conta de um beijo, estamos assim...
— Olha, Liam, você está certo. — Disse, pondo fim ao seu sermão... Vendo, que os papeis se inverteram mais uma vez.
Uma nova música estava dando início — Demons – Imagine Dragons — e fora ela que fez do silêncio torna-se agradável ao encontrar seu rosto e olhos fixados aos meus. O via chorar e se jogar em cima da cama como uma criança em busca de colo. Anjo? Novamente.
— Ei, Liam — Chamei, aproximando-me — Quando eu decidi vir aqui, foi porque... eu precisava ter certeza de algo. E gostaria que você... — Fui pego de surpresa mais uma vez.
Lábios invadidos por sua língua. Uma interrupção mútua para as palavras que eram desnecessárias. Um beijo roubado que logo teve meu consentimento. Era intenso como o da primeira vez, podendo agora notar o calor que seu corpo transferia para o meu por conta da sua fúria de minutos antes. Suas mãos mantinham pressão em meu braço e seus lábios tendo domínio sobre o meu. O coração? Batia como se fosse a última vez. Arrancava de mim o ar da qual era necessário para sobreviver, porém, deixou claro de que somente seu beijo era primordial. Beijo este que devorava meu lábio, que arrancava-me arrepios e levava-me a ter pensamentos perversos. Logo suas mãos desprenderam-me, acariciando meu rosto com carinho e ternura. Eu não sabia o que fazer, mas arrisquei em por a mão em seus cabelos, tendo também domínio. Liam deitou-me na cama e continuou a me beijar. O loiro pausou seu beijo e me olhou nos olhos, seu olhar de fúria tornou-se o mais angelical possível quando sorrira para mim. Voltou a pressionar meu braço e afastou seu rosto do meu, deixando-me admirar sua beleza enquanto o mesmo estava por cima de mim.
— Lana me disse que... O que vocês estão fazendo? — Anna, a namorada e Lana a criança, acabaram de entrar no quarto.
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