Invasão

50 Zona Vermelha



O sol da tarde filtrava-se entre as nuvens densas de La Push, lançando uma luz suave sobre o abrigo. Sarah estava ao lado de Emily, ajudando com a distribuição dos alimentos e verificando a quantidade de suprimentos restantes. Ela fazia anotações rápidas em um pequeno caderno enquanto organizava algumas embalagens de arroz e feijão seco.

— Estamos ficando com pouco açúcar e farinha — comentou, franzindo a testa. — Acho que vou ter que ir até o armazém principal pra ver o estoque.

— Pode deixar que eu cuido disso depois — disse Emily, sorrindo. — Você já fez bastante hoje, querida.

Sarah ia protestar quando uma voz familiar surgiu atrás delas.

— Precisa de reforço aí?

Ela se virou e viu Seth caminhando na direção das duas com aquele sorriso fácil que fazia o coração dela bater um pouco mais rápido do que o normal.

— Sempre é bom ter mais um par de mãos — respondeu Emily com um olhar cúmplice, segurando o riso. — Mas sabe, acho que vou dar uma olhada nos fundos… sozinha. — E piscou discretamente para Sarah antes de sair, os deixando a sós.

Sarah ficou vermelha, fingindo focar em um saco de feijão aberto.

— Ela fez isso de propósito — murmurou.

Seth riu.

— Fez mesmo. Emily é péssima disfarçando quando quer bancar a cupido.

— Acho que ela está exagerando — disse Sarah, ainda sem olhar diretamente para ele.

— Talvez… ou talvez não — Seth disse, se aproximando mais. Ele pegou uma lata da pilha ao lado dela. — Estava pensando… quando a gente terminar aqui, que tal uma pausa? Podíamos dar uma volta na praia. Tem um lugar perto das pedras, mais isolado… a vista é incrível.

Sarah ergueu os olhos, surpresa e ao mesmo tempo envergonhada.

— Tá me chamando pra sair?

— Tô. — Seth sorriu. — Mas se quiser, posso dizer que é só pra você me ajudar a procurar conchas raras. Aí parece mais científico.

Sarah riu, balançando a cabeça.

— Você é impossível. Mas… sim. Eu aceito.

O clima entre os dois ficou leve, confortável. Pela primeira vez em muito tempo, Sarah sentiu-se livre da tensão, do medo. Sentiu-se como uma jovem de novo, apenas se permitindo gostar de alguém.

Mas a tranquilidade durou pouco.

— Que gracinha — disse uma voz atrás deles, com sarcasmo gotejando em cada sílaba.

Eles se viraram ao mesmo tempo e viram Mary parada ali, braços cruzados, olhar afiado.

— A princesa finalmente resolveu descer do trono?

Sarah ficou séria, o corpo enrijecido. Seth, no entanto, manteve a calma.

— Mary — ele disse, num tom neutro. — A gente está ocupado aqui.

— Percebi. — Ela lançou um olhar de desprezo para Sarah. — Só achei curioso que ela apareça aqui agora, toda boazinha, como se não tivesse estado em um lugar privilegiado por anos.

— Eu não escolhi isso— respondeu Sarah, a voz firme. — Eu fui em uma viagem de familia e nao esperavamos uma invasão alien. E eu não te devo explicações.

Mary riu, debochada.

— Claro. A culpa é dos Aliens. Tá bom então.

Seth ia responder, mas Sarah ergueu a mão.

— Não vale a pena — disse, olhando nos olhos dele. — Vamos só terminar o que começamos.

Seth assentiu, admirando a maturidade dela. Mary revirou os olhos e saiu bufando.

Sarah soltou um suspiro.

— Desculpa por isso.

— Não precisa — disse Seth. — Você se saiu melhor do que eu teria feito. E agora eu tô ainda mais curioso pra te levar naquela praia.

Sarah sorriu, voltando ao trabalho com o coração mais leve — e uma chama discreta de empolgação crescendo dentro dela.

Sarah entrou em casa aliviada pelo calor suave que a lareira ainda emitia. O cheiro do café fresco pairava no ar e o som de vozes suaves a guiou até a sala, onde encontrou sua mãe agachada ao lado de uma cesta com roupas.

— Separando coisas pra mim de novo? — ela perguntou com um leve sorriso, vendo Nessie dobrar uma blusa de lã azul.

— Pra você e pro seu irmão — respondeu Nessie sem olhar, mas com um tom carinhoso. — O tempo virou e vocês precisam de roupas mais quentes.

Sarah sentou-se no sofá, puxando os joelhos para perto do peito.

— E o pai?

Nessie parou por um instante, erguendo os olhos até a filha. Havia um brilho calmo e uma pontinha de saudade no olhar.

— Ele saiu pra resolver algumas coisas… do abrigo, eu acho. — Sua voz era gentil, mas Sarah percebeu o esforço para soar natural.

— Hmm. — Ela fez um som pensativo, depois respirou fundo. — Vou sair com o Seth.

Nessie levantou a cabeça, e um sorriso nasceu quase que imediatamente.

— Ah é?

Sarah estreitou os olhos, desconfiada.

— O que foi esse sorriso?

— Nada… é que você nunca demonstrou muito interesse por garotos antes — disse Nessie, voltando à tarefa como se fosse a coisa mais comum do mundo.

— Não estou interessada no Seth — rebateu Sarah rápido demais, os olhos arregalados.

Foi nesse momento que a porta se abriu e Jacob entrou, limpando as mãos com um pano. Ele parou ao ouvir as últimas palavras da filha.

— Que história é essa de “não estou interessada no Seth”?

Sarah se virou devagar, como se tivesse sido pega em flagrante, e Jacob cruzou os braços, o semblante sério com aquele ar protetor que só um pai conseguia ter.

Nessie se levantou, tentando aliviar o clima.

— Calma, Jake. Eles só vão dar uma volta. Sarah está sendo gentil.

— Gentil demais — murmurou ele, encarando a filha com um olhar desconfiado. — Seth é mais velho e eu sei o que passa na cabeça dele quando olha pra você.

— Pai — disse Sarah, revirando os olhos, constrangida. — A gente só vai caminhar um pouco… conversar. Relaxa. — E, para tentar quebrar a tensão, se aproximou e deu um beijo rápido no rosto dele. — Te amo, velho rabugento.

Jacob bufou, mas não respondeu — o que significava, para Sarah, que estava liberada. Ela pegou o casaco e saiu apressada antes que ele mudasse de ideia.

Logo após a porta se fechar, Julia surgiu no corredor, ainda meio sonolenta, com uma das tranças caindo de lado. Ao ver Jacob, correu e pulou nos braços dele com um gritinho de alegria.

— Papai!

Jacob a pegou no colo com facilidade, apertando-a contra o peito.

— Minha pequena! Dormiu bem?

— Uhum — murmurou ela, deitando a cabeça no ombro dele.

Nessie os observava em silêncio, com o coração apertado. Mesmo com tantas incertezas, aquele momento — simples e cheio de amor — era tudo o que ela precisava para lembrar que, no meio do caos, a vida ainda dava pequenos milagres.

A areia fria da praia de La Push se estendia à frente deles, úmida e salpicada pelas ondas que vinham e iam sem pressa. O céu começava a se tingir com tons suaves de laranja e lilás enquanto o sol se punha atrás das montanhas distantes. Sarah caminhava ao lado de Seth, as mãos dentro dos bolsos do casaco, tentando esconder o leve rubor no rosto.

— Eu gosto desse silêncio — ela comentou, quebrando o som das ondas. — A praia tem algo de… calmo, mesmo com tudo acontecendo.

Seth assentiu, chutando uma pedrinha.

— Eu venho aqui desde moleque. Quando as coisas apertavam na aldeia ou… na matilha, era aqui que eu vinha pensar.

Sarah o olhou de soslaio, curiosa.

— E agora, está vindo pra pensar… ou só pra me impressionar?

Seth sorriu, coçando a nuca, meio sem jeito.

— Um pouco dos dois, talvez.

Sarah riu, mas o som desapareceu quando ambos ouviram um estalo seco vindo da mata próxima. Ela franziu a testa.

— O que foi isso?

— Provavelmente só um animal — Seth respondeu, embora sua voz não tivesse tanta certeza.

Outro estalo, mais perto.

E então... o som de patas — muitas patas — sobre folhas secas.

Quando se viraram, os dois congelaram.

Três aranhas enormes, com corpos do tamanho de lobos e olhos negros reluzentes, surgiram entre as árvores. Seus corpos peludos se moviam com agilidade assustadora.

— Por tudo… corre! — gritou Seth, agarrando o braço de Sarah e puxando-a pela areia.

Eles correram pela orla, os pés afundando na areia úmida. Sarah arfava, tentando não olhar para trás.

— Acha que podemos despistar?! — ela gritou.

— Tem uma antiga cabana ali perto! — respondeu ele, apontando adiante.

Ao alcançarem a construção meio caída, entraram rapidamente, batendo a porta. Seth a encostou com o peso do corpo, o peito subindo e descendo com a respiração ofegante.

Sarah estava vermelha, os cabelos soltos caindo sobre o rosto, os olhos em chamas.

— Você me trouxe pra uma zona vermelha?! — ela gritou, empurrando o peito dele. — Sabe o que isso significa?! Insetos mutantes, ataques, armadilhas… meu Deus, Seth!

Ele ergueu as mãos em rendição.

— Eu juro que não lembrava! A zona vermelha mudou de lugar nas últimas semanas! Eu só queria…

— Me impressionar, eu sei. — Ela cruzou os braços, tentando se acalmar. — Você vai mesmo morrer tentando ser charmoso?

Ele sorriu, meio envergonhado.

— Se for ao seu lado, talvez valha a pena.

Sarah bufou, mas não conseguiu evitar o meio sorriso que escapou dos lábios. Lá fora, as aranhas pareciam ter se afastado.

— Quando sairmos daqui — ela disse, apontando o dedo para ele — você me deve uma explicação, uma caminhada segura e… chocolate quente.

— Fechado — disse ele, estendendo a mão com um sorriso.

Ela bateu levemente na palma dele e então se sentaram, os dois ainda com o coração acelerado, mas agora com os olhos trocando sorrisos silenciosos em meio ao perigo.

A noite já havia caído sobre La Push, e a luz da lareira projetava sombras suaves pelas paredes de madeira da casa. Julia dormia no sofá, abraçada ao lobo de pelúcia que Will havia dado a ela. Will estava em seu quarto, lendo um velho gibi que Emily havia encontrado entre os suprimentos.

Renesmee terminava de guardar algumas roupas dobradas quando Jacob entrou na sala, silencioso. Seus olhos estavam baixos, como se carregassem um peso que ele não conseguia mais sustentar.

Ela o observou por alguns segundos, antes de perguntar com a voz calma, mas firme:

— Como foi a conversa com a Hope?

Jacob parou por um instante, respirou fundo, e se sentou à beira da poltrona. Seus olhos se encontraram com os dela, e ali não havia mais espaço para meias-verdades.

— Ela está grávida — disse, com um fio de voz.

Renesmee sentiu o mundo parar por um segundo. Seus braços ficaram pesados, e a sensação era como se o ar houvesse sumido da sala. Ela sentou-se lentamente, tentando processar.

— Grávida… — repetiu, quase num sussurro. — Você vai ser pai. De novo.

Jacob abaixou a cabeça.

— Eu não sabia, Nessie. Quando ela me contou, foi hoje. Eu não lembrava de quem eu era… nem de você, nem das crianças. Eu fui outra pessoa por um tempo. Eu...

Ela ergueu a mão, pedindo silêncio por um instante, lutando contra as lágrimas. Ele respeitou.

— Eu sei que você não lembrava — ela disse, com a voz embargada. — E sei que… que não foi por mal. Mas, Jake… por mais que a gente tente… tudo mudou.

Os olhos de Jacob se encheram de arrependimento.

— Eu daria tudo pra voltar atrás. Eu daria tudo pra não ter perdido você. Mas eu tô aqui agora. E mesmo que o passado seja confuso… eu escolho você, Nessie. Você e as crianças. Nada muda isso.

Ela respirou fundo, ainda sentindo o ciúme queimando por dentro, a dor, a frustração. Mas também sabia: Jacob havia sido vítima. Ele perdeu a memória, perdeu tudo. E mesmo assim, voltou para ela. Por vontade própria.

Renesmee se aproximou, com os olhos cheios d'água, e o abraçou. Um abraço longo, apertado. Ele a envolveu como se aquele fosse o único lugar certo no mundo.

— Vai ser difícil — ela disse, encostando o rosto no ombro dele. — Mas a gente vai passar por isso. Juntos.

Ele não disse nada. Apenas a segurou mais forte, como se estivesse prometendo em silêncio que não a deixaria mais.