Invasão
51 Conflitos
A noite já tomava conta do céu de La Push, e a lua cheia iluminava as copas das árvores e os telhados baixos do vilarejo improvisado. Dentro da casa, Renesmee colocava um cobertor sobre Julia quando Jacob se aproximou da janela, olhando para a trilha escura que levava ao norte.
— Já está tarde… — ele murmurou, com o cenho franzido. — Sarah e Seth já deviam ter voltado.
Renesmee ergueu os olhos na mesma hora. Um aperto surgiu em seu peito.
— Você acha que aconteceu alguma coisa?
— Não sei. Mas vou verificar se eles não chegaram em nenhuma das outras casas. E se não estiverem por aqui, eu mesmo vou atrás deles.
Renesmee se aproximou e segurou o braço dele com firmeza.
— Toma cuidado, Jake.
Ele assentiu, puxando-a suavemente para um beijo rápido.
— Prometo que volto logo.
Assim que ele saiu pela porta, a brisa fria da noite o envolveu. Jacob caminhava com passos longos, os sentidos aguçados, rastreando os cheiros pela floresta úmida. Quando finalmente ouviu vozes mais adiante, acelerou o passo.
— Seth! — chamou, já reconhecendo o vulto alto do rapaz. — Sarah!
Os dois se viraram. Estavam com os rostos suados, um pouco ofegantes da caminhada apressada. Sarah estava visivelmente irritada, os braços cruzados.
— Jacob! — disse Seth, aliviado. — Está tudo bem, só…
— Vocês sabem que não podem se afastar tanto assim! — Jacob cortou, olhando diretamente para Seth. — E ainda mais com a noite chegando! A zona vermelha é cheia de riscos. E se algo tivesse acontecido?
— A culpa foi minha, senhor — disse Seth, erguendo as mãos. — Eu não me atentei à distância.
Mas antes que Jacob pudesse responder, Sarah bufou e se intrometeu.
— Pai, eu tenho vinte anos! — exclamou, encarando-o com firmeza. — Você pode não lembrar, mas eu já sou adulta. Não sou mais aquela garotinha que você levava no colo.
Jacob foi pego de surpresa. Aquelas palavras acertaram mais do que ele gostaria de admitir. Ele tentou falar algo, mas hesitou.
— Eu entendo a preocupação — Sarah continuou, com a voz mais baixa —, mas você não pode me proteger do mundo todo tempo.
Jacob olhou para a filha, o coração apertado. Uma parte dele ainda tentava se reconectar àquela jovem que agora estava à sua frente como mulher. Ele soltou um suspiro pesado.
— Eu só… fiquei preocupado. Não consigo evitar.
Sarah deu um pequeno sorriso, com ternura nos olhos, mesmo em meio à irritação.
— Eu sei. E… obrigada por se importar. Mas confia em mim, tá bom?
Seth, ao lado, desviava o olhar, tentando não parecer envolvido demais, mas claramente sem saber para onde fugir.
Jacob assentiu, vencido.
— Tudo bem. Só… tentem voltar antes de escurecer da próxima vez.
— Prometido — respondeu Seth, dando um leve aceno.
Jacob olhou para ambos por mais alguns segundos, depois fez sinal para que voltassem. No caminho de volta, Sarah e Seth trocaram olhares, e um leve sorriso surgiu nos lábios dela. Por mais tensa que a noite tivesse sido, havia algo no ar… e ela sabia que aquele era só o começo.
A porta da casa rangeu suavemente quando Sarah entrou. Ainda com os cabelos um pouco bagunçados e as bochechas coradas, ela se deparou com Renesmee organizando algumas das roupas de Will e Julia no pequeno armário improvisado. Nessie virou-se com um sorriso tranquilo quando viu a filha.
— Estava começando a me preocupar — disse ela, com a voz suave. — Ainda bem que chegaram bem.
Sarah fechou a porta atrás de si, apoiando-se na madeira por um segundo, como se precisasse respirar fundo antes de qualquer coisa.
— Não foi nada demais… só perdemos a noção do tempo.
Nessie ergueu uma sobrancelha, com um sorriso malicioso brincando nos lábios.
— Acontece muito quando se está com alguém interessante.
Sarah revirou os olhos, mas um pequeno sorriso escapou de seu controle.
— Mãe…
— O que foi? — Renesmee riu. — Só estou dizendo que é bom ver você assim. Feliz. Envolvida. Você passou tanto tempo focada em proteger seus irmãos e me manter segura… que esqueceu de viver.
Sarah caminhou até a cama, sentando-se ali com um suspiro.
— Seth é legal. É diferente de todos que eu conheci. Não sei… ele me escuta. E não me trata como se eu fosse só a “filha do líder”.
— Ele sempre foi assim. Leal. Doce. — Renesmee sorriu com ternura. — E… bonito, né?
— Mãe! — Sarah riu, agora genuinamente.
— Tá bom, parei — disse Renesmee, rindo também. — Só estou feliz por ver você com esse brilho nos olhos.
O riso das duas foi interrompido por passos do lado de fora. Jacob entrou, trazendo consigo o cheiro da floresta e o olhar cansado, mas aliviado. Julia veio correndo logo atrás, pulando nos braços do pai.
— Papai! — ela riu, aninhando-se no peito dele.
— Oi, minha pequena flor — Jacob disse, beijando o topo da cabeça dela antes de olhar para Sarah. — Ainda irritada comigo?
Sarah cruzou os braços, mas seu sorriso desmentia qualquer rancor.
— Só um pouco.
Jacob se aproximou e deu um beijo na testa dela.
— Eu só me preocupo porque te amo, filha.
Ela assentiu com um sorriso tímido.
— Eu sei, pai.
Renesmee observava a cena com os olhos marejados. Em silêncio, ela agradeceu por ter sua família de volta — mesmo que ainda houvesse dificuldades, dores e fantasmas do passado. Naquele instante, tudo o que importava estava sob o mesmo teto.
— Quer que eu prepare um chá? — Renesmee perguntou, querendo prolongar aquele momento de paz.
— Pode ser bom. Depois de fugir de aranhas gigantes, um chá parece uma bênção — Sarah brincou, arrancando uma gargalhada dos pais.
A casa estava finalmente em silêncio. Will dormia no colchão improvisado perto da janela, um dos braços estendido para fora do cobertor. Sarah, em seu quarto, com os fones de ouvido ligados ao rádio antigo, mergulhada em músicas antigas que aprendeu a amar. E Julia, pequena e sonhadora, se aconchegava na pelúcia que Jacob havia encontrado entre os suprimentos do abrigo.
Renesmee, sentada no sofá, puxava um cobertor para os ombros quando Jacob se aproximou com duas canecas de chá quente. Sentou-se ao lado dela, entregando uma das canecas e envolvendo a outra mão na cintura dela.
— Eles estão em paz — disse Nessie, sorrindo ao ouvir os suspiros suaves da filha dormindo. — Parece até um sonho.
— Mas é real — Jacob respondeu, observando os olhos dela brilharem à luz branda da luminária. — E agora a gente precisa tomar decisões difíceis... juntos.
Ela suspirou. Já sabia o que viria.
— Você acha que devemos contar hoje?
Jacob negou com um movimento lento da cabeça.
— Sarah está em um momento delicado… está descobrindo o mundo de um jeito novo, sentindo coisas novas. E Will… ele acabou de reencontrar em mim uma figura de pai. Eu tenho medo de que isso os confunda ainda mais.
— Julia é muito pequena. Ela vai aceitar qualquer coisa desde que você continue sendo o herói dela — Nessie murmurou, encostando a cabeça no ombro dele.
— Mas os dois mais velhos… — Jacob hesitou, tomando um gole do chá. — Quero fazer isso do jeito certo, sem ferir ninguém.
Nessie segurou a mão dele, apertando-a com carinho.
— Então vamos fazer juntos. No tempo certo. Até lá… deixamos que eles sintam apenas o que realmente importa: que estamos aqui por eles.
Jacob a olhou, seus olhos se encontrando na penumbra da sala. Ela sorriu e ele respondeu com um beijo leve, quase reverente.
— Obrigado — ele disse.
— Por quê?
— Por continuar me escolhendo… mesmo com todas as bagunças.
— Sempre vou escolher você, Jacob Black.
Manhã seguinte – Orla segura da praia de La Push
Sarah ajeitou o casaco grosso nos ombros e se abaixou para tirar os sapatos antes de pisar na areia ainda fria da manhã. Seth já a esperava mais à frente, perto de uma fogueira apagada e alguns troncos caídos que serviam de assento. O mar cinzento quebrava em ondas suaves.
— Pensei que fosse desistir — disse ele, sorrindo.
— E perder essa chance? Nunca.
Eles se sentaram lado a lado, o som das gaivotas ao longe e a brisa salgada compondo o cenário.
— Esse lugar… mesmo em ruínas, ainda tem algo de mágico — Sarah comentou.
— Acho que é porque você está aqui — Seth respondeu, brincando, mas com os olhos sérios.
Sarah riu, meio sem jeito.
— Você é péssimo com cantadas, sabia?
— Eu prefiro ser sincero.
Ela o olhou por alguns segundos, surpresa com a resposta. Ia responder algo quando uma voz cortante os interrompeu.
— Espero não estar atrapalhando — disse Mary, se aproximando com o sorriso enviesado e os olhos cravados em Sarah.
— Na verdade, está — Sarah respondeu antes que Seth pudesse dizer qualquer coisa.
Mary fingiu não se abalar.
— Você se move rápido, hein, filha do líder? Nem um mês aqui e já está marcando território?
— Ao contrário de você, eu não preciso competir por atenção. — Sarah levantou-se, firme. — E se eu estiver marcando algo, é porque o lugar me foi oferecido.
Os outros jovens que estavam próximos deram risadinhas abafadas, claramente se divertindo com a resposta.
Mary bufou, lançando um olhar gélido para Seth antes de se virar e se afastar.
Seth olhou para Sarah, impressionado.
— Uau.
— Ela não vai me intimidar — Sarah disse, limpando a areia das mãos. — E se quiser continuar com a manhã tranquila, acho melhor não me provocar também.
Seth riu.
— Combinado. Eu gosto de garotas decididas.
Sarah sorriu, o rosto voltando a relaxar.
— Então você vai adorar ficar por perto.
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