Invasão
56 Retorno
O céu estava nublado naquele fim de tarde, e o vento soprava com cheiro de terra úmida e madeira queimada. Renesmee, Rachel e Claire empilhavam lenha próxima à entrada do vilarejo, onde alguns moradores trabalhavam para reforçar as cercas com estacas improvisadas. Tudo parecia mais silencioso do que o normal.
— Ainda nenhuma notícia? — perguntou Rachel, amarrando os cabelos num coque desajeitado.
Renesmee balançou a cabeça, limpando o suor da testa com as costas da mão.
— Nada. Dois dias sem qualquer contato. Nem sinal pelos rádios.
Claire parou de cortar um pedaço de corda e olhou para as duas, a expressão carregada de preocupação.
— Talvez só estejam fora de alcance. Devem ter enfrentado algum obstáculo no caminho.
Sarah, que ajudava a empilhar sacos de arroz na carroça, ergueu a cabeça e disse com confiança:
— Eles podem estar sem comunicação, mas estão vivos. O papai é forte. Ele prometeu voltar.
Renesmee forçou um sorriso diante da filha, mas não conseguiu esconder a angústia nos olhos.
— Eu sei, querida. Eu sei...
Nesse momento, Hope se aproximou. Estava mais abatida, o cansaço visível no rosto, mas andava com firmeza. A barriga levemente arredondada sob a blusa escura já denunciava sua condição.
— Terminei de revisar os estoques de remédios. Vou voltar pra enfermaria amanhã cedo. — disse, pegando uma cesta com ervas secas. — Preciso começar a treinar alguém para me substituir quando o bebê nascer.
Rachel assentiu com simpatia.
— É uma boa ideia. Já tem alguém em mente?
— Ainda não. Mas quero alguém que aprenda rápido.
Claire lançou um olhar a Renesmee, percebendo o leve enrijecimento dos ombros da amiga. Nessie evitou o contato visual com Hope, mantendo o foco nas tarefas.
— Bom… eu vou verificar os armazéns. Quero garantir que nada foi mexido.
— Precisa de ajuda? — perguntou Claire.
— Não. Prefiro ir sozinha. — Renesmee respondeu rápido demais.
Hope notou o tom, mas apenas baixou os olhos para a cesta que carregava. Rachel lançou um olhar sutil de alerta para Hope, que fingiu não perceber.
— Nos vemos mais tarde. — Nessie disse, se afastando com passos firmes, mas não apressados.
Enquanto ela se perdia entre os corredores do vilarejo, Claire soltou um suspiro e comentou baixinho com Rachel:
— Isso ainda vai dar problema…
Rachel apenas assentiu, em silêncio.
O interior do armazém era frio e silencioso, com cheiro de madeira velha, poeira e grãos secos. Renesmee encostou as costas contra uma das estantes e soltou um longo suspiro, sentindo a tensão pesar sobre os ombros. A luz que entrava pelas frestas das tábuas riscava o ambiente em tons dourados, como se o tempo ali tivesse parado.
— Por que tem que ser tão difícil…? — sussurrou para si mesma, os olhos marejados.
A imagem de Hope com a mão sobre a barriga, falando sobre a chegada do bebê, ainda pulsava em sua mente. Por mais que tentasse racionalizar, seu coração doía. Não pelo passado, mas por tudo que o presente trazia.
— Eu tento... — ela murmurou, apertando os olhos. — Eu tento não sentir... mas ver ela assim, com o filho dele... É como se o mundo estivesse testando cada pedacinho da minha força. Como se me lembrasse, todos os dias, que eu não tenho controle sobre nada.
Ela abaixou a cabeça, segurando as lágrimas. Julia estava crescendo, Sarah e Will já eram quase adultos. Ela tinha construído uma família. Lutado por ela. E mesmo assim, aquele vazio insistia em ficar.
— Jacob me ama. Eu sei que ama... Mas amar nem sempre apaga as cicatrizes. E às vezes, ver aquela criança crescendo dentro de Hope... é como se a ferida abrisse de novo.
Um leve rangido de porta fez Renesmee enxugar rapidamente o rosto com a manga da blusa. Quando olhou, viu Will parado à entrada do armazém, os olhos atentos.
— Desculpa — disse ele, encolhendo os ombros. — Não queria assustar.
Ela tentou sorrir.
— Tudo bem, amor... Você precisa de alguma coisa?
Will balançou a cabeça, mas um pequeno sorriso despontou nos lábios.
— Eles estão chegando, mãe. Seth viu primeiro, vindo da trilha leste. Estão quase aqui.
O coração de Renesmee pulou no peito. Ela levou a mão à boca, emocionada, e por um segundo esqueceu toda a dor.
— Tem certeza?
— Sim. Sarah correu na frente com ele. Ela já deve estar lá fora com Claire e Rachel. Eu vim te buscar.
Ela se aproximou do filho, agora um adolescente de voz firme e postura protetora. Tocou o rosto dele com carinho.
— Obrigada por me avisar, Will.
Ele assentiu e olhou para ela com olhos sérios.
— Tá tudo bem, mãe. Vai ficar tudo bem, tá?
Ela forçou um sorriso, tocada pelo carinho.
— Eu sei. Agora vamos… — disse, respirando fundo. — Vamos receber seu pai.
E então saíram juntos do armazém, lado a lado, prontos para reencontrar aqueles que haviam partido — e que, com sorte, voltavam com o coração inteiro.
O som dos passos apressados ecoava pela trilha de terra batida quando o grupo enfim emergiu da vegetação densa. As sentinelas do vilarejo foram as primeiras a avistar os sobreviventes e, em segundos, um alvoroço tomou conta da entrada principal. Gritos, corridas, emoção. A poeira se erguia como um tapete de boas-vindas enquanto os que esperavam corriam para encontrar os que voltavam.
Jacob cambaleava levemente ao caminhar, o ferimento no ombro ainda ardia, mas havia um brilho determinado em seus olhos. Ele estava de volta. Com seu povo. Com vida.
Seth mal havia passado pela barreira da entrada quando viu Sarah correndo em sua direção, os cabelos soltos balançando no vento, o rosto tenso e esperançoso.
— Seth! — ela gritou, e ele quase desabou de alívio ao ouvi-la.
Eles se encontraram num abraço apertado, como se o tempo tivesse parado para os dois. Sarah segurou o rosto dele entre as mãos, olhando os pequenos cortes e arranhões.
— Você tá ferido… — disse ela, preocupada.
Seth sorriu, mesmo com o lábio rachado.
— Só o suficiente pra me lembrar que sobrevivi.
Ela riu, emocionada, e antes que qualquer um dos dois pudesse pensar, eles se beijaram — rápido, intenso, alívio puro. Atrás deles, Jacob pigarreou alto, arqueando a sobrancelha. Sarah se afastou de Seth com uma risada envergonhada e correu até o pai.
— Pai!
Jacob a recebeu com um abraço forte, mesmo com o ombro machucado.
— Você tá bem? — ela perguntou, sentindo a mancha de sangue seca na camisa dele. — Tá ferido também?
— Um arranhão só. Já fui atingido por coisa pior do que formigas e abelhas do tamanho de cavalos — disse ele, tentando minimizar.
Sarah não se convenceu, mas assentiu, aliviada por tê-lo de volta.
Jacob olhou ao redor, buscando entre os rostos conhecidos… até que sentiu dois braços o envolverem por trás. Uma voz suave, familiar, mas inesperada.
— Jacob… graças a Deus… você tá vivo.
Era Hope.
Ela o abraçava apertado, o rosto escondido contra seu peito. E antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, sentiu o pequeno volume de sua barriga pressionado contra ele. Sua mente girou por um instante, e o instinto o fez recuar educadamente, sem rudeza, mas visivelmente desconfortável.
E foi nesse exato momento que Renesmee surgiu entre as sombras do portão, com Julia nos braços e Will ao seu lado.
Ela parou. Os olhos se fixaram na cena.
Hope, com a barriga de quase quatro meses, abraçada a Jacob. Jacob tentando recuar, sem saber o que fazer. Por um instante, o mundo pareceu congelar.
Will olhou para a mãe, depois para o pai, e soltou um suspiro. Julia, no colo de Renesmee, esticou os bracinhos inocentemente, sorrindo ao ver Jacob, mas Renesmee não conseguia se mover.
Seu coração batia alto, não pela dor — porque essa ela já conhecia bem — mas pelo cansaço de viver sempre no fio da navalha entre o amor e o caos.
Jacob percebeu o olhar dela. E só então, finalmente, os olhos dos dois se encontraram. Havia algo em sua expressão — dor, culpa, e uma profunda necessidade de correr até ela. Mas o tempo parecia conspirar para atrasar aquele abraço que tanto ansiavam.
Ainda assim… estavam ali. No mesmo chão. No mesmo tempo.
E isso… era um começo.
Hope recuou devagar, ainda com as mãos pousadas sobre a barriga saliente. Jacob a olhou com gentileza, mas seus olhos buscavam outra direção.
— Hope… — disse ele com a voz baixa, tentando ser cuidadoso. — Depois a gente conversa, tá bem? Eu prometo.
Ela assentiu, forçando um sorriso. — Claro. Você precisa descansar.
Jacob apenas tocou o ombro dela de leve, como sinal de respeito, e então deu um passo à frente, seus olhos se fixando finalmente em Renesmee.
Ela ainda estava ali, imóvel, como se esperasse uma explicação que nunca viria. Julia sorria nos braços da mãe, alheia à tensão no ar.
Jacob parou diante delas, sem dizer nada por um instante, apenas a olhando.
— Eu senti sua falta — disse ele por fim, com a voz rouca.
Renesmee suspirou, apertando os lábios. Não havia palavras suficientes para descrever tudo que sentia.
— Eu sei — respondeu ela, baixo.
Jacob estendeu os braços, e Julia imediatamente foi para ele, soltando um gritinho alegre.
— Papai!
Ele a segurou com firmeza, como se aquele pequeno corpo fosse seu alicerce. Beijou os cabelos da filha e sorriu. Seus olhos então se voltaram para Will, que já se aproximava.
— E aí, campeão?
Will olhou para ele por um momento e, sem dizer nada, o abraçou forte. Jacob fechou os olhos, emocionado. Will então pegou Julia de volta em seus braços, com todo o cuidado do irmão mais velho.
— Eu levo ela. Vocês dois precisam conversar.
Ele se afastou, deixando os pais a sós.
Jacob olhou para Renesmee com atenção. — Você está com aquele olhar… — disse ele, com um leve sorriso nos lábios. — Aquele que me faz saber que estou encrencado.
— Você está ferido — disse ela, tentando mudar de assunto. — E não me venha com esse charme agora.
Ele apenas se aproximou mais um passo, os olhos presos aos dela.
— Eu conheço esse olhar… é o seu jeito de esconder que ainda se importa. — A voz dele era firme, mas gentil.
Antes que Renesmee pudesse responder, ele a puxou suavemente pela cintura, aproximando o rosto do dela, e a beijou.
Não foi um beijo urgente, nem desesperado. Foi um reencontro. Um lembrete silencioso de tudo que ainda existia entre eles, apesar das dores, das dúvidas, das marcas do tempo.
E naquele instante, Renesmee soube: ele estava ali. De volta. Por ela. Pela família.
E isso, por agora… bastava.
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