Invasão
61 Pronunciamento
Cinco meses haviam se passado desde o enterro de Bella em Forks, num dia cinzento que parecia carregar todo o peso da dor de todos que a amavam. A lembrança ainda feria — não apenas pela ausência dela, mas pelo significado de tudo o que viveu e fez em seus últimos momentos. Bella havia se tornado mais do que mãe, esposa ou amiga… transformara-se em um símbolo. A prova viva — e depois eterna — de que o amor podia alcançar e transformar até mesmo o coração mais endurecido.
O que ela fez não foi em vão. Charlie sabia disso. Jacob sabia disso. E, de alguma forma, Sarah e Will, até mesmo Julia sendo tão pequena parecia sentir que a avó deles tinha sido uma heroína.
Edward, por outro lado, nunca apareceu. Nem no enterro, nem a pedido de Bella. Talvez por covardia, talvez por vergonha. Não tinha coragem de encarar o povo, de olhar nos olhos de quem sofrera por causa de um erro seu e dos que governavam ao seu lado.
Naquele dia, todos estavam reunidos na sala da casa de Charlie — Jacob, Nessie, Sarah, Will, Charlie e Renée. A televisão estava ligada, e o clima era silencioso e tenso. O ar parecia carregado, como se o mundo inteiro prendesse a respiração junto com eles.
Jacob estava no sofá, com Will adormecido no colo, a mão grande protegendo o corpinho do filho. Sarah se aninhava ao lado, a cabeça encostada em seu ombro. Charlie e Renée estavam lado a lado, as mãos dadas sobre o joelho, como se um sustentasse o outro para não desmoronar.
A programação foi interrompida. A imagem na tela mudou para o cenário oficial da Casa Branca. A música cerimonial tocou baixinho antes de silenciar, e então o presidente dos Estados Unidos surgiu, caminhando até o púlpito, sob o clarão intermitente das câmeras.
— Cidadãos e cidadãs — começou, com um tom grave que fez a sala inteira silenciar ainda mais —, hoje me dirijo a vocês para falar sobre coragem, sacrifício… e redenção.
Os olhares se fixaram na tela. Era impossível não saber de quem ele falaria.
— Há cinco meses, perdemos uma mulher que, com um ato de bravura, salvou vidas e mudou o curso de uma história marcada por injustiças. Isabella Swan… — ele fez uma pausa, e o nome ecoou com firmeza — …foi mais do que uma vítima das circunstâncias. Ela foi uma heroína.
Sarah ergueu o olhar para a televisão. Jacob fechou os olhos por um instante.
O presidente prosseguiu:
— Sua coragem não apenas desarmou um conflito iminente, mas também provou que o amor é capaz de mudar até mesmo o pior dos homens. E por isso, em nome desta nação, anunciamos que Isabella Swan será condecorada postumamente com a Medalha Presidencial da Liberdade…
Renée levou a mão à boca, tentando conter as lágrimas, enquanto Charlie respirava fundo, segurando a emoção.
— …e seu nome será eternizado no Memorial Nacional de Heróis Civis.
O silêncio voltou a dominar a sala quando o presidente se calou. O som das respirações pesadas parecia mais alto que o da própria televisão.
Jacob foi o primeiro a falar, em voz baixa e carregada de sentimento:
— Ela merecia isso… mas merecia estar aqui pra ver.
Ninguém respondeu. Apenas o som contido das lágrimas de Nessie que escorriam silenciosamente.
O salão permaneceu em silêncio, pesado como um túmulo. Edward olhou para cada rosto à sua frente, o peso das palavras prestes a serem ditas gravado em seu semblante. A voz saiu firme, mas carregada de melancolia.
— Bella… — ele começou, fazendo uma pausa dolorosa. — Bella não está viva para ver este momento. Para ver que, hoje, cumpro a promessa que fiz a ela.
Os murmúrios cessaram de vez. Então, Edward endireitou-se e deixou que a verdade, enterrada por anos, viesse à tona.
— Há décadas, nós demos início a pesquisas científicas e radioativas. Nosso objetivo era criar armas… bombas biológicas capazes de destruir cidades inteiras. Mas, há seis anos, algo saiu terrivelmente errado. Houve um acidente em um dos depósitos. O material radioativo escapou… e se fundiu ao ar que todos respiramos.
A expressão dele se tornou ainda mais grave.
— As consequências foram imediatas. Animais começaram a sofrer mutações irreversíveis… mas os mais afetados foram os insetos. Criaturas comuns tornaram-se predadores implacáveis, maiores, mais resistentes, impossíveis de conter.
Ele fez uma pausa, respirando fundo antes de soltar a sentença final.
— Para encobrir nossos rastros, inventamos a história da invasão. Nunca houve invasão. Nunca houve alienígenas. O verdadeiro inimigo… sempre fomos nós. A culpa é dos humanos.
Os olhares ao redor se alternavam entre incredulidade e indignação. Os que ainda não sabiam da verdade agora absorviam cada detalhe como uma punhalada, e murmúrios de revolta se espalhavam pelo grupo. Alguns soldados cerravam os punhos, outros desviavam o olhar, como se processar tamanha revelação fosse doloroso demais.
O ar pesado foi abruptamente cortado pela entrada apressada de Claire. Sua expressão estava séria e sua voz, firme.
— Jacob… — chamou, aproximando-se rapidamente — Hope entrou em trabalho de parto.
Todos se calaram. Jacob desviou o olhar de Nessie, surpreso, e ela apenas assentiu, em silêncio, como se desse permissão para que ele fosse. Sem dizer mais nada, ele seguiu com Claire, desaparecendo pelo corredor.
Nessie soltou um suspiro longo, sentindo a tensão no peito, e antes que pudesse se perder nos próprios pensamentos, sentiu os braços de Sarah a envolverem num abraço firme e caloroso. A jovem encostou o rosto no ombro dela, oferecendo conforto silencioso enquanto o ambiente ainda vibrava com as emoções contraditórias que restavam.
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