Invasão

42 Lembranças


A estrada para fora de Washington era escura e traiçoeira, com apenas os faróis do veículo iluminando o caminho sinuoso. Renesmee mantinha Julia firmemente aninhada contra o peito, o coração ainda acelerado depois da fuga. O alarme continuava ecoando ao longe, mas a cidade ficava cada vez menor no retrovisor.

Nahuel dirigia com precisão, atento a qualquer movimento suspeito. Will, sentado ao lado da mãe, observava tudo com olhos curiosos, absorvendo cada detalhe do trajeto.

Após algumas horas de viagem, Nahuel apontou para uma trilha de terra que levava a uma floresta densa.

– Precisamos parar aqui por algumas horas – disse ele. – O carro precisa de combustível, e nós precisamos descansar.

Nessie assentiu, sentindo o cansaço finalmente pesar sobre seus ombros. Eles seguiram por uma estrada de terra até encontrarem uma clareira escondida entre as árvores. Nahuel desligou o motor, e o silêncio da floresta os envolveu.

– Vamos montar um acampamento provisório – disse ele, saindo do carro.

Renesmee saiu do veículo com cuidado, carregando Julia nos braços. A pequena se remexeu levemente, mas permaneceu adormecida, exausta. Will desceu logo depois, cruzando os braços.

– Eu posso ajudar com algo?

Nahuel sorriu, apreciando a iniciativa do garoto.

– Sim, pode ajudar a recolher lenha para uma fogueira pequena. Nada que chame muita atenção.

Will assentiu, determinado, e logo se afastou para recolher galhos secos. Enquanto isso, Renesmee ajeitou Julia sobre um cobertor dentro da barraca improvisada que Nahuel montava.

– Descansa, meu amor – sussurrou, cobrindo a filha com cuidado.

Nahuel terminou de organizar a pequena fogueira e olhou para Will.

– Preciso que você fique na barraca com Julia, protegendo-a.

O adolescente franziu a testa.

– Mas eu quero ajudar a vigiar!

– Você já está ajudando – respondeu Nahuel, paciente. – Proteger sua irmã é uma das tarefas mais importantes.

Will suspirou, contrariado.

– Mas eu sei me defender.

Renesmee colocou a mão no ombro do filho.

– Eu sei, amor. Mas Julia precisa de você agora.

Will hesitou por um momento, então olhou para a irmã mais nova, dormindo tranquilamente. Ele bufou e revirou os olhos, mas no fundo entendia.

– Tudo bem... Mas se algo acontecer, me avisem.

– Combinado – disse Nahuel, piscando para ele.

Will entrou na barraca, e Renesmee se sentou ao lado da fogueira, observando as chamas pequenas dançarem. Nahuel se sentou ao lado dela, o olhar atento à floresta ao redor.

– Agora, só precisamos aguentar a noite – ele murmurou.

Renesmee assentiu, mas a preocupação não a deixava descansar. Lá fora, no escuro, Sarah ainda estava sozinha. E ela faria qualquer coisa para encontrá-la.

A fogueira crepitava suavemente, lançando sombras dançantes pelo chão coberto de folhas. Renesmee abraçava os joelhos, o olhar perdido na escuridão da floresta. O silêncio era quebrado apenas pelo som distante dos grilos e pelo estalar da madeira em brasa.

Nahuel observava a expressão preocupada dela e suspirou antes de falar:

— Sarah é forte, Nessie. Você sabe disso. Ela tem o seu espírito… e o de Jacob.

Renesmee desviou o olhar do fogo para ele, surpresa pela comparação.

— Você acha?

— Tenho certeza. Ela pode estar sozinha agora, mas se há algo que aprendi com Jacob, é que um verdadeiro lobo nunca se perde. Ele sempre encontra o caminho de volta. E Sarah não é diferente.

Renesmee sorriu, emocionada.

— O que eu mais admiro em você, Nahuel, é o respeito que tem por ele.

Nahuel assentiu, seu olhar tranquilo.

— Jacob foi um grande homem. Um grande líder. Eu jamais tentaria concorrer com ele no seu coração, Nessie. Sei que ele sempre terá seu lugar.

Renesmee sentiu uma pontada no peito. Havia algo dentro dela que não conseguia explicar, um aperto no coração que parecia cada vez mais forte desde que haviam fugido de Washington. Mas, naquele momento, não queria se aprofundar nisso.

Com um sorriso suave, ela se inclinou para Nahuel e o beijou com carinho. Ele correspondeu ao gesto, puxando-a para junto de seu peito, envolvendo-a com os braços.

Enquanto se deixava envolver pelo calor dele, Renesmee fechou os olhos e, por um instante, pensou em Jacob.

Ela não sabia por quê, mas, mesmo com o aconchego do abraço de Nahuel, algo dentro dela continuava inquieto. Como se uma sombra de dúvida pairasse sobre tudo que acreditava saber.


Ao amanhecer, o ar da floresta estava úmido e carregado com o frescor da noite que se dissipava. Renesmee se espreguiçou ao sair da barraca, sentindo o corpo um pouco dolorido da fuga e da tensão acumulada. Nahuel já estava acordado, analisando um mapa sobre o capô do carro enquanto Will ajudava a desmontar o acampamento.

— Precisamos decidir nosso caminho — disse Nahuel, traçando um percurso com o dedo. — A melhor rota seria pela Interstate 5, que nos levaria direto a Seattle. Mas... — ele suspirou, franzindo a testa — a Route 20 é perigosa. Muitos insetos infectados foram avistados por lá recentemente. Não é seguro, especialmente com as crianças.

Renesmee assentiu, apertando o casaco ao redor do corpo.

— Então seguimos pela I-5. Quanto mais rápido chegarmos, melhor.

Nahuel concordou, dobrando o mapa. Eles carregaram Julia no carro e seguiram viagem.

Horas depois, ao se aproximarem de Everett, uma cidade ao norte de Seattle, Renesmee notou a mudança drástica na paisagem. O lugar parecia abandonado, com construções antigas e ruas esburacadas. Algumas poucas pessoas caminhavam, os rostos marcados pela fome e pelo cansaço.

Ao cruzarem a rua principal, ela viu crianças descalças sentadas na calçada, os olhos fundos e sujos de poeira. Um homem idoso arrastava um carrinho de supermercado cheio de trapos, enquanto uma mulher remexia uma pilha de lixo à procura de algo útil.

— Eu sabia que as coisas estavam ruins fora das fortalezas, mas não assim... — Renesmee murmurou, chocada.

Nahuel olhou em volta, sério.

— O governo de Washington mantém essas áreas isoladas. Eles dizem que protegem as pessoas, mas, na verdade, só protegem os que estão dentro dos muros.

Will observava tudo com os olhos arregalados, segurando Julia no colo.

— Eles... vivem assim o tempo todo?

— Sim — respondeu Nahuel. — E vão continuar assim, a menos que alguém faça algo.

Renesmee sentiu um aperto no peito. Seu pai governava esse mundo. E agora, pela primeira vez, ela via de perto o que ele realmente havia criado.

Após três dias de viagem exaustiva, o grupo finalmente avistou a placa indicando Seattle. Renesmee sentiu o coração acelerar com uma esperança renovada. Ela sorriu, sentindo que estava cada vez mais perto de Sarah.

— Finalmente — sussurrou, apertando a mão de Nahuel.

No banco de trás, Will olhava fixamente pela janela, seu semblante carregado de nostalgia e tristeza.

— Eu me lembro de quando papai nos levava para Seattle — disse ele, sua voz carregada de saudade. — Ele adorava aquela cidade. Sempre dizia que era uma das mais bonitas do país.

Renesmee sentiu um aperto no peito ao ouvir as palavras do filho. Jacob sempre gostou de Seattle, e costumava levá-los para passeios longos, mostrando a cidade com um brilho nos olhos.

— Ele nos levava ao mercado de Pike Place e sempre comprava aqueles doces estranhos para Julia — Will continuou, forçando um sorriso ao lembrar. — E sempre dizia que, quando eu fizesse quinze anos, me ensinaria a dirigir por essas ruas.

Ele suspirou, o olhar fixo nos prédios destruídos e ruas desertas da cidade.

— Agora está tudo acabado — lamentou. — Não parece mais o mesmo lugar.

Renesmee estendeu a mão e segurou a dele.

— Eu sei, querido — disse suavemente. — Mas vamos encontrar um novo lar. Vamos ficar bem.

Nahuel manteve o olhar atento na estrada, mas sua voz saiu firme.

— Não podemos entrar em Seattle. O centro está sob vigilância direta de Washington. Se tentarmos, seremos capturados.

Renesmee respirou fundo, reprimindo a frustração.

— Então qual é a melhor alternativa?

Nahuel pegou o mapa dobrado e o abriu sobre o painel do carro.

— Podemos seguir para Port Angeles. Fica próximo a Forks e podemos nos manter afastados das estradas principais. A partir de lá, pegamos um caminho secundário até La Push.

Renesmee concordou com um aceno de cabeça.

— Certo. Vamos por Port Angeles.

Eles seguiram viagem, mantendo-se atentos a qualquer movimentação suspeita. Conforme se afastavam de Seattle, o tráfego diminuía e as estradas ficavam mais vazias. O sol já estava se pondo quando finalmente cruzaram a entrada de Port Angeles.

Will continuava pensativo, olhando para a cidade em ruínas.

— Eu nunca pensei que o mundo fosse acabar assim — murmurou.

— Ainda não acabou — Renesmee respondeu, determinada. — Nós vamos continuar lutando.

Quando finalmente saíram de Port Angeles e pegaram a estrada para Forks, o céu já estava escuro. As árvores altas da floresta densa pareciam sombras gigantescas sob a luz da lua.

Ao avistar a placa “Bem-vindo a Forks”, Renesmee sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Esse era o lugar onde tudo começou. E talvez onde tudo terminaria.