Invasão

46 Do pertencimento a despedida


Jacob respirou fundo, tentando organizar seus pensamentos, mas tudo estava uma confusão dentro dele. Desde o momento em que viu Renesmee, algo dentro dele se remexeu, como um eco distante de algo importante que ele não conseguia alcançar completamente. Ele precisava de tempo. Para ele. Para ela. Para tudo isso.

Ele se afastou por um momento, observando o abrigo provisório e a movimentação dos sobreviventes. Sabia que não podia se deixar levar pelo turbilhão de emoções agora—eles ainda estavam em perigo.

Seus olhos encontraram Riley e Sam, que aguardavam suas ordens.

— Precisamos reforçar a segurança do abrigo. — Jacob disse, sua voz firme, apesar da confusão interna. — Juntem os homens e montem uma equipe de proteção. Não sabemos quando esses monstros podem atacar de novo.

Sam assentiu, mas antes de sair, olhou para Jacob com um olhar preocupado.

— Como você está?

Jacob passou a mão pelo rosto e soltou um suspiro pesado.

— Minha mente está uma bagunça. — Ele hesitou antes de continuar. — Tive alguns flashes de memória ao ver Renesmee.

Riley ergueu as sobrancelhas.

— Isso significa que você pode recuperar tudo.

Jacob olhou para os dois com seriedade.

— Não comentem nada disso com ninguém. Nem mesmo com minha família.

Sam e Riley se entreolharam, mas assentiram sem questionar. Eles entendiam que Jacob queria protegê-los. Se alguém descobrisse que ele estava começando a recuperar a memória, as consequências poderiam ser perigosas.

Jacob desviou o olhar para um canto do abrigo e viu Will caminhando calmamente, segurando Julia no colo. Seu coração apertou com a cena. Algo dentro dele lhe dizia que aquele garoto era importante. Que aquela menininha também era.

Ele caminhou na direção deles, sentindo seu peito apertar ainda mais.

Quando Will o viu se aproximar, seus olhos brilharam com emoção. Um sorriso tímido surgiu em seu rosto.

— Pai... — a palavra saiu quase como um sussurro.

Jacob parou diante dele, seu olhar confuso e ao mesmo tempo cheio de algo inexplicável.

— Tudo está muito confuso. — Ele admitiu, sua voz carregada de honestidade.

Will assentiu.

— Eu entendo. Mas espero que o senhor recupere sua memória logo.

Jacob olhou para o garoto por um momento e, sem saber exatamente o porquê, pousou uma mão firme e carinhosa em seu ombro. O toque era reconfortante, quase instintivo.

Foi então que uma vozinha suave soou ao lado deles.

— Papai.

Jacob abaixou o olhar e encontrou Julia o encarando com seus olhos grandes e inocentes.

O impacto daquela palavra o atingiu como um raio.

Ele sentiu um nó na garganta, uma sensação forte e inexplicável tomando conta de si.

Algo dentro dele estava prestes a despertar.

Jacob se ajoelhou diante de Julia, observando aqueles olhinhos brilhantes que o encaravam com uma mistura de curiosidade e reconhecimento. Ele não sabia explicar, mas sentia algo intenso dentro de si—como se aquela garotinha sempre tivesse sido parte dele, mesmo que sua memória não confirmasse.

— Ela sempre soube quem você era. — Will disse suavemente. — Mamãe sempre mostrou suas fotos para ela. Acho que, de alguma forma, Julia o reconheceu.

Jacob olhou para Will e depois de volta para Julia, que ainda o observava com expectativa. Sem hesitar, ele a pegou no colo, sentindo o pequeno corpo se aconchegar contra ele com naturalidade.

— Papai. — Julia repetiu baixinho, descansando a cabecinha em seu ombro.

Jacob fechou os olhos por um momento, absorvendo aquela sensação inexplicável de pertencimento. Seu peito apertou, e sem perceber, apertou a filha contra si, protegendo-a instintivamente.

Foi então que um movimento chamou sua atenção. Ele ergueu os olhos e viu Renesmee observando a cena, as emoções transbordando em seu olhar.

Desde que Julia nasceu, Nessie sempre se perguntou como seria se Jacob estivesse ali, se pudesse segurá-la nos braços e chamá-la de filha. Agora, diante de seus olhos, a cena que sempre imaginou se tornava real.

Um aperto forte no peito a fez prender a respiração.

Ela sentiu a mão de Sarah segurar a sua, como se dissesse silenciosamente: Estamos aqui juntas.

As duas se aproximaram lentamente.

Quando Jacob percebeu a presença de Renesmee, seu coração disparou, como se sua alma o alertasse de que aquela mulher era muito mais do que apenas uma lembrança perdida.

Ele não conseguia desviar o olhar dela.

Nessie respirou fundo, lutando para conter as lágrimas.

— Preciso me despedir de Nahuel. — Sua voz saiu embargada.

Jacob assentiu, ainda segurando Julia.

— Quer que eu fique com ela?

Nessie sorriu, um sorriso pequeno e triste, mas cheio de significado.

Ela ergueu a mão e tocou o braço dele, um gesto simples, mas que fez Jacob prender a respiração.

— Ela é sua filha, Jake.

Aquelas palavras o atingiram como um trovão.

Ele não sabia quem era. Não sabia quem ela era para ele. Mas sabia que aquela menininha em seus braços era parte dele.

E, pela primeira vez, a confusão dentro dele deu espaço para um novo sentimento: pertencimento.


Renesmee entrou no pequeno hospital improvisado com o coração apertado. O cheiro de ervas medicinais misturado ao sangue no ar a fez prender a respiração por um instante. Ela caminhou até a cama onde Nahuel repousava, pálido e suado. Seu peito subia e descia com dificuldade, e seus olhos brilharam quando a viram.

— Achei que não ia me deixar ir sem uma despedida. — Nahuel murmurou, com um sorriso fraco.

— Não fale assim. — Nessie segurou a mão dele com força, tentando passar uma confiança que nem ela sentia. — Você vai ficar bem. As enfermeiras estão cuidando de você.

Nahuel soltou uma risada fraca.

— Você nunca soube mentir para mim, Nessie.

Ela abriu a boca para protestar, mas ele apertou sua mão, interrompendo-a.

— Eu sei que estou partindo.

Os olhos de Renesmee se encheram de lágrimas.

— Não... Nahuel, por favor...

Ele ergueu a mão trêmula e tocou o rosto dela.

— Eu sempre te amei, Renesmee. — Ele disse com dificuldade, sua voz falhando. — E fui feliz com você.

Nessie mordeu os lábios com força para conter o choro.

— Você é um homem incrível, Nahuel. Eu nunca poderia ter pedido um amigo melhor... um companheiro melhor...

Ele sorriu.

— Eu sei que meu lugar nunca foi no seu coração... não da maneira que eu queria.

Ela fechou os olhos, deixando as lágrimas escorrerem.

— Me perdoa.

Nahuel negou com a cabeça, esforçando-se para falar.

— Não há nada para perdoar. Eu vou tranquilo... porque sei que você será feliz. Com o homem que sempre amou.

Os soluços de Renesmee escaparam antes que ela pudesse se conter.

— Não diga isso... não me deixe...

Mas Nahuel já não ouvia.

Seus olhos, antes cheios de ternura, agora fitavam um ponto distante, sem brilho. Seu peito subiu uma última vez... e então, cessou.

— Nahuel? — A voz de Nessie quebrou.

Nenhuma resposta. Nenhuma reação.

O desespero a tomou, e ela se jogou sobre ele, chorando contra o peito imóvel.

A dor da perda rasgou sua alma, deixando um vazio impossível de preencher.