Paul recebeu a ordem de Jacob e começou a organizar os preparativos para o enterro das vítimas do ataque. Ele parou por um instante e olhou para Jacob com uma expressão séria.

— E Nahuel? — perguntou.

Jacob respirou fundo antes de responder.

— Ele cuidou da minha família quando eu nem lembrava que tinha uma. Merece um enterro digno.

Paul assentiu, respeitando a decisão de Jacob, e se afastou para organizar tudo. Enquanto isso, Hope se aproximou, os olhos fixos em Jacob com um misto de hesitação e determinação.

— Eu a vi — disse ela.

Jacob franziu a testa.

— Quem?

— A mulher ruiva que diz ser sua esposa — respondeu Hope, cruzando os braços.

Jacob manteve o olhar firme.

— Ela não diz. Ela é minha esposa.

Hope bufou, claramente descontente com a resposta.

— Você realmente acredita que tudo será como antes? Muito tempo passou, Jacob. Você não pode simplesmente voltar e agir como se nada tivesse acontecido.

Jacob a encarou, seu tom firme e autoritário.

— Hope, Nessie acabou de perder alguém importante. Não quero você perto dela. Isso não é uma sugestão.

Hope apertou os lábios, irritada.

— E agora? Vai simplesmente acolher todos eles como se os últimos quatro anos não tivessem existido?

— Eles são minha família — Jacob afirmou. — E, a partir de agora, ficarão comigo, sob minha proteção. Se você não pode aceitar isso, então temos um problema.

Hope o encarou por alguns segundos, o olhar indecifrável, antes de se virar e sair, deixando Jacob sozinho com seus pensamentos.


Hope se afastou, os punhos cerrados e a mente fervilhando. A raiva e a frustração se misturavam dentro dela, criando um nó apertado em seu peito. Durante quatro anos, ela esteve ao lado de Jacob, ajudando-o a se recuperar, protegendo-o, construindo uma vida com ele. E agora, com a chegada daquela mulher, tudo parecia prestes a desmoronar.

Ela parou ao lado de uma árvore, observando Renesmee segurar a pequena Julia no colo enquanto Will se aproximava, juntando-se ao abraço. A cena era quase como uma pintura: um retrato de família perfeito, no qual Hope não fazia parte. A realidade desse pensamento a atingiu como um soco.

— Você precisa se acalmar. — A voz de Claire soou novamente atrás dela.

Hope fechou os olhos, respirando fundo antes de se virar.

— Eu já disse para não encher meu saco, Claire. — Sua voz saiu cortante.

— E eu já disse que conheço esse olhar. — Claire cruzou os braços, encarando-a sem medo. — Você está planejando alguma coisa, Hope. Eu te conheço melhor do que ninguém.

Hope soltou uma risada amarga.

— E se eu estiver? Você vai correr para contar para o seu querido Jake? — Ela provocou, mas Claire não se deixou abalar.

— Não precisa. — Claire deu um passo à frente, o olhar sério. — Se você fizer qualquer coisa contra Renesmee ou contra as crianças, Jacob não vai precisar que ninguém lhe diga nada. Ele vai saber, e você vai se arrepender.

Hope estreitou os olhos, sentindo a fúria crescer.

— Você realmente acha que ele vai simplesmente voltar para ela e esquecer tudo o que passamos juntos? — Sua voz carregava desespero e incredulidade. — Eu estive lá quando ele precisava. Ela não.

Claire suspirou, balançando a cabeça.

— E isso foi escolha dele? Ou ele não teve essa chance? — Ela perguntou, sem alterar o tom de voz. — O Jacob que eu conheço sempre foi leal àqueles que ama. E, goste você ou não, Renesmee sempre foi a mulher dele. O tempo não mudou isso.

Hope desviou o olhar para o grupo à frente, sentindo o peso das palavras de Claire. Mas ela se recusava a aceitar. Não importava o que acontecesse, ela não iria perder Jacob. Não sem lutar.

— Vamos ver, irmãzinha. — Hope murmurou, antes de se afastar pela trilha, a determinação queimando em seu olhar.

...

O céu estava coberto por nuvens densas, como se a própria natureza lamentasse a perda de Nahuel. O vento frio cortava o ar, e o silêncio era preenchido apenas pelos soluços discretos dos presentes. Renesmee estava ali, de pé diante da cova recém-aberta, o coração em pedaços. Seus olhos ardiam com as lágrimas que insistiam em cair, e o peso da despedida parecia sufocá-la.

Jacob se colocou ao lado dela, os filhos próximos, respeitosos na dor da mãe. Quando seus dedos roçaram os dela, um pequeno choque percorreu o corpo de Renesmee. Ela não hesitou em segurar sua mão, buscando um consolo silencioso naquele gesto. Jacob, por sua vez, olhou-a de soslaio e, sem dizer uma palavra, entrelaçou seus dedos nos dela. Era um toque simples, mas carregado de significado.

A cerimônia seguiu com poucas palavras, pois a dor falava por si só. Após o último punhado de terra ser lançado sobre o caixão de Nahuel, os presentes começaram a se dispersar. Famílias se reuniam, tentando encontrar forças para continuar. Alguns choravam baixinho, outros apenas ficavam ali, parados, absorvendo a perda.

Sarah segurou a mão de Julia enquanto Will caminhava ao lado delas. Compreendendo que seus pais precisavam de um momento a sós, os dois seguiram em direção ao abrigo.

Jacob permaneceu ali, observando Renesmee. Seus olhos buscaram os dela, encontrando um mar de sentimentos que ele não conseguia decifrar completamente. Ele respirou fundo antes de falar:

— Precisamos conversar.

Renesmee assentiu, sua voz saindo quase como um sussurro:

— Sim, nós precisamos.

A tensão pairava entre eles, misturada com a dor do luto e a confusão de reencontrar um amor perdido. E naquele instante, no meio de tantas incertezas, apenas uma coisa era clara: havia muito a ser dito.

...


Jacob e Renesmee seguiram em silêncio até a casa de Jacob, localizada no bloco de casas próximas ao abrigo. O ambiente simples e funcional refletia os anos que ele passou longe, sem memórias de quem realmente era. Ao entrarem, a porta se fechou atrás deles, selando-os em um momento que há muito tempo era necessário.

Renesmee respirou fundo, tentando encontrar as palavras certas. Seu coração batia acelerado, ainda sentindo a presença dele tão perto após anos de ausência.

— Eu não sei nem por onde começar... — ela murmurou, olhando para ele.

Jacob sentou-se em uma cadeira próxima, os cotovelos apoiados nos joelhos, e passou as mãos pelo rosto.

— Então apenas fale... — ele respondeu, a voz rouca de emoções reprimidas.

Renesmee engoliu em seco e começou. Contou sobre os meses de luto, sobre como receber a notícia da morte dele destruiu seu mundo. Sobre o velório sem corpo, as crianças crescendo sem um pai e o vazio que se instalou em seus corações. As lágrimas vieram quando mencionou que só descobriu que estava grávida de Julia meses depois da sua suposta morte.

Jacob fechou os olhos, sentindo um peso esmagador em seu peito. Ele não se lembrava, mas a dor que via nos olhos dela era real, intensa.

— Eu falhei com vocês... — ele murmurou, a culpa transparecendo em cada palavra.

— Não, Jake. Você não falhou. Você foi uma vítima. Eu só... lamento que você não lembre de mim, de nós, das crianças — ela confessou, sua voz embargada.

Jacob levantou o olhar e, com uma intensidade que fez o coração de Renesmee vacilar, respondeu:

— Eu não lembro, mas eu sinto. Desde que te vi, desde que olhei para Sarah, Will e Julia... Eu sei que vocês são minha família. Eu posso não lembrar do passado, mas não vou me afastar de vocês de novo.

O silêncio entre eles foi quebrado apenas pelo som de suas respirações. Renesmee deu um passo hesitante para frente, e Jacob se ergueu, seus rostos próximos, os olhares presos um no outro. Ele sentia o cheiro dela, algo familiar que aquecia algo esquecido dentro dele. O coração de Renesmee acelerou, e ela sentiu seu corpo responder instintivamente, como se aqueles quatro anos nunca tivessem existido.

Mas antes que qualquer palavra ou gesto fosse feito, uma voz feminina interrompeu o momento.

— Desculpem... — Hope falou, parada na porta com uma expressão contida. — Eu só vim buscar minhas coisas.

Renesmee piscou, sentindo o choque ao perceber que Jacob teve outra vida nesses anos. Olhou para ele e depois para Hope, percebendo que, assim como ela seguiu em frente com Nahuel, Jacob também teve outra mulher ao seu lado.


Renesmee sentiu o ciúmes queimando dentro de si, um sentimento que ela não queria ter, mas que a dominava sem piedade. Ela olhou para Jacob e Hope por um instante antes de dizer:

— Eu vou ver as crianças.

Jacob tentou segurá-la, impedindo sua saída.

— Nessie, por favor, não vai assim...

— Depois conversamos, Jacob — disse ela, afastando-se rápido.

Ela saiu sufocada, sentindo o coração apertado. Parte dela sabia que não tinha o direito de sentir ciúmes, pois também havia seguido em frente com Nahuel, mas ver Hope ali, naquela casa, que deveria ser apenas deles, a machucava de uma forma que ela não conseguia explicar.

Jacob, por sua vez, fechou os olhos por um instante e respirou fundo antes de virar-se para Hope.

— Espero que esteja satisfeita. Eu não vou aceitar seus jogos, Hope.

Hope cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha.

— Jogos? Eu não sabia que você já tinha colocado outra mulher nesta casa que foi nossa. Ela mal voltou e ela já quer tomar o meu lugar?

Jacob sentiu o sangue ferver e a fúria subir.

— O lugar de Renesmee nunca deixou de ser ao meu lado.

Hope soltou um riso sarcástico.

— Sério? Porque pelo que eu vi, ela mal enterrou o outro marido e já quer voltar para você.

Jacob não suportou mais ouvir e saiu da casa, deixando Hope para trás. Caminhou apressado até avistar Renesmee, que seguia na direção do abrigo.

— Nessie! — ele chamou.

Ela continuou andando, fingindo que não ouviu. Jacob alcançou-a rápido, segurando seu braço com suavidade, mas com firmeza.

— Por favor, me escuta.

Renesmee virou-se para ele, os olhos marejados de lágrimas.

— Talvez não possamos corrigir as coisas, Jacob.

Ele olhou fundo nos olhos dela e tocou seu rosto com delicadeza.

— Juntos, nós vamos consertar as coisas.

Ela sentiu a promessa em suas palavras, a esperança em seu olhar. Ainda havia um longo caminho a percorrer, mas naquele instante, ela queria acreditar que ele estava certo.