Intuições I - Sophie
2 Sofrimentos
Eu estava a arrumar-me para uma festa espetacular que iria ter daqui a mais ou menos uma hora. Porém, minha intuição dizia-me para ficar dentro de casa. Que não era para eu sair desse quarto. Fiquei um pouco assustada, pois minha intuição ainda não tinha falhado até agora. Assim que acabei de me arrumar, quando estava prestes a sair do meu quarto, ouvi o barulho de um tiro. Corri para janela para ver quem tinha sido atingido, e logo percebi que era a nossa vizinha Sophie. Eu a odiava por ser exibida e patricinha, mas o ódio não chegava ao ponto de eu deixá-la ali, sofrendo. Agradeci a mim mesma por ter confiado, mesmo que parcialmente, em minha intuição. Ela fez com que a preocupação me atrasasse, e com isso me salvou. Corri para a cama, peguei meu celular e disquei o número da emergência.
- Preciso de uma ambulância, rápido!
- Qual é a emergência? – notei que ela continuava calma. Deveria ser normal ela receber ligações desse tipo.
- Uma pessoa foi baleada em frente a minha casa – Conseguia ouvir os gritos de Sophie. Baixos. Quando a vi pela janela, conseguir ver que o tiro foi no ombro. Sentia alivio por eu estar salva, e sem ferimentos. Mas ao mesmo tempo eu sentia um tipo de tristeza. Porque ela poderia estar intacta, sem sentir a dor que estava sentido agora. Eu poderia estar no lugar dela. Eu odiava quando as pessoas sofriam por minha causa. Por causa de minha confiança. Simplesmente por causa de minha santa intuição.
- Qual é o endereço?
- Rua Namida, no bairro de Megami.
- Já estamos chegando. Primeira preocupação eliminada – pensei – Agora devo chamar a polícia. E liguei para a polícia.
- Preciso de uma viatura da polícia, urgente! Tem um assaltante armado em frente à minha casa. – Ao dizer isso para o policial que atendeu, voltei a olhar pela janela. E acertei em cheio! Ele era mesmo um assaltante. Vi ele revirar a bolsa de Sophie procurando dinheiro, eu acho.
- Endereço?
- Rua Namida, bairro de Megami.
E então o policial desligou. Joguei-me na cama e fechei os olhos. Você vai ter que esperar um pouco para sua ajuda chegar, Sophie – pensei. Dei graças ao local da delegacia, que era mais perto do que o do hospital. Se os médicos chegassem primeiro, haveria o risco de eles serem baleados. Levantei da cama, sai do meu quarto e fui para o quarto de meu irmão.
oOo
Estava lendo quando minha irmã adentrou meu quarto. Percebi que ela estava em um misto de calma e susto.
- Shaka, você ouviu o barulho de um tiro?
- Tiro? – Levei um susto. Um tiro? Aqui!? – Shaky, tem certeza?
- Tenho! E, além disso, tenho como provar. Olhe pela janela e veja com seus próprios olhos. — Percebi que ela estava até confiante. Fiz o que ela disse e fiquei mais assustado ainda. Tinha mesmo uma pessoa baleada lá embaixo.
– Sophie!?
oOo
Percebi que Shaka não estava acreditando em mim. Era óbvio que não. Estava estampado na cara dele.
- Tiro? – Vi que ele tinha levado um susto. E um susto daqueles. – Tem certeza?
- Tenho! – eu disse com firmeza. — E, além disso, tenho como provar. Olhe pela janela e veja com seus próprios olhos. Vi quando ele mudou de assustado para horrorizado.
– Sophie!?
- É ela sim. – Me aproximei da janela, onde ele estava. – A própria.
- Mas... – ele gaguejou. – Como você soube? Eu estou mais próximo do local que você, como não ouvi?
- Talvez minha intuição tenha sussurrado em meu ouvido – disse com um tom quase de brincadeira.
- Espere ai. – ele se aproximou, agora sério. – Aonde você ia mesmo?
- Ao mesmo lugar que ela ia. – Me aproximei também, e sussurrei no ouvido dele. – Isso mesmo – E sentei na cama dele. – Se ela não tivesse me atrasado, era eu que estaria ali. Ele sentou-se em uma cadeira que estava próxima e parou, pasmo.
– Mas... E se ninguém tivesse ouvido, como aconteceu agora? E se ninguém percebesse? Ele estava preocupado. Eu também estava, só de pensar em que ninguém ouvisse, se fosse eu ali, sentido a dor sem ninguém vir para me ajudar... Estremeci. Abracei meus joelhos e apoiei meu queixo neles, e fiquei ali, parada, pensando em tudo. Shaka sentou ao meu lado, e um impulso me fez abraçá-lo.
- Eu não queria estar lá, mas me sinto culpada! – As lágrimas estavam começando a sair. Abracei mais forte. Shaka era meu apoio. Sempre me ajudava...
- Não é culpa sua, nem de ninguém. Se não fosse ela, seria você. — Ele levantou meu rosto e me olhou nos olhos – Como você saberia que ela iria estar lá? Não tinha como!
- Eu sei... – Me afundei nele de novo. Ele estava totalmente certo. Como eu ia saber que ela ia sair? Impossível. Ouvi a sirene da viatura da polícia. Eu quis ir ver, mas estava tão bom ali... Que meu corpo não se mexeu para onde mandei. Ele apenas saiu do abraço e deitou no colo de Shaka. -
Daqui a pouco os médicos chegam. – Ele disse no meu ouvido. Eu estava quase dormindo, e quando ele me disse isso eu assustei com a quebra de silêncio.
- Então eu vou poder ficar mais leve? – Ele riu. Eu ainda estava bastante sonolenta. Era como se minha consciência controlasse meu corpo, me deixando entre o mundo da fantasia e o mundo real.
- Se sentia culpada? – Ele tentava passar uma impressão de seriedade, mas eu sabia que por trás dessa voz ele estava se divertindo. Minha causa.
- Desde quando você se diverte com meu sofrimento? – virei e olhei para ele. Estava estampado da cara dele, que ele estava a segurar o riso. – Pode rir. Eu sou boba às vezes, eu sei. – fechei os olhos, ele ia ficar rindo de mim mesmo. Além disso, a claridade do quarto fez meus olhos arderem.
- Não sei, mas não sabia que você agora responde com perguntas. – Agora deu. Sei que Shaka estava apenas tentando me animar, mas quando eu me sentia culpada, não adiantava nada. Estava me irritando.
- Por favor, para Shaka, estou começando a ficar irritada. – Levantei do colo dele, e quase caí quando fiquei de pé. – Vou ficar no meu quarto, até amanhã, eu acho. – E saí. Quando entrei no quarto, fui à janela para ver o que estava acontecendo. Já tinha uma rodinha de pessoas lá, olhando curiosas. Balancei a cabeça em negação. Provavelmente estavam tentando descobrir quem teria chamado a polícia e a emergência. Joguei-me na cama. Espera, culpa e preocupações me deixaram cansada. Amanhã vou vê-la no hospital, hoje eu tenho que descansar. Não quero aparecer que nem uma zumbi lá, pensei. Foram meus últimos pensamentos antes de apagar, pois depois minha mente ficou vazia e não via mais nada. De repente, eu estava no chão. Com uma dor insuportável. No ombro direito. O meu choque foi que lembrei que o tiro dela foi ai. No ombro, o direito. Apavorei-me. Estava no lugar de Sophie, com o homem ainda apontando a arma para mim, andando para perto da minha bolsa. Pensei se teria a mesma sorte dela, de alguém ter ouvido. Será? Eu estava à beira da inconsciência, e ouvi alguém chamando meu nome. Acordei na minha cama e me sentei com o susto.
- Shaky! Até que enfim! Você está bem? – Ele estava preocupado. Eu deveria ter gritado enquanto dormia.
- Estou.- Caí na cama. Ouvia uma voz na minha cabeça dizendo: Foi só um sonho, foi apenas um sonho, nada mais. Eu não sei por que, mas isso me acalmava.
- O que você estava sonhando? – Agora ele já estava mais calmo. Ele sorriu para mim.
- Eu no lugar de Sophie, com medo que ninguém me ouvisse. – Senti as lágrimas saindo. – Porque isso aconteceu comigo? Por que!? – Enterrei minha cabeça no travesseiro. Eu queria livrar ele de meu sofrimento. Mas era uma tentativa inútil... Ele era igual a mim. Não havia como negar.
oOo
Ouvi gritos, e acordei num pulo. Shaky!? Corri para o quarto dela. Ela estava agoniada, se virando de um lado para o outro, ensopada de suor. Tentei acordar ela. Nada. Ela apenas gritava e se mexia. Sabia que era um pesadelo, mas estava preocupado. Fiquei chamando-a mais um pouco, e ela acordou que nem eu, num pulo.
- Shaky! Até que enfim! Você está bem? – Sentia alívio, Poderia cair ali mesmo, no chão.
- Estou. – A palavra mágica. — O que você estava sonhando? – Eu estava bem mais calmo agora. Sorri para ela.
- Eu no lugar de Sophie, com medo que ninguém me ouvisse. – Lágrimas começavam a sair dos olhos dela. – Porque isso aconteceu comigo? Por que!? – E ela afundou o rosto no travesseiro, e começou a chorar. Senti que ela não queria que eu sofresse. Mas era impossível. E ela sabia disso. Somos iguais, não tem como negar. Ela me entende melhor que eu mesmo e vice-versa.
- Shaky, não adianta, Somos irmãos, ainda por cima gêmeos, e você ainda acha que fazer o que você está fazendo vai me poupar seu sofrimento? – Ela abaixou a cabeça.
- Sei que não, mas eu queria tentar... Eu não gosto de te ver sofrendo...
- Assim como eu não gosto de te ver sofrendo também. – Mexi no seu cabelo. Já estava todo bagunçado mesmo. Mexer um pouco não ia fazer diferença. – Agora durma.
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- Shaky, não adianta, Somos irmãos, ainda por cima gêmeos, e você ainda acha que fazer o que você está fazendo vai me poupar seu sofrimento? – Olhei para baixo. Não tinha jeito... Mesmo que eu tentasse, ele sempre sofria comigo...
- Sei que não, mas eu queria tentar... Eu não gosto de te ver sofrendo...
- Assim como eu não gosto de te ver sofrendo também – Ele mexeu no meu cabelo, todo desarrumado. — Agora durma.
- E você, vai dormir também. – O empurrei. – Com você aqui eu não vou conseguir dormir.
- Tá, boa noite. – Ele saiu com a cara emburrada e eu ri. Fiquei apenas deitada, feliz, mesmo por tudo do que tinha passado algumas horas antes. Eu estava me achando boba. Eu não sabia como ele podia mudar meu humor assim. Minha vida era tão confusa e complicada... Depois de ficar pensando por mais um tempo, acabei dormindo, esperando o amanhã.
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