Intuições I - Sophie

3 Visita ao Hospital e Noite na Casa do Kamus


Acordei com o sol em meu rosto, sua luz iluminando todo o quarto. Não foi muito agradável, pois a luz era muito forte, mas o efeito que a luz dava no quarto era lindo. O azul-escuro das paredes se tornava um pouco mais claro, e o dourado dos pontinhos nas paredes ficava mais forte. As sombras ficavam longas, e lutavam contra a luz para permanecerem ali. A realidade tentava me tirar à atenção, mas eu ainda queria permanecer neste mundo, puro e irreal. Saindo da irrealidade, levantei da cama a contra gosto e percebi que ainda estava com roupa de festa. Desci e fui para cozinha procurar algo para comer. Lá encontrei Shaka comendo.

- Bom dia, mana.

- Bom dia. – sentei em uma das cadeiras e peguei uma maça na cesta de frutas. – O que lhe tirou da cama tão cedo?

- Na verdade nem eu sei, e não tenho ideia do por que. – ele olhou para mim. – Olha, desculpa, mas você está parecendo uma bruxa.

- Devo estar, e estou até com medo de me olhar no espelho e ele quebrar. – falei serio. Estava com medo mesmo. – ele me olhou meio espantado. Terminei de comer a maça, subi e fui tomar um banho. Passei direto pelo espelho, e fui logo me molhar. Meu cabelo estava bem alto, e muito embaraçado. Por fim consegui abaixá-lo e sai do banheiro. Escolhi um vestido vermelho e desci novamente. Quando vi que Shaka ainda estava lá, decidi me vingar por ele ter me chamado de bruxa. Eu sei que estava uma mesmo, mas do mesmo jeito deu vontade. Cheguei por trás dele e baguncei todo o cabelo dele. Subi as escadas correndo dele, e rindo bastante.

- Shaky! Volta aqui! – ele disse quase me pegando. Acabei lembrando-me de nossa infância, quando eu fiz uma coisa parecida.

- Não volto!

Em meio a minha distração, ele conseguiu pegar uma mecha do meu cabelo e me puxou. Consegui me soltar, e voltei a correr novamente. Em meio à correria, a campainha toca. Eu e Shaka paramos. Nós olhamos, e eu comecei a fugir novamente. Pulei as escadas e tentei abrir a porta, levando ela comigo na minha correria para abri-la. Voltei a correr com toda força, e subi de novo. De cima pude ver Kamus e Mu nos olhando enquanto dávamos voltas na casa. Quando estava a uma distancia segura de Shaka, corri para meu quarto e tranquei a porta para ele não entrar.

Ele parou de tentar abrir a porta e desceu. Quando percebi que não tinha mais ninguém na porta, abri a mesma.

- Desculpa pelo transtorno! – eu gritei do alto das escadas. – É que eu fiz uma pequena vingança e ele começou a correr atrás de mim. – eu estava pulando de dois em dois degraus. Kamus e Mu olharam para Shaka e viram qual foi a minha vingança. Eles ficaram fitando o bolo de cabelo na cabeça de Shaka, e entenderam.

- Já volto, vou arrumar meu cabelo. – Shaka subiu as escadas enquanto eu a descia.

- Você já soube do que aconteceu com a Sophie? – desejei que Mu não tivesse me lembrado do acontecimento.

- Claro que sim, eu quase fui a vítima. – Os dois me olharam espantados. Como eram amigos de longa data, eles sabiam o quanto minha intuição poderia ser milagrosa (N/A: Milagrosa? Non seria impossível? o_o).

- Eu queria saber como sua intuição acerta tanto... – disse Mu ainda olhando para mim.

- Eu também queria saber, mas até agora não sei. – eu disse naturalmente.

O silencio que estava tinha se seguido era desconfortável, para nós três. Mas eu não tinha nada a falar, então só podia esperar que ou o Shaka descesse ou que alguém deles falassem. Então Shaka desceu.

- Shaky, vai querer ir ao hospital? – me levantei rapidamente.

- Vou sim. Já volto. – subi as escadas e tentei ficar um pouco mais apresentável. Quando consegui, fui para junto dos outros e saímos de casa.

Chegamos ao hospital, e logo fui à recepção. Conhecia aquele lugar muito bem, de tantas vezes que já tinha vindo aqui.

- A senhorita poderia me dizer qual o número do quarto de Sophie Victoria?

- Você é...?

- Sou a Shaky Hades, lembra de mim? – ao menos eu me lembrava dela, das inúmeras vezes que eu tinha visto ela aqui. Eu esperava não estar pagando papel de idiota.

- Shaky! Você cresceu muito! – sorri para ela.

- E então, qual o número?

- É o quarto 621. – ela disse olhando a lista.

- Obrigada.

Chegamos ao quarto, e vi Sophie conversando com a enfermeira. Quando percebeu nossa presença, a enfermeira veio falar conosco.

- Bom dia. Vocês são parentes dela?

- Na verdade não, viemos apenas fazer uma visita.

- À vontade. Com licença.

- Oi Sophie, está melhor? — entrei no quarto e me aproximei da cama. Não senti a costumeira antipatia por chegar perto dela.

- Um pouco. O que faz aqui?- havia relutância na sua voz, provavelmente achava que era impossível eu algum dia me preocupar com ela. A raiva me consumiu por dentro.

- Vim apenas fazer uma visita, mas vejo que é melhor eu ir embora.

- Vejo que você não vai querer saber quem te salvou, ou vai? — amaldiçoei Shaka por ter falado isso.

- Você sabe? — a atenção de Sophie voltou a mim e senti que ela estava me olhando. Voltei a amaldiçoar Shaka o máximo de vezes que pude antes de me virar.

- Claro que sabe. Foi ela. — foi a vez de Mu ser amaldiçoado. Agradeci silenciosamente por Kamus ainda não ter me acusado.

- Como é que é? — ela ficou perplexa. Deu vontade de poder voar, assim eu me jogaria pela janela e iria para bem longe daqui. Pena que não podia.

- É isso mesmo que ouviu. Satisfeita? — ela fez que sim. — Que bom, assim já posso ir embora daqui.

Andei em direção a porta, e saí do quarto. Então comecei a correr pelo corredor, em direção a saída. Eu estava com vontade de sumir. Senti algumas lágrimas saírem de meus olhos, e não entendi o por que. Percebi que tinha alguém atrás de mim, mas não quis olhar. Foi quando vi alguns fios de cor azul-petróleo, e percebi que era Kamus. Mesmo assim continuei correndo, pois sabia que ele não iria tentar me fazer parar. Quando voltei a prestar atenção no lugar percebi que já estava longe do hospital, e parei de correr. Estávamos numa praça, e sentei em um dos bancos. Estar com Kamus era o mesmo que estar sozinha, em algumas situações. Ele permanecera em silencio desde que saímos do hospital. Era fácil lidar com ele, apesar de parecer que ele tinha uma barreira em torno de si, em alguns momentos.

- Obrigada, Kamus. — disse com a cabeça abaixada, o cabelo cobrindo meu rosto.

- Porque me agradece?

- Porque você não tentou me fazer parar de correr... Eu precisava disso. Precisava correr, me libertar do que estava sentido. Estou melhor agora.

- De nada então. – ele olhou para mim e depois voltou a fitar o lugar.

O silêncio se instalou por um momento. Mas dessa vez não me incomodou. Foi até melhor, de uma forma estranha.

- Você nem olhou para onde estava indo, não é?

- Não mesmo, me desliguei do mundo. — nós dois rimos.

- Eles não deviam ter fito aquilo.

- Mas fizeram. Mas mesmo assim agradeço. Faz tempo que não fazia isso. Correr sem parar. Só que da última vez eu me perdi.

- Quer voltar?

- Nem pensar. Não volto tão cedo.

- Não tem jeito. Você pode ser adulta, mas não deixa de cometer suas travessuras.

- Já é mania. Sempre o fiz.

- Ei, tem certeza que não vai voltar para casa?

- Tenho. E nem tente me convencer.

- Então porque não fica lá em casa? Já está escurecendo.

Olhei para o céu. Já estava escurecendo mesmo... Acabei me perdendo no tempo.

- É, porque não? Não tenho para onde ir mesmo.

- Ter tem, só não quer.

- Vamos que isso já está ficando chato. – me levantei num pulo e o vi se levantar também.

O caminho até a casa de Kamus passava pela minha rua, e fiquei atenta a qualquer pessoa. Enfim chegamos, e vi Miro esparramado no sofá.

- Oi Miro, tudo bem?

- Sim Shaky, e com você?

- Estou bem. Vim passar a noite aqui, já que não quero ficar em casa.

- Brigou com o Shaka?

- O que mais seria?

- É verdade. Como foi? – ele se virou para mim e sentou de um jeito que me deixasse sentar também.

- Na verdade não foi só o Shaka. Foi o Mu também. Aí eu acabei me desligando do mundo e corri até a praça, com o Kamus me seguindo. – ele olhou para Kamus. – Ficamos lá por um tempo, e depois acabamos aqui.

- Hã, vou ajudar o Kamus com o jantar.

- Eu vou ficar lá em cima. Quando estiver pronto me chamem.

oOo

- Kamyu, o que vocês estavam fazendo no parque, hein? – me aproximo mais de Kamus

- Só estávamos conversando mon ange. — diz mexendo nas panelas.

- Sobre?

- Oras, nada de mais. — finalmente Kamus virou de frente para mim — Só que ela estava com raiva do irmão e do Mu. – ele foi até a pia lavar as mãos. Fiquei mais aliviado quando ele disse isso.

- Por que seguiu ela?

- Porque que ela saiu do hospital correndo feito louca e fiquei preocupado. — ele se virou novamente para mim e se encostou na pia cruzando os braços — Agora porque tanta pergunta?

- Er... — abaixei a cabeça — Acho que fiquei com ciúmes.

- Mon Dieu Miro! — ele solta um riso curto — Por que isso? Você sabe que eu te amo. Ela é nossa amiga. — ele puxa um de meus braços e me abraça carinhosamente.

- Eu sei, mas não pude evitar...

oOo

Eu estava na varanda do quartinho que eu já poderia chamar de meu. Sempre acabava fugindo para a casa de Kamus quando brigava com Shaka, e sempre ficava neste mesmo quarto. A noite estava linda. Algumas constelações poderiam ser vistas, mais especificamente as de Virgem, Aquário e Lira. Não havia nuvens e também não era noite de lua nova, mas mesmo assim eu não conseguia encontrar a lua. Decidi subir no telhado para ver se a encontrava. Era onde eu adorava ficar, deitada a luz da lua. Quando consegui subir, logo a vi. De onde eu estava, podia ver ela em minha direção, como se a sua luz fosse direcionada diretamente para mim. Eu não conseguia ouvir mais nada. Só conseguia olhar para cima, enfeitiçada. Não sei quanto tempo fiquei ali, até que ouvi chamarem meu nome. Botei meu rosto abaixo do telhado e todo o cabelo foi junto. Kamus e Miro levaram um susto, e eu fiquei rindo deles dois. Foi quando perdi o equilíbrio e quase caí, mas consegui ficar em pé na grade da varanda, como se a mesma não fosse fina como um fio.

- Mon dieu, Shaky, quase você me mata de susto! — disse Kamus com a mão no peito. Miro estava sentado na cama, ofegante.

- Desculpa, não foi minha intenção. – caminhei até Kamus – E não morre não, eu estou viva e sem nenhum arranhão pelo que acabou de acontecer. – cheguei perto de Miro – Desculpa. – fui em direção a porta – Ei, vocês não vão vir?

- Desça, nós já iremos. – vi Kamus indo “acordar” o Miro, por assim dizer, e depois descendo junto comigo.

- Oba, tem Ratatouille para o jantar! – sentei em uma das cadeiras – Adoro comida francesa! E Kamyu, você tem que parar me mimar! Você sabe que eu adoro Ratatouille... – ele virou o rosto, encabulado. Olhei para Miro – Não entenda mal, okay?

- Ok – ele sorriu. – Vamos comer ou vamos ficar batendo papo?

- Comer!!! – eu estava com um sorriso bem grande. Eu realmente amava comida francesa, e também adorava ficar com eles dois. Era o mesmo que ficar com Shaka, só que melhor. Comemos em silencio.

- Kamyu, tem sobremesa? – eu estava me comportando como uma perfeita criança e sabia disso. Às vezes, isso acontecia. — Tem mousse, minha criança. – todos nós rimos.

- Eu amo mousse! É de chocolate? – eu e Miro dissemos juntos. Olhamos-nos, espantados.

- É sim. – Kamus ainda estava rindo. – Shaky, depois de comer, o que vai fazer?

- Acho que vou tomar um banho, e depois ficar no quarto, olhando para as estrelas, como sempre.

- Tem certeza que não vai ser no telhado? – Miro disse, e nós rimos.

- Não, vai ser na varanda mesmo. – Sentada na grade, provavelmente, completei em pensamento. Ficamos em silencio novamente. – Acabei. – peguei meu prato e o levei a pia. – Boa noite, e até amanhã. – e subi as escadas.

Entrei no quarto, peguei algumas das roupas que eu deixava ali e fui tomar banho. Liguei a torneira de água gelada e deixei a banheira encher. Depois, entrei na mesma e fiquei com a água até o pescoço. Será que o Shaka está preocupado comigo? Não, ele deve saber que estou aqui. Mas do jeito que ele é, ele deve estar sim... Suspirei, e depois tremi. Lavei meu cabelo e saí da banheira.

Fiquei parada por um tempo, ao lado da banheira, absorta em meus pensamentos confusos. Vesti minhas roupas, e saí do banheiro. Botei minha toalha na corda e fui em direção a varanda. Sentei na grade e comecei a cantar. Depois de um tempo cantado, percebi que já era tarde e fui a minha cama. Me cobri , e logo depois senti o sono vindo.

Continua....

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.