Intoxicados
1 Prólogo
A fumaça do cigarro parecia impregnar sua pele, as roupas sujas, todas as superfícies do apartamento caindo aos pedaços, cheio de mofo, mesmo com as janelas abertas para dispersar o cheiro, mesmo com a brisa que entrava e arrastava consigo a poluição do lado de fora. Ainda que a pessoa não suportasse a mistura dos odores, qualquer coisa era melhor que o cheiro ocre de sangue que não deixava suas narinas. O cheiro de vômito.
Tinha sido tão fácil. Matar aquele homem. Tão silencioso quanto a própria sombra. Tão letal quanto a lâmina mais afiada.
A nicotina entorpece seus sentidos apenas o suficiente para acalmar seus pensamentos. Não havia culpa. Não havia arrependimento. Tudo em si refletia a frieza da neve, a dureza do gelo mais denso. Existia satisfação no que fizera. Nas coisas que causaram. O ato que havia feito, a vingança que não pôde conter quando tomou a decisão que mudaria a pessoa que era de uma vez por todas. E por mais que se convencesse disso, de que alguma espécie de alívio crescia em seus ossos, sua espinha ainda se arrepiava, porque se alguém descobrisse, as coisas que colocaria a perder com isso, o que teria de fazer para manter o silêncio e a ignorância dos demais…
Não. A pessoa tinha sido cuidadosa o suficiente para saber que nada do que havia feito voltaria contra si. Seu plano tinha sido sólido como uma rocha. E sabia, que se fossem procurar alguém pelo que aconteceu, iriam atrás de um fantasma. E esse fantasma não faria mais aparições.
Tudo apontaria para aquele desgraçado. Tudo voltaria contra o cretino morto. A vítima que não era vítima em parte alguma do mundo.
Que queimasse no inferno por tudo o que tinha feito.
Subiu a mão até sua face inexpressiva apenas para tragar mais do cigarro, para sentir as cinzas se desfazerem, caírem sobre sua pele exposta e queimarem. Quase não sentiu a dor. Tudo parecia abafado, longínquo, como se a pessoa mesmo não estivesse inteiramente em seu corpo. Talvez não estivesse mesmo.
Aquele canalha que acabará com a melhor parte da sua vida finalmente estava pagando por seus pecados. Finalmente.
Soltou uma gargalhada ao mesmo tempo em que a ardência em seus olhos se transformou em lágrimas que escorreram livremente por seu rosto, o porta-retrato em sua outra mão sendo segurado tão firme que as junções em seus dedos estavam esbranquiçadas.
Está feito, pensou. Uma vida por outra. Ele está morto.
Nada mudaria o que tinha acontecido, e se tivesse que pagar pelo que tinha feito com suas próprias mãos, faria isso. Queimaria no mesmo fogo que o sujeito que matara. Queimaria com um sorriso no rosto.
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