Intimidade

12 Muito prazer Joey, sou Rony...


"Quando a verdade bate em sua porta..."

Quando Gina abriu os olhos o dia já ia alto. Ela levantou num pulo. Como podia ter adormecido daquela maneira e se Rony...

Ela tocou o próprio corpo e viu que estava coberta, ainda nua, porém coberta. Também não estava mais no sofá. Estava em sua cama, bem deitada, bem coberta e sozinha.

Harry não estava mais lá.

Ela levantou, pôs a camisola e o robe, pois, por mais que fossem irmãos e tivessem crescido juntos, Rony detestava que ela andasse seminua pela casa. Sempre tiveram um instinto protetor quase assassino.


Voltou ao quarto e já ia pegar o celular quando reparou um bilhete em cima de sua cama, um que não tinha visto antes.

Abriu o bilhete e seu coração mesmo a contragosto, gelou.

“Não gosto da maneira como você me domina, não gosto de me sentir marionete do meu pau. Preciso de um tempo, não me ligue.
H.P.”


— Como assim não me ligue? – Ela disse para as paredes – Então ele acha que pode vir, me implorar por sexo e ir embora me culpando e me dando ordens? Um cacete que pode seu desgraçado.

Ela discou o numero particular que eles usavam para se comunicar. Harry nunca atendia ligações privativas em seu celular comercial.

A primeira vez chamou até que disparasse sem atendimento, em seguida o celular dele ficou fora da área de cobertura.

Ela sentiu tanta raiva que quase jogou o seu próprio aparelho contra a parede.

— Filho... Filho... Filho... Da... Puta.

Ela começou a andar de um lado para o outro como um gato encurralado.

— Se ele... Se ele está pensando que eu vou ficar ligando... Eu não... – Ela pegou a bolsa e caminhou para a saída – Eu vou ligar só para dizer umas boas na cara dele. Depois... Eu ligo depois... Daqui a quinze minutos... Dez...

E saiu resmungando desculpas para si mesma.

…

Draco chegou em casa feliz, mesmo estando mortalmente cansado. Já era meio de tarde quando ele saiu da empresa e foi para casa. Ele realmente acreditava que nada pudesse tirar aquele sorriso do rosto dele, mas esqueceu que Lucius Malfoy tinha o poder de tirar o sorriso do rosto do Eddy, a hiena maluca do Rei Leão.

Como de costume ele ia subindo direto para o seu quarto, seus planos eram muito simples. Tirar as roupas, jogar-se na cama e dormir até a hora de ver Astoria. Ele pretendia passar mais uma noite em claro.

Já estava no meio do caminho quando a gélida voz de seu pai o fez parar.

— Esteja pronto... Em meia hora.

Ele virou-se lentamente.

— Está falando comigo pai?

— Adoraria estar falando com Poseidon, de fato seria mais construtivo, mas sim, estou falando com você, na falta de alguém melhor...

— Mau humor hoje pai?

— Sempre. Não tenho motivos para bom humor. Meu único filho não me dá nenhum.

— Pai, podemos ter esta conversa mais tarde, eu não dormi direito e estou muito cansado...

— Não me importo até que horas duraram seus bacanais, e não teremos nenhuma conversa, nem agora, nem mais tarde, já cansei de falar com você. É o mesmo que falar com o vento. Apenas arrume-se. Traje esporte fino.

— Por que?

— Iremos negociar com os Parkinsons. Pansy virá, quero que você a faça companhia, jogue seu charme, que é a única coisa que herdou de mim, convença-a de que é o melhor negociar conosco, durma com ela se necessário.

— Como é?

- Está surdo?

— Desculpe pai, eu não entendi.

— Exatamente o que você não entendeu?

— Você quer que eu durma com a Pansy?

Lucius sorriu com escarnio.

— Isso fica a seu critério, eu estou pensando em algo a longo prazo, quero que você retome, ou a faça acreditar que retomaram a relação antiga.

— Que?

— Você vai levá-la ao baile de caridade da fundação Dumbledore para jovens órfãos.

— Não. Não mesmo.

— Como é? Acho que quem não entendeu agora fui eu.

— Eu disse que não. Não vou retomar coisa alguma com a Pansy Parkinson, aliás eu nunca nem devia ter me aproximado daquela enguia pegajosa e fútil. E eu já tenho par para o evento beneficente.

Lucius riu mais alto.

— É mesmo? Você já tem par? Quem seria? Aquela biscatezinha de beira de bar que se auto intitula cantora?

Era complicado para Draco entender o que sentiu naquele instante.

Raiva... Não, era mais forte que isso. Ódio? Sim, talvez mas tinha muito mais nos sentimentos. Anos de raiva, tristeza e decepção suprimidas.

— Não... Fale... Assim... Da... Astoria.

— Falo, como bem quiser Draco. Esta é minha opinião sobre ela. Sujeitinha sem valor, pobre de herança e títulos, que gasta noite após noite com orgias em bares...

— ASTORIA NÃO É ASSIM! VOCÊ NÃO A CONHECE!

— Conheço mais que você – Ele andou alguns metros – Eu sabia que me questionaria e tomei... A liberdade de... Procurar alguns fatos da vida desta... Garota, vejamos... – Ele pegou alguns papeis – Suburbana, classe média “C”, estudou em escolas publicas, formada em musica... O que poderia ser mais inútil que musica? Pais com Q.I mediano, nenhum grande feito na vida, namorados pobretões... Cantora de bares... – Ele encarou Draco – Sabe Draco... Você nunca teve um grande gosto para escolher mulheres, mas agora... Você se superou.

Draco fechou os punhos tão forte que quase machucou as palmas das mãos. Lucius se aproximou e entregou-lhe um copo e se afastou.

— Faça o que sempre fez e me deixe escolher quem vai aparecer publicamente com você, estas vagabundas deixe para os quartos imundos de motel que você frequenta.

— Quem você chamou de vagabunda?

— Toda a corja que você leva para cama incluindo... Esta nova prostitutazinha que você arranjou neste bar de quinta.

Esta foi a vez de Lucius chegar ao chão sem saber exatamente o que o havia acertado.

Draco não pensou. Não pensou na atitude que estava tomando, aquelas palavras apenas reverberaram em sua mente e ele reagiu socando seu pai. Lucius naquele momento era só um homem qualquer para ele.

— Seu filho da puta!

— Eu sou um filho da puta? Eu? Vamos recolocar isso pai. Você é o pai mais odioso que alguém pode ter tido. Um marido nojento e um filho decepcionante, perdi as contas de quantas vezes ouvi meus avós dizerem que você sempre foi um completo imbecil e quer saber? Concordo com eles. Você é um homem tão incapaz Lucius Malfoy que não consegue fazer ninguém feliz, todo mundo ao seu redor, murcha como fruto podre, você é venenoso.

— Você é um fraco... – Ele disse levantando-se – Mas isso não me surpreende tendo em vista que eu errei na escolha de sua mãe, eu soube quando o vi que você seria um fraco, logo só tem companhias de baixo valor.

— Você é doente.

— Fraco, mediano, apagado, inútil, imbecil, quase um retardado. Sabe Draco, lembro-me do dia que você nasceu, todos tínhamos medo que nascesse especial, mas hoje eu penso diferente. Eu penso que teria sido melhor se você tivesse nascido com Down pelo menos justificaria sua inutilidade.

— SEU ESCROTO!

- Você não tem cacife para ser herdeiro de um Malfoy.

— Sai daqui.

— São palavras do seu pai.

— Estou cansado. ESTOU CANSADO DESTA DROGA!

Ele girou furioso e atirou o copo contra a parede.

— Está cansado? Pois então vá embora.

— O que significa isso? – Narcisa perguntou entrando na sala.

— Seu filho está indo embora.

— O que? Como assim?

— Estou indo embora desta casa mãe, cansei de morar com as cobras. Se quer um conselho, faça o mesmo — Ele disse e se virou subindo as escadas em direção ao seu quarto.

— Draco! Draco!

Ele ouviu a mãe chamar, à beira do desespero, mas não estava com cabeça para olhá-la, ouvi-la e não queria ser grosso, sabia que ela era tão vitima quanto ele.

Ele não demorou muito para fazer as malas, sequer viu o que estava colocando dentro dela direito, só queria sair dali, só queria ir para longe. Gina sempre lhe avisava que ele só conseguiria ser livre quando estivesse longe de Lucius Malfoy e ela tinha razão.

Ele desceu com as malas fazendo muito barulho, Lucius ainda estava no mesmo lugar, sendo seguido de um lado para o outro por Narcisa que implorava que ele fizesse algo.

— É nosso único filho... Lucius...

— Não adianta mãe – Draco a cortou – Mesmo que ele se ajoelhasse, eu não ficaria.

Lucius riu.

— Eu? Me ajoelhar? Não devaneie tão alto seu merdinha.

— Mãe, eu te ligo... – Draco disse ignorando o pai e beijando rapidamente a face de uma Narcisa chorosa – Te digo onde estou, agora preciso ir.

— Draco espera, pensa um pouco filho, por favor... Espera.

— Preciso ir mãe, preciso ir.

— Deixa ele ir Narcisa! Não dou uma semana para que ele volte com o rabo entre as pernas choramingando. Quero ver você se virar sem luxo, quero ver sua puta te querer sem seu dinheiro.

— Vai se foder!

— Não Draco, quem vai se foder, na sarjeta é você.

— Prefiro morrer que voltar.

Lucius riu.

- Morra então. Ah e tem mais, sabe sua putinha? Você vai fazê-la tão infeliz, você vai fazer alguma coisa, que vai foder com a vida dela e sabe por quê? Por que é isso que você é... Venenoso... Como eu... Como qualquer Malfoy.

— Eu não sou você! Não sou você!

Draco saiu andando, as lagrimas queimando seus olhos.

— Minha maior diversão vai ver você estraçalhar aquela garota.

— Dane-se Lucius, vá para o inferno!

Ele saiu rápido, jogou as malas no banco de trás do carro, entrou desajeitando e partiu em disparada.

Ele pegou o telefone e discou para Astoria. Estava tremendo, mas sabia que logo chegaria.

— Alô.


— Tori.

- Dray.

— Preciso te ver.

— O que houve?


— Explico... – As lágrimas desceram, o gosto amargo da boca ficou também salgado – Quando chegar... Por favor...

- Draco tá me assustando.

— Posso ir?

- Já devia ter chegado, venha depressa.

Ele desligou e acelerou. Sabia do perigo, mas precisava chegar logo.

Assim que chegou, Astoria já estava esperando-o na frente de casa. Ela o recebeu com um abraço forte e o deixou chorar, desabafar e só depois descansar.

Horas depois deitado ao lado dela, ele já se sentia mais relaxado, menos dolorido, mas ainda magoado. Só que o que mais deixava seu coração apreensivo eram as ultimas palavras de seu pai.

Sem conseguir se conter ele a olhou e beijou com calma.

- Se algum dia…Eu te magoar de alguma maneira…

— Draco…

— Não… Escuta por favor. Se eu fizer isso… Promete que não vai me deixar… Promete que vai me dar uma chance de consertar.

— Eu prometo.

— Prometa que nunca vai deixar que me transforme num homem indigno de você e que se eu cair você vai me resgatar…

— Prometo. Se você promete o mesmo para mim.

— Eu te amo Astoria...

Ela o olhou, uma vontade inexplicável de chorar apertou seu peito, mas ela só o abraçou. O abraçou e o fez dormir... Lhe deu a tranquilidade que ninguém mais podia.

...

- Então ele se mudou? — Gina perguntou rabiscando linhas na folha do processo que deveria estar estudando – Ele já devia ter feito isso há muito tempo, mas Draco sempre foi coração mole, foi preciso ouvir todas essas barbaridades do Lucius para tomar uma decisão – Ela olhou pela milésima vez para o celular pousado sobre a mesa – Ok, Tori. Me mantenha informada tá? Um beijo.

Ela desligou o aparelho sem recolocar o gancho e chamou a recepção.

— LCC Associados, recepção.

— Lucy, estou fazendo uma pausa de quize minutos, mande quem chegar para a espera, ok?

— Sim, senhorita Weasley.

Já era a terceira pausa que ela fazia e aquilo não era natural. Gina gostava de cumprir seu horário corretamente, às vezes até fazia hora extra para adiantar os processos. Ela sabia que construir um nome era a base da sua carreira, mas mesmo assim, naquele momento estava rabiscando linhas sobre a reclamação de vencimento de validade de produtos de uma grande multinacional, a qual ela deveria estar repassando.

Mas ela não conseguia se concentrar, nem mesmo a noticia de que Draco havia finalmente se livrado do pai a animou.

Astoria havia percebido seu desanimo, mas mesmo com ela, Gina não quis conversar. Havia conhecido a cantora há um tempo, por intermédio de Draco e desde então tinham se tornado grandes amigas, mas nem mesmo ela conseguiu lhe animar.

Gina pegou de novo o telefone e discou o numero, mais uma vez a gravação da caixa postal eccou no seu ouvido e ela bateu o aparelho na mesa irritada.

— Desgraçado! Desgraçado!

O resto do dia foi igual, estressante, cansativo, irritante. Ela não conseguiu falar com Harry de jeito nenhum. Quando a tarde caiu e sua cabeça começou a doer demais, ela desistiu.

— Lucy?

— Sim, senhorita Weasley.

— Estou indo embora. Remarque tudo para amanhã.

— Sim. Senhorita Weasley?

— Oi.

— Doutor Corner me pediu que lhe desse um recado. Ele precisa que passe em seu apartamento antes de ir para casa, os documentos que a senhorita solicitou estão com ele.

- Ah, ok, obrigada Lucy. Ligue para ele e diga que estou indo.

— Sim senhorita, agora mesmo.

Gina pegou as coisas e saiu.

Não adiantava ficar no escritório. Um dia quase todo não tinha rendido nada, ela sequer tinha redigido nenhum dos relatórios que precisava fazer, Harry não saia da sua cabeça e aquilo era definitivamente irritante.

Ela saiu apressada, queria passar logo na casa de Mike, não queria conversar muito. Estava se sentindo agoniada, aquela era a única palavra que servia para determinar a sensação corroendo seu peito.

Resolveu ir andando, achou que uma caminhada lhe faria bem ao coração. Queria achar uma forma de acalmar aquilo, nunca havia se sentido daquele jeito.

Estava quase chegando ao prédio de Michael, quando seu telefone vibrou na bolsa. Ela segurou o apareço e seus olhos apertaram quando viram o numero.

-Lembrou que eu existo agora, Potter? — Ela falou consigo mesma andando a passos duros — Vai ligar até os dedos caírem, filho da puta!

Ela não o atendeu e ele insistiu muito nas ligações até que elas cessaram.

Gina foi até o apartamento de Michael e tentou ser o mais breve que podia, ele tentou de tudo para fazê-la ficar, mas ela conseguiu se esquivar sob o pretexto de que tomaria o café da manhã com ele, antes de irem para a LCC.

Ela já estava saindo, estava se despedindo de Mike quando o telefone tocou de novo. Ela o segurou e viu o nome de Harry vibrar na tela. Teve uma ideia sórdida.

— Me empresta seu pen drive para eu pegar alguns arquivos Mike?

Assim que disse ela atendeu o telefone, bem a tempo de Harry ouvir.

— Claro, amor, espera que eu já venho.

…

Rony estava deitado. Havia acordado tarde, muito tarde. Gina não estava em casa.

Maldita mania de trabalhar nos fins de semana ela tinha. Ele gostava mais quando o café da manhã era feito por ela, assim pelo menos ele comia algo digerível.

Ele não quis levantar, ainda estava tentando se recuperar da noite anterior. Cada detalhe da loucura que ele e Hermione haviam cometido ainda estava gravado em sua cabeça.
Ela era tão diferente... Tão diferente de todas as mulheres com quem ele já havia se relacionado. Ela era... Maior.

Ele nem percebeu que estava rindo para o nada. Somente quando o telefone tocou, foi que ele se desligou dos pensamentos.

— Alô?

-“Rony.

— Hermione?

O coração dele parecia uma britadeira no momento seguinte em que ouviu a voz dela. Foi instantâneo que ele se levantasse um pouco da cama rapidamente.

-Oi... Ah... Acordei você?

— Não! Não! Eu já estava acordado. Er... Oi? Como você está?

Ele pode ouvir a risada tímida do outro lado da linha.

-Bem... E você?

— Bem... Bem também... Ah... Er... Então você tá bem... Que bom... Dormiu legal?


Ela riu de novo.

-Sim... Bem legal e você?


— Depois daquilo como não poderia – A frase saiu como um sussurro como se falasse para ele mesmo, mas logo se deu conta de que Hermione o ouviu – Digo... Sim, ótimo, ótimo. Eu quis dizer que depois da festa... Eu...

-Tudo bem Ron, eu entendi.

— Ah... Eu... Aconteceu alguma coisa?

-Não, por que?

— Por que não é natural nos falarmos aos domingos.

-Ah sim. Claro! Quase esqueço.

Ele abriu um sorriso orgulhoso.

— Fiz você esquecer?

- Rony não comece – Ela quis parecer séria, mas não conseguiu muito tempo – Eu te liguei por que eu esqueci minha bolsa na sua casa e tem algumas coisas nela que eu preciso.

— Onde?

-Acho que ficou no banheiro ou na sala, onde eu estava conversando com a sua irmã, será que poderíamos nos encontrar para eu pegá-la?

— Claro, que horas?

-Pode ser à noite?

Ele abriu um sorriso ainda maior.

— Claro, de noite é perfeito.

-Mas eu não vou poder... Ir com você... Sabe?

— Sei, sei, eu entendo, tudo bem, pelo menos eu vou te ver.

Hermione sentiu o coração bater mais forte.

-É... Pode ser às oito?


— Sim, sim, vou agora mesmo ver onde está e a noite eu te encontro. No lugar de sempre?

-Ah... Não. Por que... É perigoso, nós podemos... Sabe? Nos empolgar e...

— Eu sei, eu sei. No Larry’s então?

- Certo, então. Até lá.

-Até...

-Ah e Rony?

— Oi?

-As SMS... Eu adorei.

Ele riu.

— Me sinto mais perto de você quando as mando.

-Gosto quando você manda.

— Bom saber.

-Até a noite.

— Até.

Ele levantou e foi até o banheiro primeiro, era o lugar mais próximo, mas não encontrou. À caminho da sala, ele tropeçou em vários DVD’s que Harry havia deixado no chão.

— Mas que filho da puta. Ele bagunça e não arruma. Eu que vou ouvir da Gina — Ele resmungou apanhando a pilha de DVD’s todos misturados.

Logo mais a frente, ele conseguiu encontrar a bolsa dela.

— Sabe Mione... Você disse que não podia ir comigo até “nosso lugar”, mas depois de ontem eu sei que não precisamos ir muito longe — Disse para o ar e riu consigo mesmo dos pensamentos perversos.

Ele apanhou a bolsa dela, mas acabou se desequilibrando no joystick do vídeo game, que Harry havia também deixado no chão e ao cair no sofá ele deixou que tudo que estava em suas mãos caísse também.

— Inferno Sangrento!

Ele pegou tudo de uma vez e colocou em cima da mesa, em seguida começou a arrumar as coisas dela que haviam se espalhado no chão, junto com os DVD’s.

Uma das capas era desconhecida então ele leu a gravação na superfície.

“Hermione e Joey”.

— Joey? Como assim Hermione e Joey?

Naquele momento era muito difícil para ele entender que aquelas eram as primeiras pontadas de ciúme em seu coração.

Para completar o DVD não estava na capa, ele havia se misturado aos outros na bagunça.

— Mas que porra! O que eu faço agora? Vou ter que procurar um por um — Ele perguntou para si mesmo por que sabia que era errado, mas a verdade é que procurar o DVD era uma questão de curiosidade aguçada pelo ciúme. Se ele procurasse atentamente conseguiria encontrar o DVD dela sem assistir. Mas foi mais forte que ele.

Rony colocou o DVD, ele estava visivelmente nervoso. O primeiro foi um slide de fotos da sua infância, o segundo um slide de modelos em fotos para a playboy que Harry havia lhe dado contando com alegria quantas daquelas ele já havia levado para a cama e o terceiro finalmente foi o dela.

As letras, típicas de edição de vídeo famíliar abriram na tela com o mesmo titulo inscrito na capa do DVD.

Hermione apareceu sorrindo e dizendo.

-Olha para cá amor.

As cenas a seguir o chocaram.

Ele esperava ver qualquer coisa naquele DVD, menos... Aquilo.

-Olha ali amorzinho… Dá tchauzinho dá.


Um lindo menino surgiu na tela. Um garoto de cabelos castanhos e imensos olhos azuis. Rony ficou parado, olhando abobadamente para as cenas que seguiam no vídeo.

— Caralho, é isso mesmo? Hermione tem um filho… Um filho... Um garotinho lindo por sinal.

Ele ficou petrificado assistindo ao vídeo de duas horas de duração, sequer viu o tempo passar. A infância de Joey estava devidamente documentada. Sorrisos, passos, palavras, tudo...

Só que não aparecia homem algum. Nenhum “pai”.
Ele não sabia se sentia aliviado ou angustiado.

O que ia fazer agora?

A confrontaria dizendo saber a verdade ou deixaria as coisas como estavam?

Rony saiu de seu torpor com o barulho da porta. Com certeza era Harry, somente ele batia a porta daquela maneira, mas desta vez foi bem mais forte do que o normal.

Não era como se ele quisesse chamar a atenção como sempre, era como se estivesse com raiva.

— Vai quebrar minha porta.

— Pago duas.

Rony arqueou a sobrancelha.

Geralmente quando dizia esta frase, Harry respondia que ele precisava de uma entrada de ar naquela caixa de fósforos.

— Tá bem cara?

— É. Tua irmã tá ai?

— Por que quer saber da Gina?

— Não me fode com a tua síndrome do irmão protetor, ela tá ou não?

— Não, por que?

— Só para contar que ela não vai encher meu saco, por que não estou com paciência.

— Cara, essa aqui é a casa dela.

— Eu... Cheguei primeiro.

Rony riu.

— Se você tivesse um irmão gêmeo mataria ele de fome mamando nos dois seios da tua mãe de uma vez só não era não? Cara, como você é mimado.

— Quer curtir uma festa?

— Hoje?

— É.

— Não rola.

— Por que?

— Vou ver Hermione.

— Mas vocês não só trepavam aos sábados?

Rony estreitou os olhos.

- Mais respeito? Ela não é uma vagabunda, nós não trepamos, nós... Nos relacionamos.

— No meu dicionário isso e os outros derivados se chamam trepar.

— Não enche Harry.

— Não enche você cenoura. O dia não está bom.

— O que houve?

— Amanhã é o primeiro dia do meu julgamento.

— Já?

— É. E pior que isso... Tenho que ir a um evento beneficente hoje.

Rony arqueou uma sobrancelha.

— Ir ao evento é pior que o julgamento?

— Obvio! Eu vou com a Cho! Quer algo pior?

— Cadeia não é algo pior?

- Eu vou ser absolvido Rony – Ele disse com cara de tédio.

— Você confia demais na sorte.

— Não é na sorte meu caro. Confio nos 220 mil pagos aos meus advogados. É muito caro, para eu ser preso.

— Cara, nem digo nada.

— Melhor. Vamos na festa?

— Não posso cara.

— Vai me deixar na mão sozinho com aquela terrorista japonesa?


— Não dramatiza, tenho certeza que você vai achar uma mulher e dar um perdido nela no meio da festa.

— Vou mesmo.


— Sacana.


Harry tirou o telefone do bolso e discou um numero, o de Gina. Mas sequer esperou que chamasse, desligou e sem mais arremessou o telefone na parede.

— Caralho Harry! Seu telefone cara!

— Que?

— Você acabou de quebrar o telefone.

— Era uma merda.

— Tá nervoso?

— Não.

— E vai fumar?

— É o que parece.

— Isso ainda vai te matar, sabe disso não é?

— O que? O cigarro?

— Não! O poliester do seu casaco de milhões.

— Não é poliester! É couro! E você deve estar louco, esses são Cohiba Behike originais. Eles não matam, fortalecem. A imagem pelo menos.

- Qual o lance, é só esta festa?

— Não! É. É tudo. Eu só preciso de uma boa noite de sexo. De preferencia com duas garotas.

— Boa sorte.

— Não vai mesmo?

— Não dá cara, preciso resolver umas coisas.

— Sei...

— Sério cara.

— Tá, eu nem disse mais nada. Vai resolver suas coisas. Melhor eu ir antes que...


Mas ele não terminou de falar por que a porta abriu de repente.

— Eu já entendi Mike – Gina disse sorrindo – Você faz o café da manhã, tudo bem?

Harry a encarou por alguns segundos e Rony fez uma expressão tediosa. Um silêncio constrangedor se seguiu, até que Harry fez o primeiro movimento.

— Vou embora.

Ele apagou o charuto ainda pela metade, e pegou o casaco, saindo sem dizer absolutamente mais nada.

Rony arqueou a sobrancelha, encarando Gina interrogativamente.

— Que?

— Por que sempre fica esse clima estranho entre você e o Harry?

— O amigo estranho é seu e é a mim que você pergunta? Eu lá sei qual é o problema do seu amigo insano? Sem contar que faça-me o favor, né? Tenho mais o que fazer.

— Foi só uma pergunta.

— Uma pergunta idiota.

— Ei! Calma, que estresse. Por que você sempre fica nervosa quando eu falo do Harry?

— Por que ele é um idiota, e você, mesmo com todo histórico de amigos idiotas, eu nunca pensei que bateria o recorde. Até bandido ele é sabia disso?

— Como assim Gina?

— Então você não sabe que ele vai ser julgado amanhã?

— Sei.

— E isso não te incomoda?

— Não.

— Como não Rony? Ele é um estelionatário, um enganador, um mentiroso, como isso pode não te incomodar?

— Por que não é verdade.

— Rony, pelo amor de Deus, isso é ingenuidade ou burrice? Você tem ideia da quantidade de processos que o Harry carrega? Processos demais para não ter nada contra ele.

— Eu não estou dizendo que não existe nada contra ele, Gina, eu só estou dizendo que ele não rouba ninguém, Harry tem defeitos, muitos e sim ele deve ter alguma pendencia com a justiça, mas ele não é ladrão. Eu o conheço melhor que ninguém, ele é um cara bom.

Gina riu com escarnio.

— Bom? O inferno tá cheio de bonzinhos.

— Você não sabe o que está dizendo.

— Eu estou dizendo o que eu vejo.

As vozes começaram a se alterar.

— Você diz isso por que enxerga o Harry das capas de revista que todo mundo vê, você não sabe o que eu sei, nem você, nem ninguém conhecem Harry de verdade.

— Você fala como se ele fosse um tipo de herói. Que idolatria cega é essa meu irmão?

— Não é idolatria Gina, é só... Harry não teve... A vida... Não foi fácil para ele.

— A vida não foi fácil para gente também, nem por isso somos como ele.

— Você não sabe do que tá falando.

Rony deu as costas e caminhou rumo ao seu quarto.

— O que eu não sei?

— Não posso contar... Não eu. A historia é dele, cabe a ele... Só... Você não sabe nada do Harry, não o julgue.

Ele disse isso e entrou no quarto, deixando Gina sozinha, com os próprios pensamentos.

…


Draco acordou se sentindo fisicamente destruído, era como se tivesse apanhado de cinco homens. A noite havia caído, ele sequer sentiu-se adormecer. A ultima coisa que lembrava, era dos dedos carinhosos e delicados de Astoria entre seus cabelos e o sussurro doce da sua voz.

Ela não estava mais ali. Ele estava sozinho na cama, mas ainda podia sentir o cheiro adocicado do perfume. Ele sentou na cama, ainda tonto pelo sono pesado e então a viu entrar.

— Acordou?

— Tori... Que horas são?

— Quase sete.

— Nossa! Dormi isso tudo?

Ele sentou na cama alerta.

— Dormiu.

— E por que você deixou?

— Por que você precisava. E não discuta.

Ela sentou no colo dele sorrindo. Não houve como resistir, ele sorriu de volta, contemplando a beleza linda dos traços perfeitos dela.

— Você podia ter o cara que quisesse.

— Você voa muito longe — Ela disse rindo.

— Nada disso, você que não quer enxergar.

— Uhum, tá bom.

— Você merece um cara mais adequado.

Ela arqueou a sobrancelha.

- Ah é? E como seria um cara mais adequado?

— Ah! eu não sei… Mais divertido… Mais descolado. Eu sou antiquado demais.

Ela deu meio sorriso e segurou-o no queixo.

— Me dá um beijo e me diz a primeira coisa que vier a tua cabeça.

Ele passou as mãos em volta do pescoço e a beijou devagar. Um beijo repleto de carinho, um beijo leve, demorado. Depois afastou devagar o rosto e a olhou nos olhos.

— Você é meu mundo, é meu milagre. Minha Mumtaz Mahal… Minha Shayera…


Ela sorriu de novo.

— Nunca provei um beijo como o seu… Nunca falaram comigo desta forma, você não tem idéia de como me faz sentir. Com você, eu posso ser eu mesma sem ter medo de ser, entende? Ouça bem Draco, homens atualizados e descolados, que falam como maloqueiros ou nerds eu encontro em qualquer lugar. Mas homens como você… Não existem.

Ele sorriu, meio bobo, meio tímido e a beijou de novo.

— Mas eu insisto que você podia ter o cara que quisesse. Você tem que concordar comigo. Podia ter qualquer um.

— Não quero qualquer um, obrigada. Quero você.

Ele sorriu. Tocou seu rosto.

— Eu te amo, como nunca amei ninguém. Isso me assusta.

Ela tocou a mão dele que estava em seu rosto.

— A mim também, e assusta muito. Mas é o melhor sentimento que eu já tive, é o momento mais feliz de toda a minha vida e eu não troco isso por nada Draco.

...


Rony descobriu que sofria de ansiedade depois que conheceu Hermione Granger por que tudo o que fazia relação a ela o deixava num estado de excitação e nervosismo absurdos.

Ele nunca tinha tido problema de pressa e ansiedade antes, mas agora estava lá, completamente pronto para sair, uma hora e meia antes do combinado e ainda para ir a um lugar que ficava à quinze minutos de distancia da casa dele.

Ainda não havia decidido o que ia fazer, ou como chegaria para Hermione e diria que sabia do garoto.

Sentiu-se irritado e de certa forma traído, como assim ela não lhe contava que tinha um filho?

Um filho não é qualquer coisa.

Eles estavam transando há meses, ele tinha que saber.

Ele passou o DVD de novo, alguma coisa naquele garoto fazia ele se sentir estranho.

Era como uma necessidade muito intensa de vê-lo com os próprios olhos, como se aquilo pudesse simplesmente ser uma miragem, uma brincadeira.

E se ela mentisse? Se ela inventasse uma história? Se ela sumisse?

Ele tinha que fazer alguma coisa para que Hermione o encarasse de frente e lhe contasse que tinha um filho.

E o pai? Onde estava o pai daquele menino? E se ela fosse casada? Ela teria mentido e isso ele não admitir.

— Preciso tirar esta historia a limpo.

Ele pegou o DVD e as chaves do carro e saiu decidido. Aquela, seria a noite em que tiraria toda a historia a limpo, e ele não esperaria por ela, nem lhe daria tempo para formular uma desculpa ou uma história esfarrapada, ele queria a verdade e alguma coisa dentro dele gritava que ele precisava olhar nos olhos daquele menino.

…

A noite chegara e ao contrário do que Gina pensava, Harry não telefonou, não deu nenhuma noticia e o celular agora não estava mais desligado, ele simplesmente chamava indefinidamente sem que ninguém atendesse.

Aquilo não fazia sentido.

Normalmente ele teria ligado, exigido que ela o encontrasse e lhe dado uma noite de sexo inesquecível.

Isso quando ele não ia pessoalmente arrasta-la à força como o Neandertal que ele era. Mas ele não foi, ele não apareceu, ela não fazia ideia de como falar com ele.

E mesmo assim, diria o que?

Harry passei o dia inteiro tentando te fazer ciúme?

Sentiu uma pontada no peito. Algo quase como arrependimento.

Às vezes essa brincadeira de fazer ciúmes podia mesmo não dar certo.

Ela checou o telefone de novo, não haviam mensagens, nem ligações.

Ele não ligaria, não mais naquele dia.

...

Bastaram dois telefonemas e Rony descobriu muito fácil o endereço de Hermione. Nem era tão longe dali. Mas não era tão incrível que nunca tivessem topado um com o outro na rua. Na maior parte do seu tempo livre, Rony costumava dormir ou desenhar.

Mesmo assim parecia uma longa viagem.

Culpa da maldita ansiedade. Aquilo era chato e incomodava, ele precisava dar um jeito.

Dobrou a esquina e diminuiu a velocidade do carro olhando atentamente as casas ao redor. Seu coração descompassou ridiculamente e começou a bater tão forte que doía. As luzes estavam todas acesas, pareciam aquelas casas onde sempre tem gente em todos os cômodos.

Rony riu por um segundo.

Parecia com a casa dele. Cheia.

Mas a casa de Hermione, não parecia alegre.

Ele olhou o relógio, faltavam quarenta e cinco minutos para a hora do encontro, ela ainda devia estar em casa.

Ele parou o carro do outro lado da casa, desceu. Ao tocar o chão, ele sentiu as pernas trêmulas, respirou fundo. O que era aquilo? Não estava indo para uma guerra, estava apenas indo até a casa dela devolver a bolsa. Nada fora do comum.

Ele tocou a campainha duas vezes, antes de sentir o trinco da porta se movendo.

A porta abriu, mas ele teve que baixar os olhos para ver o garotinho minúsculo de olhos azuis que a abriu.

— Oi.

Rony respirou fundo antes de encarar o garoto.

— Muito prazer Joey, eu sou o Rony. Sua mãe está?

"A verdadeira profissão do homem é encontrar seu caminho para si mesmo".
Hermann Hesse