Intimidade
24 Dom Quixote e Sancho Pança
“A amizade e a lealdade residem numa identidade de almas raramente encontrada”
(Epicuro)
E se ele tivesse que fazer uma escolha? Estaria pronto para escolher entre Gina e Rony?
Em outros tempos, sequer precisaria pensar nisso. Jamais colocaria a amizade com Rony em xeque. Era seu melhor amigo. Na realidade, era seu único amigo. O único que sabia tudo sobre ele, o único que podia chegar de verdade até ele.
Gostava de Rony de verdade. Era um laço inquebrável, seria para sempre. Ele jamais esqueceria o que Rony fizera por ele. Depois de tantas porradas que levara da vida, depois de tantas decepções, achara enfim, um ser humano que valia a pena.
Harry tomou um gole do whisky e arriou na cadeira.
Como ele pôde dormir com a irmã do melhor amigo?
Quanto tempo fazia mesmo, desde que se conheciam? Oito... Nove anos? Ele não conseguiria saber com certeza. Só sabia que fora na época mais negra de sua vida, onde o descontrole havia tomado conta. Ele estava caminhando para o fundo do poço, mas Rony o salvara.
Flashback
— Ei vagabundo! Acorda! Meu bar não é hotel!
Harry se moveu um pouco, mas suas pálpebras estavam muito pesadas. Ele não conseguia abrí-las. Ouvia a voz de alguém, e sentia os sacolejos, mas não conseguia se concentrar no que estava acontecendo. Várias garrafas vazias jogadas no chão, mostravam o estado de alcoolismo em que ele se encontrava.
— Acorda seu idiota, ou vou colocar você para fora assim mesmo.
— Hum — Ele resmungou, mas ainda assim não acordou.
- Ei Theo! – O cara gritou psra outro que estava na outra ponta da sala – Me ajuda a colocar esse cachorro aqui para dormir na rua.
Harry finalmente conseguiu abrir os olhos quando sentiu-se erguido pela camisa, quando percebeu que estava sendo arrastado conseguiu dar um impulso para trás e se soltar dos homens que o seguravam.
— Me solta! – Ele disse engrolado – Que palhaçada é essa?
— Fora, pinguço! — O outro cara o segurou pela gola da camisa e o empurrou.
— Me solta! — Ele tentou acertar um soco no homem, sem sucesso.
Harry ia apanhar, e seria a surra mais feia que já havia levado, pois outros dois homens já se juntavam aos amigos, prontos para arrancarem-lhe o couro, mas ele foi puxado para trás e coberto por alguém.
— Vamos manter a calma pessoal... – Ele ouviu a voz do homem que se pusera na sua frente – Violência não leva a lugar algum.
— Sai da frente, palhaço! — Um deles gritou.
— Não vão bater nele, camaradas — O homem afirmou sem aparentar medo.
— Não preciso que me defenda... Sai da frente — Harry tentou passar, mas não conseguiu dar passos regulares.
— Vamos colocar esse otário para fora.
— Ninguém, vai mexer com ele. Vocês deviam ter vergonha de tentar bater num cara nessa situação. Ele nem se aguenta de pé.
— Mas você está bem aprumado amigão. Então pode fazer a serventia de apanhar no lugar dele — Disse o mais alto.
— Não quero briga — Rony falou
— Mas arranjou — Os homens começaram a cerca-lo, mas ele não se intimidou, e nem recuou. Os seguranças do bar se aproximaram.
— Arranjando confusão de novo, Hal?
— Este palhaço estava dormindo nas mesas.
— E você estava agindo como dono do bar, de novo? — Falou o outro homem.
— Estou apenas fazendo meu dever.
— Seu dever é limpar o chão, e não espantar os fregueses.
- Eu estava...
— Chega Hal! Volte ao trabalho. E os senhores... – Ele disse voltando–se para Rony.
— Estamos de saída – Rony disse antes que ele falasse algo mais.
— Não estamos porraaaaaa nenhuma – Harry falou engrolado – E vou beber... Eu tenho dinheiro... Vou beber nesta porraaa — Ele tentou entrar de novo, mas Rony o segurou e o arrastou para fora do bar.
- Me solta! Quem você pensa que é? Tira... As mãos... De mim.
— Você não vai voltar para lá amigão. Não corri riscos de ser feito em fatias para você ir jogar sua carne aos cães. Sossegue, ou vai acabar apanhando mesmo.
— Quem é você, idiota?
— Sou um cara mais sóbrio que você. Vem comigo... Onde você mora?
— Não vou te dizer onde eu moro...
— Ah vai sim.
Flashback End
Era engraçado como as coisas tinham tomado um rumo inesperado. Após deixar Hogwarts, Harry assumiu toda a fortuna dos pais e do padrinho Sirius, tornando-se um dos homens mais ricos do mundo. Entrara para todas as listas do New York Times, e tornara-se o homem com menos de trinta anos mais bem sucedido do mundo. Economistas do mundo todo deram suas opiniões a respeito do novo ícone das finanças, quase todas as opiniões foram unanimes em concordar que sua fortuna escorreria pelo ralo.
Alguns diziam que ele era jovem demais, inexperiente demais, boêmio demais... O que ninguém sabia, era que por trás de toda aquela máscara de irresponsabilidade, havia um homem marcado, furioso e ávido por poder. Saber que tinha toda aquela fortuna guardada, servira apenas para enfurecer ainda mais Harry Potter. Sofrera durante toda sua infância e adolescência por nada, quando podia ter vivido do bom e do melhor. Deixara Hogwarts com a ideia fixa de que seria maior que o mundo. Todos andaria debaixo das solas caras dos seus sapatos.
Assim foi durante muito tempo. As únicas pessoas a quem ele demonstrava um pouco de consideração, eram Dumbledore, que o havia protegido como podia e Hagrid, o gentil caseiro de Hogwarts, que cuidara de suas feridas.
Havia levado Hagrid consigo, dera a ele a posição de mordomo, mas a verdade é que Hagrid cuidava de sua vida. Deveriam ser as únicas pessoas com quem Harry teria proximidade, até que seu caminho cruzou o de Rony. No momento em que, mesmo com os planos traçados, ele estava caindo no abismo que a imprensa havia descrito para ele.
Ele fechou os olhos de novo, relaxando com o a bebida, devanear era um de seus passatempos prediletos, quando podia se dar ao luxo de ter tempo para isso.
Flashback
— Cacete, me solta! Quem é você? Minha mãe?
— Não... – Rony disse com muita paciência – Se eu fosse sua mãe, você seria um corpinho infantil enterrado com uma coroa de flores e uma frase bem nítida na lápide“Aqui jaz o pior filho do mundo”.
— Vai tomar no cú, seu ruivo idiota, você não entende que eu não quero ajuda? – De repente ele mudou de expressão — Cara seu cabelo é muito vermelho.
— Oh! Grande observação. Em que rua entramos?
— Á direita... Cara eu vou sozinho... Que chato você é.
— Eu vou me certificar de que foi pAra casa.
— Você sabe quem eu sou?
— Sei sim, o ultimo bêbado do bar da Rua 15, agora cala a boca e anda, que mesmo sob as duas pernas, você é pesado.
— Vai me colocar na cama, babá? Se tentar me beijar, eu corto sua língua.
— Não se preocupe Romeu, você é bonitão, mas não faz meu tipo.
— É aqui...
— Ok, vamos lá.
— Eu vou sozinhoporra!
— Prefiro garantir — Rony se aproximou e tocou a campainha da casa. Ele quase cedeu ao impulso de andar passos enormes para trás quando a figura alta e estranha, surgiu na porta de repente.
Já tinha visto homens altos, mas aquele...
— Harry? Está tudo bem? — Ele disse com a voz grave que mais parecia um estrondo.
— Tá sim... Só esse ruivo mala, que acho que se apaixonou por mim e não quer sair do meu pé. Dê o corpo dele para os cães Hagrid. Rony não se alterou, continuou encarando o homem enorme a sua frente e perguntando-se o que um bêbado queria naquele casarão.
— O que houve com ele? — Hagrid fez-lhe uma pergunta direta.
- Ia brigando no bar da Rua 15... Na verdade ia apanhando de quatro homens, mas eu o trouxe. É seu filho?
Após alguns segundos de silencio, o homem respondeu.
— Sim.
Harry cambaleou e entortou um pouco os olhos quando riu.
— Eu sou seu filho, Hagrid? É, eu sou seu filho não é? Hum? Papai — Parecia uma criança.
- Devia ser filho do mordomo — Ele pensou.
— Ótimo, está em casa então.
— Obrigado — O homem pegou Harry, com uma enorme facilidade, apoiando-o em um dos ombros e ia entrar na casa, mas ele parou e virou-se.
— Ei... Ei ruivo! Shiuuu. Olha aquê — Rony virou-se e o encarou – Por que... Por que você me ajudou? Você nem me conhece...
— Então eu deveria ter te deixado apanhar até morrer por causa disso?
— Ninguém ajuda outra pessoa sem querer nada em troca, e eu não tenho nada para te dar em troca. Um obrigado vai bastar?
— Sim, Harry não é? Pois é Harry, um obrigado, basta.
— Obrigado então.
— Por nada... Ah, e... Pare de andar pela periferia de Londres, ou vai acabar tão deprimido que vai morrer achando que a humanidade não presta, e embora você tenha mil razões para acreditar nisso, eu creio... Não é verdade. Fique bem, Harry.
E então Rony foi embora.
Alguns dias, depois de uma minuciosa investigação se certificar de que ele não era um golpista que tentara parecer o salvador de um ricaço em apuros, Harry procurou-o, tentando oferecer-lhe recompensa pelo seu ato.
Rony não aceitou. Isso intrigou Harry.
Não importava a quantia que ele oferecesse, ou os benefícios, Rony não aceitava nada. Mas aceitava sair pra beber e jogar uma sinuca, ou jogar cartas. A primeira vez que Harry foi em seu apartamento jogar vídeo game, foi um dos dias mais divertidos de sua vida. Ele se apegou a Rony sem sentir e de repente eles eram inseparáveis.
Rony era o único, além de Hagrid e Dumbledore que conheciam cada detalhe obscuro do passado de Harry, cada ferida que ele carregava, cada ponto fraco seu, um dos poucos que sabia exatamente onde atacar para lhe derrubar, mas sempre fora um amigo leal. Sempre.
Harry sempre se defendia do amor que sentia pelo amigo com acidez e ironia, mas sabia que Rony era uma parte daquela família que ele não teve.
— Você é um cara legal, Harry — Ele riu, zombando.
— Humhum...
— Sério cara. Sério. Sei que você precisa dessa pose, e tudo bem, por mim você pode ficar com ela, o que importa, é que eu sei que você é um cara bom.
Aquela conversa vaga e despreocupada nunca havia saído de sua cabeça, tampouco a confiança das palavras do seu amigo.
Flashback End
- Pois é, Harry... Você se fudeu não é mesmo? O que vai fazer agora? — Ele falou para as paredes da sala vazia — Com certeza vai tomar a decisão certa nã o é mesmo, Potter? Vai deixar aquela ruiva maluca, antes que perca a única porra de amigo que tem na vida. Não é mesmo?
Era no mínimo hilário vê-lo falando sozinho.
— Tá na hora, Harry Potter, de cair fora desse barco♪ Essa ruiva é problema, dá um presentinho e manda um abraço — Ele começou a cantar pela sala, rodopiando que nem uma criança, dando pequenos saltos que se visto por outras pessoas, pareceriam ridículos.
— Senhor! — Ele olhou para a porta e Hagrid estava lá. Então ele parou de rodopiar.
— Oi.
— Acho que vai querer ver isso.
Harry recebeu a revista das mãos do homem e seus olhos se arregalaram com a manchete de capa.
Top Model numero três do mundo, Cho Chang, tenta suicídio.
Ele olhou para Hagrid.
— Isso é sério?
— Sim, confirmado. Ela está internada no St. Mary, mas está fora de perigo.
Harry arqueou a sobrancelha.
— Hum... Certo — Ele devolveu a revista.
— Devo marcar sua visita senhor? — Harry pensou um pouco antes de responder.
— Não! Mande flores e um cartão de melhoras. Não tenho tempo. Ah... Ofereça um psiquiatra ao agente dela, por minha conta. Vou ao escritório.
— Harry... — Hagrid chamou, ele olhou impertinente.
— O que?
— Não dou meia hora para aqui estar lotado de jornalistas — Harry pensou uns minutos, em seguida fez um sinal de desprezo com as mãos.
— Pois deixe que venham, aproveite e mostre-lhes a maquete do meu novo empreendimento no centro de Londres. Propaganda gratuita deve ser sempre aproveitada.
- Harry... Ela tentou se matar...
— É isso que a Cho espera Hagrid, ela espera que eu me sinta culpado, mas não vou e sabe por que? Por que não fui em que cortei os pulsos dela. Agora me dê licença, estou ocupado – Ele começou a andar, mas parou – Ah... Mudei de ideia, vá pessoalmente, leve-lhe flores e compre alguma joia, e meu desejo de que se recupere. Diga-lhe também que se ela espera conseguir algo de mim com isso, tente de novo, eu providenciarei uma coroa de flores para o velório. Até mais tarde Hagrid, talvez eu chegue muito, muito tarde.
Então ele saiu.
...
Harry rodou muito a cidade antes de resolver ir até o apartamento de Gina, ele levou mais de uma hora em um conflito interno irritante, mas finalmente decidiu que iria lá.
Gina veio devagar, abrir a porta, achando que era Colin que devia ter esquecido novamente a chave e quando abriu quase cai pAra trás.
— Harry...
— Olá, Gina.
— O que faz aqui? — Ele riu com a surpresa dela e entrou.
— Prazer em revê-la também.
— O que você quer?
— Nada...
— Nada? — Ela arqueou a sobrancelha.
— É... Nada. Quero... Pensar. Eu fazia isso na casa do seu irmão, quando ele não tinha uma mulher e uma criança dentro de casa, então... Pensei em ficar umas horas aqui se você não se importar.
Ela estreitou os olhos.
— É mesmo?
— É Gina... É mesmo.
Ele se sentou.
— Quer parar de palhaçada? — Ele não respondeu, ficou apenas olhando para ela. Gina o encarou.
— Não existe mulher mais gostosa que você.
— Pára de me olhar deste jeito Potter!
— Não consigo.
— Não existe olhar mais canalha que o seu.
— É minha marca registrada.
- Você é um safado de marca maior, agora saia da minha casa, você... Que droga Harry, por que você tem que chegar assim?
— Assim como?
— Cheio de marra, seu idiota. Eu ia... Que porra! Eu ia te pedir desculpas pelo... Enfim, você sabe. Daí você simplesmente chega aqui se achando o dono de tudo...
— Mas eu sou o dono de tudo...
— Cala a boca!
— O que você queria Gina? Um: “Oi, estava morrendo de saudades”?
— Seria melhor que um,“oi, vim pensar”. E mais sincero também.
— Gina, eu sou Harry Potter...
— Você é uma pessoa, Harry... É um ser humano e tem... Sentimentos. Para que fingir que não tem?
Ele riu.
— Se vamos ter esta conversa sobre... Sentimentos, que tal um café Ginevra? Caramba, você é bem sem educação não é mesmo? — Ela estreitou os olhos e mordeu o lábio. Em seguida lhe mostrou o dedo médio.
— Você só vai tomar café, seu descarado, por que eu já tinha feito – Então ela entrou resmungando –Homem folgado...
— Puro tá! E sem açúcar! — Ele gritou, em seguida ouviu de volta.
- Vai se foder Harry!
— Essa é minha garota – Ele sussurrou pra si mesmo rindo – Nada de sentimentalismos Gina, prefiro você ácida.
Gina voltou com as xícaras e sentou-se no sofá mais distante de onde ele estava, o que não adiantou muito, pois Harry sentou-se na mesa de centro, bem próximo a ela, deixando-a sem ter como se afastar.
— Por que tá fugindo?
— Não estou...
— Está sim...
— Não...
— Gina...
— Eu não confio em você, Harry.
- Com base no que, você não confia em mim?
— Você quer mais bases do que as que estão espalhadas em todas estas revistas por ai?
— As revistas mentem.
Gina estreitou os olhos.
— Agora vai querer me convencer de que não é o sacana destruidor de corações que elas mostram. E que a Chang tentou se matar por que queria aparecer ensanguentada na Vogue? — Ele segurou a xícara, levou vagarosamente até a boca, sem alterar um centímetro da expressão séria e nem quebrar o contato visual.
— Você já sabe... — Ela suspirou — Gina... Não minto para as mulheres que estou. Eu sempre as aviso qual o prazo de validade. Um mês, um ano, alguns dias… Elas sempre sabem. Cho também sabia…
Gina sorriu de maneira cínica.
— E qual meu prazo de validade Harry Potter? — Ele baixou a xícara e apenas a encarou.
— Ai é onde está meu problema com você. Parece que é você quem está ditando as regras — Ela riu, uma gargalhada curta e gostosa.
— Você fez curso para cafajeste Harry Potter, só pode. Olha só o que você faz com as mulheres — Ela jogou a revista no colo dele e se levantou. Ele riu de canto.
— Não acredita?
— Não Harry, não acredito, você não tem noção de como isso soa como cantada barata.
— Por que? — Ela estreitou os olhos e andou até ele, rodeando o sofá, desceu o rosto em seu ombro, e falou com a boca próxima do ouvido dele.
— Não confio em você nem um pouco, Harry.
— Por que?
— Por que? Ora vejamos… O que você faz de melhor?
— Ah… É… Mentir?
- Não seria por isso então?
— Mas isso é por que você não entende minha filosofia. Este é meu maior talento Ginevra, meu poder — Ela estreitou os olhos e riu com ironia, sentando-se ao seu lado, ele se inclinou ficando de frente para ela – Isto é para mim, como os cabelos eram para sansão.
— Que emocionante.
— Por que você acha que eu sou rico? Hum? Sinceridade não faz dinheiro, Gina. Eu sou bom em mentir, eu sou bom em fazer as pessoas acreditarem que elas têm o que querem. Posso fazer um velho broxa acreditar que é um garanhão, assim como fazer uma virgem acreditar que é a rainha do pornô, eles acreditam em mim e compram tudo o que eu quiser, me vendem tudo o que eu quiser, até a própria mãe se você duvidar. O nome disso, Ginevra, é manipulação, e manipulação é poder.
- Você acha que me dizendo isso, está ajudando em algo, com relação a minha crença em você? — Ele fez uma careta.
— Mas será possível que você não enxerga? É por isso que é diferente com você, Gina! Se fosse outra pessoa, qualquer outra pessoa, eu não teria dito isso, eu teria dito... Sei lá... Mas certamente eu não entregaria meu jogo. Eu não sou uma amador! — Gina riu com sarcasmo, mas isso só pareceu lhe dar mais ímpeto.
— Eu estou falando sério Gina, eu não sou um amador, e me orgulho muito disso, me orgulho muito. Eu sou bom nisso, caralho Gina, eu sou muito bom nisso. Mas com você... – ele segurou o rosto dela — As coisas não funcionam desse jeito... Você... É uma exceção.
— Harry...
— Eu tô falando sério, puta que pariu, que mulher teimosa! – Ele disse sem alterar o tom de voz e nem soltar o rosto dela.
— Isto soa como aquele tipo de cantada para levar a garota para a cama.
— Só que entre nós isto não se faz mais necessário, Gina... Eu já te levei para cama.
— Romantico...
— Prático. Eu já te levei para cama e nós nos entendemos muito bem nela. Por que temos que negar isso? Hum? – Ela tentou falar, mas ele a calou com um dedo em seus lábios – Não diz nada Gina, não é isso que eu quero da sua boca agora.
Ele a beijou devagar, mas conseguiu eletrizar todo seu corpo. Gina não conseguiu não ceder, até por que também queria, queria demais para dizer não. Nunca fora o tipo de mulher que abdicava dos próprios desejos, quando queria algo, a consciência não era capaz de impedir-lhe de satisfazer-se.
Então ela se deixou levar.
Só que Harry era impetuoso, agressivo, dominante, ele não iria devagar, ele não seria sutil. Ele a provocou no beijo, como sempre fazia, e particularmente, ela achava aquilo gostoso demais.
Mas se Harry era provocativo e ardente, Gina não ficava para trás, ela devolveu-lhe na mesma moeda, excitando-o rapidamente.
Harry agiu... Tirou a própria camisa e a camisa dela num ímpeto tão grande que o sutiã veio junto. Levantou-a e pegou-a nos braços.
Foram movimentos rápidos e rudes. Nada era suave com Harry Potter. Ele a levou para o quarto.
— Qual é seu quarto?
— Em frente... A porta em frente... Por que você nunca é romântico? Por que... Não faz as coisas devagar?
— Por que você fode com minha capacidade de me autocontrolar.
A partir daí tudo se tornou frenético.
Ele a deitou na cama, já seminua, tirando-lhe o resto das roupas, beijando-a sem parar. Aqueles dias longe... Pareciam anos... Gina fechou os olhos e sentiu. Aquilo era tão gostoso. Como foi mesmo que passou dias sem sentir aquela sensação?
- Odeio saber que você consegue o que quer de mim — Ela disse com a voz falha entre os beijos.
— Bem vinda ao meu mundo, Ginevra. Seu sabor… É viciante Gina. Você não é como as outras, eu sempre soube disso.
— Está viciado?
— Completamente.
— Então prove um pouco mais.
Ele provou mais do busto nu e delicioso. Gina gemeu alto.
Se Colin chegasse terminaria ouvindo...
- Ah, que se foda — Ela pensou entregando-se completamente ao prazer. Ela girou o corpo, ficando por cima dele, beijando-o, como se ela estivesse no comando agora.
— O que você quer Harry? — Ele sorriu e mordeu os lábios...
— Transe comigo — Ela lambeu os dela e o beijou na boca.
— Fique quieto — Ela disse enquanto beijava sua boca. E foi descendo... Beijando o queixo... O pescoço... O peito... A barriga...
— Gina… Gina… Este é um caminho… Perigoso — Ela sorriu e continuou descendo os beijos.
— Shh. Calado Harry.
— Gina… Eu não… Caralho!!
- Cale a boca Harry. É minha vez de provar você.
Ele grunhiu quando sentiu a boca dela passear em seu sexo. Era a primeira vez que Gina lhe fazia sexo oral. Sentir o gosto da sua língua na boca era delicioso, mas sentí-lo no pênis, era inestimável. E ela fazia aquilo muito bem. Bem demais para o gosto dele. Seu sexo estava no limite, e ele não queria gozar daquele jeito.
— GIna pare...
— Não – Ela disse com a voz abafada.
— Pare... Pare. Puta merda, pára Ginevra — Ele a puxou para si antes que gozasse em sua boca. Mas Gina era teimosa, e se desvencilhou dele.
Até a transa deles, mais parecia um duelo.
— Gina...
— Quero te chupar Harry... Por que só você pode?
— Feminista do caralho! — Ele a puxou e a deitou embaixo dele – Você quer me chupar é?
— Quero – Ela disse decidida.
— Só se eu fizer também — Ela mordeu os lábios e sorriu em consentimento.
Gina sentiu um frisson intenso por todo o corpo quando sentiu a língua dele tomando seu sexo. Harry dizia se orgulhar de talentos como mentir e enganar, mas ele deveria se orgulhar mesmo em como ele era bom com oral. Aquilo era fantástico.
O duelo continuava. Agora as armas usadas eram as línguas e eles pareciam disputar quem enfraquecia o outro mais rápido.
Harry parecia estar sendo mais afetado, as pernas dele perderam a força e os braços estavam indo no mesmo caminho, então ele deixou o corpo cair de lado, trazendo-a consigo, mantendo a posição, continuando a chupá-la com vontade.
Gina gemia agoniada.
- Harry...
— Hum?
— Pára!
— Por que?
— Agora!
Ele obedeceu e ficou olhando-a. Gina levantou-se e engatinhou, deitando-se por cima dele, aninhando-se, contornando seu corpo com as pernas. Depois que estava posicionada e sem desviar o contato visual ela segurou seu pênis e o introduziu bem devagar em sua vagina.
Harry fechou os olhos, trincou os dentes e gemeu enquanto o suor lavava-lhe o rosto.
— Ai... Sua... Filha da puta!
— Cala boca Harry... Faz seu serviço! — Ele gargalhou. Estava tudo muito confuso, ele sentia como se estivesse drogado, com uma vontade muito grande de sorrir e xingar.
Aquela mulher era um veneno.
— Mais rápido... – Ele pediu – Mais rápido... Cacete Gina...
- Você lembra?
— O que?
— Que uma vez me dispensou por que não queria ser escravo do seu pau?
— Gina… Não acho que isso… -Ela apertou seu sexo com o dela e ele gemeu.
— Lembra?
— Lembro. Lembro... Lembro... Puta merda.
— E agora?
— Agora o que?
— Agora se sente escravo de alguma coisa?
— Gina, caralho Gina!
— Responde...
— Ai – Ele tremeu, ela rebolava cada vez mais rápido – Gina caralho!
— Responde porra! — Ele não conseguia entender por que quanto mais gritavam e se xingavam, mais tesão ele sentia.
— Não... Sim... Não sei... Não consigo pensar com as duas cabeças ao mesmo tempo Ginevra — Ele fez força e a girou, ficando por cima, assumindo o controle.
— Harry... Não goza.
— Pára de brincadeira, Gina.
— É sério! É sério você não pode... — Harry continuou os movimentos de vai e vem fortes, mesmo ouvindo o que ela estava dizendo.
— Por que?
— Sem... Pro... Teção... Ai, ai Harry.
— Nenhuma?
— Não...
— Nem você?
— Não...
— Porra Gina, porra Gina!
Mas ainda assim, ele não parou os movimentos, seu orgasmos estava muito próximo e a julgar pela maneira como o sexo de Gina pulsava ao redor dele, o dela também não estava muito longe.
Em vez de tentar se controlar ele aumentou os impulsos.
— Harry...
— Confie em mim.
— Não temos... Proteção...
— Eu sei, o que estou fazendo, Gina, confie... Em mim — Ele estocou mais forte e ela gemeu alto, quase um grito.
- Não pára agora… Não pára agora Harry…
— Eu… Não… Eu vou…
— Não pára…
— Gina... Goza...- Ela se prendeu a ele, o suor brilhando na pele branca.
— Mete mais forte... Mete mais forte — Ele obedeceu. Gina tremeu, sentiu uma leve vertigem, antes do seu corpo bombear como se tivesse um motor.
— Ai... Ai Harry... Eu... Vou Gozar... Forte... Muito forte... Ai puta que pariu Harry...
Ele trincou os dentes. Era muito excitante vê-la gritar de prazer. Gina não era quieta, mas não fazia a linha escandalosa, vê-la fora de controle daquele jeito era um inferno, pois ele não podia aliviar o tesão, não naquele instante.
Ela bateu, rebolou, arqueou, quase pulou da cama, num orgasmo louco e incontrolável. Harry quase cedeu.
Ela foi se acalmando devagar, o corpo tremulo, suado, amolecido, mas ele não parava de penetrar, não parou, ao contrario, aumentou ainda mais a velocidade, até sair de dentro dela com pressa, pressionando o pênis para concretizar o clímax, gozando em seu corpo.
— Ca... Ra... Lho.... – Ele gemeu alto e longo. Ele arriou nela respirando forte, arfando. Ficaram longos minutos, estirados, buscando ar.
— Precisamos de um banho...
— Eu sei — Gina respondeu – Quer ir na frente? Você deve ter coisas a fazer ainda hoje...
— Tenho... Muitas na verdade. Eis os planos. Vou tomar banho, você vem comigo, a gente transa de novo, depois eu vou deitar na sua cama, aliás, gostei dessa cama, vou ver depois se é do meu fabricante. Então... Vou deitar nessa cama gostosa, nu... E dormir, agarrado com você, por que eu estou um caco.
— O que? Não! Harry! Não pode ser assim, e o Colin?
— Ele dorme aqui também? – Ele perguntou entre o ciumento e o sarcástico.
— Claro que não seu idiota!
— Então ele vai sobreviver, vem comigo.
E ele a levou para o banho, bem como para cama.
E eles dormiram juntos, exaustos por horas ininterruptas.
...
Era real demais... O sol em seu rosto enquanto caminhava na rua vazia. Estava tão quente. Mas ele logo chegaria em casa, a porta estava à sua frente. Logo encontraria sombra e conforto.
E logo a veria. Estava com tanta vontade de beijá-la... Tanta... Uma vontade fora do comum.
Sorriu.
Aquela mulher havia mudado sua vida. Como conseguia espaço dentro de si para um amor tão grande? Às vezes aquele sentimento parecia sufocá-lo. Mas ele gostava de amá-la.
Abriu a porta e a chamou... Mas não ouviu resposta. Olhou para o relógio e... Dez horas?! Não podiam ser dez horas! O sol estava a pino minutos atrás não estava? Olhou para a janela para certificar sua palavra, mas... Não estava.
Era noite.
Draco esfregou o rosto e sentiu-se muito suado.
Iria tomar um banho. Era até bom que Astória não estivesse no quarto, assim ele poderia se arrumar para que ela não o encontrasse tão desarrumado. Se aproximou do quarto e ouviu um barulho. Sorriu de novo.
Bom... Já que ela estava em casa, um banho a dois cairia muito bem. Ele abriu a porta devagar, e congelou.
Astoria e Bem Summers estavam... Eles estavam mesmo?
O coração dele doeu... Mas doeu muito. Não conseguia falar, nem se mover. O que diabos era aquilo? Veria a cena e não faria nada?
Mas fazer o que? Matá-la? Matá-lo? Matar a ambos? Talvez simplesmente sair dali, já ajudasse. Ele tentou, mas as pernas não moveram. Ela estava mesmo sorrindo como se ele não os tivesse pego no flagra?
Quando ele finalmente conseguiu mover um musculo, seu coração deu um baque mais forte e ele acordou.
Arfante e suado.
O que diabos era aquilo mesmo? Ah sim, era o “chute”... Aquilo que eles usavam no filme “Inception” para trazer as pessoas de volta do sonho... Ele tinha acabado de receber um chute.
Tinha que lembrar de perguntar ao Leonardo Di Caprio como construir um ambiente onde ele governe o sonho... Pesadelo filho da puta.
- Dray? Tudo bem?
— Tá…
— O que foi?
— Um… Pesadelo, acho… Mas tudo bem, tudo bem… — Astoria caminhou para bem perto dele e sentou-se na cama.
— Acho que a nossa concepção de bem é muito diferente, Dray. Você parece que viu um fantasma.
— Eu vi... – Ele disse baixo.
— Fala comigo, Draco...
— Pesadelos, são esses... Pesadelos, Tori… Eles não são mais aqueles sonhos inofensivos com monstros no armário. Eles são a minha visão do inferno.
— Como eles são?
— Não… Não quero lembrar.
— Me conta Draco, são comigo?
— Tori…
— Me conta!
— Não, não vai fazer diferença, só vão machucar você — Ela passou a mão no rosto dele.
— É o Ben? — Ele não respondeu, apenas baixou a cabeça – Dray, vem aqui... — Ela o puxou e o fez sentar na cadeira do lado. Depois pegou o notebook e ligou, acessando o email.
— Dray… Olha aqui, vem ler.
— Não… Não precisa Tori.
— Mas eu quero que você veja. Olhe. Você está vendo? Ele é só um colega.
— Estou.
— Então por que você continua desse jeito? Eu não sinto nada por ele Dray… Nem mesmo carinho… Ben é só… Um colega de trabalho.
— Não é isso…
- Então o que é?
— Tori…
— Não! Não, Draco… Você vai me explicar e vai me expiclar agora. Se você sabe que eu não sinto nada pelo Ben por que o ciume?
— Eu não vou saber explicar... É só uma coisa que cresce, eu não sei o que é Tori, eu só sinto tudo ardendo de raiva dentro de mim, quando você fala nele eu sinto um ódio absurdo, eu sei... Sei que é bobagem que eu nem tenho motivos, acredite, eu sei. Eu fico muito... Muito puto comigo mesmo quando essas coisas acontecem, quando eu sinto... Mas eu não consigo evitar... É como uma doença...
— Draco... Ah Draco... — Ela o abraçou.
— Não sei o que fazer, não faz sentido algum.
— Eu sei amor...
— Dray... Se você quiser... Eu rompo o contrato...
— Não! – Ele foi enfático – Não quero.
— Mas Draco, desde que eu te falei da proposta que ele me fez, você não dorme direito, não come bem, vive deprimido. Eu acho que é o melhor a fazer...
— Não, Astoria, não vai fazer isso.
— Oh Deus! Você está dificultando.
- Não estou tentando dificultar, estou apenas... Eu sei que é complicado me entender, eu sei que é, só tente um pouco... Eu sei que estou errado, eu sei que não tenho qualquer motivo válido para estar maluco com tão pouco, eu apenas... Não consigo... Evitar, é mais forte que eu Tori. Eu sinto, eu não controlo. Seria ridiculo, muito ridiculo se eu te pedisse para largar esta chance.
— E vai ficar morrendo de ciúmes?
— Não... Isso... Vai passar, eu vou dar um jeito.
— Eu não quero que você fique se sentindo deste jeito Dray.
— Vai passar amor…
— Eu sei que vai, e sei que você vai rir disso tudo, mas até lá, enquanto não passa, eu quero estar com você nessa. Não precisa aguentar isso tudo sozinho — Ele a olhou, aquela angustia corroendo seu peito. Aquela sensação de inutilidade, sem conseguir nem ao menos controlar os próprios sentimentos.
— Eu te amo Astoria.
— Eu também te amo, seu bobão.
- Vou ficar bem, Tori...
— Vai mesmo?
— Vou sim.
— Olha para mim, Draco. Você não tem que temer o Ben, nem nenhum outro homem. Eu sou sua.
Ele sorriu.
— Eu amo muito você pequena.
— Eu preciso ir, tá bem?
- E não me olha com essa carinha de mamãe que está deixando o filhinho de três anos em casa. Eu tô bem, foi só um pesadelo idiota.
Ela riu junto com ele.
— Então comporte-se meu bebezão. A mamãe volta para casa à noite.
Ele sorriu mais alto.
— Amor, eu posso demorar um pouco hoje, vai ter sinuca depois da aula e eu tô afim de jogar.
-Hum – Ela se curvou sobre ele – Ganhe para mim, jogador.
— Ganharei.
Eles se despediram com um ultimo beijo e ela saiu.
Draco se deixou deitar de novo, o peito ainda apertado, angustia e raiva misturadas, envenenando-o.
Fechou os olhos e não conseguiu evitar de lembrar cada momento que se sentiu da mesma forma. Cada pequeno momento em que ele deixou de ser dono de si, e se tornou uma criança mimada e sem autocontrole.
Flashback 1
- Amor… Eu tenho uma coisa para te contar — Astoria entregou-lhe a xícara e virou-se de costas, ocupando-se em guardar os pratos.
— O que?
— Recebi uma proposta hoje… Bem interessante.
— Ah é? — Ele perguntou distraido com o café.
— É… Uma colaboração.
— Uma musica nova?
— Humhum.
— Que legal amor. De quem foi a proposta?
— Benjamim Summer.
— O QUE?!
Flashback 2
- Astoria! que bom que chegou amor, eu estava te esperando.
— Oi amor. Que houve?
— Lembra o arranjo que você não estava conseguindo fazer? eu fiquei pensando nele e eu… — Ela o segurou pela camisa e lhe interrompeu com um beijo curto.
— Não se preocupe com isso amor, eu já resolvi.
— Ah já? Ah… Que ótimo… Como?
— O Ben fez para mim.
Flashback 3
Quando levantou os olhos da tela seu sorriso já havia se apagado. Instantaneamente, sem que conseguisse evitar. Ele contraiu o maxilar, com raiva… Das mensagens… E de si mesmo.
— O que foi?
— Oi? — Respondeu piscando rápido, como se tivesse acabado de despertar de um devaneio.
— O que foi Draco? Algo errado?
Ele contraiu o maxilar mais uma vez tentando desesperadamente conseguir controlar os próprios instintos antes que ficasse transparente demais.
— Não.
— Tem sim — Astoria se aproximou — Olha para mim, você está triste? Irritado?
— Não… Não Tori, eu não estou.
— O que aconteceu? — Ela se afastou indo em direção ao computador, mas ele desligou e segurou seu braço.
— Não aconteceu nada Tori, tá tudo bem — Ensaiou um sorriso fraco, sem vontade e ela estreitou os olhos.
“Tente com mais força Malfoy, com mais força” era o significado de sua expressão.
— Está tudo bem meu amor — Ele a puxou com um sorriso mais relaxado e abraçou — Tá bem?
— Tem certeza?
— Sim, eu tenho — Ele disse com o rosto afundado em seus cabelos e ela retribuiu o abraço. Mas o sorriso, não permaneceu no rosto.
— Eu sei que isso tudo tem haver com o Ben, se você quiser, eu recuso o convite amor...
— Não Tori, você tem que aceitar. Ele tem fama, vai ser maravilhoso para sua carreira, vai fundo amor.
Ela tocou seu rosto.
— Você está comigo? Eu vou precisar de você, não sou boa como você... Somos parceiros, não é?
— Claro que somos.
— Para sempre?
— Sempre.
Flashback Énd
A aula terminou e ele saiu com os amigos para a sinuca, mas não venceu, não conseguia se concentrar, não conseguia se divertir. Ficava perguntando para si mesmo até quando seu bem-estar dependeria daquela idiotice. Resolveu se afastar e sentou numa mesa, pegou um dos guardanapo e começou a rabiscá-lo…
“É odioso, ser fraco assim, vulnerável, dependente, cansado, descrente, vencido, impaciente.
É tão cansativo ser inseguro
É tão desprezível se sentir o segundo
É tão doloroso e inevitável de comparar.
E eu comparo.
Mesmo que não tenha consciência de estar fazendo isso.
Eu comparo. É como se cada parte de mim tivesse um rival preciso.
E pior, eu nunca os supero.
Estão sempre dois passos à frente.
Me desespero.
Nunca me senti tão impotente.
Por que eu deixo minha paranóias ganharem as alturas?
Por que não posso ser normal, caralho, isso tem cura?
Compulsivo, obsessivo, depressivo, cansativo
Apenas mais uma vida a esmo.
O maior inimigo de um homem, companheiro, é ele mesmo”
Era complicado demais sentir aquilo tudo, complicado demais. Guardou o papel no bolso da camisa e voltou para a sinuca, ia se distrair, precisava. E estava decidido a fazê-lo.
...
Uma hora antes.
Harry e Gina estavam sentados na pequena mesa da cozinha, tomando café. Uma cena tão simples, quanto inusitada. Simples demais para Harry. Mas ainda assim ele parecia extremamente relaxado.
— Eu já disse que você parece outra pessoa quando está longe dos holofotes ou daquele seu terno brega e caro?
— É um Prada sabia?
— Mas é brega.
— Quer escolher meus ternos Gina?
— Eu, com certeza faria um serviço melhor que o seu — Ela disse esnobe.
— Quer escolher minhas cuecas também? — Ele provocou, e ela entrou na provocação.
— Não... Prefiro você sem elas.
- Você só está dizendo isso por que sabe que eu tenho que ir embora...
— Não sei mesmo por que você tem que ir.
— Por que eu tenho um jantar na casa do Primeiro Ministro, e não me olhe assim, eu já te disse que só haverá homens neste jantar, é um jantar de negócios, mulheres... Atrapalham.
— Começou o machismo. Eu negociaria os corações e fígados daqueles velhos com as mãos nas costas.
Harry gargalhou.
— Sim, eu sei, e denunciaria todos eles depois do jantarr — Gina ficou séria — Harry, eu... Preciso perguntar uma coisa a você.
— Nossa... Eu fiquei gelado agora. O que é?
— Você é inocente?
Ele fez uma careta.
— Hum, depende...
— Tô falando sério, Harry!
— Eu também. Depende do que você está perguntando Gina, não sou um santo, tenho muitos pecados nas costas. Inocente do que exatamente?
— Das acusações que estão te fazendo no tribunal.
— De algumas delas... Sim.
- Algumas?
— Não faz essa cara Gina. O que você quer, que eu minta?
— Não, claro que não!
— Então... Você perguntou...
— Por que eu preciso saber Harry, preciso saber se você é culpado por todas aquelas... Atrocidades.
— Como eu disse, todas não.
— E quais então?
— Eu já matei...
— Aquele garoto do orfanato não vale.
— Vale sim. Eu o matei, isso vai ficar para sempre. Já intimidei, já ameacei, já soneguei impostos... Mas quem não sonega? O Primeiro Ministro sonega... – Ele deu uma gargalhada curta – Já subornei, menti... A lista é longa Gina.
— E a acusação de assédio e estelionato?
— São falsas. Olhe bem para mim, eu vou assediar uma mulher? Para que?
— Convencido, idiota.
— Pratico. E o estelionato também é falso. Não roubo de pobres, não tem graça roubar pobre, é fácil demais.
— Harry...
— Sou inocente Gina, eu trapaceio, minto, mas não roubo, não de quem não tem. Eu não sou nenhum Robin Hood, mas não tenho paciência para roubar migalha, se é para vencer que seja uma fortuna. E não faço isso de maneira ilegal, ganho no jogo, geralmente, apostas são o meu forte. Joga quem quer.
— Isso é tão sujo.
— A vida é suja. Mas o mais importante é... Não tenho de fato uma culpa. Não uma que justifique eu ir para cadeia.
— E por que o pai do Mike insiste em te acusar?
Harry ficou serio.
— Não sei — Mas ele estava mentindo. Ele sabia, e sabia bem.
— Você me deixa confusa.
— Não estou mentindo para você. Pode ter certeza. Se eu faço as coisas, eu assumo. Não tenho medo.
— Jura que está me dizendo toda a verdade, é importante para mim saber.
Ele olhou nos olhos dela.
— Eu juro Gina.
— Ok, então.
Ele sorriu, levantou e a puxou.
- Preciso ir.
— Vou sair.
— Para onde? — Ele perguntou com uma careta.
— Não interessa.
— Não custa dizer, custa? Eu posso te dar uma carona.
Ela segurou a gola de sua camisa e o puxou para perto encostando-o na parede.
— Pede com jeitinho Potter, quem sabe eu não conto.
- Sacana.
— Pede Harry...
— Me diz... Vai? — Ele disse baixo, com a boca perto da dela e Gina sentiu um arrepio.
— Vou jogar sinuca, com o Draco.
Ele riu pelo nariz.
- O cantorzinho, filho do Malfoy?
— Não confunda o Draco com o pai, eles não se entendem e definitivamente não são iguais.
— Sorte dele. Mas faça-me um favor?
— Qual?
— Não perca de um Malfoy.
— Palhaço. Tem uns minutos?
Ele olhou o relógio...
— Uns minutos... Tenho... Por que?
— Me beija?
— Gina...
— Vai Harry...
— Caralho, eu tô mesmo fudido com você.
Ela montou em seu colo e o beijou impedindo-o de continuar... O jantar ia atrasar.
Uma hora depois.
A sinuca não estava mesmo funcionando para Draco. Ele voltou para a mesa e sentou-se revoltado consigo mesmo por estar sendo tão fraco. Pediu uma dose de whisky puro, quem sabe a bebida não o relaxaria. Virou a dose de uma só vez. A bebida queimou sua garganta, queimou seu estomago, mas a dor não passou.
Ele pediu outra.
Virou de uma só vez e a sensação continuou a mesma. Outra. E outra... E outra e nada mudava. Ele tirou o guardanapo do bolso e começou a resmungar para si mesmo.
— Idiota... Moleque idiota... Nem é grande coisa, só aparece por causa daquele bando de tatuagens nojentas e aquelas gírias imbecis... Palhaço... Cara de puta...
O papel que ele enrolava entre os dedos foi de repente arrancado das suas mãos sem aviso. Ele olhou pra cima e em seguida baixou os olhos, como se não se importasse. Encheu um novo copo e o virou. Ouviu a cadeira ser arrastada e posta ao seu lado. As unhas vermelhas começaram a bater na mesa com uma certa impaciência e então ele ouviu uma voz levemente irritada.
— Está comemorando, Draco?
— Estou.
— Posso saber o que?
— Minha imbecilidade... Minha incapacidade... Minha estupidez...
— Uau! É mesmo? E eu posso comemorar junto? Por que tantas qualidades assim num só ser, é motivo de comemoração, não acha?
— Sempre piadista, não é Gina?
— E você, sempre pessimista. O que está havendo?
— Tô de bad.
— Percebi. Por que?
— Por que a vida é um estrume. Sempre dá um jeito de sujar seu pé, quando você está distraído.
— Quanto otimismo senhor. Qual é o problema doninha?
— Não quero falar sobre isso, Gina...
— Mas vai Draco... Você sabe que vai. Sabe que eu não vou sair daqui até que me conte o que houve, então poupe o nosso tempo e fale.
Ele respirou fundo e tomou mais uma dose. Sua voz já estava começando a enrolar.
— Astoria...
— Vocês brigaram?
— Não...
— Então?
- Eu... Estou com medo.
— Medo de que homem?
— Medo de perdê-la.
- Mas por que Draco?
Ele coçou a cabeça e apertou os olhos. Estava meio bêbado, os olhos ardiam.
— As vezes eu acho que não consigo mais… Impressioná-la. Não como antes.
— E por que acha isso?
— Ah por que? Por que…Eu não sei explicar.
— Me dê um bom motivo para você supor que Astoria tenha perdido o encanto por você. Pelo que eu posso ver, ela ainda está tão apaixonada quanto no primeiro dia.
— Eu não sei Gina… Às vezes ela fica… Não sei distante… Não, distante não é a palavra. Distraída… Também não é essa. Desculpe, eu não sei explicar.
— Ah é, provavelmente você está viajando de novo. Sabe Draco vocês homens são tão previsíveis que cansam. Estão sempre achando que uma cubo de gelo é um iceberg. Se Deus soubesse a bela merda que sairia quando criou vocês, ele teria mudado de ideia.
- Você é tão gentil Gina… Que comovente.
— Eu sou pratica. Por que é que você acha que a Astoria está distante? Vocês tem brigado muito?
— Não.
— Ela está fria? Não conversa com você?
— Não é isso...
— Vocês não tem passado muito tempo juntos?
— Não, digo sim... Digo, passamos sim...
— Vocês têm transado com frequência?
— Gina!
— O que? Falta de sexo causa o mal da “idiotice”. Tão transando ou não?
— Claro que sim!
— Então, o diagnóstico é:Você está viajando.
— Eu? Eu tô viajando? Mas Gina... Tudo agora é aquele idiota do Ben Summers, não tem um dia, um maldito dia que não escute um suspiro por causa daquele idiota tatuado, cover de traficante. Tô de saco cheio de ouvir falar tanto desse palhaço, é Ben para lá, Ben para cá. Puta que pariu para o Ben. Tá certo Astoria passar o dia inteiro, falando, se derretendo ou sei lá mais o que por causa desse babaca?
— Por que será que eu sabia que isso era ciúme Draco?
— E eu não tenho motivo? — Ele virou outra dose.
— Tem? Ela dá mesmo motivos? Ela está dando em cima do Ben?
— Eu não disse isso.
— Ah disse sim, de maneira retórica, mas disse sim.
— Não, Gina, eu não quis dizer isso. Eu só quis dizer que...
— Está com inveja do Ben?
— Você tá de onda?
— Não. Olha para mim, e vê se eu tô de onda? Você está se mordendo de ciúmes da atenção que a Astoria dá a ele e quer saber, Draco? Isso é meio egoísta por que até onde eu sei, ela tem o direito de ser tiete dele.
— Mas ela é melhor que ele! — Ele alterou um pouco o tom de voz — Como ela, mais talentosa, pode ser tiete de um cara sem um pingo de bagagem, que canta musica stick e não fala uma sílaba que preste?
— Primeiro, ela é melhor que ele na sua opinião. Segundo, gosto não se discute. O que você achava? Que seria o ídolo dela para o resto da vida? Acorda Draco, vocês não são mais adolescentes, essa fase passou. Ela admira o trabalho dele, respeite isso.
- Eu quero... – Ele tomou mais uma dose e uma lágrima caiu – Eu digo isso para mim mesmo todos os dias... Mas eu não consigo... Você não entende? Era assim conosco, não exatamente igual, mas... E se... E se ele... E se ela se apaixonar por ele?
— Pelo amor de Deus, você já está bêbado.
— Não Gina, me escuta... — Ele segurou na mão dela — Ela disse, ela disse assim... Não é engraçado Dray? Nós dois começamos assim... Ela disse isso... E se...
— Draco... Ela estava brincando, meu amor — Gina amaciou o tom de voz.
— Mas e se acontecer?
— Astoria é louca por você, pare com isso.
Ele arriou na mesa.
— Eu não sei como eu vou fazer se eu ficar sem ela Gina... — A voz saiu chorosa, misturada ao efeito do álcool — Eu vou perder o rumo, tenho certeza disso.
— Para com isso garoto! Ok, Draco... Já chega não é? Vamos para casa.
— Não quero ir para casa.
— Você já bebeu demais Draco! Vai para casa sim!
— Não me trate como criança!!
— Então não se porte como uma seu mauricinho mimado!
— Eu sou adulto Gina!
— Nossa, é? Nem percebi, você tem um cérebro também? Ai em algum lugar?
— Pooorra! Você enche o saco quando quer.
— E você é um idiota. Agora levanta o rabo dai e vem comigo.
- Gina vem cá... – Ele chamou mudando completamente o tom de voz. Ela se curvou perto dele.
— Se... Um dia...
— Draco, caralho, pára!
— Escuta... Gin... Escuta. Se um dia ela me deixar... Você vai tá aqui, não vai? Você vai me ajudar? Por que eu não vou conseguir sozinho...
— Meu Deus, onde estava sua mãe que não te deu uma surra quando era preciso?
— Vai? Ou não?
— Vou, Draco... Obvio, né? Embora não vá precisar, agora vamos, venha comigo — Ela o levantou e o levou para o carro.
Na mesa ao lado, nenhum dos dois notou a presença de uma jovem loira, que havia ouvido toda a conversa...
"A lealdade de um homem é uma das honras que até mesmo um animal desenvolve quando entrega seu coração a quilo que ele acha importante se dedicar"
G. Guedes
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