Intimidade
15 A Viagem Surpresa I
"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos"
(Charles Chaplin)
Remo Lupin parecia nervoso. Havia convocado uma reunião surpresa na primeira hora da manhã com toda a equipe do projeto Malfoy. Ele andava de um lado para o outro enquanto as pessoas iam se acomodando nas cadeiras da sala de reuniões.
Quando todos pareciam prontos a escutar as suas explicações, ele se adiantou e ia iniciar o discurso, mas a porta se abriu e McLaggen entrou.
— Um instante Remo. Eu vou acompanhar a reunião.
— Para que? — Remo perguntou.
— Ordens do meu tio. Tenho que fazer um relatório sobre o que exatamente vocês estão fazendo pelo projeto Malfoy. Ao que parece vocês não estão fazendo o bastante.
Rony estava sentado ao lado de Hermione. Batia os dedos nervosamente na mesa. A conversa com Katherine não lhe saia da cabeça. Hermione não tinha lhe perguntado nada, sequer tinha tido uma oportunidade, mas a maneira como ela lhe olhava de relance, mostrava que ela já sabia que havia algo errado.
Ele precisava pensar no que ia dizer.
Remo começou a falar, as primeiras reclamações vieram sobre o prazo de entrega do projeto. Em seguida, Remo distribuiu tarefas e viagens que deviam ser cumpridas pela maioria em um curto espaço de tempo. Rony e Hermione ganharam o fim de semana livre, para criarem seus esboços e apresentarem na segunda feira seguinte.
Durante toda a reunião, Cormack interrompeu, atrapalhou, fez perguntas desnecessárias e piadas fúteis. Ele estava sentado atrás de Hermione e todas as piadas que faziam pareciam ser direcionadas a ela.
Assim que a reunião terminou, Hermione tirou o celular da bolsa, e mesmo estando a menos de um metro de distancia de Rony, preferiu a discrição. Mandou-lhe uma SMS avisando que o esperaria no térreo, para almoçarem juntos e então saiu irritada sem nem olhar para trás.
Rony conversou alguns minutos com Remo e em seguida começou a se preparar para deixar o lugar. Um grupo de homens estava perto da máquina de café junto com Cormack de tempos em tempos riam alto.
— Que idiota.
- Não sei por que Quim faz isso. Manda este idiota como supervisor. Por que ele não contrata um supervisor de verdade?
— Acho que Quim ainda tem esperanças de que esse palhaço sirva para alguma coisa.
Mais uma rodada de risos. Rony ajeitou os desenhos.
— Remo, eu vou embora antes que tenha uma indigestão antes do almoço.
— Acho melhor, meu amigo... Eu também vou. Aguardo os esboços, vamos fazer isto andar.
— Vamos.
Remo se aproximou primeiro da porta e ia saindo quando McLaggen o chamou.
— Lupin! Passe todas as informações sobre o projeto Malfoy para o meu computador, hoje.
— Peça isso a sua secretária, McLaggen, todas as informações do projeto estão disponíveis na base de dados da empresa.
Cormack deu um muxoxo.
— A proposito... Estou gostando do seu bom gosto.
— Como disse?
— Seu bom gosto para funcionários – Ele se virou para o rapaz ao lado — Você viu a nova funcionária? A gostosa que veio de Leeds? Só vi de costas mas, nossa..
— O que tem ela?
— Gostosa para caramba. Não dou uma semana para ela estar na minha cama. Sabe como é né? O lance patrão e empregada?
Rony não respondeu. Apenas levantou os olhos tentando conter a raiva.
— Se fosse você eu não contaria com isso.
— Que foi Remo? Tá de olho na garota? Nymphadora sabe disso?
— Não me tome como você Cormack, eu sou um homem casado, fiel e feliz. Eu estou dizendo por que como você disse, eu tenho um bom gosto para contratar funcionários. Isso inclui a índole dos mesmos. Hermione está aqui para trabalhar e não é uma de suas coleguinhas que ganhou cargo como favor, ela é uma profissional. Agora se me dá licença Nymphadora está me esperando.
Cormack até tentou responder, mas Remo não esperou e saiu da sala. Os homens ao seu redor ficaram em silêncio, todos tentando conter a vontade de rir. Rony terminou de arrumar as coisas e foi para a porta.
— Weasley, espere, quero falar com você sobre os esboços...
- Sinto muito McLaggen, estou no intervalo agora, qualquer duvida está tudo na base de dados, com licença.
E deixou McLaggen para trás, como sempre, com cara de idiota. Ele tomou o elevador em direção ao saguão principal. Faria como todos os dias.
Esperaria quinze minutos no saguão conversando com alguém, depois iria pela rua contrária a que ela tinha ido, até o pequeno restaurante onde costumavam comer na área reservada, todos os dias.
O Lawrence’s era o lugar perfeito para quem queria ser discreto. Haviam mesas reservadas, e o custo não era tão alto por isso, a comida era bastante boa, eles já tinha se acostumado.
Parecia uma rotina. Uma rotina boa.
Ele entrou e caminhou até a mesa que normalmente ficavam, ela não estava lá. Hermione não se atrasava.
Nunca.
Muito menos furava um encontro. Normalmente ela mandava uma sms, um email ou dava um telefonema. Aquilo não era natural. Ele sentiu um vazio estranho.
Talvez ela tivesse encontrado alguém no caminho. Uma amiga... Ou amigo?
Ele passou a mão no rosto tentando afastar o pensamento ruim.
Com certeza tinha sido Joey, ele deve ter ligado, algum problema deve ter ocorrido, na escola...
O pensamento que deveria ter aliviado um pouco suas desconfianças o fez sentir-se pior, e se tivesse acontecido alguma coisa com Joey? E se ele tinha acabado de conhecer o menino por que estava tão preocupado. Não era afeiçoado a crianças. Nunca tivera instintos paternais como...
-Não! – Ele disse a si mesmo – O menino é legal, inteligente, eu... Curto a mãe dele, mas não tem nada de paternal nisso. Que idiotice.
— Bom... Mas não custa ligar só pra saber se eles estão bem... Qualquer bom amigo faz isso, não é? – Ele falou consigo mesmo – Claro que faz, e que tipo de amigo eu seria se sequer mostrasse um pouco de preocupação? Afinal... Somos colegas de trabalho e...
- Com licença senhor? — O garçom o abordou e o tirou do devaneio.
— Sim?
— A mesma mesa de sempre? A senhorita ainda não chegou, mas...
— Ah, não... Obrigado, mas surgiu uma emergência, eu vou precisar ir embora.
— Tudo bem senhor, tenha um bom dia.
Ele saiu apressado e discou o numero dela. Três tentativas, todas três ele foi direto para a caixa postal.
— Que droga! — Ele fechou o telefone com força – Talvez tenha acontecido algo grave, ou não. Por que ela não me avisou? – Ele continuou andando, sem prestar muita atenção na estrada, acabou sendo despertado dos devaneios por uma buzina alta e mau humorada.
— Tá maluco, idiota?
— Vai se ferrar palhaço!
— Vai se ferrar você maluco. Quer morrer?
— Vai cuidar da sua vida!
— Imbecil, anda na frente dos carros e quer ter razão?
— Não enche meu saco!
Ele chegou ao outro lado da rua bufando. Sabia que estava errado, completamente errado. Deveria ter pedido desculpas e aceitado o safanão, mas seu humor de repente, havia mudado.
Ele chegou perto de uns telefones públicos. Não ia parar. Não era exatamente o que pensava em fazer no momento, mas foi algo mais forte que ele.
— Eu não deveria estar fazendo isso... – Ele disse enquanto discava. Após três tons e a secretaria atendeu.
— Lisa? Ronald Weasley. Eu tive um imprevisto, perdi toda a base de dados de design de interiores, eu poderia falar com a responsável pelo projeto Malfoy por favor?
— Claro, só um minuto senhor... — Ele esperou por um tempo até que a mulher falou de novo – Sinto muito senhor Weasley, mas a senhorita Granger que é responsável pelo projeto não se encontra.
— Que droga!
— Não tem como esperar até amanhã senhor?
— Preciso entregar este relatório amanhã Lisa... Que droga...
— Espere um minuto... Eu poderia localizar o telefone da senhorita Granger? Deseja?
— Pode fazer isso? – Ele pôs um pouco de entusiasmo na voz e ouviu uma risadinha.
— Olha, poder, poder eu não posso, mas para o senhor eu faço.
- Obrigado Lisa, você é um anjo.
Em mais alguns segundos ele conseguiu o numero. Sabia que estava burlando as regras, invadindo a privacidade dela, mas não estava conseguindo evitar, era mais forte que ele.
O problema é que conseguir o numero dela não adiantou. Ela não atendia o telefone.
Decidiu que esperaria. Estava se comportando como uma criança mimada e apressada. Uma súbita vontade de ir até a casa dela, tirar satisfações, surgiu. Mas ele controlou.
Há muito custo simplesmente voltou até a empresa, pegou seu carro e voltou para casa.
Rony chegou exalando mau humor. Ele não conseguia controlar a maneira como se sentia. Entrou batendo a porta.
Tentou aliviar o estresse, dizendo a si mesmo que o problema tinha sido a falta de aviso.
— Ela poderia ter me enviado um mísero recado... Eu não teria feito papel de bobo...
Ele caminhou por dentro do apartamento, como um animal enjaulado, quase que em círculos e por fim sentou-se com violência.
— Chega desta merda! Vou trabalhar que é mais vantajoso.
Ele acreditava verdadeiramente que iria trabalhar.
— Ora, ora, ora... Estressado Weasley?
Harry vinha saindo do corredor que dava acesso aos quartos.
— Harry? Mais que porra de susto!
Harry riu.
— Achei que quem devia a polícia era eu. Não grave isso.
Rony o olhou de lado com cara de poucos amigos.
— O que tá fazendo aqui? Você tava no meu quarto? Harry se você trouxe mulheres para o meu apartamento eu...
— TSC! Sério? Trazer para cá? Olha Rony nada contra, sério mesmo, eu adoro seu apartamento, me sinto em casa aqui, mas... Um: As garotas dariam entrevista em programas idiotas no dia seguinte. Dois: Sua irmã é um dragão alado de três cabeças que cospe fogo, então... Não.
— Para de chamar minha irmã de monstros mitológicos estranhos e perigosos.
— Mas sua irmã é estranha e perigosa... E cospe fogo, alguém esqueceu de catalogá-la na Grécia.
— Idiota.
- Eu acabei de chegar, tava te procurando, mas... – Um barulho vindo do quarto de Gina seguido de um grito o calou por uns momentos – Vi que sua irmã estava em casa e ia embora... A propósito, ela está cuspindo fogo.
Rony virou os olhos.
Outro barulho, agora pareceu algo quebrando.
— O que a Gina tem?
— E eu que sei? Acha mesmo que eu cheguei perto o suficiente para que ela me visse? Eu estaria fatiado agora.
— Tava espiando minha irmã?
Harry estreitou os olhos, com a expressão mais debochada do mundo.
— Rony as vezes eu acho que você tem problemas mentais.
— Não exagera mano, a Gina é bonita.
— Sua irmã é quase um Vudo, beleza não é tudo, integridade física e mental contam.
— Ah, vai se ferrar Harry.
Um barulho mais alto seguido de outro grito.
— Não é melhor ajudá-la?! Eu acho que seu apartamento não vai ficar inteiro se continuar desse jeito.
Rony arriou na cadeira.
— Isso não é o pior. O pior é que eu tenho todo o projeto Malfoy para entregar segunda feira, não fiz absolutamente nada, ganhei o fim de semana para terminá-lo, mas não vou conseguir, não sem silencio absoluto.
— Algo que sua irmã não sabe fazer — Rony estreitou os olhos – Tô mentindo?
— Desisto.
— Tá, tá, eu tô brincando, olha só eu acho... Que eu tenho uma solução para o seu problema.
— O que?
— Minha casa de campo em Oxford.
— O que?
— Minha casa de campo em Oxford.
— Oxford?
— É. É perfeita para você. Tem uns dois anos que eu não piso lá. A casa é grande, confortável e tem todo o silencio que você precisa.
— Hum...
— Acho que seria uma boa opção.
— Sabe Harry... As vezes... Só as vezes... Você diz algo que preste.
Harry abriu um sorriso satisfeito.
— É cara, eu também gosto muito de você.
— Palhaço. O que vai fazer agora?
— Jogar seu vídeo game e você?
Rony olhou-o de lado.
— Vou dormir Potter, ao contrário de você eu trabalho e me canso.
- Pobre mortal...
— Harry, eu vou para o quarto, não quero responder seus comentários por que você foi de grande serventia hoje. Se Gina sair cuspindo fogo, favor proteger meu Playstation, fui.
— Vai com fé cenoura...
Ele caminhou até o videogame e ouviu a porta do quarto de Rony se fechar. Relaxou no sofá enquanto via a abertura do game na tela. Ia carregar o jogo salvo quando sentiu um tabefe na cabeça.
“PAF”.
— AI caralho! Que porra é essa?
Se virou e viu Gina parada de braços cruzados em frente ao sofá.
— Então eu sou um Vudo?
— Ai Gina... Precisava bater tão forte?
— Gostaria de ter arrancado sua cabeça seu palhaço sem calças.
— Que violência ruiva...
— Não me venha com ruiva...
— Eu só estava tentando disfarçar Gina.
— Precisava me chamar de dragão?
— Você fica escutando atrás das portas é?
— Não seu idiota. Eu estava preocupada que Rony tivesse... Ouvido... Algo.
Harry deu de ombros.
— Quem manda ser escandalosa.
— Não começa e nem desvia do assunto Potter!
— Eu só tava tentando manter as aparências, para o seu irmão a gente se odeia.
Ela rodeou o sofá e encostou o dedo no peito dele.
— Acho... Melhor... Se empolgar... Bem... Menos... Harry... James... Potter.
— Ai Gina isso machuca.
— Bom saber.
— Rony vai ouvir.
— É bom, assim ele te mata de uma vez.
— Birrenta.
— Safado.
— Se continuar assim eu vou te beijar.
— Não! Não vai.
— Vou sim...
— Harry não.
— Cinco segundos para correr para o quarto, é a sua vantagem.
— Harry...
— Quatro
— Eu tô...
— Três...
— Louco!
Ela soltou um gritinho baixo e correu para o quarto com ele em seu encalço.
....
Rony adormeceu pesadamente. Ele não tinha noção se foi o cansaço, a tensão ou as duas doses de whisky puro que o ajudaram, mas ele dormiu sem sonhar. Acordou as seis da manhã ansioso e totalmente alerta.
Tomou banho, comeu e se vestiu em tempo recorde, e saiu para a empresa.
Ele não precisava ir até lá, poderia simplesmente se aprontar e ir embora para Oxford, mas inventou mil coisas que precisava para o projeto, embora soubesse que a razão era uma só e tinha nome, Hermione.
Mas ela não estava lá. Nem tinha dado noticias.
Os medos se misturaram dentro dele. Muitas coisas vieram a sua cabeça.
Teria acontecido algo grave com ela? Com Joey? Ou seria outro cara? Ele não conseguia entender a falta de noticias.
Tinha decidido viajar ainda de manhã e estava pronto para cumprir sua palavra, mas algo dentro dele corroía.
Ele não ia vê-la. E o sábado deles?
Uma idéia louca veio a sua cabeça. Louca e igualmente genial.
Ele simplesmente pegou as chaves e saiu.
Hermione estava terminando de regar as plantas da frente da casa, os olhos ainda estavam um pouco avermelhados, mas muito menos inchados que a noite anterior.
Ela parecia cansada, desconcentrada, sequer notou o carro de Rony se aproximar.
Ele dirigiu até perto da entrada da casa.
Sabia que não deveria ter feito aquilo, era parte do acordo, sem envolvimentos desse nível, mas foi mais forte do que ele, mais do que ele podia segurar.
Parou o carro e buzinou, mal podia esperar para ver a reação dela.
Hermione virou-se devagar e quando finalmente se deu conta do que estava acontecendo arregalou os olhos e se engasgou.
— Entra no carro.
— Rony, você ficou louco? Não pode vir até aqui… Como sabe…
— Vem Hermione entra no carro, eu tomei cuidado, ninguém me viu, vem logo.
— Para onde?
— Não faço idéia. Vem comigo.
- Não! Rony, eu não posso...
— Pode sim, vem!
— Rony, você está louco, ou bebeu ou ingeriu alguma coisa que não está te deixando pensar, mas não... Eu não posso, eu tenho responsabilidades que me impedem de...
— Traga o Joey... Eu não ia querer que você simplesmente largasse o menino ai.
— Mas...
— Sem mas... Tem dez minutos para arrumar duas malas para o fim de semana... Vamos, vamos...
Ele desceu do carro, segurou a mão dela e a fez entrar em casa.
— Rony... Pára com isso, o que você está fazendo?
Mas ele não respondeu, virou-se primeiro para o garoto e abaixo-se ficando da altura dele.
— Gosta de lago? – O menino afirmou com a cabeça – E cavalos? – Ele voltou a afirmar.
– Conhece o campo? Já esteve numa fazenda?
— Já fui uma vez.
— Perfeito, então, você vai fazer uma coisa Joe, vai subir e vai arrumar suas coisas. Pega tudo o que você quiser e a gente vai para uma fazenda bem legal, o que acha?
— É sério?
— É claro que é.
— Você vai me levar?
— Lógico! Você não é meu amigo?
— Sou.
— Lá é um lugar para eu levar meus amigos. Agora vai lá e se arruma, vamos indo logo.
...
Hermione queria entender exatamente o que estava fazendo, agindo roboticamente e obedecendo a todas as ordens de Rony, mas antes que ela pudesse processar qualquer coisa, já estava sentada na parte da frente do carro, ouvindo Joseph sibilar uma musiquinha do filme “O Rei Leão”.
Olhou de lado... Rony parecia muito satisfeito consigo mesmo. Quem via de fora, poderia facilmente imaginar uma rotineira cena de viagem em família. Ela parecia estar em outra dimensão observando as atitudes dos dois. De repente Rony juntou-se a Joseph cantando e eles formaram um péssimo e divertido coral.
“Hakuna Matata"
Ela poderia ter matado qualquer um por aquele “Hakuna Matata” desafinado e alto, mas alguma coisa naquela cena era emocionante... Perigosamente emocionante. A viagem não foi muito longa, ou ela se perdeu mesmo no tempo e no devaneio de algo que não lhe pertencia, mas se assustou quando Rony buzinou para o segurança na frente da casa.
Aliás... Que casa. O que ele mencionou ser uma casa de campo de um amigo, mas parecia uma fazenda da família real. O lugar era imenso. Sem exageros.
Joey entrou olhando abismado, mas com a energia de uma criança. No hall de entrada já se percebia que o dono tinha muito dinheiro a contar pelo valor dos quadros que enfeitavam o lugar.
— Olha Mãe!!! Modigliani.
Rony virou-se e encarou o garoto.
— O que ele disse?
Hermione respondeu tranquilamente como se aquela fosse uma cena rotineira.
— Ele está mostrando aquele quadro do pintor italiano Modigliani...
— Até ai eu entendi, o que eu ainda vou precisar processar é como este menino sabe pronunciar isto.
— Ora Ronald, francamente! Não seja exagerado, ele já tem quatro anos.
— Ouça você mesma Hermione, ouça o que está dizendo. Este menino só tem quatro anos.
Ela revirou os olhos.
— Antiquado.
— O senhor Potter nos avisou que vinha — Rony franziu o cenho. A mulher tinha lido os pensamentos dele? – Seja muito bem vindo... Estou a disposição para o que os senhores precisarem, meu nome é Angel.
Hermione sorriu e estendeu a mão cumprimentando a mulher.
— Obrigado Angel.
Rony apenas acenou com a cabeça.
— Mãe!! Mãe!! Tem cavalos, olha! Olha! Olha só mãe! Olha o tamanho daquele cachorro, vamos lá ver! Me leva para ver!
— Não, Joseph, espera, precisamos nos instalar, desfazer as malas.
— Por favor, mãe, por favor...
— Joey...
— Hermione... Por que você não desfaz as malas de vocês e eu levo Joey para ver os cavalos? Depois eu arranjo a minha.
— Não Rony... Você deve estar cansado, foi uma viagem longa...
— Tá me chamando de velho?
Ela riu. Não conseguiu evitar.
— Não, senhor vitalidade, eu só...
— Eu dou conta sabia?
- Sabia sim, senhor.
— Então deixa a gente ir? Prometemos nos comportar.
Ela balançou a cabeça sorrindo.
— Tudo bem, mas eu tenho uma ideia melhor. Eu desfaço nossas malas enquanto vocês olham os cavalos, e os senhores não se atrasam para o jantar.
— De acordo Joey?
Rony piscou para ele e o garoto acenou concordando.
— Até logo mamãe.
Desta vez ele piscou para ela, mas não era cumplicidade que havia ali. Era intimidade.
Hermione demorou um pouco no hall observando os quadros, depois subiu em direção aos quartos indicados por Angel, onde suas malas tinham sido levadas.
-O senhor Weasley e a senhora ficarão na suíte principal e o garotinho pode ficar no quarto conjugado, assim não perdem eles de vista — Angel tinha dito.
Ela sentiu o útero revirar, mas não podia dizer que não sabia que dormiriam no mesmo quarto. Nem que não queria. Ela já tinha desfeito as malas de Joey antes de ir para o quarto “deles”.
O lugar não parecia uma suíte principal, e sim uma suíte nupcial. Aquela cama parecia ter escrito em cima, “transem aqui”. Ela forçou-se a sair do transe. A sua mania de perfeição havia custado horas, a tarde já caia e Rony e Joey ainda não tinham voltado. Ela guardou os últimos objetos e desceu para procura-los.
Ela não precisou andar muito. Logo os encontrou próximos a entrada da casa principal. Completamente encharcados, brincando com uma mangueira.
Primeiro ela estagnou. Depois ficou vermelha, reagindo primeiramente como uma mãe super protetora. Ou uma esposa...
— Ronald pelo amor de Deus, o que você pensa que está fazendo? Olha só a situação deste menino, meu Deus, olhe isso... JOSEPH! Já para o seu quarto se enxugar e se trocar!
— Não grita com ele Mione.
— GRITO COM VOCÊ TAMBÉM! VOCÊ PODE PEGAR UM RESFRIADO, VOCÊS DOIS... JOSEPH, JÁ PARA O QUARTO, TOME UM BANHO, SE AGASALHE E NÃO SAIA DE LÁ ATÉ EU MANDAR.
— Mãe...
— AGORA JOE!
O menino baixou a cabeça e virou-se pra Rony falando num sussurro audível.
— Melhor eu ir Ron... Ela assim brava é de dar medo... Mas foi divertido.
Rony riu e Hermione estreitou os olhos. O menino saiu rapidamente ao ver os olhos mortíferos da mãe. Hermione virou-se apoiando as mãos numa cadeira, respirando forte e irregularmente, como se estivesse prendendo algo dentro de si.
— Mione...
— Não! Não! Não comece. O que foi isso aqui? Eu... – Ela virou para encará-lo e foi interrompida.
— Molecagem?
Ela ficou parada com a boca aberta. Estava pronta para um discurso de horas, mas o jeito de Rony falar, o sorriso no rosto dele, as roupas e cabelos molhados e as lembranças dos risos com o menino afloraram sua mente e penetraram seu coração. Ela ficou imóvel. Rony aproximou-se, os pingos que se soltavam molhando todo o chão. Tocou-lhe o rosto.
— Não leve tudo tão a sério Hermione, estávamos só... Brincando sabe? Só... — Ele a abraçou devagar, quebrando qualquer resistência que ela estivesse sonhando em impor e de repente agarrou-a na cintura erguendo-a nos braços.
— O que você... O que está fazendo?
— Isso.
Então ele a molhou.
-Eu não acredito que você fez isso! — Seu tom era severo, mas Rony não conseguia levar à sério, ele ria cada vez mais forte e alto, deixar Hermione, controlada e controladora, for a de sério mostrou-se surpreendentemente prazeroso.
Ela bufava e resmungava, ele divertia-se cada vez mais.
— Você é um chato!
— Emburradinha!
— Me larga!
— Vem cá, vem, sua enfezadinha!
Hermione revidou com a mangueira, molhando Rony dos pés à cabeça, de supetão, ele mal tivera chances de se defender.
— Agora você vai ver!
— NÃÃÃÃÃO, AAAAH, SOCORROOO!
Rony correu atrás dela, que era mais ágil do que ela pensava que seria, mas, embora ela fosse uma mulher veloz não demorou muito para alcançá-la e agarrá-la pela cintura.
E quando os corpos se encontraram, o riso virou desejo. O divertimento se convertera facilmente em tesão.
Hermione molhada, totalmente molhada, com os cabelos, os cachos volumosos, presos ao rosto, as roupas, leves, colando no corpo, revelando curvas e caminhos, marcas de arrepio. Rony sentiu a parte baixa esquentar e pulsar assim como sentiu o corpo enrijecer em todos os lugares possíveis. E, infelizmente para ele, não havia como esconder.
A respiração dela alterou e o coração disparou descontroladamente no segundo em que notou o que estava acontecendo. Hermione não entendia porque saber que ele estava excitado, sobretudo por causa dela, mexia com seus hormônios desse jeito, tão automático, tão intenso e descontrolado. Ela não entendia, e nem queria mais entender.
Só queria sentir.
O tempo que levou para que os dois, que antes estavam se encarando, encharcados e excitados, se dependurarem um no outro com braços, pernas e bocas foi menor que o bater de asas de um beija-flor. Ela o enlaçou pelo pescoço e ele a segurou pela cintura, pelas pernas, pelos quadris, suspendendo-a, apoiando-a em seu corpo, pegando-a no colo e levando-a para dentro de casa.
— Ron!
— Shh!
Esqueceram Joey, esqueceram os empregados, esqueceram até a mobília de Harry que não podia molhar. Só conseguiam pensar em si mesmos, no calor de seus corpos, na pulsação do baixo ventre, no clamor, no desespero, na necessidade primitiva de penetrar e ser penetrada.
Entraram aos trancos e barrancos, sem largar um do outro, sem interromper os beijos, gemendo, resmungando, balbuciando coisas sem sentido. Rony a pressionava contras as paredes, Hermione o empurrava em cima dos móveis. Seguiram pelo hall da casa desse jeito, derrubando quadros e vasos caros, se despindo de qualquer jeito, se mordendo, se beijando, tentando aliviar aquela dor tão insana do desejo da melhor maneira possível.
Rony entrou no quarto e fechou a porta com um chute violento, arriou Hermione — já seminua — na cama, cobriu o corpo dela com o seu, desesperado, faminto, mordendo a pela clara, deixando marcas. Ela o acomodou entre as pernas e cravou as unhas em suas costas, gemendo o nome dele, arfando e bufando.
Ele levantou a saia que ela ainda usava e a beijou com vontade, Hermione cruzou as pernas na cintura dele e, mesmo sem sentir, eles iniciaram os movimentos de vai e vem, roçando seus sexos já muito excitados.
Então, eles ouviram uma batida na porta e congelaram automaticamente.
A porta estava destrancada, se a pessoa que estava do outro lado resolvesse abrir encontraria uma cena, no mínimo, constrangedora. Rony e Hermione se entreolharam, não ousaram se mexer até ouvirem novas batidas na porta e a voz de Joey soar através do carvalho antigo.
— Rony? Você taí?
Hermione tremeu e gemeu baixinho, escondendo o rosto com as mãos.
— Ai meu Deus.
As batidas persistiram, mas a porta não se abriu.
— Ron...
— Shh...Ele vai acabar desistindo...
— Não!
— Mione!
— Ronald! Temos que atender!
— Não, não temos não! Hermione, eu não posso atender!
— Se você não for, eu vou!
— Não, Hermione! — Rony apoiou-se na cama com os joelhos e indicou o membro mais do que ereto, fazendo uma careta de dor – Eu não posso atender!
Hermione ficou entre a vontade de rir e a tensão de ser descoberta pelo filho. Mais batidas na porta e Rony esfregou o rosto com força tentando recuperar a paciência.
Respirou fundo algumas vezes até conseguir se acalmar parcialmente, Hermione tampou a boca com a mão para não rir enquanto ele levantava e se vestia, tentando disfarçar a excitação do jeito que dava, abriu a porta devagar e mostrou metade do corpo para fora, bloqueando a passagem com o pé, embora Joey não tivesse tentado entrar.
Hermione se cobriu com pressa enquanto ouvia a conversa dos dois.
— Tá tudo bem?
O garotinho parecia preocupado.
— Está sim Jo. Por que?
— Ouvi batidas... Mamãe... Brigou com você?
— Um pouco.
— Ela te deu palmadas?
Rony riu alto. Foi inevitável.
— Não Joe. Ela não me deu palmadas, ela só reclamou um pouco, mas já tá tudo bem.
— Não gosto de brigas... — Ele fez uma expressão triste.
— Não estamos brigando, só discutimos um pouco, já está tudo bem.
— A gente vai embora?
— Não, não vamos, vamos ficar e nos divertir.
O garotinho sorriu.
— Será que mamãe me deixa jogar video game?
— Claro que ela deixa.
— Tem certeza? Eu acho que tô de castigo.
Rony afagou o cabelo do menino, Hermione conseguiu ver cada gesto de onde estava. A garganta secou, e o peito apertou. Ver Joey receber aquele tipo de carinho... Carinho de pai. Um carinho que ele nunca teve.
— Vamos fazer o seguinte campeão. Vá jogar, eu assumo a culpa se a mamãe se chatear tá bom?
Joey sorriu.
— Mesmo?
— Mesmo.
— Eu gosto muito de você Rony — Foi de surpresa para os dois. Para Rony e para Hermione, verem que o menino se atirou nos braços do ruivo, num abraço apertado, cheio de carinho.
— Eu também gosto muito de você garotão. Gosto muito.
— Vou jogar.
— Vai correndo.
Rony voltou com um sorriso abobado no rosto, que se desfez ao encontrar o olhar afetuoso de Hermione. Ele parou no meio do caminho observando o meio sorriso que havia nos lábios dela.
— Obrigada — Ela disse baixo e com a voz rouca.
— Pelo que...?
— Pela maneira como você o tratou... Aliás, como você trata meu filho. É muito importante para mim...
— Ele é um garoto especial.
— Ele gosta de você.
O ruivo riu, meio sem graça.
— Eu também gosto muito dele.
Eles se entreolharam por alguns instantes, Hermione o chamou com um dedo, um olhar sexy, mordendo o canto do lábio inferior.
— Vem cá, vem.
Rony se aproximou devagar, sentindo uma fisgada no baixo ventre. Era impressionante como aquela mulher tinha um domínio tão poderoso sobre ele. Prostrou-se em frente à cama, olhando-a fixamente.
— Eu te quero.
— Vem para mim — Ela disse com a voz alterada, em tom de súplica — Vem para dentro de mim, eu preciso de você.
Rony não conseguiu resistir a tal pedido, debruçou-se sobre ela, totalmente sobre ela tirando o resto das suas roupas. Hermione tremeu, atracando-se a ele com as pernas.
- Devagar. Devagar mamãe...Hoje... Neste exato momento, eu quero... — Ele colou seu corpo ao dela e a beijou. Não foi um beijo qualquer, foi um beijo muito longo, e tão excitante quanto doce. Ela sentiu o baixo ventre pulsar com violência — Fazer amor com você, Mione.
O coração dela começou a martelar. Bateu muito mais forte quando ela processou o significado das palavras dele, ou pelo menos, quando tentou. A cabeça, instantaneamente, se encheu de perguntas e a que mais se repetia era "O que ele quis dizer com isso"?
Mas, Rony era tão bom para fazê-la questionar coisas quanto era bom em fazê-la se esquecer delas e não se importar com mais nada, além deles dois. As mãos dele lhe assaltaram os seios e a boca tomou a sua em mais um beijo mágico. Hermione sentiu o corpo esquentar, derreter e transbordar.
Seu sexo umedeceu com violência e um líquido quente escorreu entre suas pernas sem que ela pudesse controlar a quantidade e a rapidez, tudo pulsando forte demais.
Hermione o abraçou com as pernas e os braços, ele enterrou a cabeça entre os cachos morenos, roçando o pênis nela, forçando, incitando, aspirando o cheiro dos fios, lambendo e mordendo o pescoço alvo da mulher.
— Ai Ron... Ain... — Ela tremeu e arfou alto.
— Tá gostando? É gostoso?
— Muito, muito, muito bom, muito...
Hermione arqueou o corpo com um pouco mais de desespero, buscando mais contato, mais fricção, mais saciedade para seu desejo, mas não adiantava, ficava pior, doía mais, pulsava mais, ela precisava ser preenchida.
— Ron...
— Você quer, não é? Você quer gozar? Goza... Roça teu corpo no meu até que você exploda de desejo...Vem, mãezinha, vem — Ele a beijou, as bocas se chocavam como se o dia seguinte não fosse chegar.
— Mas eu... Preciso sentir você, preciso, me penetra Ron, por favor, me penetra... –Ela o tocou, forçando-o a consumar o ato.
Rony sentiu seu gozo dar sinais e se desesperou.
Abriu as pernas dela o mais controlado que pôde e num único movimento, gentil, porém firme, entrou completamente nela. Hermione gemeu alto, mais alto do que gostaria, não conseguiu evitar. Cravou as unhas no pescoço dele enquanto ele lhe segurou os cabelos nos lados do rosto e iniciou os movimentos de penetração. Nem tão lentos, nem tão rápidos.
— Mais Ron... Mais...
— Você... É... Eu... Ai Mione... Meu Deus... -Ele não conseguiu parar, refrear, estender e em mais alguns instantes, sentiu seu penis bombear algumas poucas vezes antes de despejar-se dentro dela com um gemido gutural.
Hermione se prendeu mais forte e quando sentiu os jatos quentes do prazer mesculino em seu sexo foi açoitada pelo proprio orgasmo. Forte... Diferente... Perfeito.
Ele caiu por cima dela.
Era pesado? Era... Mas quem se importava? Ela com certeza não. Poderia morrer naquela posição...
Estaria feliz. Estava gostoso, muito gostoso ficar daquele jeito, abraçados, sentido o calor um do outro, o cheiro que emanava dos corpos deles após o sexo, o orgasmo absurdo resultando em sono, mas ambos sabiam que não podiam ficar daquele jeito.
Quem se mexeu primeiro foi Hermione. Até por que seu corpo começava a formigar com o peso dele.
— Ron...
— Hum.
— Não dorme...
— Não?
— Não.
— Mas eu tô com sono Mione...
Ela riu.
— Eu sei que está, mas não podemos dormir, Joey pode voltar...
— Ele foi jogar vídeo game.
Ela torceu a face.
— Ele devia estar de castigo.
— Mas nós também ficaríamos.
Ela não conseguia não rir...
— Tudo bem, tudo bem, mas mesmo assim, Joey é inquieto e já deve estar com fome, o vídeo game não o segurará para sempre.
Rony rolou até ficar de lado dela olhando para cima.
— Eu tô morto de fome.
— Então... Faça um esforço, levante-se e vá tomar um banho, eu vou providenciar o jantar.
— Você não vai cozinhar, aqui tem empregados...
— Ah eu vou sim. Eu gosto, e não venha me dizendo o que eu vou fazer.
— Venceu.
— Venci?
— É... Venceu. Você não quer cozinhar? Cozinhe
— Fácil assim?
— O que?
— Pensei que teria que lutar pela minha liberdade.
Ele riu e se apoiou no braço, ficando meio sentado, contemplou-a, nua e relaxada.
— Você é louca... Mas é linda.
Ela riu.
Ele percorreu o corpo alvo e macio com os olhos, já sentindo o corpo enrijecer um pouco, mas o devaneio foi interrompido, quando ele observou uma mancha escura, um arroxeado na cintura dela. Escura demais para ter sido resultado do sexo. Ele simplesmente tocou e no mesmo instante ela se retorceu e gemeu.
— Ai Ron...
— O que é isso Hermione?
O coração dela acelerou, acelerou muito. A garganta secou e ela sentiu uma pequena vertigem. Aqueles sinais claros de alguém que esconde um segredo e este está prestes a ser revelado.
— O que?
— Esse machucado aqui.
— Ah... Eu não faço ideia. Nós devemos ter passado do ponto.
- Por que tenho idade para ter deixado marcas na metade de Londres e saber como são quando acabamos de fazê-la. Me diga como se machucou.
— Eu não sei Rony, deve ter sido da ultima vez que transamos.
— Não, não foi.
— Como tem tanta certeza?
— Por que eu me lembro perfeitamente bem de como foi a ultima vez que transamos. Eu quero saber como se machucou.
Ela levantou e cobriu-se com o lençol da cama.
— Posso saber por que está nervoso?
— Eu não estou nervoso, estou muito calmo. Como você se machucou?
— Eu não sei, não lembro. Devo ter esbarrado em alguma coisa.
Ele também levantou, vestiu rapidamente a calça e foi até ela, segurando-a nos braços.
— Tem certeza?
— Tenho Rony, por que tanta desconfiança, o que acha que é?
— Eu não acho nada. Só tenho certeza de uma coisa. Uma única coisa. Se o homem que você me falou, o tal búlgaro, se achar, se ele sonhar sequer que tem o direito de tocar em você, ele vai ficar sem as mãos, compreendido?
— Quanta bobagem...
Ela tentou sair, mas ele a trouxe de volta.
— Entendeu Hermione?
— Entendi, entendi, agora pode deixar de ser grosso e me soltar?
— Depois que você me beijar.
Ela não concedeu ou negou o beijo. Aliás, ele não tinha pedido. Ele a segurou na cintura e a beijou. Foi um beijo duro, um beijo de aviso. Quando ele a soltou ela se deslocou um pouco meio zonza.
— Não pense que vai ganhar tudo com beijos, eu não gosto quando você demonstra desconfiança.
— Não estou desconfiando de você, não no sentido que você está sugerindo.
— Eu não estou sugerindo nada.
— Sim está, e eu não sou um homem de meias palavras Hermione, eu gosto delas inteiras, para que não fique nunca, nenhum tipo de mal entendido pairando no ar.
— Eu não falo por meias palavras.
— Eu não disse isso, o que eu disse foi que você muitas vezes suprime o que pensa, por exemplo agora, eu não sugeri que você teve uma sessão de sexo selvagem e sadomasoquista com o búlgaro palhaço, eu estava falando sobre agressão física.
Ela estava abrindo a boca para responder, mas calou de repente.
— Eu...
— Eu só quero que você entenda que eu não vou ficar parado se eu sonhar com esta possibilidade, entendeu? Eu não sei quem é seu búlgaro, mas eu o encontro no inferno e mostro quem é o rei de lá.
— Eu acho que não tem necessidade deste exagero todo Rony, eu...
Uma batida na porta os interrompeu.
— MÃE!! MÃE!!
Hermione suspirou alto e passou as mãos no rosto, Rony despenteou os cabelos já revoltos.
— O que faremos?
— Mãe!! Eu tô com fome.
Joseph gritou de novo.
— Eu preciso tomar um banho e descer para fazer a comida dele.
Rony assentiu.
— Tome seu banho e faça tudo tranquila, eu vou entreter o garoto.
Ela deu m meio sorriso.
— Rony...
Ele tocou seu rosto.
— Não precisa agradecer morena. Eu ... Gosto do seu filho.
Ela pousou a mão sobre a dele em seu rosto.
— Não quero que fiquem mal entendidos entre nós, eu...
- Não há – Ele a cortou deslizando carinhosamente o polegar em sua bochecha – Está tudo bem, só que eu quero que conviva com a ideia de que você pode ser protegida.
— Rony...
— Mamãe você tá acordada?
Rony riu quando ela bufou.
— Conversamos depois, morena. Tome seu banho.
Ele não esperou que ela respondesse, apenas pegou a camisa e saiu.
Rony fechou a porta e olhou o garoto. Era engraçada a maneira como Joseph o olhava, ele sempre começava dos pés como se olhasse a um gigante amedrontador, mas sempre o presenteava com um sorriso quando o encarava.
— Eu não queria incomodar Rony, mas eu tô com fome.
Ele riu e afagou a cabeça do menino.
— Tudo bem campeão, eu também estou varado, sua mãe está se arrumando para preparar o jantar, que tal uma volta?
— Legal! Por que ela tá se arrumando para jantar? Vamos sair?
— Não.
— Então...
— Mulheres... São... Obcecadas por maquiagem.
— Mas por que se elas ficam mais bonitas sem isso?
— Por que... Eu não sei realmente por que.
Joseph segurou a mão dele e eles começaram a descer as escadas.
— Minha mãe não fica mais bonita sem maquilagem?
— Sim...
-Sem nada na verdade – Ele pensou e reprimiu o sorriso.
— Eu também acho.
— Você sabe das coisas Joe.
— Sei né? Legal... Rony, o que é estar varado?
Rony gargalhou.
Eles sentaram num banco no meio do jardim. Joe parecia incomodado com alguma coisa, em alguns momentos ele parecia interessado em perguntar algo, mas sempre se retraía.
— Então... Como tá na escola?
Ele deu de ombros.
— A escola é ruim. A única coisa boa de lá é a Mia.
— Sua amiguinha?
— É.
Rony franziu o cenho.
— Por que Joe?
— Ah... Os garotos... São chatos.
— Chatos?
— É.
— Só isso?
— Só.
Rony resolveu não forçar. O menino só não era uma copia mais fiel da mãe por ter um pênis, por que além de muito inteligente, eles mentiam igualmente mal.
— Quer conversar sobre o que?
- Ah... Eu não sei... Você quer falar do que?
— Que tal da duvida que você tá? Sei que tá louco para me perguntar alguma coisa.
— Como você sabe?
— Por que quando eu tinha sua idade eu também abria e fechava a boca, ansioso por perguntar algo que eu achava que não devia.
— Uau. É?
— Sim. Mas não precisa ter medo, o que você quer saber?
— Ah... É... Você amava seu pai?
- Claro que sim.
— Ele era legal?
— Era, meu pai era o máximo.
— Eu não amo meu pai.
— Você está falando do Krum?
— É… Eu sou ruim?
— Claro que não Joe. Claro que não.
— Eu queria ter outro pai.
— Por que Joe?
— Por que Victor é ruim, e ele me dá medo.
— Victor... Hum... Por que ele te dá medo?
— Por que ele me olha estranho e ele grita muito e eu não gosto de ver como a mamãe fica quando ele vai embora.
— Ele vai muito te ver?
— Não... As vezes encontramos com ele em alguns lugares e ele foi lá em casa na quinta feira...
— Na quinta?
— É.
— Ele ficou lá com vocês?
— Não. Ele nunca fica, mas ele passou um tempão conversando com mamãe no quarto, e depois quando ele foi embora ela estava chorando e ele saiu com aquele sorriso feio que me dá medo.
O coração de Rony que já estava acelerado começou a bater num ritmo tão frenético que doía.
— Machuca como?
Uma lagrima desceu pelo rosto do menino e de repente ele começou a falar rápido demais.
— Ele... Grita e xinga e ele segura no braço dela e ela chora, por que é com força, ela diz que não, mas eu sei que é igual como ele segurava o meu quando ele tava zangado, Mia disse que um dia eu vou ser grande o bastante para não deixar ele fazer mais isso, mas eu queria poder fazer isso agora Rony… — O menino desabou tudo encima dele e depois o abraçou. Rony segurou-o afagando sua cabeça o mais leve que as suas mãos trêmulas conseguiam.
— Tá tudo bem Joe, tá tudo bem, vai ficar tudo bem.
— Você é grande Rony, você podia fazer ele parar, não podia? Você podia mandar ele embora de lá de casa. Diz para ele que você é meu pai agora, nem precisa ser de verdade, mas você diz a ele que eu tenho outro pai, que é você e ele não precisa mais ir lá.
Rony sentiu as mãos geladas e suadas, mas mesmo assim segurou o rosto do garoto, com toda a calma do mundo enxugou as lágrimas dele e sorriu forçado.
— Posso. Eu te dou a minha palavra de que ele não vai mais gritar e nem tocar na sua mãe, tá bom? — O menino fungou e assentiu — Você confia em mim Joe?
— Confio.
— Então relaxe, a partir de agora, vai ficar tudo bem. Por que não entramos para ver se o jantar está pronto?
— É... Eu ainda tô com fome.
Quando eles alcançaram a sala de jantar, Hermione estava arrumando os pratos.
Rony se aproximou calado, observando Joey soltar-se de sua mão e agarrar-se a ela, dando um abraço apertado, como aquelas de quem não se vê há muito tempo.
Ele se aproximou devagar e encostou a boca no ouvido dela.
— Depois do jantar, vamos conversar. Sem mentiras e sem rodeios.
Seria um jogo limpo, sem meias palavras, sem meias verdades, sem fugir do assunto, ele se certificaria de que fosse assim.
"As dores da alma não deixam recados,
imprimem uma sentença que perdura pelos anos".
Paulo Roberto Gaefke
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