O navio finalmente atracou.

O relógio marcava pouco depois das quatro da manhã.

Mesmo com o cansaço estampado no rosto, os novos alunos desembarcavam carregando suas malas, enquanto funcionários organizavam a entrada de todos no internato.

O alvoroço era grande.

Conversas, passos apressados e chamadas de professores se misturavam ao som das rodas das malas sobre o piso de pedra.

Elena e Trevor caminhavam entre os demais estudantes, tentando agir como se nada tivesse acontecido durante a viagem.

À distância, Cristian e Noah observavam tudo atentamente.

Foi então que o movimento diminuiu.

No alto de uma longa escadaria de pedra, cercada por um enorme muro antigo coberto por heras, surgiu uma mulher de cabelos loiros.

Ela mantinha uma postura firme e elegante. Vestia um sobretudo escuro que contrastava com a claridade do amanhecer que começava a surgir no horizonte.

Assim que a viu, Noah sorriu discretamente.

— É a Clary...

Cristian levantou os olhos.

Depois de tantos anos, ela ainda transmitia a mesma presença marcante.

Noah cruzou os braços.

— Deve ter vindo dar as boas-vindas aos novos alunos.

Clary desceu alguns degraus lentamente até alcançar um pequeno palco de pedra no centro da escadaria.

Quando todos fizeram silêncio, ela começou a falar.

— Sejam muito bem-vindos ao Internato Valenhall.

Sua voz era calma e segura.

— Para muitos de vocês, este será um novo começo. Aqui vocês encontrarão oportunidades, amizades e desafios que levarão para o resto da vida.

Os alunos ouviam atentamente.

Cristian percebeu que Clary evitava olhar diretamente para ele.

Era como se soubesse que aquela conversa teria de acontecer mais cedo ou mais tarde.

Ela continuou:

— Algumas alas do internato ainda permanecem fechadas devido às reformas. Por isso, peço que nenhum aluno circule por corredores sinalizados ou tente acessar áreas restritas.

Ao ouvir essas palavras, Cristian e Noah trocaram um olhar.

Sabiam exatamente de quais corredores ela estava falando.

Então Clary fez uma breve pausa.

Em seu lugar surgiu um olhar de preocupação.

Como se ela soubesse o que estava prestes a acontecer.

Clary respirou fundo e voltou a dirigir seu olhar para todos os alunos reunidos diante da escadaria.

Um leve sorriso surgiu em seu rosto.

— Agora, quero pedir que todos sigam para seus quartos. Vocês encontrarão seus nomes identificados nas portas, juntamente com um pequeno presente de boas-vindas preparado pela equipe do Internato Valenhall.

Os estudantes começaram a cochichar, curiosos.

Clary continuou:

— Aproveitem a manhã para descansar. A viagem foi longa, e todos vocês precisarão estar bem-dispostos para as atividades que começam amanhã.

Ela fez uma breve pausa antes de anunciar:

— Amanhã à noite realizaremos o nosso tradicional Baile de Recepção.

Os alunos reagiram com animação.

— Porém, existe uma tradição que mantemos há décadas.

Ana sorriu discretamente.

— O baile será um Baile de Máscaras.

Um murmúrio percorreu a multidão.

— As máscaras estarão sobre as camas de cada um de vocês quando chegarem aos quartos. Elas fazem parte da tradição do internato e deverão ser usadas durante toda a cerimônia.

Cristian sentiu um aperto no peito.

Noah, ao seu lado, ficou completamente imóvel.

Em voz baixa, quase imperceptível, ele sussurrou:

— Cristian... em 1995 também houve um baile de máscaras.

Cristian respondeu sem desviar os olhos de Clary.

— Eu me lembro.

Noah engoliu em seco.

— Foi naquela noite que encontramos a passagem secreta.

As palavras ficaram suspensas no ar.

Como se tivesse ouvido o comentário dos dois, Clary lançou um rápido olhar na direção deles.

Foi apenas um segundo.

Mas havia algo naquele olhar.

Não era medo.

Era um aviso.

E, pela primeira vez desde que desembarcaram, Cristian teve a impressão de que Clary estava tentando dizer, sem pronunciar uma única palavra:

"Não deixem nenhum dos cinco se separar durante o baile."

Enquanto os alunos seguiam pelos corredores em direção aos dormitórios, outro nome chamava a atenção dentro do internato.

Clary.

Desde que assumira a direção administrativa de Valenhall, muitos funcionários comentavam que ela era uma pessoa extremamente ambiciosa. As mudanças que promoveu no internato eram constantes, e nem sempre agradavam aos professores mais antigos. Cristian e Noah, porém, ainda não sabiam até que ponto ela estava envolvida na história daquele lugar.

Enquanto isso, uma das novas alunas caminhava em outra direção.

Katy Botton.

Antes de subir para o quarto, resolveu passar pelo refeitório.

Vestia uma calça jeans azul que ela mesma havia desenhado e costurado especialmente para sua chegada ao internato. Era uma peça única, cheia de pequenos detalhes feitos à mão, da qual se orgulhava muito.

Ao entrar no enorme salão, percebeu que, sobre o balcão, havia alguns petiscos preparados para recepcionar os estudantes.

Sorriu discretamente.

Pegou alguns deles, agradeceu à cozinheira que organizava o café da manhã e seguiu pelos corredores carregando um pequeno guardanapo com os lanches.

Ao chegar ao segundo andar, começou a procurar o número do seu quarto.

Então parou diante de uma porta de madeira escura.

Uma placa de bronze exibia os nomes das ocupantes:

Elena Santamarina

Cora Twocock

Katy Botton

Katy sorriu.

— Então essas serão minhas colegas de quarto...

Ela bateu levemente na porta antes de entrar.

Mas, quando aproximou a mão da maçaneta, percebeu um detalhe estranho.

Alguém havia riscado discretamente a madeira, bem abaixo da placa com os nomes.

Não parecia um desenho aleatório.

Era apenas um pequeno símbolo...

Uma estrela de cinco pontas.

Tão discreta que quase passava despercebida.

Katy ficou alguns segundos observando a marca.

Sem imaginar que aquele simples risco na porta era exatamente o mesmo símbolo que Cristian e Noah tentavam desvendar havia mais de trinta anos.

Katy girou lentamente a maçaneta e entrou no quarto.

O ambiente era amplo e aconchegante. Três camas estavam posicionadas lado a lado, cada uma com uma máscara cuidadosamente colocada sobre o travesseiro, acompanhada de um pequeno cartão de boas-vindas.

Cora já estava desfazendo as malas.

Elena, por sua vez, organizava algumas roupas no armário.

— Oi! — disse Katy, sorrindo. — Acho que vamos dividir o quarto.

Cora respondeu com simpatia.

— Parece que sim.

Elena apenas sorriu discretamente e voltou a guardar suas coisas.

As três conversaram por alguns minutos sobre a viagem, sobre a expectativa de estudar em Valenhall e sobre o baile de máscaras anunciado pela diretora.

Enquanto fechava o armário, algo escorregou do bolso de Elena.

Um pequeno papel dobrado caiu silenciosamente no chão.

Katy foi a primeira a perceber.

— Caiu um...

Ela se abaixou para pegar.

Mas, antes que seus dedos alcançassem o papel, Elena foi mais rápida.

Num movimento quase instintivo, recolheu o bilhete e o guardou imediatamente no bolso.

O quarto ficou em silêncio por um instante.

Katy sorriu, tentando disfarçar o estranhamento.

— Achei que fosse uma foto.

— Não... era só uma anotação minha — respondeu Elena rapidamente.

Cora observou a cena, mas preferiu não comentar.

A conversa continuou normalmente, embora um clima discreto de curiosidade tivesse surgido entre as três.

Pouco depois, cada uma vestiu seu pijama.

As luzes foram apagadas.

O silêncio tomou conta do quarto.

Uma a uma, as três fecharam os olhos.

Mas, antes de adormecer completamente, Katy abriu os olhos por um instante.

Na fraca luz da lua que atravessava a janela, viu Elena sentada na cama.

Ela segurava o mesmo papel nas mãos.

Parecia relê-lo pela terceira ou quarta vez.

Então dobrou cuidadosamente o bilhete, colocou-o novamente no bolso e, somente depois disso, deitou-se.

Alguns minutos mais tarde...

O quarto mergulhou em um silêncio absoluto.

Enquanto isso, no dormitório masculino, o clima era completamente diferente.

Apesar do cansaço da viagem, alguns alunos ainda estavam acordados, desfazendo as malas e conversando.

Trevor, tentando esquecer por alguns minutos tudo o que havia acontecido naquela madrugada, resolveu mudar de assunto.

Sentou-se na cama e abriu um sorriso.

— Tive uma ideia.

Alex ergueu a cabeça, curioso.

— Lá vem...

Trevor deu uma risada.

— E se a gente fizesse uma pegadinha de boas-vindas? Não só com os veteranos... com os próprios calouros também.

Alex sorriu imediatamente.

— Agora você começou a falar a minha língua!

Trevor continuou animado.

— Nada pesado. Só trocar algumas placas dos quartos, esconder algumas mochilas por alguns minutos, colocar bilhetes engraçados nas portas...

Alex já imaginava várias possibilidades.

— Vai ser épico!

Mas Liam, que organizava suas roupas no armário, interrompeu a conversa.

— Vocês dois estão malucos.

Trevor olhou para ele.

— Ah, qual é...

Liam cruzou os braços.

— Estamos no primeiro dia. Se resolverem aprontar pelo internato inteiro, vão acabar sendo pegos.

Alex deu de ombros.

— Faz parte da diversão.

— Diversão? — respondeu Liam. — Eu chamo isso de um jeito bem rápido de ser expulso.

Trevor riu.

— Você pensa demais.

Liam fechou a porta do armário.

— E vocês pensam de menos.

Alex levantou-se da cama.

— Eu topo. Assim que todo mundo dormir, damos uma volta pelo internato.

Trevor estendeu a mão.

— Fechado.

Os dois apertaram as mãos, combinando a brincadeira.

Liam apenas balançou a cabeça.

— Tenho a impressão de que essa ideia vai dar muito errado.

Já haviam se passado alguns minutos.

O dormitório masculino estava completamente silencioso.

Trevor e Alex continuaram insistindo tanto que, depois de muito reclamar, Liam acabou cedendo.

— Tudo bem... eu vou.

Os dois comemoraram em silêncio.

— Mas só para garantir que vocês não façam nenhuma loucura — completou Liam.

Trevor sorriu.

— Sabia que você não conseguiria ficar de fora.

Os três abriram cuidadosamente a porta do quarto.

O corredor estava vazio.

As luzes do internato permaneciam acesas apenas pela metade, criando longas sombras sobre o piso de madeira.

Caminharam devagar pelo corredor dos dormitórios masculinos.

Tudo parecia tranquilo.

Nenhuma porta aberta.

Nenhum professor circulando.

Nenhum sinal de movimento.

Alex já começava a procurar o primeiro quarto onde fariam uma pegadinha quando Trevor apontou discretamente para o fim do corredor.

— Esperem...

Próximo à porta que levava para a escadaria principal, havia duas pessoas completamente imóveis.

Trevor estreitou os olhos.

— Não pode ser...

Liam também olhou.

E reconheceu os dois homens.

Eram Cristian e Noah.

Os dois conversavam em voz baixa, como se estivessem aguardando alguém.

Cristian segurava um velho mapa dobrado.

Noah observava atentamente a escadaria, como se esperasse algum movimento.

Alex sussurrou:

— O que dois professores estão fazendo acordados a essa hora?

Trevor sentiu um arrepio.

— Acho que eles não estão vigiando os alunos...

Liam franziu a testa.

— Então estão esperando quem?

Antes que qualquer um deles pudesse responder, Cristian levantou lentamente a cabeça.

Seus olhos encontraram diretamente os de Trevor.

Por um segundo, ninguém se moveu.

Então Cristian fez apenas um discreto gesto com a mão.

Não parecia uma ordem.

Nem um cumprimento.

Parecia um aviso.

Como se dissesse silenciosamente:

"Voltem para o quarto."

Os três permaneceram imóveis por alguns segundos.

Trevor foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Melhor a gente voltar.

Alex ainda olhou para a escadaria, claramente frustrado.

— Mas a gente nem começou...

Liam respondeu rapidamente:

— E nem vai começar.

Sem discutir, os três voltaram pelo corredor, tomando cuidado para não fazer barulho.

Ao entrarem novamente no quarto, Trevor fechou a porta devagar e encostou as costas nela.

Suspirou aliviado.

Alex jogou-se na cama e cruzou os braços.

— Pegadinha mal-sucedida...

Trevor deu uma pequena risada.

— É... dessa vez perdemos.

Alex, porém, não parecia disposto a desistir.

Abriu um sorriso e apontou para Trevor.

— Amanhã eles não escapam.

Trevor riu.

— Vamos ver.

Liam apenas balançou a cabeça enquanto apagava o abajur ao lado da cama.

— Ainda bem que essa ideia maluca não deu certo.

Alex provocou:

— Você estraga toda a diversão.

— Prefiro estragar a diversão do que ser expulso no primeiro dia — respondeu Liam.

Os três riram discretamente.

Pela primeira vez desde que chegaram ao internato, pareciam apenas três adolescentes comuns, preocupados com brincadeiras e amizades.

Mas, do lado de fora...

Cristian e Noah continuavam parados na escadaria.

Cristian observou a porta do quarto dos rapazes se fechar e respirou aliviado.

— Pelo menos por esta noite...

Noah concordou.

— Eles estão seguros.

Os dois voltaram a olhar para o corredor escuro que levava à antiga ala interditada do internato.

De algum lugar daquele corredor, ouviu-se um leve rangido.

Como se uma porta muito antiga tivesse acabado de se abrir.

Do outro lado do corredor, um som de passos interrompeu o silêncio.

Cristian e Noah se viraram ao mesmo tempo.

Uma mulher descia lentamente a escadaria.

Era Clary.

A iluminação fraca fazia sua sombra se projetar pelos degraus de pedra.

Ela caminhou até os dois sem demonstrar surpresa.

Pelo contrário.

Parecia já esperar encontrá-los ali.

Parou a poucos metros de distância e cruzou os braços.

— Eu sabia que vocês estariam aqui.

Cristian manteve a expressão séria.

— O que você quer, Clary?

Ela ignorou a pergunta e olhou rapidamente para o corredor dos dormitórios.

— Fiquem tranquilos. Os alunos já voltaram para os quartos.

Noah estranhou.

— Você estava observando?

Clary sorriu discretamente.

— Neste internato, é meu trabalho observar.

Ela caminhou até a janela da escadaria e continuou:

— Sei exatamente o que vocês estão procurando.

Cristian e Noah trocaram um olhar.

— E também sei por que voltaram.

Por alguns segundos, ninguém disse nada.

Então Clary respirou fundo.

— Durante as reformas, eu revirei este internato inteiro.

Sua voz ecoou pela escadaria.

— Examinei plantas antigas, túneis desativados, depósitos esquecidos, paredes falsas e documentos arquivados havia décadas.

Ela balançou lentamente a cabeça.

— Não encontrei nada.

Cristian estreitou os olhos.

— Nada?

— Absolutamente nada que explicasse o que aconteceu em 1995.

Noah deu um passo à frente.

— E a passagem secreta?

Clary respondeu imediatamente.

— Procurei por ela durante meses.

Fez uma breve pausa.

— Ou ela nunca existiu...

Olhou diretamente para os dois.

— ...ou alguém fez questão de apagar todos os vestígios de que ela existiu.

As palavras fizeram o corredor voltar a ficar em silêncio.

Cristian segurou com mais força o velho mapa.

— Então estamos procurando algo que alguém escondeu durante trinta anos.

Clary assentiu.

— E, se os bilhetes voltaram a aparecer, significa que quem os enviava... ou quem conhece esse segredo... ainda está entre nós.

Um longo silêncio tomou conta da escadaria.

Os três permaneceram imóveis, refletindo sobre tudo o que havia acontecido desde a viagem no navio.

Foi Noah quem quebrou o silêncio.

— Então... aguardamos o baile?

Cristian levantou os olhos.

— Parece ser a única opção.

Noah continuou:

— Até lá, precisamos ficar de olho em Elena e Trevor. Sabemos que eles receberam as cartas. Não podemos deixá-los sozinhos.

Clary concordou com um leve aceno de cabeça.

— Eles serão observados discretamente. Não podemos levantar suspeitas.

Cristian fechou o mapa e perguntou:

— Mas quem serão os próximos?

Clary respirou fundo antes de responder.

— Pelos registros de matrícula, temos vinte alunos bolsistas matriculados no primeiro ano deste semestre.

Ela retirou um pequeno tablet da pasta que carregava e abriu a lista de estudantes.

— Se o padrão realmente estiver se repetindo...

Ela olhou para Cristian e Noah.

— Pode ser qualquer um deles.

Noah passou a mão no rosto.

— Então não estamos protegendo apenas dois alunos.

— Não — respondeu Clary. — Estamos tentando impedir que outros três sejam escolhidos.

Cristian permaneceu pensativo.

— O problema é que não sabemos qual é o critério.

— Nem quem envia as cartas — completou Noah.

Clary fechou o tablet.

— A partir de hoje, ninguém ficará sozinho. Vou organizar a rotina dos bolsistas de forma que eles estejam sempre em grupos. Oficialmente, será uma atividade de integração entre os calouros.

Cristian sorriu discretamente.

— Assim ninguém desconfiará.

Clary assentiu.

— E, durante o baile de máscaras, teremos a melhor oportunidade para observar todos ao mesmo tempo.

Noah olhou pela janela para o pátio vazio do internato.

— Se quem envia as cartas realmente estiver aqui...

Cristian completou:

— Também estará usando uma máscara.

Os três trocaram um último olhar antes de seguirem por corredores diferentes.

Nenhum deles percebeu que, no final da escadaria, escondida atrás de uma antiga armadura decorativa, uma figura mascarada permanecia completamente imóvel.

Ela esperou os três desaparecerem de vista.

Então deixou cair um pequeno envelope sobre o chão de pedra.

Na frente dele havia apenas uma frase escrita à mão:

"O terceiro já foi escolhido."

O relógio já passava das onze da manhã.

Noah despertou assustado ao perceber que havia perdido a hora.

— Não acredito...

Todos os dias, antes mesmo do café da manhã, ele fazia sua rotina de exercícios. Era um hábito que mantinha desde a época em que estudava no internato.

Vestiu uma roupa folgada, calçou um par de tênis e seguiu apressado para a academia de Valenhall.

O ambiente estava quase vazio.

Apenas alguns alunos treinavam em silêncio.

Durante cerca de quarenta minutos, Noah fez sua rotina habitual: alongamento, corrida na esteira, musculação e alguns exercícios funcionais.

Enquanto treinava, sua mente permanecia ocupada pelas cartas, pelo baile de máscaras e pelos acontecimentos da madrugada anterior.

Ao terminar, passou rapidamente pelo vestiário, lavou o rosto e seguiu para o refeitório.

O almoço já estava sendo servido.

O enorme salão estava cheio de alunos conversando, rindo e conhecendo os novos colegas.

Noah pegou uma bandeja e caminhou lentamente entre as mesas, observando discretamente os bolsistas.

Elena conversava com Cora e Katy.

Trevor almoçava ao lado de Alex e Liam.

Pelo menos, por enquanto, tudo parecia normal.

No momento em que se sentou, ouviu uma voz ao seu lado.

— Professor...

Noah levantou os olhos.

Era Meredith, a guia do internato.

Ela parecia um pouco apreensiva.

— Posso falar com o senhor um instante?

Noah fez um gesto para que ela se sentasse.

— Claro. O que aconteceu?

Meredith olhou discretamente ao redor para ter certeza de que ninguém estava ouvindo.

Então abaixou a voz.

— Hoje de manhã... encontrei um envelope em frente à porta da biblioteca antiga.

Noah sentiu o coração acelerar.

— Um envelope?

Ela confirmou com a cabeça.

— Não tinha nome de ninguém. Mas havia uma frase escrita na frente.

— O que dizia?

Meredith respirou fundo antes de responder.

"Entregue ao professor Noah. Ele vai entender."

Noah permaneceu imóvel.

Meredith retirou cuidadosamente um pequeno envelope do bolso do casaco e o colocou sobre a mesa.

O selo de cera preta ainda estava intacto.

No centro dele...

havia o mesmo pentagrama que Noah não via desde 1995.

Meredith percebeu a mudança na expressão de Noah.

Sem fazer mais perguntas, levantou-se da mesa.

— Com licença, professor.

Noah apenas fez um discreto aceno com a cabeça.

Assim que ela se afastou, ele rompeu cuidadosamente o selo de cera preta e abriu o envelope.

Havia apenas uma folha.

Sem assinatura.

Sem data.

Apenas uma única mensagem escrita à mão:

"Não se envolva."

Abaixo, outra frase apareceu em letras menores.

"Você tem muitos segredos... e eles serão revelados, um a um."

Noah sentiu um frio percorrer a espinha.

Por alguns segundos, ficou imóvel, encarando aquelas palavras.

Aquilo não era apenas uma ameaça.

Quem escreveu aquela carta sabia que havia algo em seu passado que ele nunca havia contado a ninguém.

Nem mesmo a Cristian.

Sem conseguir terminar o almoço, Noah empurrou a bandeja para o lado.

O apetite havia desaparecido.

Levantou-se rapidamente da mesa e saiu do refeitório sem chamar a atenção dos alunos.

Enquanto caminhava pelos corredores de Valenhall, uma única pergunta ocupava sua mente.

Como alguém sabe dos meus secredos?

Ao chegar ao quarto, fechou a porta e girou a chave.

Apoiou-se na escrivaninha e retirou do fundo da mochila uma pequena caixa de madeira, trancada por um cadeado antigo.

Durante anos, aquela caixa permaneceu escondida.

Somente ele sabia o que havia ali dentro.

Noah passou lentamente a mão sobre a tampa.

— Então... vocês sabem da existência disso...

Respirou fundo.

Pela primeira vez em muitos anos, pegou a pequena chave pendurada em seu pescoço.

E, com mãos trêmulas...

encaixou-a no cadeado.

O cadeado se abriu com um leve estalo.

Noah permaneceu alguns segundos olhando para o interior da caixa.

Não havia joias.

Não havia dinheiro.

Nem fotografias.

Apenas um envelope de papel pardo, cuidadosamente dobrado.

Ele o retirou com delicadeza.

Respirou fundo.

Sem medo, abriu o envelope.

Dentro havia uma única folha.

Era uma certidão de nascimento.

O papel já estava amarelado pelo tempo, mas ainda era possível ler todas as informações.

Noah passou os olhos pelo documento.

Por um instante, fechou os olhos, como se tentasse reunir coragem.

Então falou em voz baixa, como se finalmente estivesse admitindo uma verdade que guardara por décadas.

— Chegou a hora...

Ele olhou novamente para a certidão.

— Este é o meu maior segredo.

Na parte superior do documento aparecia seu nome completo.

Logo abaixo, no campo destinado aos pais, havia uma informação que ele nunca mostrara a ninguém.

Era justamente aquele detalhe que explicava por que sempre escondia a certidão e por que a carta recebida no refeitório o abalara tanto.

Noah fechou cuidadosamente o documento.

— Se essa informação vier à tona...

Ele respirou fundo.

— Não será apenas a minha vida que mudará.

Guardou a certidão novamente dentro do envelope, mas, desta vez, não a trancou na caixa.

Pela primeira vez em muitos anos, sabia que esconder aquele segredo talvez já não fosse mais possível.

Alguém no internato já conhecia a verdade.

E isso significava que o jogo havia começado muito antes da chegada dos novos alunos.