Internato Valenhall
6 O jogo começou
Já passava da meia-noite quando, de repente, aconteceu uma coisa estranha.
Três batidas secas ecoaram na porta.
Toc... toc... toc...
Meu coração acelerou. Fiquei imóvel por alguns segundos, tentando convencer a mim mesmo de que talvez fosse apenas o vento... mas não havia vento.
Com as mãos trêmulas, caminhei lentamente até a porta. Antes mesmo de olhar pelo olho mágico, percebi algo diferente.
Havia um pedaço de papel passado por baixo da porta.
O medo percorreu todo o meu corpo. Um arrepio desceu do alto da cabeça até a ponta dos pés. Minha respiração ficou pesada, e um silêncio assustador tomou conta de todo quarto.
Abaixei-me devagar, estendi a mão e peguei o papel. Ele estava dobrado, sem nome, sem remetente.
Respirei fundo.
Quando o abri, havia apenas uma única frase escrita em letras grandes:
"Não olhe pela janela."
Naquele instante, ouvi um leve ruído vindo do lado de fora...
Porém, havia algo mais escrito no bilhete.
Com as mãos trêmulas, terminei de desdobrar o papel. Logo abaixo da primeira frase, em uma caligrafia diferente, estava escrito:
"Vá ao espaço de festas à 1h da manhã. Elena... não conte para ninguém."
Meu coração disparou.
Como aquela pessoa sabia meu nome?
Olhei novamente pelo olho mágico. O corredor estava completamente vazio. Nenhum barulho. Nenhum movimento. Apenas o silêncio.
Peguei o celular para ligar para alguém, mas parei antes de desbloqueá-lo. As últimas palavras do bilhete pareciam ecoar na minha mente:
"Não conte para ninguém."
Faltavam apenas quinze minutos para a uma da manhã.
A curiosidade lutava contra o medo.
Depois de alguns minutos de hesitação, respirei fundo, destranquei a porta e caminhei lentamente em direção ao espaço de festas do navio.
Quando empurrei a porta, o salão estava completamente escuro.
De repente...
As luzes se acenderam ao mesmo tempo.
Mas não havia ninguém ali.
Apenas uma única cadeira, no centro do salão.
E sobre ela...
...um novo bilhete.
Foi então que ouvi passos se aproximando do salão.
Meu coração disparou novamente.
A porta se abriu lentamente, e outra pessoa entrou. Era Trevor, um garoto bolsista que havia começado no colégio junto comigo naquele ano.
Assim que nossos olhares se cruzaram, percebi que ele estava tão assustado quanto eu.
— Você... também recebeu o bilhete? — perguntei, tentando esconder o nervosismo.
Trevor não respondeu de imediato. Apenas tirou do bolso um pedaço de papel amassado e o levantou na minha direção.
Era exatamente igual ao meu.
Naquele instante, senti um pequeno alívio... mas logo outra dúvida tomou conta da minha mente.
E se ele estivesse mentindo?
E se tivesse sido ele quem colocou o bilhete debaixo da minha porta?
Eu não o conhecia o suficiente para confiar.
O silêncio entre nós era estranho.
Então olhamos para o centro do salão.
Havia apenas uma única cadeira.
Não sei explicar o motivo, mas aquilo parecia errado. Se nós dois havíamos sido chamados, por que existia somente uma cadeira?
Antes que qualquer um de nós dissesse alguma coisa...
As luzes começaram a piscar.
Uma voz surgiu pelos alto-falantes do salão, calma e fria:
— Apenas um de vocês pode se sentar. O outro descobrirá por que foi chamado.
Trevor olhou para mim.
Eu olhei para a cadeira.
E, pela primeira vez naquela noite, tive a certeza de que aquilo não era uma simples brincadeira.
Ficamos completamente paralisados.
Ninguém dizia uma palavra. O relógio parecia ter parado, e o silêncio daquele salão era sufocante.
Foi então que percebi algo que não havia visto antes.
Em cima da única cadeira havia um novo bilhete.
Aquilo significava que um de nós ainda teria uma pista... mas, para descobrir o que estava escrito, alguém precisaria se aproximar.
Olhei para Trevor.
Ele olhou para mim.
Nenhum dos dois teve coragem de dar o primeiro passo.
Ficamos imóveis por exatamente um minuto, encarando aquela cadeira como se ela escondesse algo muito pior do que um simples pedaço de papel.
De repente, um estalo ecoou pelo salão.
Sem pensar duas vezes, nós dois nos viramos e saímos correndo o mais rápido que podíamos.
Quando alcançamos a porta e olhamos para trás, percebemos uma coisa que fez meu sangue gelar.
A cadeira continuava no mesmo lugar...
Mas o bilhete que estava sobre ela havia desaparecido.
E, no lugar dele, havia apenas uma única palavra escrita no encosto da cadeira:
"Covardes."
Estávamos parados na porta do salão, tentando recuperar o fôlego depois de sair correndo.
Nenhum de nós conseguia dizer uma palavra.
Foi então que ouvimos novamente o som de passos.
Toc... toc... toc...
Desta vez, eles vinham pelo corredor.
Sem saber quem estava se aproximando, Trevor puxou meu braço, e nós dois nos escondemos atrás de um enorme pilar que ficava ao lado da entrada do salão.
Prendemos a respiração.
Os passos ficaram cada vez mais próximos.
Então a pessoa atravessou a porta.
Era o professor Cristian Rossi.
Meu coração disparou.
O que um professor estaria fazendo ali, sozinho, àquela hora da madrugada?
Trevor me lançou um olhar de espanto.
— Será que... ele também recebeu um bilhete? — sussurrou.
Não respondi.
O professor parecia tão confuso quanto nós. Ele olhava para todos os lados, como se estivesse procurando alguém ou tentando entender por que havia sido chamado.
Por um instante, pensei em sair do esconderijo e perguntar o que estava acontecendo.
Mas, antes que eu pudesse dar um passo, o celular do professor vibrou.
Ele retirou o aparelho do bolso, leu rapidamente a mensagem e sua expressão mudou completamente.
Sem dizer uma única palavra, caminhou lentamente em direção à cadeira que permanecia no centro do salão.
Então parou bem diante dela.
Respirou fundo...
...e estendeu a mão para pegar o que parecia ser um novo bilhete que havia surgido sobre o assento.
O professor segurou o bilhete por alguns segundos, sem abri-lo.
Então, em voz baixa, quase como se estivesse falando consigo mesmo, disse:
— Eu sabia...
Aquelas duas palavras fizeram meu coração acelerar ainda mais.
Trevor me encarou, assustado.
— Como assim "eu sabia"? — sussurrou.
O professor permaneceu imóvel. Parecia que já esperava aquele momento havia muito tempo.
Respirei fundo e, sem conseguir mais ficar escondido, dei um passo para fora do pilar.
O piso fez um leve barulho.
Cristian Rossi virou lentamente a cabeça em nossa direção.
Quando nos viu, não demonstrou surpresa.
Pelo contrário.
Esboçou um pequeno sorriso, como se já soubesse que estávamos ali.
— Vocês demoraram... — disse calmamente.
Eu e Trevor nos entreolhamos, completamente confusos.
— O senhor... também recebeu um bilhete? — perguntei.
Ele olhou para o papel em suas mãos e respondeu:
— Recebi. Mas o meu chegou há muitos anos.
Um silêncio tomou conta do salão.
Trevor arregalou os olhos.
— Muitos anos? O que o senhor quer dizer com isso?
Cristian dobrou cuidadosamente o bilhete, guardou-o no bolso e respondeu com uma serenidade que só aumentava o nosso medo:
— Porque esta não é a primeira vez que esse jogo começa... e, infelizmente, também não será a última.
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