Internato Valenhall

7 A carta do passado


O professor fez um sinal para que o seguíssemos.

Sem fazer perguntas, caminhamos em silêncio pelos corredores escuros do navio até chegarmos à antiga cabine do comandante. A porta rangeu ao ser aberta.

Lá dentro havia apenas uma mesa de madeira, um mapa antigo preso à parede e uma luminária fraca que iluminava o ambiente.

Cristian fechou a porta atrás de nós.

— Aqui podemos conversar sem sermos interrompidos.

Ele respirou fundo, sentou-se diante da mesa e, lentamente, tirou do bolso interno do casaco um pedaço de papel amarelado, dobrado e desgastado pelo tempo.

Colocou-o sobre a mesa.

— Este bilhete está comigo desde 1995.

Eu e Trevor nos aproximamos.

Era praticamente igual ao nosso.

A única diferença era a caligrafia.

No bilhete antigo também havia um convite para ir ao salão durante a madrugada, mas as letras eram completamente diferentes, como se outra pessoa o tivesse escrito.

— Quando eu também estava indo para este internato... ainda como aluno... recebi exatamente este bilhete na primeira noite.

Ficamos em silêncio.

— Então isso é real? — perguntei.

Cristian assentiu lentamente.

— Sim. E foi naquele ano que tudo começou.

Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa e continuou:

— Em 1995, os primeiros alunos receberam suas cartas na primeira noite. Todos pensaram que fosse um trote. Alguns ignoraram os bilhetes. Outros resolveram seguir as instruções. Depois disso... coisas estranhas começaram a acontecer dentro do internato.

Trevor engoliu em seco.

— O que aconteceu com eles?

O professor ficou alguns segundos olhando para o bilhete antigo antes de responder.

— Alguns desistiram do colégio e foram embora. Outros nunca mais tocaram no assunto. Mas havia um pequeno grupo... cinco alunos... que decidiu descobrir quem estava por trás daqueles bilhetes.

Ele fez uma pausa.

Seu semblante ficou sério.

— Apenas um deles permaneceu até o fim da investigação.

Olhei para Trevor.

Depois para o professor.

— E quem era esse aluno?

Cristian levantou os olhos lentamente.

— Era eu.

Cristian ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para o velho bilhete sobre a mesa.

Então fechou os olhos e começou a falar.

— No último instante... quando estávamos prestes a descobrir quem estava por trás de tudo isso... um amigo meu... na verdade, meu melhor amigo... me deixou na mão.

Sua voz ficou mais baixa.

— Até hoje não sei se ele teve medo... ou se descobriu alguma coisa que eu nunca soube. Só sei que, quando eu mais precisei dele, ele simplesmente desapareceu.

Trevor e eu permanecemos em silêncio.

— O mais estranho — continuou Cristian — é que, alguns anos depois, ele voltou. Como se nada tivesse acontecido. Hoje trabalha aqui, neste mesmo internato.

Eu senti um frio na barriga.

— O senhor acha que ele sabe de alguma coisa?

Cristian respirou fundo.

— Tenho certeza de que sabe. Mas nunca me contou.

Ele abriu uma gaveta antiga da cabine e retirou uma fotografia desbotada.

Nela apareciam cinco adolescentes usando o uniforme do internato.

Um deles estava riscado com tinta preta.

Outro era o próprio Cristian.

— Nós éramos cinco. Hoje... restam apenas três trabalhando aqui.

Trevor olhou para a foto.

— E os outros dois?

Cristian apenas balançou a cabeça.

— Nunca mais foram vistos.

O silêncio tomou conta da cabine novamente.

Foi então que Cristian falou algo que nos deixou ainda mais intrigados.

— Mas existe uma coisa que nunca consegui entender...

Ele apontou para uma marca desenhada atrás da fotografia.

Era um símbolo de cinco pontas, perfeitamente desenhado.

— Sempre que um bolsista desaparecia ou fugia desesperado do internato... esse mesmo símbolo aparecia.

Olhei atentamente.

Era um pentagrama, desenhado no chão com uma precisão impressionante.

— Não importa quem desenhava, nem quando aparecia. Na manhã seguinte, ele sempre estava lá... exatamente no mesmo lugar.

Trevor engoliu em seco.

— Então... os bilhetes e o pentagrama estão ligados?

Cristian respondeu sem desviar o olhar do símbolo.

— É isso que tento descobrir há mais de trinta anos.

Nesse instante, ouvimos três batidas na porta da cabine.

Toc... toc... toc...

Nós três nos entreolhamos.

Ninguém havia nos seguido.

Então, por baixo da porta, lentamente, outro pedaço de papel foi empurrado para dentro.

Sem saber o que esperar, Cristian se abaixou lentamente e pegou o bilhete que havia sido empurrado por baixo da porta.

Suas mãos tremiam.

Ele desdobrou o papel.

Por alguns segundos, permaneceu em silêncio.

— O que está escrito? — perguntei, sem conseguir esconder a ansiedade.

Cristian respirou fundo antes de responder.

— Não é um convite...

Ele virou o bilhete para que nós pudéssemos ler.

Em letras grandes e irregulares, estava escrito:

"Não tentem descobrir quem sou. Vocês nunca vão saber."

Um silêncio pesado tomou conta da cabine.

Aquilo parecia mais um aviso...

Ou talvez uma ameaça.

Sem pensar duas vezes, Cristian abriu a porta rapidamente.

O corredor estava completamente vazio.

Nenhum som.

Nenhum movimento.

Era como se ninguém jamais tivesse passado por ali.

Ele caminhou alguns metros para os dois lados do corredor e voltou, ainda mais preocupado.

— Não é possível... — murmurou.

Trevor quebrou o silêncio.

— Se eram cinco pessoas... onde estão os outros três?

Cristian olhou para nós dois e respondeu com uma expressão séria.

— Essa é a pergunta que venho tentando responder desde 1995.

Ele fechou a porta novamente.

— As cartas não seguem uma regra. Algumas chegam na primeira noite... outras podem aparecer dias ou até semanas depois. É impossível prever quem será chamado em seguida.

Olhou diretamente para mim.

— Elena... Trevor... a partir de agora vocês precisam tomar muito cuidado.

Nós nos entreolhamos.

— Como assim? — perguntei.

Cristian respondeu sem hesitar:

— Não andem sozinhos pelos corredores. Não contem a ninguém sobre os bilhetes. E, acima de tudo... aprendam a se defender.

Trevor franziu a testa.

— Se isso é apenas alguém pregando peças, por que precisaríamos nos defender?

Cristian respirou fundo.

— Porque, da última vez, nem todos os alunos que receberam as cartas estavam brincando.

Ele fez uma pausa.

— E porque, quando o quinto bilhete finalmente aparecer... o jogo realmente começa.

Nesse instante, um som metálico ecoou pelo navio.

Dong... Dong... Dong...

O relógio antigo marcou duas horas da manhã.

Ao mesmo tempo, as luzes da cabine piscaram uma única vez.

E, por um breve segundo, os três tiveram a impressão de que havia a sombra de uma quarta pessoa refletida na parede atrás deles.

Quando olharam novamente...

...não havia mais ninguém.

Cristian olhou para nós dois por alguns instantes.

Sua expressão era séria, mas transmitia confiança.

— Por enquanto, voltem para seus quartos e tentem descansar. Ainda vamos permanecer neste navio por mais algum tempo. Quando chegarmos ao internato, pensarei em uma maneira de protegê-los e descobrir quem está por trás disso.

Ele fez uma breve pausa.

— E lembrem-se de uma coisa...

Olhou primeiro para Trevor e depois para mim.

— Vocês não estão sozinhos.

Aquelas palavras trouxeram um pequeno alívio.

Saímos da cabine em silêncio e seguimos por corredores diferentes até nossos quartos. O navio balançava suavemente com as ondas, mas, naquela noite, ninguém conseguiu dormir de verdade.

Do outro lado do corredor, Cristian entrou em seu quarto e trancou a porta.

Sentou-se na cama, retirou novamente o velho bilhete de 1995 e ficou observando o papel amarelado.

Depois abriu uma gaveta da escrivaninha.

Lá dentro havia um pequeno caderno de capa preta.

Ao folheá-lo, surgiram anotações antigas, mapas do internato, desenhos do pentagrama e uma lista de nomes.

Cinco nomes.

Três deles estavam riscados.

Cristian passou a mão sobre a última página e fechou os olhos.

Em pensamento, disse para si mesmo:

— Eles não podem saber o que realmente aconteceu em 1995...

Respirou fundo.

— Ainda não podem saber das mortes.

Seu olhar se perdeu na escuridão da cabine.

Se Elena e Trevor descobrissem cedo demais que aqueles três alunos não haviam simplesmente desaparecido, talvez abandonassem o navio assim que chegassem ao porto.

Mas Cristian também sabia de outra coisa.

No fundo da gaveta havia um último bilhete, guardado por mais de trinta anos.

Ele nunca tivera coragem de abri-lo.

Na frente do envelope havia apenas uma frase escrita à mão:

"Abra somente quando os novos cinco forem escolhidos."

Cristian encarou o envelope por alguns segundos.

Então ouviu três batidas na porta do quarto.

Toc... toc... toc...

Seu rosto perdeu a cor.

Porque ninguém, além dele, sabia que aquela cabine existia.

Mesmo com o coração acelerado, Cristian levantou-se lentamente.

As três batidas ainda ecoavam em sua mente.

Toc... toc... toc...

Ele caminhou até a porta e olhou pelo olho mágico.

Por um instante, ficou completamente imóvel.

A pessoa do outro lado era um rosto que ele jamais imaginou encontrar ali.

Respirou fundo, destrancou a porta e a abriu devagar.

Era Noah.

Seu antigo melhor amigo.

O mesmo garoto que, em 1995, desaparecera justamente quando os dois estavam mais perto de descobrir a verdade.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.

Nenhum deles sabia como começar aquela conversa depois de tantos anos.

Foi Noah quem quebrou o silêncio.

Com uma expressão cansada, perguntou em voz baixa:

— Está acontecendo novamente?

Cristian não respondeu de imediato.

Apenas assentiu com a cabeça.

— Sim... começou esta noite.

Noah abaixou os olhos, como se já esperasse aquela resposta.

— Então... eles já receberam as cartas.

— Dois deles — respondeu Cristian. — Elena e Trevor.

Noah fechou os olhos por um instante.

— Eu tinha esperança de que isso nunca mais acontecesse.

Cristian cruzou os braços.

— Você sabia que voltaria.

Noah encarou o antigo amigo.

— Voltei porque sabia que um dia isso iria recomeçar.

Houve um longo silêncio.

Então Cristian fez a pergunta que esperava havia trinta anos.

— Por que você me abandonou naquela noite?

Noah demorou alguns segundos para responder.

Sua voz saiu quase como um sussurro.

— Porque eu vi algo que você não viu.

Cristian sentiu um frio percorrer a espinha.

— O quê?

Noah olhou para o corredor vazio antes de responder.

— Quando entrei na sala do pentagrama... havia uma sexta pessoa.

Cristian franziu a testa.

— Sexta pessoa? Nós éramos apenas cinco.

Noah balançou lentamente a cabeça.

— Não... nós achávamos que éramos cinco.

Ele se aproximou um pouco mais e falou ainda mais baixo.

— Havia alguém conduzindo tudo aquilo. Alguém que nunca apareceu nas listas do internato... alguém que nunca envelheceu.

Cristian permaneceu em silêncio.

Noah respirou fundo.

— E o pior...

Ele olhou diretamente nos olhos de Cristian.

— Acho que essa pessoa embarcou neste navio junto conosco.