Internato Valenhall

21 O amanhã que levou 31 anos


Noah não pensou.

Não perguntou se a imagem poderia ser antiga.

Não esperou Cristian analisar o monitor.

Não ouviu Clary chamá-lo.

Assim que reconheceu aquelas paredes de pedra atrás da mulher, levantou-se tão depressa que a cadeira caiu para trás.

— Vick...

A imagem desapareceu da tela.

Mas aquilo não importava.

Noah conhecia aquele lugar.

A textura das pedras.

A umidade nas paredes.

As inscrições quase apagadas.

A luz fraca.

Passara anos demais entrando naquela passagem para não reconhecer.

— Ela está na passagem secreta.

Cristian finalmente reagiu.

— Noah, espera.

Mas ele já estava correndo.

— NOAH!

Tarde demais.

Os corredores de Valenhall se transformaram em borrões.

Alunos se afastaram quando Noah passou.

Um funcionário tentou perguntar o que havia acontecido.

Ele sequer ouviu.

Trinta e um anos.

Era tudo que existia dentro de sua cabeça.

Trinta e um anos.

Trinta e um anos imaginando onde Vick estava.

Se sofrera.

Se havia pedido ajuda.

Se tinha morrido.

Se ele poderia ter feito alguma coisa.

Trinta e um anos lembrando da última conversa.

Da cadeira vazia no café da manhã.

Das buscas.

Dos policiais.

Dos corredores sendo vasculhados.

Do silêncio que veio depois.

E agora...

Vick estava viva.

Envelhecida.

Mas viva.

E havia olhado diretamente para eles.

Eu esperei vocês voltarem.

Noah correu ainda mais.

Cristian vinha atrás.

Clary logo depois.

Scott, Trevor, Elena, Cora, Katy e Alex também começaram a segui-los.

Clary percebeu.

Virou-se ainda correndo.

— Vocês ficam aqui!

Scott nem diminuiu.

— Liam desapareceu por causa disso!

— Scott!

— Não.

Trevor apareceu ao lado dele.

— A gente já chegou longe demais.

Elena assentiu.

— Se aquela mulher sabe onde Liam está, nós vamos.

Clary olhou para os seis.

Não havia tempo para discutir.

— Então ninguém se separa.

E continuaram.

Noah chegou primeiro à entrada escondida.

Afastou a estrutura que ocultava a passagem.

Entrou.

A escuridão o recebeu como uma velha conhecida.

Acendeu a lanterna do celular.

As paredes surgiram.

Pedra.

Poeira.

Umidade.

Por um segundo...

não era mais 2026.

Era 1995.

Cristian estava ao seu lado, dizendo para ninguém tocar em nada.

Erick reclamava do cheiro.

Clary fingia não estar assustada.

Vick observava cada inscrição como se as paredes pudessem falar.

Cinco adolescentes.

Antes de tudo acabar.

Noah fechou os olhos.

Não.

Não agora.

— VICK!

Sua voz percorreu o corredor.

O eco devolveu:

— Vick...

Nenhuma resposta.

Noah avançou.

— VICK!

Cristian entrou atrás dele.

— Noah!

— Ela estava aqui.

— Eu também reconheci.

Cristian alcançou o amigo.

— Mas não sabemos quando aquela imagem foi feita.

Noah virou-se.

Os olhos estavam vermelhos.

— Eu pensei durante trinta e um anos, Cristian.

Silêncio.

— Agora eu vou procurar.

Cristian soltou lentamente o braço dele.

Não havia argumento.

Não para aquilo.

Não para Noah.

E talvez principalmente...

não para ele próprio.

Clary entrou em seguida.

Assim que pisou naquele corredor, parou.

Trinta e um anos também desapareceram para ela.

A porta.

As cartas.

Os pentagramas.

Erick.

Vick.

As coisas que sabia.

As coisas que não contou.

— Clary.

A voz de Cristian a trouxe de volta.

Ela respirou fundo.

E seguiu.

Trevor iluminou o chão.

— Esperem.

Todos pararam.

Pegadas.

Recentes.

A poeira havia sido marcada por passos.

Noah se abaixou.

Passou os dedos por uma das marcas.

— Ela está aqui.

Cristian analisou a direção das pegadas.

Seguiam para o interior da passagem.

Dessa vez...

não disse "talvez".

O grupo avançou.

Ninguém falava.

Apenas o som dos passos.

Até que alguma coisa se moveu alguns metros à frente.

Uma sombra.

Noah parou.

— Vick?

A figura desapareceu atrás de uma parede.

Noah correu.

— Noah! — Clary gritou.

Ele virou a esquina.

E parou.

Uma mulher estava diante dele.

De costas.

Cabelos quase completamente brancos caíam sobre os ombros.

Um casaco escuro cobria seu corpo.

Uma das mãos permanecia apoiada na parede de pedra.

Noah perdeu o ar.

Não precisava ver o rosto.

Sabia.

— Vick...

A mulher ficou imóvel.

Noah deu um passo.

— Vick.

Ela começou a se virar.

Devagar.

Primeiro o perfil.

Depois...

o rosto.

As rugas estavam ali.

O tempo estava ali.

Mas os olhos...

Os olhos eram os mesmos.

Noah sentiu as pernas enfraquecerem.

— Meu Deus...

Vick o encarou.

Nenhum dos dois conseguiu falar durante alguns segundos.

Pareciam duas pessoas tentando encontrar, dentro daqueles rostos envelhecidos, os adolescentes que haviam conhecido.

Noah tentou sorrir.

Não conseguiu.

Tentou falar.

A voz falhou.

— Você...

Respirou.

— Você está viva.

Os olhos de Vick se encheram de lágrimas.

— Estou.

Noah soltou uma risada curta, quebrada pelo choro.

— Você está viva.

— Sim, Noah.

Ele se aproximou.

Parou diante dela.

Hesitou.

Talvez uma parte dele ainda tivesse medo de tocar nela...

e descobrir que não era real.

Vick acabou com a distância.

Abraçou-o.

Noah fechou os olhos.

E naquele abraço...

trinta e um anos desapareceram.

Ele a segurou com força.

Como se ainda tivesse dezessete anos.

Como se pudesse impedir que ela desaparecesse outra vez.

— Eu procurei você.

Vick começou a chorar.

— Eu sei.

— Procurei em todo lugar.

— Eu sei.

Noah afastou-se lentamente.

Olhou para ela.

— Como você sabe?

Vick abaixou os olhos.

O alívio no rosto dele começou a se misturar com outra coisa.

— Vick...

Ela respirou profundamente.

— Porque eu nunca estive tão longe quanto vocês imaginaram.

Noah congelou.

Antes que pudesse perguntar...

passos surgiram no corredor.

Cristian virou a esquina.

Parou.

Não avançou.

Não falou.

Vick levantou os olhos.

— Cristian.

Ele permaneceu imóvel.

Durante 31 anos, Cristian registrara tudo.

Datas.

Nomes.

Contradições.

Possibilidades.

E em todo esse tempo...

nunca escrevera morta na pasta de Vick.

Agora a prova estava diante dele.

Viva.

Cristian retirou os óculos.

Limpou as lentes lentamente.

Colocou-os novamente.

Vick quase sorriu.

— Ainda faz isso quando está nervoso.

Cristian respirou fundo.

Então disse:

— Você prometeu amanhã.

O sorriso desapareceu do rosto dela.

Noah olhou para os dois.

Cristian continuou:

— Na biblioteca.

— Eu lembro.

— Você disse que tinha descoberto alguma coisa.

Vick fechou os olhos.

— Cristian...

— Eu perguntei quando você me mostraria.

Uma lágrima desceu pelo rosto dela.

Cristian engoliu em seco.

— E você respondeu...

Pausa.

— Amanhã.

Vick assentiu.

— Eu sei.

Cristian riu sem humor.

— Seu amanhã demorou trinta e um anos.

Vick começou a chorar.

— Me desculpa.

Cristian permaneceu olhando para ela.

Talvez tivesse imaginado aquele momento centenas de vezes.

Talvez tivesse imaginado perguntas.

Raiva.

Respostas.

Mas quando finalmente aconteceu...

nenhuma delas pareceu importante.

Ele caminhou até Vick.

E a abraçou.

Ela fechou os olhos.

— Eu achei que nunca mais veria vocês.

Cristian respondeu baixo:

— Nós pensamos a mesma coisa.

Clary apareceu logo depois.

E o reencontro mudou completamente.

Vick se soltou de Cristian.

As duas se olharam.

Clary não conseguiu avançar.

— Vick...

Sua voz falhou.

Vick também parecia não saber o que fazer.

Havia afeto entre elas.

Mas havia outra coisa.

Culpa.

Segredos.

Palavras que deveriam ter sido ditas em 1995.

Clary começou a chorar primeiro.

— Eu sinto muito.

Vick permaneceu imóvel.

— Eu devia ter contado.

Cristian olhou para ela.

Noah também.

Clary continuou:

— Sobre meu pai.

— Sobre Daniel.

— Sobre o que eu tinha encontrado.

— Sobre o símbolo naquela porta.

Vick respirou fundo.

— Eu sei.

A resposta machucou.

Clary fechou os olhos.

— Talvez se eu tivesse contado...

— Não.

Vick aproximou-se.

— Não faça isso.

— Erick morreu.

— Eu sei.

— Você desapareceu.

— Eu sei.

Clary abriu os olhos.

— Então como eu não vou pensar que poderia ter mudado alguma coisa?

Vick segurou sua mão.

— Porque algumas coisas começaram muito antes de nós.

Clary a encarou.

— Quanto antes?

Vick olhou para as paredes.

— Antes de 1995.

Os estudantes finalmente chegaram.

Scott foi o primeiro a falar.

Não estava interessado em reencontros.

— Onde está Liam?

Todos se viraram.

Vick olhou para ele.

— Scott Miller.

Scott franziu a testa.

— Você sabe meu nome?

— Sei.

— Então sabe por que estou aqui.

Elena avançou.

— Liam está vivo?

Vick olhou para ela.

— Está.

Elena levou a mão à boca.

Katy segurou seu braço.

Trevor soltou o ar como se estivesse prendendo a respiração havia dias.

Scott continuou.

— Onde ele está?

— Seguro.

— Onde?

Vick respondeu:

— Aqui.

Noah franziu a testa.

— Vick...

Ela olhou para ele.

— Liam está comigo.

O corredor silenciou.

Scott deu um passo.

— Você pegou ele?

— Não.

— Então por que ele desapareceu?

Vick respirou fundo.

— Porque fui eu quem o escondeu.

Scott explodiu.

— Você fez a gente pensar que ele estava morto!

— Eu nunca quis que vocês pensassem isso.

— Tinha sangue naquele lugar!

— Não era dele.

Silêncio.

Cristian ficou imediatamente atento.

— Então aquilo foi feito por outra pessoa.

Vick assentiu.

— Sim.

— Quem?

— Ainda não posso afirmar.

Cristian observou a amiga.

Mesmo depois de trinta e um anos...

ela ainda falava como alguém que só acusava quando possuía provas.

— Por que escondeu Liam? — perguntou Noah.

Vick olhou para os estudantes.

— Porque alguém estava atrás dele.

Scott parou.

— Quem?

— Não sei com certeza.

— E achou melhor simplesmente fazê-lo desaparecer?

— Achei melhor que acreditassem que haviam conseguido o que queriam.

Trevor franziu a testa.

— Você usou o desaparecimento dele como distração.

— Sim.

— E Liam aceitou isso?

Vick assentiu.

— Depois que mostrei parte da verdade.

Noah deu um passo.

— Que verdade?

Vick o encarou.

— A mesma que vocês vieram procurar.

Scott não estava satisfeito.

— Quero ver ele.

— Vai ver.

— Agora.

Vick assentiu.

— Agora.

Ela caminhou até uma parte aparentemente comum da parede.

Abaixou-se.

Pressionou uma pedra.

Depois outra.

Um estalo surgiu dentro da estrutura.

Parte da parede recuou.

Alex arregalou os olhos.

— Tem outra passagem?

Vick respondeu:

— Valenhall tem muito mais do que vocês imaginam.

Ela empurrou.

Uma abertura estreita surgiu.

Luz vinha do outro lado.

Então uma voz:

— Scott?

Scott congelou.

— Liam?

Um garoto apareceu.

Cansado.

Roupas amassadas.

Cabelos desarrumados.

Mas vivo.

Scott correu.

— Seu desgraçado!

Agarrou Liam.

Por um segundo parecia que iria bater nele.

Em vez disso...

abraçou.

Liam riu.

— Também senti sua falta.

Trevor foi logo depois.

Elena o abraçou.

Então bateu no braço dele.

— Ai!

— Você mereceu.

— Eu sei.

Cora permaneceu um pouco mais afastada.

— Da próxima vez que decidir desaparecer, avisa.

Liam sorriu.

— Vou colocar na agenda.

Até ela quase sorriu.

Scott se afastou.

— Você ficou aqui porque quis?

Liam olhou para Vick.

Depois para os amigos.

— Sim.

— Você enlouqueceu?

— Eu pensei a mesma coisa no começo.

— Então por que ficou?

Liam perdeu o sorriso.

— Porque ela me mostrou quem estava por trás de parte disso.

Vick corrigiu:

— Não sabemos quem está por trás de tudo.

Liam assentiu.

— Mas sabemos que existe uma história que foi escondida por décadas.

Noah perguntou:

— E você precisava manter Liam escondido até quando?

Vick respondeu:

— Até vocês chegarem à verdade.

Cristian franziu a testa.

— Ou até chegarmos perto o suficiente dela.

Vick olhou para ele.

— Exatamente.

— Você estava nos conduzindo.

— Algumas vezes.

— As cartas?

Vick balançou a cabeça imediatamente.

— Não.

Cristian percebeu a firmeza.

— Então você não enviou as cartas.

— Não.

— E os pentagramas?

— Também não.

O alívio desapareceu de alguns rostos.

Se Vick não era responsável...

alguém ainda estava agindo em Valenhall.

Vick olhou para todos.

— Foi por isso que não podia simplesmente aparecer.

— Quem começou isso outra vez sabe que vocês estão investigando.

— E provavelmente sabe mais sobre vocês do que deveria.

Scott cruzou os braços.

— Então por que aparecer agora?

Vick respondeu:

— Porque vocês finalmente descobriram o suficiente para entender o que vou mostrar.

Noah olhou para ela.

— Então chega de esconder.

Pausa.

— Eu esperei trinta e um anos.

Cristian aproximou-se.

— Eu também.

Clary não falou.

Não precisava.

Vick olhou para os três.

Os amigos que deixara para trás.

E assentiu.

— Tudo bem.

Entraram pela abertura.

A sala escondida era muito maior do que imaginavam.

Noah parou na entrada.

As paredes estavam cobertas.

Fotografias.

Mapas.

Documentos.

Recortes de jornais.

Listas de nomes.

Registros bancários.

Plantas de Valenhall.

Fotografias antigas da torre.

Cópias de arquivos.

Caixas etiquetadas por anos.

1995.

1998.

2004.

2011.

2018.

2026.

Cristian caminhou lentamente.

Seu olhar percorreu cada parede.

Era como entrar na mente de alguém que passara a vida fazendo exatamente o que ele próprio fazia.

— Você guardou tudo.

— Quase tudo.

Cristian abriu uma pasta.

— Fez cópias?

Vick olhou para ele.

— Três de cada documento importante.

Cristian sorriu pela primeira vez desde que a encontrara.

— Claro que fez.

Vick também sorriu.

— Não confio em arquivos únicos.

— Nem eu.

Por um instante...

eram novamente os dois adolescentes da biblioteca.

Clary caminhava por outra parede.

Fotografias da família Hall Lewis.

Reconheceu Erik.

Daniel.

Outros parentes.

Homens importantes.

Reuniões.

Casas.

Propriedades.

Então parou diante de uma fotografia.

Uma mulher jovem aparecia abraçada a Vick adolescente.

Clary retirou a imagem da parede.

— Quem é ela?

Vick ficou imóvel.

Noah percebeu.

Cristian também.

— Vick? — perguntou Clary.

Ela se aproximou.

Passou os dedos pela fotografia.

— Minha mãe.

Clary observou novamente.

Havia algo naquele rosto.

Alguma coisa estranhamente familiar.

— Como ela se chamava?

Vick demorou.

— Antes de dizer o nome dela, vocês precisam saber quem eu sou.

A sala ficou silenciosa.

Cristian fechou a pasta que segurava.

Noah observou a amiga.

Vick respirou profundamente.

— Durante trinta e um anos, vocês tentaram descobrir por que eu desapareci.

Noah assentiu.

— Sim.

— Não foi por causa da porta.

Cristian franziu a testa.

— Nem da passagem?

— Não diretamente.

— Então por quê?

Vick olhou para Clary.

— Porque em 1995 eu descobri a verdade sobre minha mãe.

Clary ainda segurava a fotografia.

— Que verdade?

Vick respondeu:

— Ela era uma Hall Lewis.

Clary congelou.

Noah permaneceu imóvel.

Cristian ergueu lentamente os olhos.

— O quê? — perguntou Clary.

— Minha mãe nasceu Hall Lewis.

— Qual era o parentesco dela com minha família?

Vick não desviou os olhos.

— Ela era irmã de Erik.

A fotografia escapou das mãos de Clary.

Caiu sobre a mesa.

— Do meu pai?

— Sim.

Clary começou a balançar a cabeça.

— Não.

— É verdade.

— Meu pai nunca teve uma irmã.

Vick respondeu:

— Teve.

— Eu conheceria.

— Não se alguém fizesse questão de apagar a existência dela.

Cristian sentiu um arrepio.

Apagar.

Aquela palavra.

Outra vez.

— Foi por isso que nunca encontramos nada sobre você — disse ele.

Vick olhou para ele.

— Em parte.

— Seu nome também foi retirado.

— Sim.

Cristian se aproximou.

— Qual é seu nome completo?

Vick respirou fundo.

— Vitória Hall Lewis.

Silêncio.

Clary encarou a amiga.

— Então você...

Vick assentiu.

— Sou sua prima.

Clary parecia não saber onde olhar.

— Meu pai tinha uma irmã...

— Sim.

— Daniel era o pai dela?

— Sim.

Vick falou mais baixo:

— Daniel Hall Lewis era meu avô também.

Clary levou a mão ao rosto.

Mais um segredo.

Mais uma pessoa que Erik jamais mencionara.

— Por que ele esconderia a própria irmã?

Vick respondeu:

— Porque minha mãe descobriu coisas que Erik não queria que fossem descobertas.

Cristian perguntou:

— Sobre Daniel?

— Sobre Daniel.

— Sobre Valenhall.

— E sobre o que a família vinha procurando aqui havia anos.

Noah permaneceu em silêncio.

Seu olhar estava preso à fotografia.

Vick percebeu.

Mas continuou.

Ela abriu uma caixa metálica.

Retirou um envelope envelhecido.

— Isso chegou até mim em 1995.

Entregou para Clary.

— Poucos dias antes da morte da minha mãe.

Clary olhou para ela.

— Sua mãe morreu naquele ano?

Vick assentiu.

— Enquanto eu estava aqui em Valenhall.

Cristian respirou fundo.

Tudo começava a encaixar.

A mudança no comportamento de Vick.

As pesquisas secretas.

Os documentos que ela escondia.

A promessa de mostrar alguma coisa no dia seguinte.

Clary abriu o envelope.

Uma folha escrita à mão.

Leu:

— "Se alguma coisa acontecer comigo..."

A voz falhou.

Vick permaneceu diante dela.

Clary continuou:

— "...não acredite em Erik."

Ninguém se moveu.

Havia outra frase.

Noah aproximou-se e leu por cima de seu ombro.

"Ele sabe o que encontrei em Valenhall."

Clary ergueu os olhos.

— O que aconteceu com ela?

Vick respirou profundamente.

— Oficialmente?

— Um acidente.

Clary percebeu imediatamente.

— E na verdade?

Vick demorou alguns segundos.

— Ela foi assassinada.

Elena levou a mão à boca.

Cristian perguntou:

— Você tem certeza?

Vick olhou para ele.

— Tenho.

Noah fez a pergunta que ninguém queria fazer.

— Por quem?

Vick olhou diretamente para Clary.

A voz saiu baixa.

— Erik Hall Lewis.

Clary deu um passo para trás.

— Não.

Vick permaneceu imóvel.

— Foi ele.

— Não.

— Clary...

— NÃO!

O grito ecoou pela sala.

Clary começou a respirar rapidamente.

— Eu sei que meu pai fez coisas horríveis.

As lágrimas apareceram.

— Eu sei sobre os negócios.

— Sobre ameaças.

— Sobre dinheiro sujo.

— Pessoas compradas.

— Sei que ele era perigoso.

A voz falhou.

— Mas matar a própria irmã?

Vick olhou para ela com tristeza.

— Ele matou minha mãe.

— Você viu?

— Não.

Por um segundo, Clary pareceu encontrar alguma esperança.

Vick continuou:

— Mas passei trinta e um anos provando.

Cristian aproximou-se.

— O que você tem?

Vick começou a apontar para os documentos.

— Transferências feitas pouco antes da morte dela.

— Relatórios de pessoas contratadas para segui-la.

— Telefonemas.

— Fotografias.

— Registros que foram destruídos nos arquivos oficiais, mas dos quais consegui cópias.

Foi até outra pasta.

— E, anos depois, encontrei um homem que trabalhou diretamente para Erik.

Noah perguntou:

— Ele confessou?

— Confessou que recebeu ordens para participar da operação que terminou com a morte dela.

Clary fechou os olhos.

Vick continuou:

— Minha mãe sabia que estava sendo seguida.

— Sabia que Erik descobrira sua investigação.

— E percebeu que não teria muito tempo.

Passou os dedos pelo envelope.

— Por isso me enviou o que conseguiu.

Cristian ficou imóvel.

— Era isso.

Vick olhou para ele.

— O quê?

— Aquilo que você ia me mostrar.

A biblioteca voltou imediatamente à memória dos dois.

Amanhã.

Os olhos de Vick ficaram cheios de lágrimas.

— Sim.

Cristian engoliu em seco.

— Você tinha descoberto quem matou sua mãe.

— Eu tinha começado a descobrir.

— E que ela estava investigando Daniel.

— Sim.

Cristian abaixou a cabeça.

— Trinta e um anos.

Vick respondeu:

— Eu sei.

Ele a olhou.

— Finalmente chegou amanhã.

Vick chorou.

— Finalmente.

Noah falou:

— Foi por isso que você desapareceu?

Vick assentiu.

— Erik descobriu que parte dos documentos estava comigo.

Clary levantou os olhos.

— Meu pai sabia quem você era?

Vick quase riu.

Mas não havia humor.

— Desde o primeiro dia.

— Mesmo quando estudávamos juntas?

— Sim.

— Quando eu falava de você em casa?

— Sim.

— Quando ele me perguntava sobre meus amigos?

— Sim.

Clary parecia cada vez mais destruída.

— Então ele olhava para você sabendo que era filha da própria irmã.

— Sabia.

— E nunca disse nada.

— Eu era parte de uma história que ele precisava apagar.

Cristian respondeu baixo:

— Primeiro sua mãe.

Vick assentiu.

— Depois eu.

Scott observava os arquivos.

— Então você passou trinta e um anos fugindo dele?

Vick balançou a cabeça.

— Não apenas fugindo.

Apontou para as paredes.

— Investigando.

— Reunindo provas.

— Encontrando pessoas.

— Recuperando registros.

— Seguindo o dinheiro.

— Reconstruindo tudo que Erik e outros passaram décadas destruindo.

Cristian caminhou lentamente pelo espaço.

— Enquanto eu reconstruía o que Valenhall apagava...

Vick completou:

— Eu reconstruía o que os Hall Lewis apagavam.

Os dois se encararam.

Trinta e um anos.

Duas investigações.

Dois amigos trabalhando separados sem saber que procuravam partes da mesma verdade.

Clary pegou novamente a fotografia de Vick e sua mãe.

— E Daniel?

Vick aproximou-se.

— Minha mãe acreditava que o desaparecimento dele não aconteceu como Erik dizia.

— Meu pai também procurava por Daniel.

Vick balançou a cabeça.

— Erik não procurava apenas por Daniel.

Clary franziu a testa.

— Como assim?

— Existe uma diferença entre procurar uma pessoa...

Vick olhou na direção da passagem.

— ...e procurar aquilo que essa pessoa deixou para trás.

Cristian ficou atento.

— Daniel deixou alguma coisa em Valenhall.

— Minha mãe acreditava que sim.

— O quê?

Vick permaneceu em silêncio.

— Essa é a parte que ainda não consegui completar.

Scott soltou uma risada nervosa.

— Depois de trinta e um anos?

Vick olhou para ele.

— Algumas perguntas envelhecem melhor do que respostas.

Cristian quase sorriu.

Liam se aproximou dos amigos.

— Foi isso que ela me mostrou.

Scott virou-se.

— A parte sobre Erik?

— E os documentos sobre a mãe dela.

— E você aceitou ficar escondido por causa disso?

Liam respondeu:

— Alguém estava me seguindo.

A expressão de todos mudou.

— Eu percebi depois que fui buscar meu caderno.

Vick completou:

— Eu o encontrei antes que essa pessoa encontrasse.

Noah perguntou:

— Você sabe quem é?

Vick balançou a cabeça.

— Tenho suspeitas.

Cristian imediatamente perguntou:

— Provas?

Ela olhou para ele.

— Ainda não.

Cristian assentiu.

Era a resposta correta.

Clary continuava muito quieta.

Noah percebeu.

— Clary...

Ela levantou a mão.

— Não.

Respirou fundo.

— Eu só preciso...

Não terminou.

Olhou novamente para Vick.

— Passei minha vida inteira tentando entender meu pai.

— Eu sei.

— E cada vez que acho que cheguei ao pior...

As lágrimas voltaram.

— aparece alguma coisa pior.

Vick se aproximou.

— Você não é responsável pelo que Erik fez.

Clary levantou os olhos.

— Mas sou filha dele.

— Isso não transforma os crimes dele nos seus.

Clary olhou para a prima.

Prima.

A palavra ainda parecia impossível.

Então percebeu algo.

Noah estava afastado.

Quieto demais.

Desde que Vick pronunciara o nome Hall Lewis...

ele praticamente não falara.

— Noah?

Ele levantou os olhos.

— O quê?

— Você está bem?

— Estou.

Cristian olhou imediatamente para ele.

— Você é péssimo mentindo.

Noah soltou uma pequena risada.

Mas não durou.

Vick observava.

Havia algo no rosto dele.

Algo que ela não conseguia interpretar.

— Noah?

Ele respirou profundamente.

— Tem uma coisa que eu preciso contar.

Clary franziu a testa.

— Agora?

Noah olhou para ela.

— Principalmente agora.

A sala ficou silenciosa.

Ele caminhou até uma das mesas.

Apoiou as mãos.

Durante alguns segundos, apenas olhou para baixo.

— Quando eu era criança, minha mãe nunca me contou quem era meu pai.

Cristian o observou.

Clary conhecia parte daquela história.

Vick permaneceu imóvel.

— Sarah dizia que havia coisas que eu entenderia quando chegasse a hora.

Noah continuou:

— Uma vez ela me mostrou uma fotografia.

— Ela.

— Eu ainda bebê.

— E um homem.

Respirou.

— Ela confirmou que aquele homem era meu pai.

— Mas nunca me disse o nome dele.

Clary perguntou:

— Por que está contando isso agora?

Noah olhou diretamente para ela.

— Porque eu descobri quem ele era.

Silêncio.

— Quando?

— Muito tempo depois.

Cristian se aproximou.

— Noah...

Ele levantou a mão.

— Preciso terminar.

Vick começou a perceber alguma coisa.

Clary ainda não.

— Minha mãe me deu o sobrenome Sanmerry.

Noah respirou profundamente.

— E durante grande parte da minha vida foi o único sobrenome que eu quis.

Clary ficou imóvel.

Noah continuou:

— Mas biologicamente...

Fez uma pausa.

— eu tenho outro.

Vick perdeu a cor.

Cristian olhou para Noah.

Então para Clary.

Clary sussurrou:

— Não.

Noah não desviou.

— Meu pai era Erik Hall Lewis.

Ninguém se moveu.

Clary pareceu esquecer como respirar.

— O quê?

Noah encarou-a.

— Erik era meu pai.

— Não.

A palavra saiu quase inaudível.

— É verdade.

— Noah...

Ela balançou a cabeça.

— Você está dizendo que...

Ele assentiu.

Os olhos estavam marejados.

— Somos irmãos.

Clary levou a mão à boca.

Cristian ficou completamente imóvel.

Scott olhou para Trevor.

Elena encarou Noah.

Liam não disse nada.

Vick parecia incapaz de desviar os olhos dele.

— Você é filho do Erik? — perguntou ela.

— Sim.

— Sarah Sanmerry e Erik...

— Sim.

Vick deu um passo.

— Então Daniel...

Noah terminou:

— Também era meu avô.

Silêncio.

Vick fechou os olhos.

Clary começou a chorar.

— Há quanto tempo você sabe?

— O suficiente.

— E nunca me contou?

— Eu não sabia como.

— Eu sou sua irmã!

— Eu sei.

— Não, você não sabe!

Clary se afastou.

Passou as mãos pelo rosto.

— Primeiro descubro que meu pai tinha uma irmã.

Apontou para Vick.

— Que ela teve uma filha.

Depois apontou para Noah.

— E agora descubro que meu melhor amigo por anos é meu irmão?

Noah abaixou os olhos.

— Eu tinha medo de como você reagiria.

Clary riu entre as lágrimas.

— E decidiu que descobrir assim seria melhor?

— Não.

— Então por quê?

Noah olhou para Vick.

Depois para toda aquela parede de segredos.

— Porque estou cansado de pessoas nessa família decidindo quais verdades devem ser escondidas.

A frase atingiu Clary.

Noah continuou:

— Sarah escondeu.

— Erik escondeu.

— Você escondeu coisas em 1995.

— Vick precisou esconder a própria existência para sobreviver.

Fez uma pausa.

— Se continuarmos fazendo isso, nunca vamos sair daqui.

Cristian observou o amigo.

Aquilo não era apenas uma confissão.

Era uma decisão.

Vick aproximou-se de Noah.

— Então você é meu primo.

Noah soltou o ar.

— Pelo visto.

Por algum motivo...

Vick riu.

Foi pequeno.

Inesperado.

Depois de tudo que tinham acabado de descobrir, aquele som pareceu absurdo.

Noah também riu.

— Trinta e um anos procurando você e descubro que ainda por cima somos parentes.

— Você sempre teve péssima sorte.

— Isso não mudou.

Cristian balançou a cabeça.

Por um instante, os três quase pareciam jovens novamente.

Clary observou.

Ainda chorava.

Mas alguma coisa em seu rosto mudou.

Noah estendeu a mão para ela.

Clary olhou.

Hesitou.

Depois segurou.

Noah a puxou.

Ela o abraçou.

Com força.

— Idiota.

Noah fechou os olhos.

— Eu sei.

— Trinta e um anos.

— Tecnicamente eu não sabia durante todos eles.

Clary deu um tapa leve em suas costas.

— Cala a boca.

Vick sorriu.

Cristian também.

Por alguns segundos...

Valenhall não venceu.

Então Cristian olhou ao redor.

Para as fotografias.

Para os documentos.

Para os três diante dele.

Clary.

Vick.

Noah.

Alguma coisa começou a incomodá-lo.

— Esperem.

Todos olharam.

Cristian caminhou até a fotografia de Daniel Hall Lewis.

— Daniel teve Erik.

— E a mãe de Vick.

Vick assentiu.

Cristian apontou para Clary.

— Clary é filha de Erik.

Depois para Noah.

— Noah também.

Por último para Vick.

— E você é filha da irmã dele.

Silêncio.

Cristian virou-se para os três.

— Três netos de Daniel Hall Lewis.

Trevor perguntou:

— E daí?

Cristian olhou na direção da passagem.

— E todos os três estão aqui.

Scott franziu a testa.

— Isso pode ser coincidência.

Cristian olhou para ele.

Durante toda a juventude, aquela teria sido a primeira explicação que ele daria.

Dessa vez...

não.

— Em Valenhall?

Pausa.

— Eu já parei de acreditar em coincidências.

Vick encarou a fotografia do avô.

Noah aproximou-se.

— Você disse que sua mãe descobriu alguma coisa sobre Daniel.

— Sim.

— E Erik queria aquilo.

— Sim.

Clary perguntou:

— E se tudo isso tiver relação com nós três?

Vick ficou em silêncio.

Cristian respondeu:

— Então talvez Erik não estivesse tentando apenas descobrir o que aconteceu com o pai.

— Talvez soubesse que Daniel deixou alguma coisa destinada à família.

Scott olhou para a passagem.

— A porta?

Ninguém respondeu.

Então ouviram.

Ao longe.

Um som profundo atravessou as pedras.

CLANG.

Todos congelaram.

Noah virou-se.

Cristian também.

Vick perdeu o sorriso.

Outro som.

CLANG.

Mais forte.

Vinha da direção da porta de ferro.

Clary ficou pálida.

— Isso nunca aconteceu quando éramos jovens.

Vick não respondeu.

Noah olhou para ela.

— Vick?

Ela encarava a abertura da sala.

— Você sabe o que significa?

— Não.

Cristian percebeu.

— Mas está com medo.

Vick respirou fundo.

— Porque durante trinta e um anos aquela porta permaneceu completamente silenciosa.

Novo impacto.

CLANG.

A poeira desprendeu-se de uma parte do teto.

Scott olhou para Liam.

— Você ouviu isso enquanto estava escondido?

Liam balançou a cabeça.

— Nunca.

Noah caminhou até a saída.

Vick segurou seu braço.

— Espera.

Ele olhou para ela.

— Passei trinta e um anos esperando.

— Noah...

Ele sorriu sem humor.

— Acho que já deu.

Clary aproximou-se.

Cristian também.

Vick olhou para os três.

Os amigos de 1995.

Só que agora tudo era diferente.

Erick não estava ali.

Mas Vick estava.

E existia outra verdade entre eles.

Não eram apenas três sobreviventes diante daquele mistério.

Três deles carregavam o mesmo sangue.

Noah olhou para Vick.

Depois para Clary.

— Você passou trinta e um anos juntando provas.

Olhou para Cristian.

— Você passou trinta e um anos reconstruindo o que foi apagado.

Depois encarou a passagem.

— E eu passei trinta e um anos prometendo que voltaria.

Deu um passo.

— Então acho que está na hora de descobrirmos por que tudo continua nos trazendo de volta para essa porta.

O grupo saiu da sala escondida.

Vick veio por último.

Antes de fechar a passagem, olhou para a fotografia da mãe.

Por alguns segundos...

não era a mulher de quase cinquenta anos.

Era a garota de dezessete.

Sozinha.

Assustada.

Com documentos nas mãos.

Tentando sobreviver a uma família poderosa demais.

— Mãe...

sussurrou.

— Chegamos até aqui.

Fechou a passagem.

Noah já caminhava em direção à porta.

Clary ao lado dele.

Vick aproximou-se.

Cristian veio logo atrás.

Scott, Trevor, Elena, Cora, Katy, Alex e Liam os acompanharam.

Ninguém sabia o que encontrariam.

Mas uma coisa estava diferente.

Trinta e um anos antes, Noah, Cristian, Clary, Erick e Vick haviam entrado naquele corredor sem conhecer a verdade.

Agora...

eles carregavam uma parte dela.

Vick estava viva.

Liam estava vivo.

A mãe de Vick fora uma Hall Lewis.

Erik Hall Lewis havia mandado matá-la em 1995.

Vick passara décadas reunindo provas.

E Noah Sanmerry acabara de revelar que o homem que todos investigavam...

também era seu pai.

Noah olhou para Clary.

Depois para Vick.

Três descendentes de Daniel.

Três caminhos completamente diferentes.

Uma mesma família.

Uma mesma escola.

Uma mesma porta.

Outro impacto ecoou.

CLANG.

Desta vez...

mais perto.

Cristian parou.

Olhou para os três Hall Lewis.

Depois para a escuridão diante deles.

E uma pergunta atravessou sua mente.

Talvez a pergunta mais assustadora que formulara em toda aquela investigação:

E se eles nunca tivessem encontrado Valenhall?

Cristian fixou os olhos na porta de ferro.

E se Valenhall tivesse passado gerações esperando justamente por eles?