Internato Valenhall

20 O Guardião da Memória


Antes de Valenhall.

Antes das cartas.

Antes dos pentagramas.

Antes de Erick morrer e Vick desaparecer...

Cristian Rossi acreditava em uma coisa muito simples:

Tudo tinha uma explicação.

Era apenas uma questão de encontrá-la.

Desde criança, Cristian fazia perguntas demais.

— Por que?

Era provavelmente a expressão que sua mãe mais ouvia dentro de casa.

Por que o céu mudava de cor?

Por que algumas pessoas apareciam nos livros de História e outras não?

Por que países entravam em guerra?

Por que existiam reis?

Por que algumas civilizações desapareciam?

E, principalmente...

Como alguém sabia que aquilo que estava escrito nos livros realmente tinha acontecido?

Essa última pergunta fez seu pai abaixar o jornal certa manhã.

Cristian devia ter uns oito anos.

— Como assim?

O menino empurrou os óculos para cima.

— Como sabemos que é verdade?

— O quê?

Cristian apontou para o livro aberto sobre a mesa.

— Isso.

Era um livro sobre a história da Inglaterra.

— O escritor não estava lá.

O pai sorriu.

— Não precisava estar.

— Então alguém contou para ele.

— Provavelmente.

Cristian pensou.

— E quem contou para essa pessoa?

O pai começou a rir.

— Você não cansa?

— Não.

— Eu percebi.

Cristian voltou ao livro.

Mas a pergunta permaneceu.

Como sabemos que o passado aconteceu exatamente como dizem?

A família Rossi não possuía grandes propriedades.

Não havia motoristas esperando na porta.

Nem funcionários caminhando pela casa.

A vida deles era comum.

E Cristian gostava dela.

Seu pai trabalhava muito.

Sua mãe também.

Dinheiro não sobrava, mas livros nunca foram considerados desperdício naquela casa.

Esse talvez tenha sido o maior presente que os pais lhe deram.

Quando Cristian queria alguma coisa, quase sempre queria um livro.

Romances.

Enciclopédias.

Biografias.

História.

Mistério.

Qualquer coisa que tivesse páginas suficientes para fazê-lo esquecer do mundo durante algumas horas.

Seu quarto era pequeno.

Mas as estantes estavam sempre cheias.

Quando não havia mais espaço, os livros começavam a ocupar o chão.

Depois a escrivaninha.

Depois o criado-mudo.

Sua mãe reclamava.

— Um dia vamos encontrar você soterrado.

Cristian respondia:

— Pelo menos vou morrer informado.

Ela odiava aquela resposta.

Seu pai adorava.

Cristian também escrevia.

Não histórias.

Pelo menos não naquela época.

Fazia anotações.

Datas.

Nomes.

Perguntas.

Quando encontrava duas versões diferentes sobre o mesmo acontecimento, anotava as duas.

Depois tentava descobrir qual fazia mais sentido.

Certa vez, passou quase uma semana tentando descobrir por que dois livros davam datas diferentes para um mesmo acontecimento histórico.

Sua mãe encontrou os dois livros abertos sobre a mesa.

— Cristian...

— O quê?

— Você tem dez anos.

— Eu sei.

— Crianças de dez anos deveriam estar brincando.

Ele apontou para os livros.

— Estou brincando.

Ela olhou para o marido.

— Seu filho é estranho.

Do outro lado da sala, o pai respondeu:

— Nosso filho.

Cristian nem levantou a cabeça.

Na escola, não era muito diferente.

Ele tirava boas notas.

Especialmente em História e Literatura.

Matemática ele respeitava.

Ciências despertavam sua curiosidade.

Mas História...

História era diferente.

Porque números obedeciam regras.

Experimentos podiam ser repetidos.

O passado não.

O passado dependia de quem havia sobrevivido para contá-lo.

E essa ideia fascinava Cristian.

Foi também na escola que percebeu uma coisa importante.

Nem sempre os adultos tinham respostas.

E alguns não gostavam quando uma criança percebia isso.

Certa tarde, durante uma aula, o professor contou uma história sobre a fundação da cidade.

Cristian levantou a mão.

— Professor?

— Sim, Rossi?

— Isso não está certo.

Alguns alunos riram.

O professor franziu a testa.

— Como?

Cristian abriu outro livro.

— Aqui diz que aconteceu quatro anos depois.

— São fontes diferentes.

— Então qual está certa?

— A que estamos utilizando.

Cristian não se satisfez.

— Por quê?

— Porque é a fonte oficial.

Ele permaneceu com a mão levantada.

— Oficial significa verdadeira?

A sala ficou em silêncio.

O professor fechou o livro.

— Cristian, algumas coisas não precisam ser questionadas o tempo inteiro.

O menino abaixou lentamente a mão.

Naquele dia, aprendeu algo que jamais esqueceria:

Quando alguém dizia que uma coisa não precisava ser questionada... normalmente era exatamente quando ele começava a querer questioná-la.

Os anos passaram.

Cristian cresceu.

Os óculos ficaram um pouco maiores.

Os livros também.

E as perguntas aumentaram.

Aos quinze anos, já sabia o que gostaria de fazer.

Queria estudar História.

Talvez Literatura também.

Queria ensinar.

Pesquisar.

Passar a vida entre documentos, livros e arquivos não parecia entediante para ele.

Parecia perfeito.

Foi nessa época que ouviu falar seriamente de Valenhall.

O nome não era desconhecido.

Quase todo mundo já ouvira alguma coisa sobre o internato.

Uma instituição antiga.

Tradicional.

Construída séculos antes.

Famílias importantes haviam estudado ali.

Políticos.

Empresários.

Acadêmicos.

Pessoas cujos sobrenomes apareciam nos jornais.

Mas também existiam histórias.

Rumores.

Alunos que juravam ter visto coisas estranhas.

Professores que evitavam determinadas áreas.

Uma torre cercada de histórias.

E acontecimentos antigos sobre os quais ninguém parecia gostar de conversar.

Cristian não acreditava em metade daquilo.

Talvez nem em um quarto.

Para ele, escolas antigas naturalmente acumulavam lendas.

Quanto mais velho o prédio, maior a quantidade de histórias inventadas sobre ele.

Ainda assim...

Valenhall despertou sua curiosidade.

Quando surgiu a possibilidade de estudar lá, Cristian não pensou duas vezes.

Seus pais pensaram por ele.

— É longe — disse sua mãe.

— Eu sei.

— Você vai morar lá.

— Eu sei.

— Não vai voltar para casa todos os dias.

— Também sei.

Ela cruzou os braços.

— Então pare de responder "eu sei".

Cristian sorriu.

O pai analisava os documentos.

— É uma oportunidade muito boa.

A mãe suspirou.

Sabia disso.

Cristian aproximou-se.

— Eu quero ir.

Ela olhou para o filho.

— Por quê?

Ele pensou antes de responder.

Poderia dizer pela qualidade do ensino.

Pelos professores.

Pela biblioteca que havia visto em fotografias.

Mas havia outro motivo.

— Porque quero conhecer aquele lugar.

A mãe balançou a cabeça.

— Você fala como se fosse explorar uma ruína.

— Tem quase quatrocentos anos.

— Cristian.

— Tecnicamente...

— Não termine essa frase.

O pai começou a rir.

No dia da partida, Cristian levou roupas suficientes para algumas semanas.

E livros suficientes para sobreviver a um apocalipse.

Sua mãe observou as malas.

— Você sabe que existe uma biblioteca lá?

— Sei.

— Então por que está levando tudo isso?

Cristian colocou mais um livro na mala.

— Não conheço a biblioteca ainda.

— É uma biblioteca.

— Exatamente.

Ela desistiu.

A primeira vez que viu Valenhall pessoalmente...

Cristian ficou em silêncio.

O carro avançou pela estrada cercada de árvores até os enormes portões.

Atrás deles, o internato surgia imponente.

Torres.

Janelas altas.

Paredes antigas.

Pedra escurecida pelo tempo.

E, acima de tudo...

A torre do relógio.

Cristian aproximou o rosto da janela.

O pai percebeu.

— Impressionado?

— Um pouco.

A mãe sorriu.

— "Um pouco."

Cristian não respondeu.

Estava ocupado demais observando.

Cada janela.

Cada construção.

Cada detalhe.

Aquele lugar parecia carregar séculos dentro das paredes.

E ele queria conhecer todos.

O pátio estava cheio quando chegaram.

Famílias.

Alunos.

Funcionários.

Malas.

Conversas.

Cristian despediu-se dos pais.

Sua mãe o abraçou por tempo demais.

— Escreva.

— Vou escrever.

— Toda semana.

— Mãe...

— Toda semana.

— Tudo bem.

O pai apertou sua mão.

Depois o puxou para um abraço.

— Aproveite.

Cristian assentiu.

Observou os dois se afastarem.

Pela primeira vez, estava sozinho.

Ou estaria...

Por aproximadamente quarenta segundos.

— Você é novo?

Cristian virou-se.

Um garoto estava parado ao lado dele.

Cabelos ruivos.

Sardas.

Uma bolsa jogada sobre o ombro.

Cristian ajeitou os óculos.

— Isso está tão óbvio?

O garoto olhou para as três malas aos pés dele.

— Bastante.

Cristian quase sorriu.

— Cristian Rossi.

O garoto estendeu a mão.

— Noah Sanmerry.

Cristian apertou.

— Também é novo?

— Cheguei hoje.

Noah olhou para o prédio.

— Lugar pequeno.

Cristian olhou para o enorme internato.

Depois para Noah.

— Você é péssimo com dimensões.

Noah riu.

Foi assim que começou.

Os dois descobriram rapidamente que eram muito diferentes.

Noah gostava de movimento.

Esportes.

Espaços abertos.

Cristian poderia passar uma tarde inteira dentro de uma biblioteca sem perceber que o sol havia se posto.

Mas funcionava.

Noah fazia Cristian sair dos livros.

Cristian fazia Noah entrar neles.

Poucos dias depois, conheceram Erick.

Na verdade...

Erick conheceu os dois.

Ele apareceu durante o almoço, colocou a bandeja sobre a mesa sem pedir licença e sentou.

— Vocês parecem entediados.

Noah olhou para Cristian.

Cristian olhou para Erick.

— Estamos comendo.

— Exatamente.

Erick começou a comer.

— Erick.

— Isso é seu nome ou você está avisando alguma coisa? — perguntou Cristian.

Noah quase engasgou de tanto rir.

Erick apontou para ele.

— Gostei desse.

Cristian imediatamente respondeu:

— Eu ainda não decidi.

Clary entrou na vida deles pouco depois.

Erick já a conhecia.

— Clary!

A garota virou-se no corredor.

Erick fez sinal.

— Vem aqui.

Ela aproximou-se.

Postura impecável.

Uniforme perfeitamente organizado.

Um sobrenome que praticamente todo mundo conhecia.

— Clary Hall Lewis — apresentou Erick.

Depois apontou.

— Noah.

— Cristian.

Clary cumprimentou os dois.

Cristian reconheceu imediatamente o sobrenome.

Hall Lewis.

Empresas.

Hotéis.

Construção.

Investimentos.

Uma família extremamente poderosa.

Mas não comentou.

Clary percebeu o olhar.

— O quê?

— Nada.

— Você fez uma cara.

— Essa é minha cara normal.

Noah riu.

Clary também.

Vick foi a última.

Ela estava sozinha em um dos jardins.

Sentada debaixo de uma árvore.

Lendo.

Cristian reparou primeiro no livro.

— Ela está lendo sobre a história da escola.

Erick olhou.

— Como você sabe?

— Pela capa.

— Você consegue ler daqui?

— Consigo.

Erick aproximou o rosto.

— Você usa óculos e enxerga melhor que eu.

Cristian ignorou.

Os quatro aproximaram-se.

A garota levantou os olhos.

— Podemos sentar? — perguntou Noah.

Ela olhou para os quatro.

— Já estão praticamente sentados.

Erick sorriu.

— Gostei dela.

A garota fechou o livro.

— Vitória.

Fez uma pequena pausa.

— Mas todo mundo me chama de Vick.

Cristian apontou para o livro.

— Encontrou alguma coisa interessante?

Os olhos dela mudaram.

Foi uma mudança pequena.

Mas Cristian percebeu.

— Talvez.

— Sobre o quê?

Vick sorriu.

— Ainda não sei.

Cristian franziu a testa.

— Como alguma coisa pode ser interessante se você não sabe sobre o que é?

— Você sempre precisa entender tudo?

— Preferencialmente.

— Então talvez Valenhall seja ruim para você.

— Por quê?

Vick olhou para o prédio.

— Porque aqui existem muitas coisas que ninguém consegue explicar.

Cristian sorriu.

— Ainda.

Vick olhou novamente para ele.

— Ainda?

— Se aconteceu, existe uma explicação.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Vick sorriu.

— Vamos ver quanto tempo essa certeza dura.

Os cinco se tornaram inseparáveis.

Não aconteceu de uma vez.

Apenas aconteceu.

Café da manhã.

Aulas.

Biblioteca.

Jardins.

Esportes.

Noah começou a se destacar nas atividades físicas.

Erick adorava basquete.

Clary entrou para o vôlei.

Cristian encontrou espaço na História e no xadrez.

Vick começou a colaborar com o jornal da escola e passava horas pesquisando.

À noite, quase sempre terminavam juntos em algum canto do internato.

Falando sobre professores.

Alunos.

Futuro.

Ou sobre Valenhall.

Principalmente Valenhall.

Cristian e Vick desenvolveram um hábito.

Pesquisar.

Às vezes Noah participava.

Clary também.

Erick aparecia quando descobria que havia comida.

Mas Cristian e Vick eram os que permaneciam por mais tempo.

Um pesquisava documentos.

O outro procurava livros.

Depois trocavam informações.

Certa tarde, Vick colocou dois registros diante dele.

— Olha.

Cristian aproximou-se.

— O quê?

— Essas datas.

Ele analisou.

Um documento dizia uma coisa.

O outro dizia outra.

— Erro de registro.

— Talvez.

— Provavelmente.

Vick abriu outro documento.

— Então explica esse.

Cristian leu.

Parou.

Pegou o primeiro novamente.

Comparou.

— Isso não faz sentido.

Vick sorriu.

— Finalmente.

— Finalmente o quê?

— Você admitiu.

— Admiti o quê?

— Que alguma coisa aqui não faz sentido.

Cristian empurrou os óculos para cima.

— Não significa que não exista explicação.

— Você realmente gosta dessa palavra.

— Qual?

— Explicação.

Cristian voltou aos documentos.

— Porque sempre existe uma.

Vick apoiou o queixo sobre a mão.

— E se alguém não quiser que você encontre?

Cristian levantou os olhos.

— Aí fica mais interessante.

A primeira descoberta veio semanas depois.

Não era assustadora.

Não parecia importante.

Na verdade, qualquer outro aluno provavelmente teria ignorado.

Cristian não.

Ele estava pesquisando antigos registros de estudantes para um trabalho quando percebeu um intervalo estranho.

Algumas páginas tinham numeração.

Cristian voltou.

Depois 190.

A página 189 não estava lá.

Olhou cuidadosamente para a encadernação.

Não havia simplesmente caído.

Tinha sido arrancada.

Ele chamou Vick.

— Olha isso.

Ela examinou.

— Tiraram uma página.

— Sim.

— O que tinha nela?

— Não sei.

— Então vamos descobrir.

Cristian sorriu.

Era exatamente o tipo de resposta que esperava dela.

Procuraram outro volume.

Depois outro.

Encontraram referências ao mesmo período.

Mas havia mais inconsistências.

Um nome citado em uma lista desaparecia em outra.

Uma fotografia possuía cinco alunos identificados...

Mas apenas quatro nomes.

Um registro mencionava uma ocorrência.

O relatório correspondente não existia.

Cristian começou a anotar tudo.

Vick observava.

— Você acha que é coincidência?

Cristian demorou para responder.

Normalmente diria que sim.

Erro administrativo.

Documentos perdidos.

Falhas naturais em arquivos antigos.

Mas eram coincidências demais.

— Não sei.

Vick arregalou os olhos.

— Cristian Rossi dizendo "não sei"?

— Aproveite. Não acontece muito.

Ela riu.

Depois ficou séria.

— Alguém apagou essas coisas.

— Não podemos afirmar isso.

— Ainda.

Cristian olhou para ela.

Vick sorriu.

Estava usando a palavra dele contra ele.

Naquela noite, Cristian voltou sozinho à biblioteca.

Levou um pequeno caderno.

Sentou-se à mesa.

Na primeira página escreveu:

VALENHALL

Abaixo:

REGISTROS AUSENTES

Depois começou a listar tudo que haviam encontrado.

Página 189.

Nome desaparecido.

Fotografia incompleta.

Relatório ausente.

Datas contraditórias.

Quando terminou, permaneceu alguns segundos olhando para a página.

Então ouviu um ruído.

Levantou a cabeça.

Nada.

A biblioteca estava praticamente vazia.

Voltou a escrever.

Outro ruído.

Dessa vez...

Passos.

Cristian olhou para o corredor entre as estantes.

— Tem alguém aí?

Silêncio.

Levantou-se.

Caminhou até as estantes.

Nada.

Quando retornou à mesa...

Parou.

Seu caderno estava fechado.

Cristian tinha certeza de que o deixara aberto.

Aproximou-se.

Abriu.

As anotações continuavam lá.

Nenhuma página havia sido arrancada.

Nada tinha mudado.

Talvez uma corrente de ar.

Talvez ele próprio tivesse fechado sem perceber.

Havia dezenas de explicações possíveis.

Cristian guardou o caderno.

Apagou a luminária.

Saiu da biblioteca.

Quando chegou à porta, olhou para trás.

Por alguns segundos...

teve a sensação de que alguém o observava entre as estantes.

Mas não viu ninguém.

Na manhã seguinte, voltou.

Foi diretamente até o arquivo.

Pegou o volume antigo.

Abriu na página 188.

Depois...

Cristian ficou parado.

Algo estava diferente.

Na noite anterior, ainda havia um pequeno pedaço da página arrancada preso à encadernação.

Agora não havia.

Alguém havia retirado até aquilo.

Cuidadosamente.

Como se quisesse eliminar qualquer sinal de que uma página estivera ali.

Vick chegou alguns minutos depois.

Encontrou Cristian olhando para o livro.

— O que aconteceu?

Ele mostrou.

Ela compreendeu imediatamente.

— Alguém esteve aqui.

Cristian não respondeu.

— Você ainda acha que foi um erro de registro?

Silêncio.

Vick aproximou-se.

— Cristian?

Ele fechou lentamente o livro.

Durante toda a infância, Cristian acreditara que o passado permanecia nos livros.

Que bastava procurar.

Comparar.

Investigar.

Encontrar a fonte correta.

Mas Valenhall estava lhe ensinando uma coisa diferente.

A história não era formada apenas por aquilo que alguém decidia registrar.

Também era formada por aquilo que alguém fazia questão de destruir.

Cristian pegou seu caderno.

Na última linha da página, escreveu:

Alguém está apagando a história de Valenhall.

Vick leu por cima de seu ombro.

— Agora você acredita?

Cristian fechou o caderno.

Olhou para as estantes.

Para milhares de livros.

Milhares de páginas.

Séculos de histórias.

E, pela primeira vez desde que chegara ao internato, não pensou no que poderia encontrar ali.

Pensou no que já havia sido retirado.

— Não.

Vick franziu a testa.

— Não?

Cristian colocou o caderno dentro da mochila.

— Ainda não acredito.

Fez uma pausa.

— Agora eu quero provar.

E foi assim que tudo começou.

Porque Cristian Rossi entrou em Valenhall acreditando que todo mistério possuía uma resposta.

Ainda não sabia que passaria grande parte da vida procurando uma.

Nem que algumas das pessoas que mais amaria se transformariam em nomes dentro de seus próprios arquivos.

Muito menos que, trinta e um anos depois, ele voltaria àquelas mesmas páginas tentando responder à pergunta que Valenhall jamais conseguiu apagar:

O que realmente aconteceu em 1995?

Cristian Rossi descobriu cedo que existiam duas maneiras de esconder a verdade.

A primeira era mentir.

A segunda...

Era apagar qualquer prova de que ela um dia existira.

Depois de encontrar as páginas arrancadas dos registros de Valenhall, ele passou a olhar para a biblioteca de outra forma.

Antes, via milhares de livros.

Agora...

Via milhares de possibilidades de alguém ter retirado alguma coisa.

E aquilo se transformou em uma obsessão.

Nas semanas seguintes, Cristian e Vick criaram uma rotina.

Esperavam as aulas terminarem.

Encontravam Noah, Erick e Clary durante o jantar.

Conversavam.

Faziam os trabalhos.

E, sempre que conseguiam...

Voltavam para a biblioteca.

Vick procurava acontecimentos estranhos.

Cristian procurava contradições.

Era uma diferença pequena.

Mas importante.

Vick queria descobrir o que havia acontecido.

Cristian queria descobrir quem havia alterado o que estava registrado.

— Você está procurando errado.

Cristian levantou os olhos.

Vick estava do outro lado da mesa.

— Como?

Ela apontou para a pilha de documentos diante dele.

— Você continua procurando alguma coisa escrita.

— Geralmente é assim que documentos funcionam.

— Engraçadinho.

Ela puxou uma cadeira.

— E se o importante for justamente o que não está escrito?

Cristian ficou em silêncio.

Vick abriu um dos registros.

— Olha.

Uma lista de alunos.

Depois outra.

— E daí?

— Compara.

Cristian aproximou os dois documentos.

Começou pelos nomes.

Nada.

Depois pelas datas.

Nada.

Turmas.

Nada.

Até perceber.

— Tem um número diferente.

Vick sorriu.

O primeiro documento dizia que determinada turma possuía vinte e oito alunos.

Na lista...

Havia vinte e sete nomes.

Cristian contou novamente.

Vinte e sete.

— Está faltando alguém.

— Exatamente.

— Pode ser erro administrativo.

Vick revirou os olhos.

— Você ainda vai usar essa desculpa?

— Até termos provas.

Ela cruzou os braços.

— Então encontre.

Cristian sorriu discretamente.

— Pretendo.

O caderno que começara com algumas anotações rapidamente ganhou páginas.

REGISTROS AUSENTES

DATAS CONTRADITÓRIAS

FOTOGRAFIAS INCOMPLETAS

NOMES RETIRADOS

RELATÓRIOS DESAPARECIDOS

Cristian começou a criar um método.

Tudo que encontrava era copiado.

Data.

Local.

Número do arquivo.

Página.

Descrição.

Se fosse importante, fazia uma segunda cópia.

Uma permanecia no caderno.

A outra era escondida no dormitório.

Noah descobriu aquilo por acaso.

— Você tem duas versões da mesma coisa?

Cristian continuou escrevendo.

— Tenho.

— Por quê?

— Porque alguém está mexendo nos arquivos.

Noah sentou-se.

— E você acha que vão mexer nas suas coisas?

Cristian parou.

— Não sei.

Noah apontou para as cópias.

— Então por que duas?

Cristian empurrou os óculos.

— Porque não pretendo descobrir depois que precisava de uma segunda.

Noah sorriu.

— Você é paranoico.

— Obrigado.

— Não foi elogio.

— Eu aceitei como um.

Foi naquela época que os pentagramas começaram a aparecer.

O primeiro surgiu discretamente.

Num corredor pouco utilizado.

Pequeno.

Desenhado próximo ao chão.

Erick foi quem chamou os outros.

— Vocês precisam ver isso.

Quando Cristian chegou, Noah já estava agachado diante do desenho.

Vick observava.

Clary estava estranhamente quieta.

Cristian aproximou-se.

Cinco pontas.

Traços simples.

— Um pentagrama — disse.

Erick olhou para ele.

— Obrigado, professor.

Cristian ignorou.

— Pode ser só algum aluno tentando assustar os outros.

— Claro — respondeu Vick. — Porque tudo aqui é sempre algum aluno tentando assustar os outros.

— Até termos evidências do contrário...

— Eu sei.

Ela completou:

— Não podemos afirmar nada.

Cristian olhou para ela.

— Você está aprendendo.

Vick sorriu.

Clary não.

Ela continuava olhando para o símbolo.

Cristian percebeu.

— Clary?

Ela pareceu despertar.

— O quê?

— Você está bem?

— Estou.

A resposta veio rápido demais.

Cristian guardou aquilo na memória.

Na manhã seguinte, o pentagrama havia desaparecido.

Não apenas apagado.

A parte da parede onde fora desenhado havia sido limpa cuidadosamente.

Cristian passou os dedos pelo local.

— Rápido.

Vick estava ao lado.

— Eu disse.

— Disse o quê?

— Alguém não quer que as coisas permaneçam.

Cristian olhou para o corredor.

Talvez ela estivesse certa.

Depois surgiu outro.

E outro.

Alguns em paredes.

Um numa mesa.

Outro próximo de uma escada.

Sempre desapareciam pouco tempo depois.

Cristian começou a registrá-los.

Data.

Horário.

Local.

Tempo aproximado até serem apagados.

Erick olhou para o caderno.

— Você está fazendo uma lista de pentagramas?

— Estou.

— Por quê?

— Porque padrões existem.

— E você encontrou algum?

Cristian virou o caderno para ele.

Havia um pequeno desenho de Valenhall.

Pontos marcavam os lugares onde os símbolos apareceram.

Erick ficou sério.

— Isso parece...

— Eu sei.

Noah aproximou-se.

— O quê?

Cristian apontou.

Os símbolos não estavam distribuídos aleatoriamente.

Formavam uma espécie de caminho.

Começavam próximos ao prédio principal.

Depois avançavam por corredores cada vez menos utilizados.

Até a parte mais antiga da escola.

Vick observou.

— Estão levando para algum lugar.

Cristian corrigiu:

— Talvez.

Erick suspirou.

— Um dia você vai dizer alguma coisa com certeza?

— Quando eu tiver certeza.

Pouco tempo depois vieram as cartas.

Cinco envelopes.

Um para cada um.

Noah.

Cristian.

Clary.

Erick.

Vick.

Aquilo mudou completamente a investigação.

Até então, Cristian podia acreditar que estavam observando coincidências.

Pegadinhas.

Lendas.

Alunos tentando assustar os outros.

Agora alguém sabia quem eles eram.

Alguém os escolhera.

Cristian leu sua carta várias vezes.

Depois colocou sobre a mesa.

— Papel comum.

Vick quase não acreditou.

— É isso que você tem a dizer?

— Estou analisando.

— Cristian, alguém deixou cartas para nós.

— Justamente.

Ele aproximou o envelope da luz.

— Sem marca.

— Sem identificação.

— Nada escrito à mão além da mensagem.

Noah perguntou:

— Consegue descobrir quem fez?

— Não olhando por cinco minutos.

Erick recostou-se.

— Péssimo detetive.

Cristian ignorou.

Clary continuava quieta.

Novamente.

Ele percebeu.

Novamente.

Os cinco começaram a investigar juntos.

As cartas.

Os pentagramas.

As partes antigas do internato.

Foi assim que encontraram a passagem.

A entrada estava escondida onde nenhum aluno deveria procurar.

Atrás de uma estrutura antiga.

Pedra.

Poeira.

Um espaço estreito.

Noah foi o primeiro a entrar.

— Espera — disse Cristian.

Noah virou-se.

— O quê?

Cristian retirou o caderno.

— Quero registrar onde estamos.

Erick riu.

— Se um monstro aparecer, pede para ele esperar você terminar de escrever.

— Se um monstro aparecer, vou registrar isso também.

Vick sorriu.

— Eu gostaria de ver essa página.

Clary permaneceu atrás deles.

Nervosa.

Cristian percebeu.

Mas havia coisas demais acontecendo para perguntar.

O corredor parecia muito mais antigo que as áreas utilizadas de Valenhall.

As paredes eram de pedra.

O ar era úmido.

Havia inscrições em alguns pontos.

Marcas que nenhum deles compreendia.

Cristian anotava tudo.

Medidas aproximadas.

Direções.

Símbolos.

Mudanças no piso.

Vick observava as paredes.

Noah seguia na frente.

Erick reclamava do cheiro.

Clary quase não falava.

Até chegarem à porta.

Era enorme.

Ferro escurecido.

Antiga.

Sem uma maçaneta comum.

Sem fechadura visível.

Cristian aproximou-se.

Passou a mão pelo metal.

— Isso não deveria estar aqui.

Noah olhou para ele.

— Como assim?

— Uma estrutura desse tamanho deveria aparecer nas plantas.

— Talvez a planta esteja errada.

Cristian virou-se.

— Ou alguém retirou essa parte.

Vick olhou para ele.

Nenhum dos dois precisou dizer nada.

Era exatamente o que vinham encontrando nos arquivos.

Coisas que existiam...

Mas que haviam desaparecido dos registros.

Então perceberam os cinco espaços.

Cinco cavidades.

Cinco posições.

Erick contou.

— Cinco.

Vick olhou para os amigos.

— Nós somos cinco.

Cristian imediatamente respondeu:

— Isso não prova nada.

Erick abriu os braços.

— Cinco cartas.

— Cinco pessoas.

— Cinco espaços.

— E você ainda vai dizer que é coincidência?

Cristian ficou olhando para a porta.

Não respondeu.

Porque, pela primeira vez...

Não tinha uma explicação melhor.

Eles voltaram à passagem várias vezes.

Tentaram entender o mecanismo.

Não conseguiram.

Cristian começou a procurar plantas antigas do internato.

Foi aí que encontrou o maior problema.

A passagem não existia.

Em nenhuma delas.

Ou melhor...

Não deveria existir.

Certa noite, ele espalhou três plantas sobre a mesa da biblioteca.

Vick sentou-se ao lado.

— Encontrou?

— Talvez.

— Você realmente precisa parar de falar "talvez".

Cristian apontou para os mapas.

— Olha essa parede.

Vick analisou.

— E?

— Aqui ela tem quase dois metros.

— Aqui...

Virou outra planta.

— Quatro.

Cristian assentiu.

— E nesta?

Vick examinou a terceira.

— Não tem medida.

— Exatamente.

— Então?

Cristian desenhou sobre uma folha.

— Existe espaço entre essas duas estruturas.

— Espaço suficiente para...

Ela parou.

— A passagem.

— Sim.

Vick sorriu.

— Então encontramos.

— Não.

— Cristian.

— Encontramos evidência de que existe um espaço não registrado.

Ela cruzou os braços.

— Nós já estivemos dentro da passagem.

— Eu sei.

— Vimos com nossos próprios olhos.

— Eu sei.

— Então por que precisa provar que existe?

Cristian ficou em silêncio.

Depois respondeu:

— Porque nossos olhos não vão durar para sempre.

Vick perdeu o sorriso.

Cristian continuou:

— Um documento pode durar séculos.

— Se ninguém destruir.

Ele olhou para ela.

Exatamente.

Naquela noite, Cristian tomou uma decisão.

Faria uma cópia das plantas.

Depois outra.

Uma ficaria com ele.

A segunda...

Esconderia.

Nos dias seguintes, ele percebeu que estavam sendo observados.

Não sabia por quem.

Às vezes um funcionário aparecia na biblioteca pouco depois deles.

Outras vezes algum professor interrompia suas pesquisas.

Uma vez, Cristian solicitou um volume específico.

O bibliotecário desapareceu por quase vinte minutos.

Quando voltou, respondeu:

— Não temos esse documento.

Cristian mostrou a ficha.

— Está registrado aqui.

— Deve ser erro.

— Posso verificar?

— Não.

— Por quê?

O homem fechou a gaveta.

— Porque estou dizendo que não está disponível.

Cristian ficou olhando para ele.

A mesma sensação da infância voltou.

Algumas coisas não precisam ser questionadas.

Era sempre aí que começava.

Naquela noite, voltou escondido.

Vick foi junto.

— Isso é invasão? — ela perguntou.

— Tecnicamente...

— Não quero saber.

Encontraram a seção.

Depois o número.

O espaço estava vazio.

Mas havia poeira em todos os lugares...

Exceto onde o documento deveria estar.

Vick passou o dedo.

— Estava aqui recentemente.

Cristian assentiu.

— Alguém retirou.

— Depois que você pediu.

Ele não respondeu.

Não precisava.

Vick aproximou-se.

— Estão acompanhando nossas pesquisas.

— Talvez.

Ela deu um tapa leve no braço dele.

— Cristian!

Ele sorriu.

— Está bem.

Ficou sério.

— Estão acompanhando nossas pesquisas.

Foi uma das primeiras vezes que Vick o ouviu afirmar algo sem acrescentar nenhuma possibilidade alternativa.

Aquilo a assustou mais do que deveria.

Cristian passou a esconder suas anotações em lugares diferentes.

Uma parte no dormitório.

Outra dentro de um livro que ninguém pegava.

Outra com Noah.

— Se acontecer alguma coisa comigo...

Noah interrompeu.

— Não começa.

— Só guarda.

— Cristian.

— Noah.

Os dois se encararam.

Noah pegou o envelope.

— O que tem aqui?

— Cópias.

— De quê?

— Tudo que considero importante.

— Por que comigo?

Cristian respondeu simplesmente:

— Porque confio em você.

Noah guardou.

Não fez mais perguntas.

Mas Cristian cometeu um erro.

Confiou que apenas os documentos oficiais estavam sendo alterados.

Até chegar ao quarto numa tarde...

E encontrar sua mala aberta.

Parou na porta.

Nada parecia roubado.

Roupas.

Livros.

Objetos pessoais.

Tudo estava ali.

Então correu até o fundo do armário.

Retirou uma caixa.

Abriu.

As cópias continuavam dentro.

Quase todas.

Cristian começou a conferir.

Uma.

Duas.

Três.

Parou.

Faltava uma folha.

A cópia da planta onde havia marcado a localização aproximada da passagem secreta.

Cristian correu.

Encontrou Vick na biblioteca.

— Alguém entrou no meu quarto.

Ela levantou imediatamente.

— O quê?

— Levaram uma das cópias.

— Qual?

Ele respondeu.

Vick ficou pálida.

— Sabem que encontramos a passagem.

— Provavelmente já sabiam.

— Então por que levar a planta?

Cristian não tinha resposta.

Aquilo o incomodava.

Vick percebeu.

— Está com medo?

— Não.

Ela levantou uma sobrancelha.

Cristian respirou fundo.

— Um pouco.

— Melhor.

— Por quê?

— Porque significa que você ainda é humano.

Eles sentaram.

Durante alguns minutos não falaram.

Depois Vick perguntou:

— Por que isso é tão importante para você?

Cristian olhou para ela.

— O quê?

— Tudo.

Ela apontou para os livros.

— Você poderia simplesmente parar.

— Nós todos poderíamos.

— Mas você não vai.

— Nem você.

Vick sorriu.

— Eu perguntei primeiro.

Cristian pensou.

— Porque alguém decidiu que nós não deveríamos saber.

— Só isso?

— Não é suficiente?

— Para você provavelmente é.

Ele olhou para os arquivos.

— Se alguém arranca um nome de um livro, aquela pessoa não deixa de ter existido.

Vick permaneceu em silêncio.

Cristian continuou:

— Se alguém apaga uma fotografia, aquilo que aconteceu não muda.

— Se destrói um relatório, o acontecimento não desaparece.

— Só fica mais difícil provar.

Vick observava o amigo.

— Então você quer provar.

— Quero impedir que alguém decida qual versão do passado merece sobreviver.

Vick sorriu.

— Você deveria ser historiador.

Cristian sorriu de volta.

— Pretendo.

Naquela mesma semana, encontraram algo novo.

Uma fotografia antiga.

Cinco estudantes.

Cristian aproximou-a da luz.

Na parte de trás havia nomes.

Quatro estavam legíveis.

O quinto...

Tinha sido raspado.

Não riscado.

Não coberto.

Raspado.

Como se alguém tivesse usado uma lâmina para remover apenas aquele nome.

Vick ficou séria.

— Mais uma pessoa apagada.

Cristian virou novamente a fotografia.

Cinco jovens sorriam diante de Valenhall.

Ele olhou para os cinco rostos.

Depois para Vick.

— Guarda isso.

— Por quê?

— Porque não quero deixar aqui.

Vick colocou a fotografia dentro do caderno.

Na saída da biblioteca, ela perguntou:

— Cristian?

— O quê?

— Você já pensou que talvez não estejam apagando essas pessoas depois que alguma coisa acontece?

Ele parou.

— Não entendi.

Vick aproximou-se.

— E se apagarem antes?

Cristian ficou olhando para ela.

— Antes de quê?

Vick não respondeu imediatamente.

Olhou para o corredor vazio.

— Antes de desaparecerem.

Cristian sentiu um arrepio.

Era uma teoria.

Nada mais.

Sem provas.

Sem confirmação.

Mas pela primeira vez...

Ele não tentou corrigi-la.

Os dias seguintes foram tensos.

Cristian passou a observar os registros atuais.

Não apenas os antigos.

Listas de alunos.

Fotografias.

Relatórios.

Queria descobrir se alguma coisa estava sendo alterada no presente.

Até que encontrou.

Uma fotografia recente.

A cerimônia das Casas.

Dezenas de estudantes no pátio.

Noah.

Cristian.

Clary.

Erick.

Vick.

Os cinco apareciam juntos.

Cristian encontrou outra cópia da mesma fotografia arquivada alguns dias depois.

Parou.

Comparou.

Na segunda versão...

Havia uma pequena marca sobre um deles.

Quase imperceptível.

Um risco feito a lápis.

Um círculo.

Em torno de Erick.

Cristian sentiu o coração acelerar.

Pegou a fotografia.

Procurou Vick.

Encontrou-a no jardim com Noah, Clary e Erick.

Quando chegou, estava sem fôlego.

— Preciso mostrar uma coisa.

Erick riu.

— Você correu?

Cristian ignorou.

Entregou a fotografia para Vick.

Ela analisou.

Depois viu o círculo.

Noah aproximou-se.

— O que significa?

— Não sei.

Erick pegou.

— Alguém não gostou da minha foto.

Clary ficou séria.

— Onde encontrou?

— No arquivo.

Vick olhou para Cristian.

Os dois pensaram exatamente na mesma coisa.

A fotografia antiga.

Cinco estudantes.

Um nome raspado.

E agora...

Cinco novos estudantes.

Um deles marcado.

— Pode não significar nada — disse Cristian.

Mas sua voz não tinha a mesma convicção.

Erick bateu no ombro dele.

— Finalmente está aprendendo a relaxar.

Cristian olhou para o amigo.

Erick sorria.

Como sempre.

Transformando tudo em brincadeira.

Cristian tentou sorrir também.

Não conseguiu.

Naquela noite, ele criou uma nova seção em seu caderno.

No topo escreveu:

ERICK

Abaixo:

Fotografia encontrada no arquivo.

Marca circular feita posteriormente.

Não sabemos quem fez.

Não sabemos o significado.

Cristian ficou olhando para a página.

Pensou em arrancá-la.

Não sabia por quê.

Talvez porque colocar o nome do amigo naquele caderno parecesse errado.

Como se estivesse transformando Erick em parte da investigação.

Mas não arrancou.

Em vez disso...

Fez três cópias.

Uma ficou com ele.

Uma foi escondida.

E a terceira foi entregue a Vick.

Ela recebeu sem dizer nada.

Antes de ir embora, perguntou:

— Cristian...

— Sim?

— Se alguma coisa acontecer...

Ele interrompeu.

— Não vai acontecer.

Vick ficou olhando para ele.

Era curioso.

O garoto que exigia provas para tudo acabara de afirmar algo que não tinha como garantir.

— Você não sabe disso.

Cristian fechou o caderno.

— Sei.

Vick percebeu que ele precisava acreditar.

Então não discutiu.

Saiu.

Cristian permaneceu sozinho.

Abriu novamente o caderno.

Folheou desde a primeira página.

Registros ausentes.

Nomes apagados.

Fotografias alteradas.

Pentagramas.

Cartas.

A passagem.

A porta de ferro.

Cinco espaços.

E agora...

Erick.

Ele finalmente percebeu que sua investigação havia mudado.

Não estavam mais tentando descobrir apenas o que acontecera no passado.

Alguma coisa estava acontecendo com eles.

Agora.

E alguém parecia estar registrando aquilo antes mesmo que acontecesse.

Cristian fechou o caderno.

Olhou para a biblioteca vazia.

Durante toda a vida acreditara que documentos serviam para preservar a História.

Valenhall lhe ensinava algo muito mais assustador.

Documentos também podiam ser usados para preparar uma mentira.

E se Vick estivesse certa...

Se os nomes fossem apagados antes dos desaparecimentos...

Então a pergunta não era mais:

Quem Valenhall havia apagado?

Era:

Quem seria apagado em seguida?

Naquela noite, Cristian Rossi fez uma promessa silenciosa.

Guardaria tudo.

Copiaria tudo.

Registraria tudo.

Porque se alguém dentro de Valenhall estava tentando apagar pessoas da própria história...

Ele faria exatamente o contrário.

Cristian garantiria que ninguém fosse esquecido.

Durante muito tempo, Cristian acreditou que seu maior medo era não encontrar uma resposta.

Estava enganado.

Existia algo pior.

Encontrar a resposta tarde demais.

Depois de descobrir a fotografia em que Erick aparecia marcado por um círculo, Cristian tornou-se ainda mais cuidadoso.

Fez cópias.

Comparou registros.

Anotou horários.

Revisitou documentos.

Procurou o mesmo símbolo em outras fotografias.

Nada.

Aquela marca parecia existir apenas em uma imagem.

E apenas ao redor de Erick.

Vick também não conseguiu encontrar uma explicação.

— Talvez seja só uma marca — disse ela certa noite.

Cristian levantou os olhos.

— Você não acredita nisso.

— Não.

— Então por que falou?

Vick fechou o livro.

— Porque gostaria de acreditar.

Cristian entendeu.

Pela primeira vez, os dois desejavam estar errados.

Erick, por outro lado, parecia determinado a continuar vivendo normalmente.

Treinava.

Jogava basquete.

Fazia piadas.

Provocava Cristian.

— Você precisa sair dessa biblioteca.

— Eu saio.

— Para ir até outra biblioteca.

— Tecnicamente continua sendo sair.

Erick jogou uma bolinha de papel nele.

Cristian desviou.

— Você é insuportável.

— Mas você sentiria minha falta.

Cristian continuou escrevendo.

— Nos primeiros quinze minutos, talvez.

Erick riu.

— Mentiroso.

Cristian sorriu.

Hoje...

Ele daria qualquer coisa para voltar àquela conversa.

Os cinco continuavam investigando a passagem.

A porta permanecia fechada.

Cinco cavidades.

Cinco escolhidos.

Nenhuma resposta.

Em uma das noites, Erick tentou empurrá-la com Noah.

Nada.

— Talvez precise de força — disse Erick.

Cristian cruzou os braços.

— É uma porta de ferro que provavelmente pesa centenas de quilos.

— Então ajuda.

— Minha participação não vai alterar significativamente o resultado.

Erick olhou para Noah.

— Às vezes eu esqueço por que somos amigos dele.

Noah respondeu:

— Porque ele faz nossos trabalhos.

— Verdade.

Cristian revirou os olhos.

Clary riu.

Vick também.

Por alguns segundos...

Eram apenas cinco adolescentes novamente.

Talvez por isso aquela lembrança permanecesse tão viva.

Porque foi uma das últimas vezes em que os cinco estiveram juntos...

sem saber que o tempo deles estava acabando.

Pouco depois...

Erick morreu.

Cristian não conseguiu compreender a notícia quando a ouviu.

As palavras eram simples.

Ele conhecia todas.

Mas juntas...

não faziam sentido.

Erick morreu.

Cristian ficou parado.

Esperou alguém corrigir.

Ninguém corrigiu.

Noah não falou.

Clary começou a chorar.

Vick simplesmente desapareceu do corredor.

Cristian permaneceu onde estava.

— Não.

Foi tudo que conseguiu dizer.

Naquela noite, ninguém dormiu direito.

Cristian sentou-se na cama.

O caderno estava diante dele.

Não teve coragem de abrir.

Sabia exatamente o que encontraria.

O nome.

ERICK.

A fotografia.

O círculo.

As anotações.

A prova de que alguma coisa estranha havia acontecido antes da morte do amigo.

Durante semanas, Cristian repetira que precisavam de mais evidências.

Mais documentos.

Mais certeza.

Agora Erick estava morto.

E nenhuma quantidade de provas poderia trazê-lo de volta.

Quase de madrugada, Cristian abriu o caderno.

Encontrou a página.

ERICK

Passou os dedos sobre o nome.

Depois retirou os óculos.

Cobriu o rosto.

E chorou.

Não como investigador.

Não como o garoto que precisava de respostas.

Não como aquele que sempre encontrava uma explicação.

Chorou como um adolescente que havia perdido um amigo.

O enterro aconteceu sob chuva.

Noah permaneceu praticamente imóvel.

Clary chorava.

Vick não tirava os olhos do caixão.

Cristian segurava um guarda-chuva que havia esquecido de abrir.

A água escorria pelos cabelos.

Pelos óculos.

Pelo uniforme escuro.

Ele não percebia.

Quando começaram a cobrir o caixão, Cristian finalmente desviou os olhos.

Viu a quadra ao longe.

Lembrou de Erick jogando basquete.

Lembrou das piadas.

Das discussões.

Da primeira vez que ele simplesmente se sentara à mesa sem ser convidado.

"Vocês parecem entediados."

Cristian fechou os olhos.

Nunca mais ouviria aquela voz.

Depois do enterro, Noah desapareceu por algum tempo.

Clary estava com a família.

Cristian encontrou Vick sozinha.

Ela estava sentada em um banco afastado.

Ele sentou-se ao lado.

Nenhum dos dois falou.

Até Vick perguntar:

— Você ainda tem a fotografia?

Cristian sabia qual.

— Tenho.

— E as cópias?

— Também.

Silêncio.

— Então ele estava marcado.

Cristian respirou fundo.

— Sim.

— Antes de morrer.

— Sim.

Vick virou-se para ele.

Os olhos estavam vermelhos.

— Não foi coincidência.

Cristian não respondeu.

— Fala.

— O quê?

— Que não foi coincidência.

Cristian olhou para o chão.

Durante toda a vida, exigira provas antes de afirmar alguma coisa.

Naquele momento, não tinha todas.

Mas tinha Erick dentro de um caixão.

— Não foi coincidência.

Vick começou a chorar.

Cristian também.

Os quatro voltaram à passagem poucos dias depois.

Noah queria respostas.

Vick queria respostas.

Clary precisava entender.

Cristian...

Precisava descobrir se havia ignorado alguma coisa.

Chegaram à porta.

Os cinco espaços continuavam ali.

Mas agora eram quatro.

O vazio deixado por Erick parecia existir também naquele lugar.

Cristian aproximou-se da cavidade correspondente.

Passou os dedos pelo ferro.

Nada.

Nenhuma inscrição nova.

Nenhum mecanismo.

Nenhuma explicação.

Noah bateu com força na porta.

— O que você quer?

Sua voz ecoou pelo corredor.

— O que você quer de nós?

Silêncio.

Cristian nunca tinha visto Noah daquela maneira.

Clary aproximou-se.

— Noah...

Ele bateu novamente.

— Por quê ele?

Cristian abaixou a cabeça.

Não tinha resposta.

E odiava aquilo.

Vick mudou depois da morte de Erick.

Todos mudaram.

Mas nela foi diferente.

Dormia pouco.

Comia menos.

Passava horas pesquisando.

Começou a frequentar áreas da biblioteca que antes ignorava.

Procurava funcionários antigos.

Fazia perguntas sobre ex-alunos.

Sobre desaparecimentos.

Sobre a passagem.

Sobre a torre.

Sobre pessoas que trabalharam em Valenhall décadas antes.

Cristian tentava acompanhá-la.

Nem sempre conseguia.

— Você precisa dormir — disse certa madrugada.

Vick continuou lendo.

— Depois.

— Você disse isso ontem.

— E sobrevivi.

— Esse argumento perdeu um pouco da força recentemente.

Vick parou.

Cristian imediatamente se arrependeu.

— Desculpa.

Ela fechou os olhos.

— Tudo bem.

— Não foi o que eu quis dizer.

— Eu sei.

Silêncio.

Cristian sentou-se.

— Estamos todos tentando entender.

Vick olhou para ele.

— Não.

— Como assim?

— Você está tentando entender.

— Noah está tentando encontrar alguém para culpar.

— Clary está escondendo alguma coisa.

Cristian ficou sério.

Ele também percebera.

— E você?

Vick olhou para os documentos.

— Eu estou tentando chegar primeiro.

— Primeiro onde?

Ela não respondeu.

Foi nessa época que Cristian percebeu que Vick começara a esconder parte de suas próprias pesquisas.

Antes, compartilhavam tudo.

Agora não.

Ela fechava livros quando ele se aproximava.

Guardava papéis.

Mudava de assunto.

Certa noite, Cristian encontrou uma folha dobrada entre dois livros que Vick utilizara.

Não abriu.

Levou até ela.

— Você esqueceu.

Vick pegou rapidamente.

— Obrigada.

Cristian observou.

— O que é?

— Nada.

Ele quase riu.

— Essa é uma resposta horrível.

— Aprendi com a Clary.

Cristian não sorriu.

— Vick.

Ela guardou a folha.

— Ainda não.

— Ainda não o quê?

— Quando eu tiver certeza, conto.

Cristian reconheceu a própria lógica sendo devolvida contra ele.

— Você está investigando alguma coisa sozinha.

— Sim.

— Isso é perigoso.

— Tudo aqui é perigoso.

— Justamente.

Vick segurou sua mão.

— Confia em mim.

Cristian olhou para ela.

— Confio.

E confiava.

Talvez esse tenha sido seu segundo maior arrependimento.

Não por confiar em Vick.

Mas por acreditar que confiar significava não fazer mais perguntas.

Alguns dias depois, Vick encontrou Cristian sozinho na biblioteca.

Sentou-se diante dele.

Não trouxe nenhum livro.

Aquilo já era estranho.

— Cristian?

— Sim?

— Se alguém quisesse desaparecer...

Ele levantou os olhos.

— O quê?

— Hipoteticamente.

— Odeio quando você começa uma frase assim.

Ela sorriu.

— Se uma pessoa quisesse desaparecer completamente, como faria?

Cristian tirou os óculos.

— Por que está perguntando isso?

— Curiosidade.

— Você nunca faz perguntas por curiosidade.

— Faço.

— Não desse tipo.

Vick ficou em silêncio.

Cristian aproximou-se.

— Você está pensando em fugir?

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Então por quê?

Ela olhou para as estantes.

— Porque desaparecer não significa necessariamente morrer.

Cristian sentiu um arrepio.

— Vick...

— Esquece.

Ela levantou-se.

Ele segurou seu braço.

— Não.

Vick olhou para a mão dele.

Cristian soltou.

— O que você encontrou?

— Ainda não posso contar.

— Por quê?

— Porque não sei em quem confiar.

A frase o atingiu.

— Nem em mim?

Vick imediatamente respondeu:

— Principalmente em você.

Cristian não entendeu.

— Isso não faz sentido.

— Eu sei.

Ela sorriu tristemente.

— Um dia talvez faça.

E saiu.

Cristian escreveu aquela conversa no caderno.

Palavra por palavra.

Não sabia por quê.

Apenas sentia que precisava.

"Desaparecer não significa necessariamente morrer."

Sublinhou a frase.

Depois fechou o caderno.

Nos dias seguintes, Vick parecia cada vez mais distante.

Noah percebeu.

Clary também.

Os quatro tentaram conversar.

Ela insistia que estava bem.

Cristian não acreditava.

Até que, numa tarde, encontrou-a novamente.

Vick estava perto de uma janela da biblioteca.

— Descobriu alguma coisa? — perguntou ele.

Ela demorou.

— Talvez.

Cristian quase reclamou da palavra.

Não reclamou.

— Sobre Erick?

Vick não respondeu.

— Sobre a porta?

Nada.

— Sobre as cartas?

Ela olhou para ele.

— Sobre antes de nós.

Cristian ficou atento.

— O quê?

— Existe uma parte da história de Valenhall que foi apagada.

— Isso nós já sabemos.

— Não.

Vick balançou a cabeça.

— Muito antes.

— Quanto?

Ela olhou para os corredores.

— Ainda estou tentando descobrir.

Cristian aproximou-se.

— Deixa eu ajudar.

Vick sorriu.

— Você já ajudou.

— Como?

— Você me ensinou onde procurar.

— Então me mostra.

Ela hesitou.

— Amanhã.

Cristian ficou sério.

— Promete?

Vick estendeu a mão.

— Amanhã.

Ele apertou.

— Amanhã.

O amanhã chegou.

Vick não.

No café da manhã, sua cadeira estava vazia.

Cristian percebeu imediatamente.

— Alguém viu a Vick?

Noah balançou a cabeça.

Clary também.

Esperaram.

Talvez tivesse dormido demais.

Não era típico.

Cristian foi até o dormitório.

Nada.

Biblioteca.

Nada.

Jardim.

Nada.

Sala de aula.

Nada.

A preocupação virou medo.

Depois...

Pânico.

Valenhall começou a procurar.

Professores.

Funcionários.

Alunos.

A polícia foi chamada.

Os jardins foram vasculhados.

A torre.

O lago.

Os arredores.

Nenhum sinal.

Cristian foi até a biblioteca.

Procurou os livros que Vick utilizara.

Alguns estavam lá.

Outros tinham desaparecido.

Abriu gavetas.

Pastas.

Armários.

Nada.

Foi até a mesa onde haviam conversado.

Vazia.

Então lembrou:

Amanhã.

Ela prometera mostrar.

Cristian sentou-se.

Ficou olhando para a cadeira vazia diante dele.

Durante os primeiros dias, recusou-se a usar a palavra "desaparecida".

Vick estava ausente.

Vick estava escondida.

Vick tinha ido procurar alguma coisa.

Vick voltaria.

Era apenas uma questão de tempo.

Mas o tempo passou.

Dias.

Semanas.

Nada.

Cristian começou a reconstruir as últimas semanas da amiga.

Que livros pegara.

Com quem conversara.

Quais lugares visitara.

Quais documentos solicitara.

Perguntou aos funcionários.

Alguns não lembravam.

Outros diziam não saber.

Alguns pareciam nervosos.

Um deles afirmou:

— Essa menina fazia perguntas demais.

Cristian ficou imóvel.

— O que isso quer dizer?

— Nada.

— Então por que falou?

O funcionário foi embora.

Cristian anotou.

Tudo.

Encontrou Noah na passagem certa noite.

Sozinho.

Sentado diante da porta de ferro.

Cristian sentou-se ao lado.

Por muito tempo, nenhum dos dois falou.

Depois Noah perguntou:

— Você acha que ela está viva?

Cristian demorou.

A resposta racional seria:

Não temos provas suficientes.

A resposta estatística seria cruel.

A resposta de um amigo era outra.

— Sim.

Noah olhou para ele.

— Você acredita mesmo?

Cristian encarou a porta.

Lembrou da conversa.

"Desaparecer não significa necessariamente morrer."

— Sim.

Dessa vez, falou com mais certeza.

— Acredito.

Clary também continuou procurando.

Mas Cristian percebia algo diferente nela.

Culpa.

Não apenas tristeza.

Culpa.

Certa noite, encontrou-a chorando perto do jardim.

— Clary?

Ela enxugou o rosto.

— Estou bem.

— Vocês precisam parar de dizer isso quando claramente não estão.

Clary quase sorriu.

Cristian sentou-se ao lado.

— Você sabe alguma coisa.

Ela ficou imóvel.

— Por que acha isso?

— Porque conheço você.

Silêncio.

— Tem relação com Vick?

Clary desviou os olhos.

Cristian percebeu.

— Clary.

— Eu não sei onde ela está.

— Não foi isso que perguntei.

Ela respirou fundo.

— Existem coisas sobre minha família que eu nunca contei.

Cristian esperou.

Por alguns segundos...

Pareceu que finalmente contaria.

Mas Clary balançou a cabeça.

— Ainda não consigo.

Cristian sentiu raiva.

— Erick morreu.

Clary fechou os olhos.

— Eu sei.

— Vick desapareceu.

— Eu sei!

Ela começou a chorar.

Cristian imediatamente se arrependeu.

Clary continuou:

— Você acha que eu não penso nisso todos os dias?

— Então fala comigo.

Ela olhou para ele.

— Tenho medo de que, se contar, torne tudo ainda pior.

Cristian respondeu:

— Acho que já estamos no pior.

Clary não disse nada.

Naquela época...

Cristian não sabia o quanto estava errado.

O ano terminou.

Sem Vick.

Os três continuaram procurando.

Noah.

Cristian.

Clary.

O grupo de cinco havia se tornado três.

No último dia em Valenhall, Cristian foi até a biblioteca.

Sozinho.

Sentou-se na mesma mesa onde ele e Vick passaram tantas tardes.

Retirou todos os seus cadernos.

Havia vários agora.

Registros.

Datas.

Nomes.

Cópias.

Desenhos.

Mapas.

Cartas.

Fotografias.

Pentagramas.

A porta.

Erick.

Vick.

Tudo.

Cristian espalhou-os sobre a mesa.

Durante anos, acreditara que estava construindo uma investigação.

Naquele momento percebeu que havia construído outra coisa.

Uma memória.

Porque Erick não estava mais ali.

Vick não estava mais ali.

Mas suas palavras estavam.

Seus nomes estavam.

Suas descobertas estavam.

Ninguém conseguiria apagá-los completamente.

Não enquanto Cristian guardasse aquilo.

Pegou o caderno principal.

Na página de Erick, escreveu:

Não esquecer.

Depois abriu a seção de Vick.

Ficou alguns segundos sem conseguir escrever.

Finalmente:

Não considerar morta sem prova.

Abaixo:

Última promessa: mostraria uma descoberta no dia seguinte.

Depois copiou a frase dela:

"Desaparecer não significa necessariamente morrer."

Cristian fechou os olhos.

— Onde você foi, Vick?

A biblioteca não respondeu.

Antes de sair, fez algo que manteria por décadas.

Separou todo o material.

Nunca deixaria tudo no mesmo lugar.

Uma parte iria com ele.

Outra seria escondida.

Algumas cópias ficariam fora de Valenhall.

Se alguém encontrasse uma...

As outras sobreviveriam.

Cristian havia aprendido a lição.

Uma verdade guardada em um único lugar podia ser destruída.

Espalhada...

Era muito mais difícil.

Os anos seguintes levaram os três para caminhos diferentes.

Noah seguiu para Educação Física.

Clary estudou administração e gestão.

Cristian escolheu História e Literatura.

Quando contou aos pais, sua mãe sorriu.

— Sempre soube.

O pai perguntou:

— História?

Cristian assentiu.

— Tem certeza?

Ele pensou em Erick.

Pensou em Vick.

Pensou nas páginas arrancadas.

Nos nomes raspados.

Nos documentos desaparecidos.

— Tenho.

A escolha já não era apenas sobre gostar de livros.

Era sobre algo muito maior.

Cristian queria compreender como a História era construída.

Quem decidia o que permanecia.

Quem decidia o que desaparecia.

E como recuperar aquilo que alguém tentou apagar.

Na universidade, tornou-se ainda mais metódico.

Aprendeu sobre arquivos.

Conservação.

Documentos.

Fontes primárias.

Registros públicos.

Jornais antigos.

Fotografias.

Genealogia.

Aprendeu a reconhecer alterações.

Documentos falsificados.

Datas modificadas.

Assinaturas inconsistentes.

Tudo que estudava...

Acabava voltando para Valenhall.

Nos fins de semana, continuava investigando.

Visitava arquivos.

Bibliotecas.

Procurava antigos funcionários.

Ex-alunos.

Professores.

Alguns falavam.

Outros fechavam a porta quando ouviam o nome Valenhall.

Cristian anotava tudo.

Anos se passaram.

Depois mais anos.

Nenhuma resposta definitiva.

Nenhum corpo de Vick.

Nenhuma prova de que estava morta.

Cristian recusava-se a encerrar aquela parte do arquivo.

Na capa da pasta dela havia apenas uma palavra:

DESAPARECIDA.

Nunca:

MORTA.

Com Erick era diferente.

Havia uma data.

Um enterro.

Um túmulo.

Uma ausência definitiva.

Mas Cristian também mantinha sua pasta.

Fotografias.

Anotações.

Registros.

A cópia da imagem com o círculo.

E uma pequena fotografia dos cinco juntos.

Cristian nunca conseguira jogar nada fora.

Décadas depois, quando recebeu a oportunidade de retornar a Valenhall como professor de História e Literatura...

Não respondeu imediatamente.

Ficou olhando para a proposta.

Voltar significava atravessar novamente aqueles corredores.

Entrar naquela biblioteca.

Ver a torre.

A passagem.

A porta.

Lembrar de Erick.

Procurar Vick em cada rosto.

Mas também significava uma coisa.

Acesso.

Aos arquivos.

Aos documentos.

À história que ainda estava escondida.

Cristian aceitou.

No primeiro dia de volta, caminhou sozinho pela biblioteca.

Quase tudo havia mudado.

Mesas novas.

Estantes reorganizadas.

Iluminação diferente.

Mas encontrou o lugar.

A mesa.

Aquela mesa.

Passou a mão pela madeira.

Por um instante...

Viu Vick sentada do outro lado.

Sorrindo.

"Você sempre precisa entender tudo?"

Cristian respirou fundo.

— Ainda preciso.

Sussurrou.

Depois foi até a quadra.

Ficou na entrada.

Imaginou Erick com uma bola de basquete.

Rindo.

Provocando.

"Você sentiria minha falta."

Cristian fechou os olhos.

— Senti.

A palavra quase não saiu.

Naquela noite, entrou em sua nova sala.

Colocou uma caixa sobre a mesa.

Abriu.

Os cadernos de 1995.

As cópias.

As fotografias.

As anotações.

Trinta anos depois...

Tudo ainda existia.

Cristian retirou a fotografia dos cinco.

Noah.

Cristian.

Clary.

Erick.

Vick.

Colocou-a sobre a mesa.

Depois abriu um novo caderno.

Na primeira página escreveu:

VALENHALL — INVESTIGAÇÃO REABERTA

Abaixo:

ERICK — descobrir por quê.

VICK — descobrir onde.

Ficou olhando para as duas frases.

Durante anos, Cristian acreditara que Erick e Vick eram os dois que haviam ficado para trás.

Na verdade...

Era ele quem nunca conseguira seguir completamente em frente.

Uma parte de Cristian Rossi permanecera em 1995.

Na quadra onde Erick ria.

Na biblioteca onde Vick pesquisava.

Diante da porta que nenhum deles conseguira abrir.

E talvez fosse por isso que voltara.

Não para viver no passado.

Mas para finalmente encerrá-lo.

Cristian colocou os óculos.

Abriu o primeiro arquivo.

E começou novamente.

Porque havia duas pessoas que Valenhall tentara transformar em passado.

Uma estava morta.

A outra...

Cristian nunca aceitara que estivesse.

E enquanto não descobrisse a verdade sobre os dois...

Erick e Vick jamais seriam apenas nomes em uma história que alguém tentou apagar.