Internato Valenhall
4 Navio
Em 2019, Clary Hall Lewis assumiu o cargo de vice-diretora do Internato Valenhall. Com grande influência — e contando com um marido bilionário que atendia a quase todos os seus desejos —, ela passou a idealizar mudanças significativas no funcionamento do internato, especialmente na forma como os alunos chegariam à ilha.
No mesmo ano, o Grande Salão foi reformado mais uma vez, ganhando uma nova aparência para a tradicional cerimônia de escolha das casas. A mudança tinha um objetivo claro: promover maior integração entre os alunos e tornar a convivência no internato mais harmoniosa.
Após muitos projetos que envolveram não apenas dinheiro, mas também a dedicação de inúmeras pessoas, decidiu-se que todos os novos alunos passariam a chegar à ilha de navio, e não mais em pequenos barcos, como sempre havia sido feito. Clary prezava muito pela segurança de seus futuros estudantes e, por isso, não quis um navio comum, mas sim um luxuoso navio sete estrelas.
O navio adquirido por Clary possuía instalações semelhantes às de um cruzeiro de alto padrão, com acréscimos exclusivos: uma gigantesca sala de estar, deli gourmet, mercearia e supermercado, boutique, sala de exposições, centro fitness, sala de bilhar, simulador de golfe, pista de cooper, SPA, piscina externa, restaurantes, bares e até uma capela. O entretenimento era vasto — havia de tudo, literalmente: cinema, biblioteca, apresentações musicais ao vivo, excursões virtuais, aulas de dança, navegação, culinária, artesanato, música, informática e fotografia.
Após ter gêmeos e se casar com o renomado empresário David Cooper — cujo sobrenome manteve —, Clary teve seu terceiro filho. Depois de duas gestações, entrou no mundo da moda. Seu sucesso foi rápido e, após alguns anos nas passarelas, decidiu se aposentar para se dedicar aos negócios do marido.
O garoto que Elena havia esnobado ainda estava ali, sem saber exatamente o que fazer. No entanto, quando o navio surgiu no horizonte e começou a se aproximar da costa, seu coração desacelerou. Mesmo à distância, era possível perceber que aquela embarcação parecia digna da realeza. Alunos e funcionários passariam um dia e uma noite a bordo até chegarem à ilha onde ficava o internato.
Pouco antes de o navio atracar, várias pessoas começaram a surgir no porto. Trevor observava discretamente alguns alunos que já estavam ali. Mesmo sem conhecer ninguém, seus olhos permaneciam fixos no navio, que a cada segundo se aproximava mais.
Quando a embarcação finalmente parou, uma mulher de cabelos rosa desceu primeiro. Usava grandes óculos escuros que cobriam parte do rosto. Todos os olhares se voltaram para ela. A mulher, ainda sem nome conhecido, encantou a todos com sua beleza.
— Bom dia, meu nome é Meredith, e vou guiá-los até a ilha onde se encontra o internato — anunciou, já em terra firme.
Ela continuou:
— Primeiramente, vou chamar os professores e anunciar as disciplinas que irão lecionar este ano.
Um grande telão surgiu ao seu lado, exibindo as imagens de todos os professores. Conforme Meredith chamava cada nome, a imagem correspondente aparecia em tela cheia.
Ao ouvir a palavra professores, Noah ficou confuso. Ele era a única pessoa mais velha entre os alunos, tirando Meredith. Sabia que aquele seria seu primeiro ano lecionando em Valenhall e não tinha certeza se os professores seguiriam a mesma viagem dos alunos ou se já estariam na ilha.
Meredith segurava uma prancheta.
— Noah Sanmerry — disse em voz alta, apontando para a foto na tela. — Professor de Educação Física. Ele também comandará o primeiro time de futebol do internato.
Os alunos aplaudiram e assobiaram.
Meredith pediu silêncio.
— O professor de História, que também lecionará Literatura, é Cristian Rossi.
Noah ficou paralisado. Seu melhor amigo — ou ex-melhor amigo — também estaria ali.
Enquanto Meredith anunciava os demais professores, Noah procurava Cristian com o olhar, mas não o encontrou. A surpresa era ainda maior porque, anos antes, Noah havia assistido a um noticiário da JC TV informando que o apartamento onde Cristian morava havia pegado fogo. Ele fora dado como desaparecido, e seu corpo nunca fora encontrado.
Elena não tirava os olhos do garoto que a havia incomodado pouco antes da chegada do navio e resolveu se aproximar.
— Oi, você pode me dizer seu nome? — perguntou, jogando o chiclete numa lixeira próxima.
Ele ainda estava sem jeito, lembrando-se de como ela o havia ignorado antes.
— Olá… sou Lian Rico — respondeu, nervoso.
Elena o analisou dos pés à cabeça.
— Só pra deixar uma coisa clara — disse Cora, uma garota estranha que surgiu ao lado deles. — Não sou muito simpática. Se quiser ser meu amigo, vai ter que me aceitar do jeito que eu sou.
Lian a olhou, sem saber o que responder.
— No momento, quero te conhecer melhor — disse ele, esfregando o nariz e voltando o olhar para Elena.
Enquanto isso, Cora observava a cena em silêncio. Abriu a bolsa, tirou uma garrafa metálica e tomou um gole do que havia dentro.
De repente, um homem surgiu correndo desde a entrada do porto até o navio. Era Cristian. Antes que Noah pudesse reagir, ele já havia embarcado.
Meredith olhou para o relógio.
— Todos os alunos e professores devem embarcar agora. Partiremos em cinco minutos. Quem não chegar a tempo terá de ir por outro meio.
Todos começaram a entrar no navio, seguindo para a enorme sala de estar. Ao chegar, Trevor soltou um grito tão alto que ecoou pelo local. Katy ficou vermelha de vergonha.
Encantada com a beleza da sala — que sozinha era maior que três quartos de sua mansão —, Katy se sentou rapidamente no sofá e ouviu Meredith explicar:
— Todos os quartos estão identificados com os nomes de vocês. Serão divididos em grupos de quatro, com alas separadas para meninos e meninas. Aproveitem tudo o que o navio oferece. Qualquer coisa, é só me chamar.
Meredith se afastou, e os alunos começaram a explorar o navio.
Trevor, conhecido no antigo colégio como o garoto certinho — nunca se envolvera em confusões nem festas e já havia recebido um prêmio acadêmico por ser um dos mais inteligentes da região —, escondia um segredo que quase ninguém conhecia. No navio, ele não tirava os olhos de uma garota de cabelos cacheados, certa de já tê-la visto antes. Diante de um espelho, ajeitava o cabelo, tirava e colocava os óculos, tentando chamar sua atenção.
O céu estava limpo, com sol forte e quase trinta graus. O trajeto prometia ser tranquilo. Ainda assim, Lian sentia um pressentimento estranho — algo estava prestes a acontecer naquela viagem.
Cora, por sua vez, observava Trevor de canto de olho. Percebia claramente suas tentativas de se exibir, mas não sentia o menor interesse.
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