Internato Valenhall

8 Mistérios após a meia noite


Noah permaneceu parado na porta, olhando para o chão por alguns instantes.

Então respirou fundo.

— Naquela época... éramos nós cinco. Eu, você, Clary, Erick e Vick.

Cristian permaneceu em silêncio.

— Eu me lembro de cada detalhe daquela noite — continuou Noah. — Todos nós recebemos mais cartas. Todos fomos levados até aquele salão... e todos vimos o pentagrama desenhado no chão.

Ele fechou os punhos.

— Mas, quando você foi investigar o outro corredor... eu vi alguém.

Cristian levantou lentamente a cabeça.

— Quem?

Noah balançou a cabeça.

— Até hoje não sei.

— Era um aluno?

— Não.

— Um professor?

— Também não.

Noah deu um passo para dentro do quarto e fechou a porta atrás de si.

— Era apenas uma pessoa usando um longo casaco escuro. Eu nunca consegui ver seu rosto. Quando tentei me aproximar, ela me chamou pelo meu nome.

Cristian sentiu um arrepio.

— Pelo seu nome?

— Sim. E me entregou uma segunda carta.

Noah retirou do bolso um envelope velho, amarelado pelo tempo.

As bordas estavam gastas, como se tivesse sido aberto e fechado incontáveis vezes.

— Passei anos carregando isso comigo.

Ele entregou o envelope a Cristian.

Dentro havia apenas uma frase.

"Se continuar ajudando Cristian, você será o próximo."

Cristian permaneceu imóvel.

Agora entendia por que Noah havia desaparecido naquela noite.

Noah baixou a cabeça.

— Eu fiquei apavorado. Tinha apenas dezesseis anos. Achei que, se me afastasse de você, aquilo acabaria.

Sua voz falhou.

— Mas nunca acabou.

Ele ergueu os olhos.

— Durante anos acordei no meio da madrugada achando que receberia outra carta. Sempre vivi com medo de que aquela ameaça fosse cumprida.

Cristian suspirou.

Pela primeira vez em três décadas, a mágoa começou a dar lugar à compreensão.

— Você deveria ter me contado.

Noah assentiu.

— Eu sei.

Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes.

Então Noah disse algo que fez o ambiente voltar a ficar pesado.

— Mas existe uma coisa que nunca tive coragem de revelar.

Cristian o encarou.

— Na noite em que nos separamos... eu ouvi Ana, Erick e Vick gritando.

Depois...

Silêncio.

Nunca mais ouvi a voz de nenhum deles.

Cristian fechou os olhos por um instante.

As lembranças daquela noite voltavam como se tivessem acontecido no dia anterior.

— Nós sabemos de uma coisa — disse ele, com a voz pesada. — A Clary sobreviveu. Hoje ela é a nova diretora do internato. Nunca mais conversamos sobre 1995, mas tenho certeza de que ela também se lembra de tudo.

Noah concordou em silêncio.

— Quanto ao Erick... infelizmente sabemos o que aconteceu.

O ambiente ficou pesado.

— Erick morreu naquela terrível noite.

Nenhum dos dois disse mais nada por alguns segundos.

Cristian apertou o velho bilhete que ainda segurava.

— Mas existe alguém que continua sendo um mistério.

Noah levantou os olhos.

— Vick.

O nome pareceu ecoar pela cabine.

— Depois daquela madrugada... ninguém nunca mais soube dela. Não houve despedida, não houve explicação. Apenas desapareceu.

Cristian caminhou até a pequena janela do quarto e observou o mar escuro.

— Alguns diziam que ela fugiu do internato. Outros acreditavam que mudou de identidade para nunca mais ser encontrada.

Noah balançou lentamente a cabeça.

— Eu nunca acreditei em nenhuma dessas histórias.

— Nem eu.

— Sabe por quê?

Cristian virou-se.

Noah respondeu em voz baixa:

— Porque, durante todos esses anos, uma vez por ano, eu recebo um cartão sem remetente.

Cristian arregalou os olhos.

— O quê?

— Nunca há assinatura. Apenas uma frase.

Noah retirou da carteira um cartão dobrado e o colocou sobre a mesa.

Cristian abriu cuidadosamente.

No centro do papel havia apenas cinco palavras, escritas sempre com uma caligrafia diferente:

"Ainda não encontrei a saída."

Os dois permaneceram em silêncio.

Se aquele cartão realmente vinha de Vick...

Então ela estava viva.

Mas a pergunta que nenhum dos dois conseguia responder era muito mais assustadora.

Onde ela estava há mais de trinta anos?

Cristian permaneceu alguns instantes em silêncio.

Então caminhou até a escrivaninha, abriu lentamente a gaveta inferior e retirou um envelope grosso, já amarelado pelo tempo.

Segurou-o com cuidado, como se tivesse medo de danificá-lo.

Noah arregalou os olhos imediatamente.

— Você... ainda guardou isso?

Cristian assentiu.

— Nunca tive coragem de abrir.

Ele colocou o envelope sobre a mesa.

No canto superior, a tinta já estava desbotada, mas ainda era possível ler perfeitamente o que estava escrito.

"Abra somente quando os novos cinco alunos forem escolhidos."

Noah sentiu um frio percorrer a espinha.

— Então... chegou a hora.

Cristian respirou fundo.

— Passei trinta e um anos esperando por este momento... e, ao mesmo tempo, torcendo para que ele nunca chegasse.

Os dois permaneceram olhando para o envelope.

Era como se soubessem que, ao romper aquele lacre, não haveria mais volta.

Noah passou a mão sobre o papel envelhecido.

— Você acha que lá dentro tem respostas?

Cristian balançou a cabeça.

— Conhecendo quem escreveu isso... provavelmente há mais perguntas do que respostas.

Por alguns segundos, nenhum dos dois teve coragem de tocar no envelope.

Então Cristian quebrou o selo de cera, que se desfez com um leve estalo.

O papel parecia surpreendentemente bem conservado.

Dentro havia apenas uma folha dobrada.

Cristian abriu lentamente.

No topo da página estava escrito:

"Se você está lendo esta carta, significa que os cinco foram escolhidos outra vez."

Os dois prenderam a respiração.

Cristian continuou lendo em voz alta.

"Não tente impedir o que está prestes a acontecer. Você falhou uma vez e falhará novamente. Os novos cinco precisarão fazer escolhas que vocês nunca tiveram coragem de fazer. Apenas um deles descobrirá a verdade."

No final da carta havia apenas uma assinatura.

Não era um nome.

Era apenas um símbolo.

O mesmo pentagrama que aparecera naquela noite de 1995.

Noah olhou para Cristian, completamente perplexo.

— Então... quem escreveu esta carta já sabia, há mais de trinta anos, que tudo voltaria a acontecer.

Cristian dobrou lentamente o papel.

Seu rosto perdeu a cor ao perceber um detalhe que não estava ali quando guardou o envelope décadas atrás.

Na parte de baixo da folha havia uma frase escrita com tinta ainda úmida, como se tivesse acabado de aparecer.

"Vocês já encontraram dois dos cinco."

"Faltam três."

Noah ficou completamente paralisado.

Suas mãos tremiam enquanto olhava para a carta aberta sobre a mesa.

Durante mais de trinta anos, ele acreditou que tudo aquilo tivesse acabado.

Mas estava apenas recomeçando.

Respirou fundo e levantou lentamente a cabeça.

— Cristian...

Sua voz saiu baixa e hesitante.

— E aquela passagem secreta que encontramos no internato... quando ainda éramos alunos?

Cristian permaneceu imóvel.

Era como se aquela pergunta despertasse uma lembrança que ele tentava esquecer havia décadas.

Depois de alguns segundos, respondeu:

— Eu nunca mais voltei lá.

Noah franziu a testa.

— Mas foi naquela passagem que encontramos os primeiros símbolos. As paredes estavam cobertas por desenhos, datas e nomes de alunos. Foi lá que vimos aquele velho mapa do internato.

Cristian assentiu lentamente.

— Eu me lembro.

— E também havia aquela porta de ferro...

Os dois ficaram em silêncio.

— A porta que nunca conseguimos abrir.

Noah completou:

— Porque ela só abria por dentro.

As palavras ecoaram pela cabine.

Cristian caminhou até a escrivaninha e abriu um compartimento escondido.

De dentro dele retirou um pequeno caderno de couro, cheio de anotações antigas.

Entre as páginas havia um desenho feito à mão.

Era o mapa do internato.

No canto inferior estava marcado um corredor esquecido pela maioria das pessoas.

Atrás da antiga biblioteca.

Cristian apontou para o desenho.

— A passagem secreta começava aqui.

Seu dedo percorreu um túnel estreito desenhado no mapa.

— Ela passava por baixo do prédio principal e terminava exatamente embaixo do antigo salão de cerimônias.

Noah arregalou os olhos.

— O mesmo lugar onde encontramos o pentagrama.

Cristian apenas confirmou com a cabeça.

Então virou a última página do caderno.

Havia uma anotação escrita por ele mesmo, datada de 18 de setembro de 1995.

"Nunca abrir a porta de ferro."

Noah leu a frase e perguntou:

— Você escreveu isso?

Cristian respondeu em voz baixa:

— Sim...

— Mas por quê?

Cristian fechou lentamente o caderno.

Seu olhar ficou distante.

— Porque, antes de irmos embora naquela noite... eu ouvi alguém bater do outro lado da porta.

Noah empalideceu.

— Mas... não havia ninguém lá embaixo.

Cristian respirou fundo.

— Era exatamente isso que deveria ter acontecido.

Fez uma longa pausa antes de completar:

— Só que a voz que chamou meu nome... era a minha própria voz.

Cristian ficou em silêncio por alguns instantes.

Seu olhar estava fixo na carta aberta sobre a mesa.

Então respirou fundo.

— Noah... agora você entende por que aceitei voltar para este internato?

Noah assentiu lentamente.

Cristian continuou:

— O internato ficou fechado por muitos anos. Depois vieram as reformas, ampliaram os prédios, restauraram as alas antigas... e, junto com isso, reabriram as vagas para alunos bolsistas.

Ele passou a mão pelo rosto, demonstrando cansaço.

— Quando soube que os bolsistas voltariam a estudar ali, tive a sensação de que tudo iria recomeçar.

Noah permaneceu em silêncio.

— Foi por isso que aceitei trabalhar aqui. Não porque quisesse reviver o passado... mas porque tinha medo de que alguém passasse pelo que nós passamos.

Ele olhou novamente para a carta.

— Durante anos tentei me convencer de que era apenas uma coincidência. Mas, quando os primeiros bolsistas embarcaram neste navio... eu soube.

— Soube o quê? — perguntou Noah.

Cristian respondeu sem hesitar.

— Que o ciclo estava prestes a começar outra vez.

Noah aproximou-se da janela do quarto e observou o mar escuro.

— Então Elena e Trevor são apenas os primeiros...

Cristian confirmou.

— Sim.

Ele abriu novamente o mapa do internato e apontou para um trecho circulado em vermelho.

— Se a história estiver se repetindo exatamente como em 1995, ainda faltam três alunos receberem as cartas.

Noah respirou fundo.

— E, quando isso acontecer...

Cristian completou a frase:

— ...a passagem secreta voltará a ser aberta.

Os dois ficaram em silêncio.

O som das ondas batendo contra o casco do navio parecia mais alto do que nunca.

Então Cristian fez uma última observação, quase em um sussurro:

— Desta vez, não vou cometer o mesmo erro.

Noah o encarou.

— Qual erro?

Cristian fechou lentamente o mapa.

— Em 1995, nós investigávamos para descobrir quem estava enviando as cartas.

Desta vez...

Ele olhou diretamente para Noah.

— Vamos descobrir por que elas são enviadas.

Noah permaneceu olhando para o mapa por alguns segundos.

Então levantou a cabeça e falou com firmeza:

— Temos que encontrar os responsáveis por tudo isso.

Cristian concordou.

— Também penso assim. Ficamos tempo demais tentando entender o mistério. Agora precisamos descobrir quem está por trás dele.

Noah caminhou até a janela do quarto e observou a escuridão do mar.

— Existe outra pessoa que pode nos ajudar.

Cristian já sabia de quem ele estava falando.

— Ana...

Noah assentiu.

— Sim. Ela estava conosco em 1995. Sobreviveu a tudo aquilo e, hoje, é a diretora do internato. Se alguém teve acesso aos documentos antigos, aos projetos da reforma e aos arquivos da escola, foi ela.

Cristian respirou fundo.

— Sempre achei estranho ela nunca tocar no assunto. Talvez estivesse tentando esquecer... ou talvez estivesse escondendo alguma coisa.

— De qualquer forma — respondeu Noah — ela ocupa o cargo mais importante do internato. Ter acesso às plantas do prédio, aos registros dos antigos alunos e às áreas interditadas será muito mais fácil com a ajuda dela.

Cristian voltou a observar a carta aberta.

— Se Ana realmente souber de alguma coisa, precisaremos convencê-la a contar toda a verdade.

Noah cruzou os braços.

— E, se ela já estiver investigando isso sozinha?

Cristian permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Então nós três estaremos do mesmo lado.

Ele dobrou cuidadosamente o mapa e guardou a carta no bolso.

— Assim que desembarcarmos, a primeira pessoa com quem vou conversar será Ana.

Naquele instante, o navio emitiu um longo apito, anunciando que estavam cada vez mais próximos do destino.

Cristian olhou pela janela.

Ao longe, já era possível enxergar a silhueta do antigo internato.

No topo do prédio principal, uma única luz permanecia acesa.

Noah estreitou os olhos.

— Aquela janela...

Cristian também reconheceu o lugar.

Era exatamente a janela da sala da diretoria.

E havia alguém parado ali, observando o navio se aproximar.