Internato Valenhall

11 A sociedade dos quatro fundadores


Há cerca de quatrocentos anos, quatro homens extremamente influentes decidiram criar um lugar diferente de qualquer outro.

Eles acreditavam que a educação seria a maior forma de poder do mundo.

Assim nasceu o Internato Valenhall.

Antes mesmo da construção do castelo, os quatro fundadores juraram proteger aquele lugar e criaram uma sociedade secreta que jamais seria revelada aos alunos.

Cada fundador escolheu um animal para representar seus valores:

Leão — liderança, coragem e honra. Tigre — estratégia, inteligência e disciplina. Onça — discrição, coragem e adaptação. Leopardo — agilidade, independência e criatividade.

Esses animais deram origem às quatro casas do internato, tradição mantida até os dias atuais.

No início, a sociedade tinha um único objetivo: proteger Valenhall e formar os futuros líderes da Europa.

Entretanto, com o passar dos séculos, alguns membros passaram a acreditar que o conhecimento escondido sob o internato não deveria permanecer enterrado.

Foi então que a sociedade se dividiu.

Uma parte continuou protegendo os segredos.

A outra passou a procurar uma forma de abrir a antiga porta de ferro localizada na passagem secreta.

Desde esse dia, mortes, desaparecimentos e símbolos misteriosos começaram a surgir dentro de Valenhall.

Ninguém sabe ao certo se a sociedade ainda existe.

Mas alguns professores acreditam que ela jamais deixou de atuar.

E que seus membros continuam infiltrados no internato até hoje.

No salão de baile, a música continuava.

Ninguém imaginava que, alguns metros abaixo de seus pés, quatro alunos caminhavam por um lugar que permanecera escondido durante séculos.

Clary voltou lentamente para o baile.

Ajeitou o vestido, respirou fundo e fingiu que tudo estava sob controle.

Enquanto isso, Elena observava discretamente a diretora.

— Vocês não acham que ela está estranha? — perguntou em voz baixa.

Katy olhou para Clary.

— Desde o começo da noite.

Cora permaneceu em silêncio.

Seu olhar estava fixo em uma antiga pintura pendurada na parede do salão.

A tela retratava os quatro fundadores de Valenhall.

Cada um segurava um estandarte com o símbolo de um animal.

Um leão.

Um tigre.

Uma onça.

E um leopardo.

Logo abaixo da pintura havia uma frase gravada em latim.

Cora não conseguiu entender o significado.

Naquele instante, uma senhora muito idosa, que organizava alguns documentos próximos ao palco, percebeu seu interesse.

Aproximou-se lentamente.

— Bonita, não é?

Cora sorriu.

— Quem são eles?

A mulher olhou para a pintura.

— Os quatro fundadores de Valenhall.

— Eles realmente existiram?

A senhora assentiu.

— Dizem que fundaram este internato há quase quatrocentos anos.

Ela apontou para os quatro animais.

— Cada fundador escolheu um símbolo para representar sua linhagem.

Leão.

Tigre.

Onça.

Leopardo.

Cora continuou observando.

— E o que aconteceu com eles?

A mulher sorriu de maneira estranha.

— Ninguém sabe.

Antes que pudesse fazer outra pergunta, Meredith chamou a funcionária para ajudá-la em outra tarefa.

Quando Cora voltou a olhar para a pintura...

Percebeu um detalhe que jurava não estar ali alguns segundos antes.

No canto inferior da moldura...

Alguém havia desenhado um pequeno pentagrama.

Bem ao lado dele...

Estava escrito apenas uma palavra.

"Cinco."

No mesmo instante, do outro lado da passagem secreta...

Alex continuava tentando descobrir como abrir a enorme porta de ferro.

Trevor iluminava as paredes com a lanterna.

Scott analisava os símbolos gravados no chão.

Foi Liam quem percebeu algo diferente.

— Esperem...

Os três se aproximaram.

No centro do piso havia quatro animais esculpidos na pedra.

Um leão.

Um tigre.

Uma onça.

E um leopardo.

Ao redor deles, formando um círculo perfeito...

Cinco espaços vazios.

Scott ajoelhou-se.

Passou a mão sobre um dos encaixes.

— Isso não parece decoração...

Trevor olhou para os quatro animais.

Depois para os cinco espaços.

— Acho que esse lugar nunca foi feito para quatro pessoas.

O silêncio tomou conta do corredor.

Liam completou a frase quase num sussurro:

— Foi feito para cinco.

Scott permaneceu ajoelhado diante dos símbolos esculpidos no chão.

Passou lentamente a mão sobre o leão, depois pelo tigre, pela onça e pelo leopardo.

— Isso deve ter sido feito pelos fundadores...

Liam concordou.

— Faz sentido. Eles criaram as quatro casas do internato.

Alex observava as paredes.

— Então eles também construíram esta passagem?

Trevor balançou a cabeça.

— Acho que não.

Scott apontou para um detalhe na pedra.

Havia duas inscrições diferentes.

A primeira era antiga, perfeitamente esculpida.

A segunda parecia ter sido feita muitos anos depois.

Liam aproximou a lanterna.

Na inscrição mais antiga, conseguiram ler:

"Os quatro ergueram Valenhall."

Logo abaixo, quase escondida pela poeira, havia outra frase.

A caligrafia era completamente diferente.

Mais irregular.

Mais profunda.

Scott limpou cuidadosamente a pedra com a manga do casaco.

As palavras apareceram lentamente.

"Os quatro fundadores construíram cada espaço deste internato."

"Mas este caminho..."

Os quatro prenderam a respiração.

Scott terminou de limpar a inscrição.

"...não foi feito por eles."

O silêncio tomou conta do corredor.

Trevor olhou para Alex.

— Então...

Alex completou:

— A passagem secreta foi construída por outra pessoa.

Liam continuou lendo a inscrição.

Havia mais uma linha.

"Nem mesmo os fundadores descobriram quem a construiu."

Scott sentiu um arrepio.

— Como assim?

Trevor encostou na parede de pedra.

— Isso significa que a passagem já existia...

— ...ou alguém conseguiu construí-la sem que ninguém percebesse — completou Liam.

Alex olhou novamente para a enorme porta de ferro.

— Então essa porta pode ser mais antiga que o próprio internato.

Os quatro permaneceram em silêncio.

Pela primeira vez desde que encontraram a passagem, perceberam que o maior mistério de Valenhall talvez não fosse a porta.

Nem o pentagrama.

Nem as cartas.

O verdadeiro mistério era outro.

Quem construiu aquele lugar escondido... sem que nem mesmo os fundadores soubessem de sua existência?

Enquanto os quatro observavam as inscrições, Scott encontrou outra parte da parede coberta por uma espessa camada de poeira.

Ele passou a mão lentamente sobre a pedra.

Novas palavras começaram a surgir.

Liam iluminou a inscrição com a lanterna.

Parecia um trecho retirado de um antigo registro da fundação de Valenhall.

"Quando Valenhall abriu suas portas, apenas filhos da alta sociedade poderiam estudar entre estes muros. Assim determinaram os quatro fundadores, acreditando que somente eles conduziriam o futuro das nações."

Alex continuou limpando a parede.

Mais linhas apareceram.

"Os anos passaram, e um dos fundadores começou a questionar aquela decisão."

Trevor acompanhava a leitura em silêncio.

A inscrição prosseguia.

"O fundador da Casa da Onça defendia que inteligência, coragem e caráter não pertenciam apenas aos ricos. Propôs que jovens sem recursos também pudessem estudar em Valenhall, desde que conquistassem seu lugar por mérito."

Scott sorriu discretamente.

— Então os bolsistas existem por causa dele...

Liam continuou lendo.

"Os outros três fundadores rejeitaram a ideia. Durante meses discutiram sobre o futuro da instituição, até que compreenderam que um internato dedicado ao conhecimento não poderia negar oportunidades apenas pela origem de uma pessoa."

Alex passou a lanterna para o final da inscrição.

As últimas linhas ainda podiam ser lidas.

"Assim nasceu o Programa de Bolsas de Valenhall. Desde então, alunos da alta sociedade e bolsistas passaram a estudar lado a lado, formando gerações que mudariam o mundo."

Os quatro ficaram em silêncio.

Trevor olhou para os amigos.

— Então essa tradição existe há séculos...

Scott passou a mão sobre o símbolo da onça gravado na pedra.

— Parece que alguém acreditou em pessoas como nós muito antes de nascermos.

Liam, porém, percebeu um pequeno detalhe escondido no canto da inscrição.

Havia uma última frase, escrita com uma caligrafia diferente da anterior, como se tivesse sido acrescentada muitos anos depois.

Ele aproximou a lanterna.

As palavras diziam:

"Foi depois da chegada do primeiro bolsista... que o pentagrama apareceu pela primeira vez."

Os quatro se entreolharam.

Aquela única frase parecia ligar o antigo programa de bolsas ao mistério que ainda assombrava Valenhall.

Os quatro permaneceram alguns minutos diante da enorme porta de ferro.

Trevor ainda tentou encontrar alguma abertura.

Alex bateu novamente no metal.

Scott procurou algum mecanismo escondido entre as pedras.

Liam observava atentamente cada detalhe.

Nada.

A porta era inalcançável.

Parecia ter sido construída para jamais ser aberta.

Trevor suspirou.

— Acho que perdemos nosso tempo aqui.

Scott olhou para o outro corredor.

— Só nos resta um caminho.

Sem discutir mais, os quatro seguiram pela passagem à direita.

O túnel era mais estreito e parecia subir lentamente.

Depois de alguns minutos caminhando, começaram a surgir degraus de pedra.

As paredes deixaram de ser totalmente escuras.

Uma fraca luz entrava por pequenas frestas.

Alex sorriu.

— Estamos chegando a algum lugar.

Trevor subiu os últimos degraus.

À frente deles havia uma pesada porta de madeira.

Diferente da porta de ferro, aquela possuía uma maçaneta antiga.

Trevor girou lentamente.

A porta rangeu.

Creeec...

Os quatro saíram da passagem.

Pararam imediatamente.

O lugar era completamente diferente do restante do internato.

As paredes eram de pedra escura.

As janelas estreitas deixavam entrar pouca luz.

Havia armaduras antigas, retratos empoeirados e móveis cobertos por lençóis brancos.

Parecia uma ala esquecida pelo tempo.

Liam olhou ao redor, tentando reconhecer o lugar.

Então seus olhos encontraram uma placa de bronze presa à parede.

Ele limpou a poeira com a mão.

Leu em voz alta:

— Jardim.

Alex franziu a testa.

— Jardim? Mas isso não parece um jardim.

Liam continuou observando.

— Talvez este fosse o nome desta ala antigamente.

Scott caminhou até uma janela.

Ao afastar a pesada cortina, ficou surpreso.

Do outro lado do vidro estava o jardim central do internato.

— Agora entendi...

Trevor aproximou-se.

Scott apontou para fora.

— Esta ala fica exatamente ao lado do jardim.

Os quatro trocaram um olhar.

Sem perceber, haviam acabado de encontrar uma parte do internato que aparentemente não aparecia em nenhum mapa entregue aos alunos.

E havia sinais de que alguém ainda passava por ali.

Sobre o chão empoeirado, viam-se pegadas recentes.

Os quatro permaneceram alguns segundos observando a antiga ala.

O lugar parecia abandonado havia décadas.

Mesmo assim, Trevor tinha a sensação de que alguém passava por ali regularmente.

Alex olhou uma última vez para a porta de madeira da passagem secreta.

— Em algum momento...

Os outros três olharam para ele.

— Nós vamos voltar aqui.

Scott sorriu.

— Também quero descobrir o que existe atrás daquela porta de ferro.

Liam concordou.

— Mas da próxima vez precisamos vir preparados.

Trevor deu um último olhar para o corredor escuro.

— Combinado.

Os quatro deixaram a ala antiga e seguiram pelo corredor que levava ao jardim central do internato.

Assim que atravessaram um arco de pedra coberto por trepadeiras, pararam imediatamente.

Mais à frente, duas pessoas caminhavam lentamente entre as árvores.

Scott reconheceu primeiro.

— Esperem...

Trevor acompanhou seu olhar.

— São os professores.

Noah e Cristian conversavam enquanto examinavam cuidadosamente o chão, como se procurassem alguma coisa.

Alex abaixou a voz.

— O que eles estão fazendo aqui?

Liam respondeu:

— Acho que estão procurando a saída da passagem.

Trevor respirou fundo.

— Melhor eles não descobrirem que fomos nós.

Os quatro se esconderam atrás de uma grande estátua de pedra.

Do outro lado do jardim, Cristian parou de caminhar.

Olhou lentamente para os arbustos.

Franziu a testa.

— Noah...

— O que foi?

Cristian continuava olhando na direção da estátua.

— Acho que não estamos sozinhos.

Noah também voltou o olhar para aquele lado.

Por alguns segundos, o jardim permaneceu completamente silencioso.

Uma leve brisa balançava as árvores.

Então Trevor fez um sinal para os amigos.

— Quando eu contar até três... corram para o baile.

Os três assentiram.

— Um...

— Dois...

— Três!

Os quatro dispararam pelo jardim em direção ao internato.

No mesmo instante, Cristian e Noah correram atrás deles.

— Parem! — gritou Cristian.

Mas os quatro já haviam desaparecido pelos corredores que levavam novamente ao salão de baile.

Os quatro correram pelos corredores do internato até alcançarem o salão de baile.

Assim que atravessaram as grandes portas, o relógio antigo marcou meia-noite.

Logo em seguida, o enorme sino de Valenhall ecoou por toda a ilha.

Dooong...

Dooong...

Dooong...

As três badaladas fizeram o salão inteiro silenciar.

A música parou imediatamente.

A orquestra abaixou os instrumentos.

Os alunos voltaram seus olhares para a escadaria principal.

Meredith aproximou-se do microfone.

— Atenção, alunos.

Sua voz ecoou por todo o salão.

— As três badaladas do sino anunciam oficialmente o encerramento do Baile de Máscaras.

Ela sorriu gentilmente.

— Agradecemos a presença de todos. Pedimos que retornem imediatamente aos seus dormitórios. Amanhã pela manhã teremos a cerimônia oficial de abertura do ano letivo.

Os alunos começaram a deixar o salão aos poucos.

Elena caminhava ao lado de Cora e Katy.

As três comentavam sobre a noite, enquanto seguiam para o dormitório feminino.

Trevor, Alex, Liam e Scott saíram juntos, tentando agir naturalmente para que ninguém percebesse o que haviam feito.

Ao chegarem ao corredor dos dormitórios masculinos, Scott parou diante da porta de seu quarto.

Olhou para a maçaneta.

Depois para o corredor vazio.

Soltou um pequeno suspiro.

— Ainda não chegaram...

Trevor colocou a mão em seu ombro.

— Seus colegas?

Scott assentiu.

— O quarto continua vazio.

Alex sorriu.

— Então vem dormir com a gente.

Liam concordou.

— Amanhã você volta para o seu quarto. Ninguém vai se importar por uma noite.

Scott agradeceu com um sorriso.

— Valeu.

Os quatro entraram no quarto de Trevor, Liam e Alex.

Assim que entraram no quarto, Trevor jogou a máscara sobre a cama.

Alex deitou-se no colchão e soltou um longo suspiro.

— Que noite...

Scott sentou-se na cadeira da escrivaninha, ainda tentando organizar tudo o que havia acontecido.

Foi então que Liam abriu a mochila.

Retirou um caderno de capa preta e uma caneta.

Trevor olhou curioso.

— O que você vai fazer?

Liam respondeu sem levantar a cabeça.

— Se a gente esperar até amanhã, vai esquecer metade das coisas.

Abriu a primeira página em branco e escreveu no topo:

Primeira Noite em Valenhall

Logo abaixo começou a anotar tudo o que haviam vivido.

• A passagem secreta na ala restrita.

• Os nomes de Noah, Cristian, Clary, Erick e Vick gravados na parede.

• A frase: "Os cinco abriram o caminho."

• A enorme porta de ferro sem maçaneta, fechadura ou qualquer mecanismo para abri-la.

• A inscrição sobre os quatro fundadores.

• A história do fundador da Casa da Onça e o surgimento dos bolsistas.

• A antiga ala ao lado do jardim.

Depois de escrever, Liam começou a desenhar.

Primeiro fez um esboço da passagem secreta.

Em seguida desenhou os dois caminhos.

À esquerda, a porta de ferro.

À direita, a escadaria que levava à antiga ala do internato.

Scott observava impressionado.

— Você desenha muito bem.

Liam sorriu discretamente.

— Meu pai é arquiteto. Acabei aprendendo desde pequeno.

Alex aproximou-se da escrivaninha.

— Desenha também aqueles símbolos que vimos.

Liam assentiu.

Com calma, reproduziu os quatro animais esculpidos na pedra.

O leão.

O tigre.

A onça.

O leopardo.

E, ao redor deles, os cinco espaços circulares que haviam encontrado no chão.

Trevor olhava atentamente cada detalhe.

— Esse caderno pode ser importante.

Liam fechou a tampa por um instante.

— A partir de hoje, tudo o que descobrirmos vai ficar registrado aqui.

Scott sorriu.

— Nosso diário da investigação.

— Exatamente.

Liam permaneceu alguns segundos olhando para a última página do caderno.

Respirou fundo.

Na parte inferior da folha escreveu uma única pergunta, circulando-a várias vezes.

QUEM SÃO OS CINCO ESCOLHIDOS?

Ele ficou encarando aquelas palavras.

Era a pergunta que mais fazia sentido depois de tudo o que haviam descoberto naquela noite.

Sem tirar os olhos do caderno, perguntou:

— Alguém aqui faz ideia de quem sejam esses cinco?

O quarto ficou em silêncio.

Até que Trevor levantou lentamente a cabeça.

— Eu sei de dois.

Os três olharam para ele.

— Como assim? — perguntou Alex.

Trevor respirou fundo.

— Eu sou um deles.

Alex arregalou os olhos.

— O quê?

— Na primeira noite do navio eu recebi uma carta. Ela mandava que eu fosse sozinho ao salão de festas, à uma da manhã.

Scott e Liam se entreolharam.

Trevor continuou:

— Quando cheguei lá... encontrei Elena.

Liam fechou rapidamente o caderno.

— Então ela também recebeu uma carta?

Trevor assentiu.

— Sim.

Alex ficou completamente surpreso.

— Então vocês são dois dos cinco...

Scott permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois colocou a mão no bolso da calça.

Retirou cuidadosamente um pequeno papel dobrado.

Aproximou-se da escrivaninha.

Abriu o bilhete diante dos três.

Nele estava escrito:

"Você é o terceiro."

Os três ficaram imóveis.

Trevor olhou para Scott.

— Então...

Scott assentiu lentamente.

— Eu sou o terceiro.

O silêncio voltou a tomar conta do quarto.

Liam pegou a caneta novamente.

Ao lado da pergunta escreveu três nomes.

Elena Santamarina.Trevor.Scott.

Depois desenhou dois espaços em branco.

Alex olhava fixamente para a folha.

— Então ainda faltam dois...

Liam fechou lentamente o caderno.

— E eu tenho a impressão de que eles ainda nem sabem que foram escolhidos.

O quarto mergulhou em um silêncio absoluto.

Ninguém dizia uma palavra.

A única coisa que se ouvia eram as vozes dos outros alunos pelos corredores, rindo, conversando e gritando de um quarto para outro após o fim do baile.

Parecia uma noite comum.

Mas, para aqueles quatro, nada mais era comum.

Trevor continuava olhando para os dois nomes que ainda faltavam na lista de Liam.

Scott guardou cuidadosamente o bilhete de volta no bolso.

Alex permanecia sentado na cama, tentando ligar todos os acontecimentos daquela noite.

Foi então que...

Toc...

Uma batida seca ecoou na porta.

Os quatro levantaram a cabeça ao mesmo tempo.

Ninguém se mexeu.

Alguns segundos de silêncio.

Então veio outra batida.

Toc... Toc...

Liam olhou para Trevor.

— Você está esperando alguém?

Trevor balançou a cabeça.

— Não.

Scott levantou-se lentamente da cadeira.

Alex sussurrou:

— Não abre.

A terceira batida foi mais forte.

TOC! TOC! TOC!

Trevor respirou fundo e caminhou até a porta.

Colocou a mão na maçaneta.

Olhou para os amigos.

Todos apenas assentiram.

Ele girou lentamente a maçaneta e abriu a porta.

Do lado de fora...

Não havia ninguém.

O corredor estava completamente vazio.

As luzes permaneciam acesas e, ao longe, ainda era possível ouvir alguns alunos conversando.

Trevor colocou a cabeça para fora.

Olhou para um lado.

Depois para o outro.

Nada.

— Tem alguém aí?

Nenhuma resposta.

Quando voltou para dentro do quarto, Liam apontou para o chão.

— Trevor...

Ele abaixou os olhos.

Bem na entrada, exatamente onde a porta havia sido aberta, havia um envelope preto.

Sem selo.

Sem remetente.

Na frente dele estava escrito, com uma caligrafia elegante:

"Ao quarto dos escolhidos."

Os quatro permaneceram imóveis, encarando o envelope.

Nenhum deles teve coragem de pegá-lo primeiro.

Os quatro ainda encaravam o mapa sobre a escrivaninha.

Nenhum deles conseguia desviar os olhos da marca em vermelho.

Foi então que...

Toc...

Uma batida seca interrompeu o silêncio.

Todos se assustaram.

Alex levantou imediatamente da cama.

Scott guardou rapidamente o mapa dentro do caderno de Liam.

Trevor olhou para a porta.

Ninguém teve coragem de se aproximar.

Então veio outra batida.

Toc... Toc...

Antes que qualquer um pudesse dar um passo, a maçaneta começou a girar lentamente.

A porta foi se abrindo.

Os quatro prenderam a respiração.

Quando ela finalmente se abriu por completo...

Dois homens apareceram do outro lado.

Noah.

E Cristian.

Os dois permaneceram alguns segundos observando os quatro rapazes.

Cristian foi o primeiro a falar.

— Então eram vocês.

Trevor baixou a cabeça.

— Professor...

Noah entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.

Seu olhar percorreu rapidamente o ambiente.

A cama desarrumada.

Os quatro reunidos.

O caderno de Liam ainda aberto sobre a escrivaninha.

Cristian caminhou até eles.

— Vocês entraram na passagem secreta, não foi?

Ninguém respondeu.

O silêncio já era uma resposta suficiente.

Noah respirou fundo.

— Nós seguimos vocês até o jardim, mas perderam-nos de vista.

Cristian cruzou os braços.

— Agora quero saber exatamente uma coisa.

Ele olhou diretamente para Trevor.

— Vocês chegaram até a porta de ferro?

Os quatro se entreolharam.

Trevor respondeu lentamente.

— Sim.

Cristian fechou os olhos por um instante.

Como se já esperasse aquela resposta.

Então fez a pergunta que realmente o preocupava.

— E vocês...

Sua voz ficou ainda mais séria.

— Conseguiram abrir a porta?

O quarto inteiro permaneceu em silêncio.

Scott foi quem respondeu.

— Não.

— Ela não tem maçaneta, fechadura, tranca... nada. Tentamos empurrar, chutar e até jogamos uma pedra nela, mas não aconteceu absolutamente nada.

Pela primeira vez desde que entrou no quarto, Cristian pareceu aliviado.

Ele olhou para Noah, que discretamente soltou o ar que prendia.

— Ainda bem... — murmurou Noah.

Mas, antes que qualquer outro assunto fosse abordado, Cristian percebeu algo sobre a escrivaninha.

Havia um envelope preto.

Seu rosto perdeu a cor.

Ele caminhou lentamente até a mesa e perguntou, quase em um sussurro:

— Quem deixou essa carta aqui?

Cristian permaneceu olhando para o envelope.

Seu semblante mudou completamente.

— Quem deixou isso aqui? — perguntou novamente.

Alex foi o primeiro a responder.

— Acabamos de receber.

Cristian ergueu os olhos.

— Como?

— Alguém bateu na porta. Quando Trevor abriu, não tinha ninguém no corredor. Só esse envelope.

Noah olhou para Trevor.

— Vocês viram alguma pessoa?

Trevor balançou a cabeça.

— Ninguém.

Scott completou:

— Parecia que o envelope simplesmente apareceu ali.

Noah pegou cuidadosamente a carta.

Leu cada linha em silêncio.

Quando chegou à frase "Nunca deveriam ter saído de lá sem abrir a porta.", sua expressão ficou séria.

Cristian aproximou-se.

— Posso ver?

Noah entregou o papel.

Cristian leu atentamente.

Seu olhar parou no mapa desenhado no verso.

Ele fechou os olhos por alguns segundos.

— Exatamente como aconteceu conosco...

Os quatro rapazes se entreolharam.

Liam deu um passo à frente.

— Professor... o senhor também recebeu cartas?

Cristian levantou lentamente os olhos.

Depois de alguns segundos de silêncio, respondeu:

— Sim.

Noah continuou:

— Em 1995, nós cinco recebemos cartas muito parecidas.

Scott perguntou:

— Quem eram os cinco?

Cristian respondeu sem hesitar.

— Eu... Noah... Clary... Erick... e Vick.

O quarto voltou a ficar em silêncio.

Alex respirou fundo.

— Então tudo isso já aconteceu antes?

Noah assentiu.

— Sim.

— E vocês descobriram quem fazia isso? — perguntou Trevor.

Cristian abaixou a cabeça.

— Não.

Liam abriu novamente seu caderno.

Na última página escreveu uma nova pergunta.

O que aconteceu com os cinco escolhidos de 1995?

Cristian observou a pergunta e respondeu antes mesmo que alguém a fizesse em voz alta.

— Erick morreu.

— Vick desapareceu.

— E nós três... passamos vinte e sete anos tentando esquecer aquela história.

Ele olhou fixamente para os quatro rapazes.

— Mas agora entendemos uma coisa.

Trevor franziu a testa.

— O quê?

Cristian respondeu em voz baixa:

— O jogo começou outra vez.

E, desta vez...

alguém quer que nós participemos dele juntos.

O quarto permaneceu em silêncio.

Ninguém ousava interromper Noah.

Ele respirou fundo e sentou-se na cadeira ao lado da escrivaninha.

Passou a mão no rosto, como se tentasse organizar as próprias lembranças.

— No começo... o meu trauma foi grande demais.

Olhou para Cristian.

— Acho que meu cérebro tentou me proteger.

Baixou a cabeça por alguns segundos.

— Eu simplesmente... esqueci muita coisa.

Scott, Trevor, Liam e Alex ouviam atentamente.

— Durante anos, minhas lembranças ficaram incompletas. Eu lembrava apenas de alguns rostos, alguns lugares... e de uma sensação constante de medo.

Noah respirou fundo.

— Mas desde que voltei para Valenhall...

Levantou lentamente os olhos.

— Essas lembranças estão voltando.

Cristian permaneceu em silêncio.

Sabia exatamente do que o amigo estava falando.

Noah voltou-se para ele.

— Cristian...

— Você lembra das férias de verão... do nosso primeiro ano?

Cristian franziu a testa.

— As férias?

— Sim.

— Aquelas em que apenas alguns alunos permaneceram no internato.

O professor de História ficou completamente imóvel.

Por alguns segundos, parecia procurar aquela memória no fundo da mente.

Então sua expressão mudou.

— Meu Deus...

Ele deu um passo para trás.

— Eu tinha me esquecido completamente...

Noah assentiu.

— Nós não fomos embora naquele verão.

Cristian começou a lembrar.

— É verdade...

— A maioria dos alunos voltou para casa.

— Mas alguns permaneceram em Valenhall.

Noah completou:

— Nós cinco.

Cristian.

Noah.

Clary.

Erick.

Vick.

Scott observou a reação dos dois.

— O que aconteceu naquele verão?

Cristian fechou os olhos.

— Eu... não consigo lembrar de tudo.

Noah continuou olhando para o vazio.

Como se estivesse vendo cenas do passado.

— Só lembro de uma noite...

— Muito quente...

— O internato completamente vazio...

— E alguém chamando nossos nomes do jardim.

No quarto, ninguém dizia uma palavra.

Então Noah murmurou quase para si mesmo:

— Acho que foi naquele verão...

— Que aconteceu o primeiro. Houve uma pequena pausa. Sumiço.