Internato Valenhall

19 A Herdeira dos Segredos


Muito antes de ser a mulher que caminhava pelos corredores de Valenhall carregando as chaves de praticamente todas as portas, Clary Hall Lewis foi apenas uma menina que aprendera cedo demais que algumas portas deveriam permanecer fechadas.

A mansão dos Hall Lewis era enorme.

Grande demais para três pessoas.

Clary costumava pensar nisso quando era criança.

Havia quartos que nunca eram usados, corredores onde seus passos ecoavam e salas que permaneciam fechadas durante meses. Funcionários entravam e saíam silenciosamente, os jardins eram impecavelmente cuidados e, todas as manhãs, o café era servido exatamente às sete.

Tudo tinha horário.

Tudo tinha lugar.

Tudo tinha uma regra.

E, acima de qualquer regra, havia um nome.

Hall Lewis.

— Endireite os ombros, Clary.

A menina imediatamente corrigiu a postura.

Estava sentada diante de uma enorme mesa de madeira.

Devia ter apenas oito anos.

À sua frente estava seu pai.

Erik Hall Lewis.

Ele lia o jornal enquanto tomava café.

— Assim?

Erik levantou os olhos.

— Melhor.

Clary sorriu discretamente.

Queria ouvir um elogio.

Ele voltou para o jornal.

O elogio nunca veio.

A mãe de Clary permanecia do outro lado da mesa.

Era uma mulher elegante, sempre muito bem vestida e cuidadosa com cada palavra.

— Sua professora de piano virá às quatro — disse ela.

Clary fez uma pequena careta.

— Posso brincar depois?

Erik respondeu antes da esposa.

— Depois você tem francês.

— E depois?

— Leitura.

Clary abaixou os olhos.

— Crianças também precisam brincar.

A mãe sorriu.

Erik dobrou lentamente o jornal.

— Crianças Hall Lewis precisam estar preparadas.

Clary nunca esqueceu aquela frase.

Naquele momento não compreendia exatamente para quê precisava estar preparada.

Anos depois...

Entenderia.

Clary cresceu cercada por pessoas.

Mas quase sempre se sentia sozinha.

Havia funcionários.

Professores particulares.

Motoristas.

Empregados.

Convidados importantes que apareciam para jantares intermináveis.

Empresários.

Políticos.

Diretores de instituições.

Homens que apertavam a mão de Erik e diziam:

— Sua filha será uma grande Hall Lewis.

Clary sorria.

Porque aprendera que era isso que esperavam dela.

Mas depois corria para o quarto.

Tirava os sapatos.

Sentava no chão.

E passava horas desenhando.

Era uma das poucas coisas que fazia sem alguém lhe dizer como.

Em uma dessas tardes, quando tinha aproximadamente dez anos, Clary resolveu explorar a mansão.

Conhecia quase todos os cômodos.

Quase.

No final do segundo andar existia um corredor onde raramente alguém passava.

No fim dele havia uma porta.

Sempre trancada.

Clary já perguntara várias vezes o que existia ali.

Nunca recebia uma resposta.

Naquela tarde, porém, a porta estava entreaberta.

Ela olhou para os dois lados.

Não havia ninguém.

Empurrou lentamente.

O cômodo estava escuro.

O cheiro de madeira antiga tomou conta de seu nariz.

Clary entrou.

Havia caixas.

Móveis cobertos.

Livros.

Fotografias.

Muitas fotografias.

Ela começou a olhar.

Homens usando ternos antigos.

Mulheres com vestidos elegantes.

Crianças.

Casamentos.

Cerimônias.

Era a história da família.

Clary gostou.

Sentou no chão e começou a examinar as imagens.

Até encontrar uma fotografia diferente.

Nela estava seu pai.

Muito mais jovem.

Clary sorriu.

— Papai...

Ao lado dele havia outro homem.

Mais velho.

Clary não o reconheceu.

Os dois estavam diante de um prédio enorme.

Ela aproximou a fotografia dos olhos.

No fundo havia uma torre.

Um relógio.

E um portão de ferro.

Na parte inferior estava escrito:

VALENHALL

Clary franziu a testa.

Nunca tinha ouvido aquele nome.

Virou a fotografia.

Havia uma anotação.

A tinta estava desbotada.

Conseguiu ler apenas parte:

"...não deveria ter voltado."

— O que está fazendo aqui?

Clary quase deixou a fotografia cair.

Erik estava parado na porta.

Seu rosto estava completamente sério.

— Eu...

— Quem deixou você entrar?

— A porta estava aberta.

Ele caminhou rapidamente até ela.

Pegou a fotografia de suas mãos.

Clary ficou assustada.

Nunca tinha visto o pai reagir daquela maneira.

— Quem é esse homem?

Erik olhou para a fotografia.

Por apenas um segundo...

Clary percebeu algo nos olhos dele.

Medo.

Mas desapareceu rapidamente.

— Ninguém.

— Mas ele está com você.

— Clary.

A voz dele ficou firme.

— Saia.

Ela levantou-se.

Antes de atravessar a porta, olhou novamente para a fotografia.

— O que é Valenhall?

Erik ficou imóvel.

Depois colocou a fotografia dentro de uma caixa.

— Uma escola.

— Você estudou lá?

Ele fechou a tampa.

— Não importa.

— Eu posso estudar lá?

Erik virou-se imediatamente.

— Não.

A resposta foi tão rápida que Clary se assustou.

— Por quê?

Ele caminhou até a porta.

— Porque eu disse que não.

Clary saiu.

Erik fechou a porta.

Dessa vez...

Ela ouviu a chave girando.

Naquela noite, Clary não conseguiu dormir.

Valenhall.

O nome permanecia em sua cabeça.

Ela repetia silenciosamente.

Valenhall.

Valenhall.

Valenhall.

Até finalmente adormecer.

Os anos passaram.

Clary cresceu.

Aulas particulares deram lugar a uma escola tradicional.

As festas infantis deram lugar a jantares formais.

Os vestidos tornaram-se mais elegantes.

As cobranças aumentaram.

Erik falava cada vez mais sobre o futuro.

— Um dia você precisará compreender os negócios da família.

Clary tinha treze anos quando perguntou:

— Por quê?

— Porque tudo isso continuará depois de mim.

— Eu nem sei se quero trabalhar com empresas.

Erik sorriu.

— Você descobrirá o que quer com o tempo.

Ela respondeu:

— E se eu quiser outra coisa?

O sorriso desapareceu.

— Você é uma Hall Lewis.

Era sempre aquilo.

Como se o sobrenome respondesse todas as perguntas.

Certa noite, Clary acordou com vozes vindas do andar de baixo.

Olhou o relógio.

Passava das duas da manhã.

Saiu do quarto.

Desceu alguns degraus.

A porta do escritório do pai estava aberta.

Erik discutia com outro homem.

Clary não conseguia vê-lo.

Apenas ouvir.

— Você prometeu que aquilo havia terminado.

A voz desconhecida parecia nervosa.

Erik respondeu:

— Terminou.

— Então explique isso.

Alguma coisa foi jogada sobre a mesa.

Silêncio.

Depois Erik falou:

— Onde encontrou?

— Foi entregue na minha casa.

— Quem mais viu?

— Ninguém.

— Tem certeza?

— Erik, pare de fazer perguntas e me diga o que significa.

Clary desceu mais um degrau.

A madeira rangeu.

As vozes pararam.

Ela congelou.

Erik apareceu no corredor.

— Clary?

Ela tentou parecer sonolenta.

— Eu vim beber água.

O pai ficou alguns segundos observando-a.

— Volte para o quarto.

— Quem está aí?

— Ninguém que você conheça.

Clary olhou por cima do ombro dele.

Sobre a mesa havia um envelope.

Preto.

No centro...

Um desenho.

Um pentagrama.

Clary não sabia o que significava.

Mas guardou aquela imagem na memória.

— Clary.

Ela voltou a olhar para o pai.

— Para o quarto.

Dessa vez obedeceu.

Na manhã seguinte...

O visitante havia desaparecido.

O envelope também.

Clary tentou perguntar.

— Pai...

— Sim?

— O que significa aquela estrela dentro do círculo?

Erik deixou a xícara sobre a mesa.

— Que estrela?

— A do envelope.

A expressão dele mudou.

— Você entrou no meu escritório?

— Não.

— Então esqueça o que viu.

— Mas...

— Esqueça.

Clary ficou em silêncio.

Erik continuou tomando café.

Como se nada tivesse acontecido.

Mas ela percebeu.

A mão dele tremia.

A partir daquele dia, Clary começou a prestar mais atenção.

Erik recebia telefonemas e saía da sala.

Algumas correspondências eram entregues diretamente a ele.

Determinados nomes nunca eram mencionados.

E havia uma palavra que fazia seu pai mudar completamente de comportamento.

Valenhall.

Quando aparecia no jornal...

Erik fechava a página.

Quando algum convidado mencionava a escola...

Ele mudava de assunto.

Quando Clary perguntava...

Ele se recusava a responder.

Naturalmente...

Ela ficou cada vez mais curiosa.

Aos quatorze anos, encontrou um livro sobre os melhores internatos do país.

Valenhall ocupava várias páginas.

Clary leu tudo.

Fundado séculos antes.

Conhecido pela excelência acadêmica.

Biblioteca histórica.

Equipes esportivas.

Alunos de famílias tradicionais.

Ela não encontrou nada assustador.

Nada que explicasse o medo do pai.

Muito pelo contrário.

Parecia fascinante.

Na última página havia uma fotografia do prédio.

Era exatamente o mesmo da foto escondida na mansão.

Clary arrancou discretamente aquela página.

Guardou dentro de um caderno.

Meses depois...

Erik entrou no quarto da filha.

Encontrou a fotografia.

— De onde tirou isso?

Clary percebeu imediatamente que ele estava irritado.

— De um livro.

— Eu disse para esquecer esse lugar.

Ela levantou-se.

Já não era mais a menina de dez anos que abaixava a cabeça diante dele.

— E eu estou cansada de você nunca explicar nada.

Erik ficou surpreso.

— Cuidado com a maneira como fala comigo.

— Então responde.

— Por que você tem tanto medo dessa escola?

— Eu não tenho medo.

— Tem sim.

Silêncio.

Clary continuou:

— Toda vez que alguém fala de Valenhall você muda de assunto.

— Você esconde fotografias.

— Recebe cartas.

— Quem era aquele homem da foto?

Erik ficou imóvel.

Clary percebeu que tinha ido longe demais.

Mas não recuou.

— Quem era ele?

O pai caminhou até a janela.

Ficou alguns segundos olhando para o jardim.

— Existem histórias da nossa família que você ainda não está preparada para conhecer.

— Eu nunca estou preparada para nada segundo você.

Erik virou-se.

— Porque algumas verdades mudam a maneira como enxergamos as pessoas.

Clary respondeu:

— Talvez eu queira enxergar.

Erik aproximou-se.

Pegou a página com a fotografia de Valenhall.

Mas, dessa vez, não a destruiu.

Devolveu para a filha.

— Um dia você vai entender.

Depois saiu.

Poucos meses depois...

Clary tomou sua primeira grande decisão.

Queria estudar em Valenhall.

Não contou imediatamente.

Pesquisou.

Descobriu o processo de admissão.

Fez inscrição.

Prestou os exames.

Tudo sem dizer ao pai.

Quando a correspondência chegou...

Foi a mãe quem encontrou.

— Clary...

Ela entrou no quarto segurando o envelope.

— O que você fez?

Clary percebeu pelo brasão.

Valenhall.

Abriu.

Leu.

Depois sorriu.

APROVADA.

— Eu consegui.

A mãe não sorriu.

— Seu pai não vai gostar.

— Ele não precisa gostar.

— Clary...

— Eu quero estudar lá.

— Existem outras escolas.

— Eu quero essa.

A mãe sentou-se ao lado dela.

— Por quê?

Clary pensou na fotografia.

No pentagrama.

Nas conversas escondidas.

Nos telefonemas.

No medo de Erik.

Então respondeu:

— Porque ninguém quer que eu vá.

Naquela noite...

O jantar foi silencioso.

O envelope estava sobre a mesa.

Erik já sabia.

— Não.

Foi a primeira coisa que disse.

Clary continuou comendo.

— Eu passei.

— Não importa.

— Para mim importa.

— Você estudará em outro lugar.

Ela levantou os olhos.

— Por quê?

— Já conversamos sobre isso.

— Não.

— Você falou e eu ouvi.

— Isso não é conversar.

Erik respirou profundamente.

— Valenhall não é lugar para você.

— Então me diga por quê.

Silêncio.

— O que aconteceu lá?

Nenhuma resposta.

— Quem era o homem da fotografia?

Erik permaneceu imóvel.

— Por que você recebe cartas com aquele símbolo?

A mãe de Clary abaixou os olhos.

Erik colocou lentamente os talheres sobre a mesa.

— Chega.

Clary levantou-se.

— Não.

Pela primeira vez...

Ela enfrentou o pai.

— Passei minha vida inteira ouvindo que sou uma Hall Lewis.

— Que tenho responsabilidades.

— Que preciso estar preparada.

— Mas ninguém nunca me conta para quê.

Sua voz começou a falhar.

— Então eu vou descobrir sozinha.

Erik ficou olhando para a filha.

Havia raiva em seu rosto.

Mas também outra coisa.

Algo que Clary não conseguia compreender.

Finalmente ele respondeu:

— Você quer ir?

— Quero.

— Então vá.

A mãe de Clary arregalou os olhos.

Clary também ficou surpresa.

Erik levantou-se.

Antes de sair da sala, parou ao lado da filha.

— Mas quando perceber que algumas perguntas deveriam permanecer sem resposta...

Ele olhou diretamente para ela.

— Não diga que eu não avisei.

Naquela madrugada...

Clary acordou com sede.

Ao passar pelo corredor, percebeu luz saindo por baixo da porta do escritório.

Aproximou-se.

Dessa vez não havia conversa.

Erik estava sozinho.

Sentado diante da mesa.

Clary observou pela pequena abertura.

Seu pai segurava a antiga fotografia.

Aquela de Valenhall.

O homem desconhecido continuava ao seu lado.

Erik virou a fotografia.

Ficou olhando para o que estava escrito atrás.

Depois abriu uma gaveta.

Retirou outro objeto.

Um recorte de jornal.

Clary conseguiu enxergar apenas a manchete:

DESAPARECIMENTO CONTINUA SEM RESPOSTAS

Erik passou a mão sobre o rosto.

Parecia cansado.

Então fez algo que Clary jamais imaginaria ver.

Seu pai começou a chorar.

Silenciosamente.

Clary permaneceu imóvel.

Nunca tinha visto Erik Hall Lewis chorar.

Nem mesmo em funerais.

Ele pegou a fotografia novamente.

E falou sozinho:

— Eu tentei.

Fez uma pausa.

— Eu juro que tentei encontrar você.

Clary sentiu o coração acelerar.

Encontrar quem?

Erik continuou:

— Mas você desapareceu sem deixar nada.

Ele abaixou a cabeça.

— Me perdoe.

Clary afastou-se lentamente da porta.

Voltou para o quarto.

Naquela noite...

Não dormiu.

Algumas semanas depois, as malas estavam prontas.

O carro aguardava diante da mansão.

Clary desceu as escadas.

A mãe a abraçou demoradamente.

— Ligue todos os dias.

Clary riu.

— Todos?

— Todos.

Erik aguardava próximo à porta.

Ela aproximou-se.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Então ele entregou um pequeno envelope.

— Abra quando chegar.

Clary pegou.

— O que tem aqui?

— Um conselho.

Ela sorriu.

— Finalmente resolveu me contar alguma coisa?

Erik não sorriu.

— Não confie em tudo que Valenhall mostrar para você.

Clary franziu a testa.

— Isso não faz sentido.

— Um dia fará.

Ela guardou o envelope.

Entrou no carro.

Enquanto o veículo se afastava, observou o pai pelo vidro traseiro.

Erik permaneceu parado diante da mansão.

Olhando para ela.

Até desaparecer completamente de vista.

Horas depois...

As torres de Valenhall apareceram no horizonte.

Clary aproximou-se da janela.

Sentiu algo estranho.

Não era medo.

Era como se já conhecesse aquele lugar.

O portão de ferro se abriu.

O carro entrou.

Alunos caminhavam pelos jardins.

Funcionários carregavam malas.

Pais despediam-se dos filhos.

Tudo parecia perfeitamente normal.

Clary desceu.

Olhou para a torre do relógio.

Depois para o enorme prédio principal.

Por dez anos, aquele lugar havia sido apenas uma fotografia escondida.

Agora estava diante dela.

Real.

Clary levou a mão ao bolso.

Lembrou-se do envelope entregue pelo pai.

Abriu.

Dentro havia uma folha dobrada.

Esperava um texto.

Encontrou apenas duas frases.

A primeira dizia:

"Não procure pelo que aconteceu."

Clary franziu a testa.

Abaixo...

A segunda frase:

"Procure por quem ainda está tentando esconder."

Ela leu novamente.

Guardou o papel.

Então ouviu uma voz atrás dela.

— Clary!

Virou-se.

Um garoto vinha em sua direção.

Ela o conhecia.

Sorriu.

Poucos metros atrás dele estavam dois outros alunos.

Um garoto magro de óculos.

E outro, de cabelos castanhos, segurando uma mala simples e observando Valenhall como se nunca tivesse visto algo tão grandioso.

Clary ainda não sabia seus nomes.

Em poucos minutos conheceria Cristian.

Conheceria Noah.

Depois Vick.

E, ao lado deles, viveria os acontecimentos que mudariam sua vida para sempre.

Mas antes de caminhar até os futuros amigos, Clary olhou uma última vez para a torre.

No alto...

Atrás de uma das janelas...

Parecia haver alguém observando sua chegada.

Ela piscou.

Não havia mais ninguém.

Clary apertou o envelope do pai entre os dedos.

E seguiu em frente.

Naquele instante, ainda acreditava que tinha escolhido Valenhall.

Anos depois compreenderia que essa talvez fosse a primeira mentira daquela história.

Porque algumas famílias recebem heranças em dinheiro.

Outras recebem propriedades.

Os Hall Lewis...

Herdavam segredos.

As férias de verão deveriam ter sido tranquilas.

Depois de meses em Valenhall, Clary imaginava que voltar para casa significaria algumas semanas longe dos corredores antigos, das perguntas sem resposta e das histórias que pareciam acompanhar o internato.

Estava enganada.

Naquele verão, Clary descobriria que Valenhall não era o único lugar construído sobre segredos.

Sua própria família também era.

O carro atravessou os enormes portões da propriedade Hall Lewis pouco depois das quatro da tarde.

Clary observava a mansão pela janela.

Nada havia mudado.

Os jardins continuavam perfeitamente aparados.

As fontes funcionavam.

Os funcionários aguardavam próximo à entrada.

Tudo parecia exatamente como antes.

Mesmo assim, ela sentiu que alguma coisa estava diferente.

Havia dois homens que nunca tinha visto próximos ao portão.

Ternos escuros.

Nenhum deles parecia funcionário.

Quando o carro passou, um levou discretamente a mão ao interior do paletó.

Clary percebeu.

Não comentou.

Assim que desceu, sua mãe veio recebê-la.

— Finalmente!

Abraçou a filha com força.

Clary sorriu.

— Também senti sua falta.

— Você está mais magra.

— Mãe...

— Está sim.

As duas riram.

Clary olhou para a entrada.

— Meu pai?

O sorriso da mãe diminuiu discretamente.

— Trabalhando.

— Ele sabia que eu chegaria hoje.

— Sabe como seu pai é.

Clary sabia.

Ou pelo menos achava que sabia.

Erik apareceu apenas durante o jantar.

Entrou na sala enquanto falava com alguém pelo telefone.

— Não quero desculpas.

Clary levantou os olhos.

Erik continuou caminhando.

— Resolva antes de amanhã.

Desligou.

Quando percebeu a filha, sua expressão mudou.

— Clary.

Ela sorriu.

— Oi, pai.

Ele aproximou-se e beijou sua testa.

— Como foi o semestre?

— Interessante.

Erik sentou-se.

— Interessante é uma palavra perigosa quando você está falando de Valenhall.

Clary sorriu discretamente.

— Eu gostei de lá.

— Imaginei.

— Fiz amigos.

— Isso é bom.

Ela quase mencionou Noah, Cristian, Erick e Vick.

Preferiu não fazê-lo.

Desde que chegara ao internato, aprendera que seu pai fazia perguntas demais quando o assunto era Valenhall.

E respondia poucas.

Nos primeiros dias das férias, Clary tentou aproveitar a casa.

Dormiu até mais tarde.

Leu.

Passeou pelos jardins.

Encontrou antigos amigos.

Mas começou a perceber coisas que, quando criança, nunca havia questionado.

Carros chegavam durante a madrugada.

Homens desconhecidos entravam no escritório de seu pai.

Alguns ficavam poucos minutos.

Outros permaneciam durante horas.

Havia reuniões que nunca apareciam na agenda da família.

Telefonemas interrompidos quando Clary entrava em uma sala.

E sempre aqueles homens de terno.

Na entrada.

Nos jardins.

Próximos aos carros.

Observando.

Numa noite, Clary estava descendo para buscar água quando ouviu vozes no escritório.

Parou.

Reconheceu a voz do pai.

— Quanto?

Outro homem respondeu:

— Quase dois milhões.

— Perdemos?

— Ainda não.

Erik permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Então não perdemos.

— Eles não querem negociar.

— Todo mundo negocia.

— Esses não.

Erik respondeu calmamente:

— Então eles ainda não entenderam com quem estão negociando.

Clary sentiu um desconforto.

Havia alguma coisa naquela frase.

Algo que nunca ouvira na voz do pai.

Ela voltou para o quarto.

Na manhã seguinte, perguntou durante o café:

— O que exatamente faz o Grupo Hall Lewis?

Erik levantou os olhos do jornal.

— Por que a pergunta?

— Curiosidade.

— Investimentos.

— Em quê?

— Muitas coisas.

— Que coisas?

Ele sorriu.

— Hotéis. Construção. Transporte. Imóveis. Participações em empresas.

Clary tomou um gole de suco.

— Só isso?

O sorriso de Erik diminuiu.

— O que mais deveria existir?

— Não sei.

Ela deu de ombros.

— Por isso perguntei.

Erik voltou ao jornal.

— Aproveite suas férias, Clary.

A conversa terminara.

Duas semanas depois, aconteceu a primeira coisa que ela não conseguiu ignorar.

Clary voltava de uma tarde na cidade quando percebeu movimentação atrás da mansão.

Dois carros estavam estacionados próximos a um antigo depósito.

Seu pai estava lá.

Com quatro homens.

Clary pediu ao motorista que parasse na entrada principal.

Esperou o carro ir embora.

Depois atravessou discretamente o jardim.

Não sabia exatamente por quê.

Talvez fosse apenas curiosidade.

Talvez estivesse cansada de respostas incompletas.

Aproximou-se do depósito.

A porta estava parcialmente aberta.

Clary ouviu a voz do pai.

— Ele teve três oportunidades.

Um homem respondeu:

— E recusou todas.

— Então não haverá uma quarta.

Clary aproximou-se.

Conseguiu enxergar parte do interior.

Havia um homem sentado.

Seu rosto estava machucado.

Dois homens permaneciam atrás dele.

Clary levou imediatamente a mão à boca.

O homem sentado falou:

— Posso conseguir o dinheiro.

Erik estava diante dele.

Completamente calmo.

— Você teve seis meses.

— Preciso de mais uma semana.

— Não.

— Erik...

— Senhor Hall Lewis.

O homem abaixou a cabeça.

— Senhor Hall Lewis...

Clary sentiu o coração acelerar.

Queria sair dali.

Mas suas pernas não obedeciam.

Erik aproximou-se do homem.

— Sua dívida não é mais financeira.

Fez uma pausa.

— Agora é uma questão de confiança.

Clary recuou.

Uma folha seca estalou sob seu sapato.

Um dos homens virou imediatamente.

— Tem alguém lá fora.

Clary correu.

Atravessou o jardim.

Entrou pela porta lateral da mansão.

Subiu as escadas.

Fechou-se no quarto.

Seu coração parecia querer sair do peito.

Quase uma hora depois...

Alguém bateu à porta.

— Clary?

Era Erik.

Ela permaneceu em silêncio.

— Posso entrar?

— Estou cansada.

Silêncio.

— Tudo bem.

Os passos se afastaram.

Clary sentou-se na cama.

Pela primeira vez na vida...

Sentia medo do próprio pai.

Nos dias seguintes, evitou Erik.

Respondia apenas o necessário.

Até que, numa manhã, decidiu entrar no escritório enquanto ele estava fora.

A porta estava trancada.

Clary já esperava.

Mas conhecia aquela casa melhor que qualquer funcionário.

Havia uma chave reserva na antiga escrivaninha da biblioteca.

Pegou.

Abriu.

Entrou.

O escritório parecia normal.

Livros.

Documentos.

Fotografias.

Uma enorme mesa.

Clary começou a procurar.

Não sabia o quê.

Abriu gavetas.

Pastas.

Armários.

Nada.

Até perceber que um dos quadros estava ligeiramente afastado da parede.

Retirou-o.

Atrás havia um cofre.

Clary quase riu.

— Claro...

Tentou algumas combinações.

Aniversário de Erik.

Nada.

Aniversário dela.

Nada.

Data de casamento dos pais.

Nada.

Então lembrou da fotografia antiga.

Valenhall.

Digitou o ano que aparecia nela.

O cofre abriu.

Clary congelou.

— Não acredito...

Dentro havia dezenas de pastas.

Algumas estavam identificadas apenas com iniciais.

Outras tinham nomes de empresas.

Clary abriu a primeira.

Fotografias.

Homens.

Endereços.

Contas bancárias.

Abriu outra.

Pagamentos.

Empresas de fachada.

Transferências internacionais.

Outra.

Nomes de policiais.

Juízes.

Empresários.

Políticos.

Ao lado de alguns nomes havia valores.

Clary começou a sentir náusea.

Aquilo não era administração empresarial.

Era outra coisa.

Muito maior.

Muito pior.

Então encontrou uma pasta preta.

Na capa havia apenas duas palavras:

HALL LEWIS

Abriu.

Na primeira página havia uma fotografia de Erik.

Abaixo:

ERIK HALL LEWIS

E uma sequência de informações.

Clary começou a ler.

Quanto mais avançava...

Mais difícil ficava respirar.

Extorsão.

Lavagem de dinheiro.

Contrabando.

Suborno.

Empresas utilizadas para movimentação de dinheiro.

Negociações clandestinas.

Homens ligados à família em diferentes cidades.

Clary fechou a pasta.

— Meu Deus...

Seu pai não era apenas um empresário poderoso.

Erik Hall Lewis comandava uma organização criminosa.

E, pelo conteúdo daqueles documentos...

Fazia isso havia muitos anos.

Clary estava prestes a guardar tudo quando percebeu outra pasta.

Muito mais grossa.

Diferente das demais.

No centro havia um nome.

VALENHALL

Seu coração disparou.

Abriu.

A primeira página mostrava uma fotografia aérea do internato.

Depois...

Plantas.

Documentos de propriedade.

Relatórios financeiros.

Mapas.

Fotografias da torre do relógio.

Clary virou outra página.

Havia uma proposta de compra.

Seu pai queria adquirir Valenhall.

Ela continuou lendo.

A proposta ainda não havia sido apresentada oficialmente.

Era um plano.

Um projeto para o futuro.

No topo de uma das páginas:

AQUISIÇÃO INTEGRAL DA PROPRIEDADE

Clary ficou completamente confusa.

Valenhall não estava à venda.

Pelo menos não que soubesse.

Continuou lendo.

Havia projeções.

Empresas intermediárias.

Possíveis negociações.

Estratégias para assumir o controle da instituição caso ela enfrentasse dificuldades financeiras.

Clary encontrou uma anotação escrita pelo próprio pai:

"Não importa quanto tempo leve. Valenhall terminará nas mãos da família."

Ela sentiu um arrepio.

Virou a página.

Outra frase:

"A propriedade é secundária. O acesso é o objetivo."

Clary releu.

O acesso?

Acesso a quê?

— Encontrou o que estava procurando?

A voz veio atrás dela.

Clary congelou.

Virou lentamente.

Erik estava parado na porta.

Não parecia bravo.

Isso era ainda pior.

Clary segurava a pasta de Valenhall.

— O que é tudo isso?

Erik fechou a porta.

— Você não deveria estar aqui.

— Você é criminoso.

Ele permaneceu em silêncio.

— Responde!

— Abaixe a voz.

— Não vou abaixar!

Clary jogou a pasta sobre a mesa.

— O que você faz com essas pessoas?

— Clary...

— Aquele homem no depósito estava machucado!

— Você estava lá.

Não era uma pergunta.

Ela sentiu o corpo gelar.

Erik caminhou até a mesa.

— Eu esperava que demorasse mais alguns anos para você descobrir.

Clary não conseguia acreditar na tranquilidade dele.

— Descobrir que meu pai é um mafioso?

Erik respirou profundamente.

— Não gosto dessa palavra.

Clary riu de nervoso.

— Então prefere criminoso?

O olhar dele endureceu.

— Prefiro que você entenda antes de julgar.

— Entender o quê?

— Como nossa família sobreviveu.

— Machucando pessoas?

— Construindo poder.

— É a mesma coisa para você?

Erik permaneceu em silêncio.

Aquilo foi resposta suficiente.

Clary sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

— Minha vida inteira foi mentira?

— Não.

— O Grupo Hall Lewis existe?

— Existe.

— E as empresas?

— Existem.

— Mas são usadas para esconder tudo isso.

Erik não respondeu.

Clary balançou a cabeça.

— Eu não conheço você.

O pai finalmente demonstrou alguma emoção.

— Conhece mais do que imagina.

— Não.

Ela apontou para a pasta.

— Eu conhecia o homem que sentava comigo no café da manhã.

— O homem que reclamava da minha postura.

— Que escolhia minhas escolas.

— Que dizia que eu precisava carregar o nome da família.

Sua voz falhou.

— Eu não conheço esse homem.

Erik aproximou-se.

Clary recuou.

Ele parou.

Aquilo pareceu machucá-lo.

— Eu nunca queria que você participasse disso.

Clary olhou para ele.

— Então por que vive dizendo que um dia tudo será meu?

Silêncio.

Pela primeira vez...

Erik não tinha resposta.

Clary pegou a pasta de Valenhall.

— E isso?

A expressão dele mudou.

— Deixe essa pasta.

— Você vai comprar Valenhall?

— Um dia.

— Por quê?

— Não importa.

Clary abriu na página da anotação.

— "A propriedade é secundária. O acesso é o objetivo."

Colocou o documento diante dele.

— Acesso a quê?

Erik fechou a pasta.

— Isso não tem relação com meus negócios.

— Então tem relação com o quê?

Ele não respondeu.

— Com o homem daquela fotografia?

Silêncio.

Clary percebeu.

Acertara.

— Quem era ele?

Erik caminhou até a janela.

Ficou de costas para a filha.

— Alguém da família.

— Quem?

— Meu pai.

Clary parou.

Aquela foi a primeira vez que ouviu aquilo.

— Meu avô?

Erik assentiu.

Clary sentiu um arrepio.

— Qual era o nome dele?

O pai demorou alguns segundos.

— Daniel.

Daniel Hall Lewis.

Finalmente o homem da fotografia tinha um nome.

Clary quase não conseguiu falar.

— O que aconteceu com ele?

Erik permaneceu olhando pela janela.

— Desapareceu.

— Onde?

Dessa vez ele se virou.

Clary já sabia a resposta antes mesmo de ouvi-la.

— Valenhall.

O silêncio tomou conta do escritório.

Todas as peças que Clary carregava desde criança começaram a se aproximar.

A fotografia.

O medo do pai.

As cartas.

O pentagrama.

Valenhall.

— Quando?

— Há muitos anos.

— Encontraram o corpo?

— Não.

— Polícia?

— Investigou.

— E?

Erik sorriu amargamente.

— Valenhall é muito bom em esconder seus mortos.

Clary sentiu um arrepio.

— Você acha que ele morreu?

Erik desviou os olhos.

— Eu acho que alguém sabe o que aconteceu.

— Quem?

— Se soubesse, não precisaria comprar aquela escola.

Clary olhou novamente para a pasta.

Finalmente compreendeu.

— Você não quer Valenhall por dinheiro.

— Não.

— Nem pelos terrenos.

— Não.

— Você quer entrar em algum lugar.

Erik permaneceu em silêncio.

Clary aproximou-se.

— Existe alguma coisa dentro daquele internato.

— Existe muita coisa dentro de Valenhall.

— O quê?

Erik pegou a pasta.

Guardou novamente no cofre.

— Essa é a parte que ainda não sei.

Clary permaneceu parada.

Ainda tentava aceitar tudo.

Seu pai era chefe de uma organização criminosa.

Seu avô desaparecera em Valenhall.

E Erik pretendia comprar o internato.

Não por negócios.

Por respostas.

— Por que me deixou estudar lá?

A pergunta fez Erik parar.

— Você não queria.

— Não queria.

— Então por quê?

Ele fechou o cofre.

— Porque percebi que impedir você só faria com que procurasse mais.

Clary quase sorriu.

Ele a conhecia.

— E porque talvez...

Erik hesitou.

— Talvez o quê?

— Talvez você consiga descobrir algo que eu nunca consegui.

Clary sentiu o estômago apertar.

— Então me deixou entrar em Valenhall para investigar?

— Não.

Erik respondeu imediatamente.

— Eu deixei porque você escolheu ir.

Fez uma pausa.

— Mas seria mentira dizer que nunca pensei nessa possibilidade.

Clary ficou decepcionada.

— Você me usou.

— Nunca.

— Acabou de admitir.

— Eu jamais colocaria você em perigo de propósito.

Clary soltou uma risada amarga.

— Você é chefe de uma organização criminosa e está me dizendo que quer me proteger?

Erik permaneceu em silêncio.

Ela caminhou até a porta.

Antes de sair, virou-se.

— Eu nunca vou fazer parte disso.

Erik respondeu calmamente:

— Espero que não.

A resposta surpreendeu Clary.

— Então por que sempre fala sobre o legado dos Hall Lewis?

Ele olhou para ela.

— Porque meu maior desejo é que você seja melhor do que todos nós.

Clary saiu.

Bateu a porta.

Correu até o quarto.

Trancou-se.

Chorou.

De raiva.

De medo.

De decepção.

Naquela noite...

Clary Hall Lewis deixou de enxergar o pai como um herói.

Mas também descobriu algo ainda mais difícil.

Erik não era simplesmente um monstro.

Era um homem perigoso.

Capaz de fazer coisas terríveis.

Mas que parecia carregar um medo genuíno de Valenhall.

E isso assustava Clary ainda mais.

Porque, se um homem como Erik Hall Lewis tinha medo daquele internato...

O que existia dentro dele?

Quando as férias terminaram, Clary arrumou as malas.

Erik não tentou impedi-la.

Antes de entrar no carro, ela parou diante dele.

Os dois haviam conversado muito pouco desde aquela noite.

— Vou voltar para Valenhall.

— Eu sei.

— E vou descobrir o que aconteceu com Daniel.

Erik ficou sério.

— Não faça isso.

— Você pretende comprar uma escola inteira para descobrir.

— Justamente por isso estou dizendo para não fazer.

Clary aproximou-se.

— Você não pode passar minha vida inteira escondendo coisas de mim.

Erik respondeu:

— Posso tentar.

Ela sorriu discretamente.

— Não vai conseguir.

Por alguns segundos...

O velho Erik pareceu voltar.

O pai.

Não o chefe criminoso.

Ele sorriu.

— Você é teimosa.

— Aprendi com alguém.

Clary entrou no carro.

Durante o caminho para Valenhall, abriu o caderno.

Na primeira página escreveu:

DANIEL HALL LEWIS

Abaixo:

Desapareceu em Valenhall.

Depois:

Erik pretende comprar o internato.

E, por último:

Existe alguma coisa dentro da escola que ele procura.

Clary fechou o caderno.

Pela janela, a torre do relógio surgiu no horizonte.

Dessa vez...

Ela não sentiu curiosidade.

Sentiu determinação.

Noah, Cristian, Erick e Vick ainda não sabiam de nada.

Não sabiam quem realmente era Erik Hall Lewis.

Não sabiam sobre Daniel.

E Clary não pretendia contar.

Ainda não.

Porque naquele verão ela aprendera duas coisas sobre sua família.

A primeira:

Os Hall Lewis construíram seu poder escondendo crimes.

A segunda:

Mesmo com todo aquele poder, havia algo em Valenhall que eles nunca conseguiram controlar.

Clary observou os portões se abrirem.

O carro entrou.

E naquele instante tomou uma decisão que carregaria por décadas:

Ela descobriria o que Valenhall havia feito com seu avô.

Mesmo que, para isso...

Precisasse descobrir todos os crimes de seu próprio pai.

O portão de Valenhall fechou-se atrás do carro.

Clary observou pelo vidro traseiro até as barras de ferro desaparecerem de sua visão.

Estava de volta.

Durante todo o caminho até o internato, imaginara como seria reencontrar Noah, Cristian, Erick e Vick.

Pensara também no que diria.

Em determinados momentos, chegou a acreditar que contaria tudo.

Sobre Erik.

Sobre as empresas.

Sobre os homens que trabalhavam para ele.

Sobre o dinheiro.

Sobre os documentos escondidos no cofre.

Sobre Daniel Hall Lewis.

E, principalmente, sobre o plano de seu pai para um dia comprar Valenhall.

Mas bastou descer do carro para perceber que não conseguiria.

— Clary!

Ela reconheceu imediatamente a voz de Erick.

Ele atravessou parte do jardim quase correndo.

Cristian vinha logo atrás.

Vick carregava dois livros contra o peito.

Noah caminhava um pouco mais devagar.

Clary sorriu.

Era estranho.

Depois de tudo que descobrira durante as férias, aqueles quatro representavam uma parte de sua vida que ainda parecia normal.

— Finalmente resolveu voltar — disse Erick.

Clary abraçou-o.

— Eu estava pensando seriamente em não voltar só para não ter que ouvir você.

— Sentiu minha falta.

— Nenhuma.

— Mentirosa.

Cristian aproximou-se.

— Ignore ele. Foram férias demais sem ninguém para irritar.

Clary sorriu.

Depois abraçou Vick.

— Como você está?

— Bem.

Vick afastou-se e observou o rosto dela.

— E você?

— Também.

Vick continuou olhando.

Por alguns segundos, Clary teve a sensação desconfortável de que ela sabia que aquilo era mentira.

Então Noah aproximou-se.

— Bem-vinda de volta.

— Obrigada.

Ele pegou uma das malas.

— Vamos?

Clary assentiu.

Os cinco seguiram juntos em direção ao prédio principal.

Por alguns minutos...

Clary conseguiu esquecer Erik Hall Lewis.

Naquela noite, os cinco ocuparam o banco debaixo do velho carvalho.

Era como se nunca tivessem ido embora.

Erick contou histórias exageradas das férias.

Cristian reclamou que não conseguira terminar os livros que planejara.

Noah falou sobre os treinos.

Vick contou que passara parte do verão pesquisando a história de algumas famílias ligadas ao internato.

Clary permaneceu calada.

Até que Vick perguntou:

— E suas férias?

Quatro pares de olhos voltaram-se para ela.

— Normais.

Erick riu.

— "Normais" na casa dos Hall Lewis deve significar passar o verão em um castelo.

— Minha casa não é um castelo.

— Tem quantos quartos?

Clary pensou.

— Não sei.

Todos riram.

— Está vendo? — respondeu Erick. — Castelo.

Clary também riu.

Mas Vick continuou observando.

— Aconteceu alguma coisa?

Clary sentiu o coração acelerar.

— Por quê?

— Você está diferente.

— Diferente como?

Vick deu de ombros.

— Não sei.

— Só diferente.

Clary desviou o olhar.

— Acho que só estou cansada.

Vick não insistiu.

Quando voltou ao dormitório feminino, Clary retirou o caderno da mala.

Sentou-se na cama.

Abriu na primeira página.

DANIEL HALL LEWIS

Ficou olhando para o nome.

Seu avô.

Um homem cuja existência ela desconhecera durante praticamente toda a vida.

Um homem que desaparecera em Valenhall.

Clary virou a página.

Escreveu:

O que aconteceu com Daniel?

Depois:

Por que Erik quer comprar Valenhall?

E, por fim:

O que ele quer acessar?

Ficou alguns segundos pensando.

Então acrescentou:

Não envolver Noah, Cristian, Erick ou Vick.

Sublinhou duas vezes.

Fechou o caderno.

A investigação seria dela.

Os primeiros dias transcorreram normalmente.

Clary voltou às aulas.

Aos trabalhos.

À rotina.

Mas aproveitava qualquer momento livre para pesquisar.

Começou pela biblioteca.

Procurou o sobrenome Hall Lewis nos registros antigos.

Encontrou pouco.

Algumas doações.

Participações em eventos.

Nomes de familiares.

Nada sobre Daniel.

Tentou novamente.

Nenhum resultado.

Era estranho.

Se Daniel havia estudado em Valenhall, deveria existir algum registro.

Uma matrícula.

Uma fotografia.

Uma nota.

Qualquer coisa.

Mas parecia que ele nunca estivera ali.

Numa tarde, Cristian encontrou Clary cercada por livros.

— O que está procurando?

Ela fechou imediatamente um deles.

— Nada.

Cristian sorriu.

— Você está lendo registros administrativos de quarenta anos atrás por diversão?

— Talvez.

— Clary.

Ela olhou para ele.

Por alguns segundos, pensou em contar.

Cristian provavelmente seria a melhor pessoa para ajudá-la.

Era inteligente.

Gostava de História.

Sabia onde procurar.

Mas então lembrou dos documentos encontrados na casa.

Policiais.

Juízes.

Políticos.

Empresários.

Pessoas compradas por Erik.

Se o pai descobrisse que Cristian estava investigando sua família...

Não.

Ela não poderia colocá-lo em risco.

— É uma pesquisa pessoal.

Cristian percebeu que ela não queria falar.

— Tudo bem.

Antes de sair, apontou para os livros.

— Mas se precisar de ajuda...

— Eu sei.

Ele sorriu.

— Você sabe onde me encontrar.

Clary esperou Cristian desaparecer.

Depois abriu novamente o registro.

Nada.

Daniel Hall Lewis continuava inexistente.

Dias depois, tentou outro caminho.

Fotografias.

Valenhall possuía dezenas de álbuns antigos.

Formaturas.

Competições.

Eventos.

Cerimônias.

Clary passou horas olhando rostos.

Até encontrar algo.

Não era Daniel.

Era Erik.

Muito jovem.

A fotografia havia sido tirada nos jardins de Valenhall.

Clary ficou imóvel.

Seu pai sempre evitara dizer quanto conhecia daquele lugar.

Mas aquela fotografia provava que ele frequentara o internato.

Virou a página.

Outra fotografia.

Erik novamente.

Dessa vez conversando com um homem mais velho.

Clary aproximou o álbum.

Não conseguia identificar o rosto.

Parte dele estava coberta pela sombra de uma árvore.

Mas havia alguma coisa familiar naquela postura.

Ela lembrou imediatamente da fotografia escondida na mansão.

Daniel.

Seria ele?

Clary retirou discretamente o pequeno caderno.

Anotou a data da fotografia.

Não arrancou a imagem.

Não queria deixar rastros.

— Interessada em fotografias antigas?

Clary fechou o álbum.

Um funcionário da biblioteca estava atrás dela.

— Só curiosidade.

O homem olhou para o álbum.

Depois para Clary.

— Hall Lewis...

Ela sentiu um desconforto.

— Sim.

— Conheci seu pai.

Clary tentou esconder a surpresa.

— Aqui?

O funcionário demorou para responder.

— Há muito tempo.

— Ele estudou em Valenhall?

— Não exatamente.

— Então por que vinha?

O homem percebeu que havia falado demais.

— Você deveria perguntar a ele.

Clary levantou-se.

— Já tentei.

O funcionário começou a organizar alguns livros.

— Então talvez exista uma razão para ele não responder.

— O senhor conheceu Daniel Hall Lewis?

A mão do homem parou.

Foi apenas por um segundo.

Mas Clary viu.

— Quem?

— Daniel Hall Lewis.

— Não conheço.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Ele pegou alguns livros.

Saiu.

Rápido demais.

Clary permaneceu observando.

Aquela era a primeira confirmação que conseguira.

Não pelas palavras.

Pelo medo.

Aquele homem conhecia o nome de Daniel.

Naquela noite, Clary escreveu:

Funcionário da biblioteca reconheceu o nome. Mentiu.

Abaixo:

Daniel esteve aqui.

Fechou o caderno.

Alguém bateu à porta.

Era Vick.

— Posso entrar?

Clary guardou rapidamente o caderno.

— Claro.

Vick sentou-se na cama ao lado.

— Você está escondendo alguma coisa.

Clary tentou rir.

— Todo mundo decidiu investigar minha vida agora?

— Não.

— Só eu.

Clary olhou para ela.

— Por quê?

— Porque você está mentindo mal.

— Obrigada.

— De nada.

Vick sorriu.

Depois ficou séria.

— Aconteceu alguma coisa nas férias?

— Não.

— Clary.

— Vick...

— Você não precisa contar.

Clary ficou surpresa.

Vick continuou:

— Só não precisa fingir que está tudo bem.

O quarto ficou silencioso.

Clary sentiu vontade de falar.

Muita.

— Meu pai...

Parou.

Vick esperou.

Clary respirou fundo.

— Meu pai não é exatamente a pessoa que eu imaginava.

Vick não perguntou o que aquilo significava.

Apenas respondeu:

— Pais raramente são.

Clary sorriu discretamente.

— Você não vai perguntar?

— Se você quisesse contar, já teria contado.

Vick levantou-se.

Antes de sair, virou-se.

— Mas quando estiver pronta...

— Eu sei.

Vick fechou a porta.

Clary ficou olhando para ela.

Talvez estivesse errada.

Talvez não precisasse carregar tudo sozinha.

Mas ainda não conseguia arriscar.

Algumas semanas se passaram.

A investigação sobre Daniel praticamente não avançou.

Até que Clary recebeu uma ligação.

Era Erik.

— Como estão as aulas?

— Bem.

— E seus amigos?

Clary ficou imediatamente alerta.

— Bem.

— Noah?

O coração dela parou por um instante.

— O que tem ele?

— Nada.

— Por que perguntou especificamente dele?

Silêncio.

— Pai?

Erik respondeu:

— Apenas curiosidade.

Clary apertou o telefone.

— Você prometeu ficar longe dos meus amigos.

— E estou.

— Então não investigue eles.

— Não estou investigando.

— Como sabe o nome do Noah?

Outro silêncio.

Clary tentou lembrar.

Talvez tivesse mencionado durante as férias.

Não tinha certeza.

— Pai?

Erik mudou de assunto.

— Encontrou alguma coisa sobre Daniel?

Agora foi Clary quem ficou em silêncio.

— Você sabia que eu procuraria.

— Conheço minha filha.

— Não encontrei quase nada.

— Melhor assim.

— Um funcionário reconheceu o nome.

Erik ficou sério.

— Quem?

— Não vou dizer.

— Clary.

— Você disse que eu deveria ficar longe disso.

— E deveria.

— Então por que quer saber?

Erik respirou profundamente.

— Porque existem pessoas em Valenhall que conheciam meu pai.

— Quem?

— Não sei.

— Você sabe muito mais do que está dizendo.

— E você está procurando muito mais do que deveria.

Clary fechou os olhos.

— Boa noite, pai.

— Clary...

Ela desligou.

Na manhã seguinte, algo inesperado aconteceu.

O funcionário com quem Clary conversara na biblioteca não apareceu para trabalhar.

Ela perguntou por ele.

— Pediu demissão — respondeu outro funcionário.

— Quando?

— Ontem à noite.

Clary sentiu um frio percorrer o corpo.

— Ele disse por quê?

— Problemas pessoais.

Clary imediatamente pensou em Erik.

Saiu da biblioteca.

Foi até um dos telefones disponíveis aos alunos.

Ligou para casa.

Erik atendeu.

— Clary?

— O que você fez?

— Bom dia para você também.

— O funcionário da biblioteca.

Silêncio.

— O que tem ele?

— Pediu demissão ontem.

— E?

— Depois que eu contei para você que ele conhecia Daniel.

Erik permaneceu calado.

— Você fez alguma coisa?

— Não.

— Jura?

— Clary...

— Jura!

Houve uma pausa.

— Eu não fiz nada com esse homem.

Ela respirou.

Não sabia se acreditava.

— Então por que ele foi embora?

— Talvez porque tenha medo.

— De você?

Erik respondeu:

— Talvez de algo muito pior.

A ligação terminou pouco depois.

Clary ficou olhando para o telefone.

Aquilo não ajudara.

Só aumentara suas perguntas.

Os meses passaram.

Clary decidiu diminuir as pesquisas.

Não abandonar.

Apenas esperar.

Enquanto isso, sua amizade com os outros quatro tornou-se ainda mais forte.

Os cinco estudavam juntos.

Comiam juntos.

Exploravam os jardins.

Discutiam.

Riam.

Faziam planos para o futuro.

Noah continuava observador.

Cristian era a pessoa que sempre procurava uma explicação lógica.

Erick transformava qualquer situação em brincadeira.

Vick percebia coisas que ninguém mais percebia.

E Clary...

Clary escondia.

Escondia o que sabia sobre Erik.

Escondia Daniel.

Escondia os documentos.

Escondia o medo de que, de alguma forma, os crimes de sua família alcançassem seus amigos.

Mas Valenhall não parecia disposto a permitir que aquela tranquilidade durasse.

Foi durante uma noite comum.

Os cinco voltavam para os dormitórios depois de estudarem.

Ao atravessarem um dos corredores, Vick parou.

— Esperem.

Todos olharam.

— O que foi? — perguntou Erick.

Vick apontou para a parede.

Havia uma marca.

Um desenho.

Clary aproximou-se.

Seu corpo inteiro gelou.

Conhecia aquele símbolo.

Já o havia visto antes.

Não em Valenhall.

Na mansão.

No envelope que seu pai recebera anos atrás.

Um pentagrama.

— Clary?

Noah percebeu imediatamente sua reação.

— Você está bem?

Ela continuou olhando para o desenho.

— Estou.

— Tem certeza?

— Tenho.

Mas não tinha.

Porque, naquele instante, uma lembrança atravessou sua mente.

Erik.

O escritório.

O envelope.

O pentagrama.

E o medo no rosto dele.

Clary finalmente compreendeu que aquele símbolo não começara com eles.

Talvez nem mesmo começasse em Valenhall.

Naquela noite, não conseguiu dormir.

Esperou a colega de quarto adormecer.

Pegou o caderno.

Abriu numa página nova.

Desenhou o pentagrama.

Abaixo escreveu:

Já vi esse símbolo antes.

Depois:

Erik recebeu uma carta com ele anos atrás.

Ficou olhando para aquelas palavras.

Se contasse aos amigos, precisaria explicar como sabia.

E, para explicar...

Talvez precisasse contar quem seu pai realmente era.

Clary fechou o caderno.

Ainda não.

No dia seguinte, o pentagrama havia desaparecido.

A parede estava limpa.

Como se nada tivesse acontecido.

— Eu sabia — disse Cristian.

— Alguém apagou.

Erick tocou a parede.

— Muito rápido.

Vick observou o corredor.

— Talvez não quisessem que os outros alunos vissem.

Noah olhou para Clary.

Ela estava quieta.

— Você está estranha desde ontem.

— Só estou pensando.

— Em quê?

Clary olhou novamente para o lugar onde o símbolo estivera.

— Que talvez isso seja mais antigo do que imaginamos.

Vick perguntou:

— Por que acha isso?

Clary percebeu que havia falado demais.

— Intuição.

Vick continuou olhando para ela.

Mas não insistiu.

Dias depois, outro pentagrama apareceu.

Depois outro.

E outro.

Sempre apagados rapidamente.

Então vieram as cartas.

Uma para cada um deles.

Cinco escolhidos.

Cinco mensagens.

Clary segurou a sua por vários minutos antes de abri-la.

Suas mãos tremiam.

Não por causa do conteúdo.

Mas porque reconhecia o tipo de envelope.

Era parecido demais com aquele que vira no escritório do pai.

Quando finalmente abriu...

Percebeu que sua vida estava prestes a se dividir novamente.

Primeiro descobrira que seu pai escondia uma vida criminosa.

Agora começava a perceber que Erik também escondia alguma coisa sobre Valenhall.

E talvez as duas histórias fossem muito mais próximas do que gostaria.

Naquela noite, enquanto Noah, Cristian, Erick e Vick discutiam sobre as cartas, Clary permaneceu em silêncio.

Erick percebeu.

— Ei.

Ela levantou os olhos.

— O quê?

— Estamos juntos nisso.

Clary sorriu discretamente.

— Eu sei.

Erick estendeu a mão para o centro da mesa.

— Então ninguém faz nada sozinho.

Cristian colocou a mão sobre a dele.

Depois Noah.

Vick.

Todos olharam para Clary.

Ela hesitou.

Por alguns segundos, pensou em Erik.

No sobrenome Hall Lewis.

Nos documentos.

Nas ameaças.

Na corrupção.

No homem machucado no depósito.

Depois olhou para os quatro amigos.

E colocou sua mão sobre as deles.

— Ninguém sozinho.

Naquele momento...

Clary acreditava naquela promessa.

Não sabia que chegaria o dia em que seria obrigada a escolher entre os segredos da própria família e as pessoas que mais amava.

Muito tempo depois, quando lembrasse daquele período, Clary compreenderia algo.

O maior segredo que carregava não era o fato de Erik Hall Lewis ser um criminoso.

Nem que Daniel havia desaparecido em Valenhall.

Nem mesmo que seu pai planejava adquirir o internato algum dia.

Era outra coisa.

Durante todo aquele tempo...

Clary teve informações que poderiam ter ajudado os cinco.

E escolheu escondê-las.

Não por maldade.

Não por lealdade ao império Hall Lewis.

Mas por medo.

Medo de que Noah, Cristian, Erick e Vick descobrissem quem era Erik.

Medo de que começassem a investigá-lo.

Medo de que Erik descobrisse.

E, acima de tudo...

Medo de descobrir até onde seu próprio pai seria capaz de ir para proteger seus segredos.

Clary ainda não sabia.

Mas essa decisão a perseguiria pelo resto da vida.

Porque pouco tempo depois...

Erick morreria.

Vick desapareceria.

E Clary passaria décadas fazendo a mesma pergunta:

Se eu tivesse contado tudo naquela noite... alguma coisa teria sido diferente?

Clary nunca esqueceu o som da chuva naquela semana.

Durante dias, Valenhall pareceu coberto por uma névoa pesada.

Os corredores estavam mais vazios.

As conversas eram interrompidas quando algum professor se aproximava.

Os pentagramas continuavam aparecendo.

As cartas já haviam chegado aos cinco.

E, pouco a pouco, aquilo que começou como curiosidade tornou-se medo.

Noah tentava manter todos unidos.

Cristian procurava explicações.

Vick queria respostas.

Erick fazia piadas para esconder o nervosismo.

E Clary carregava algo que nenhum deles conhecia.

Ela sabia que seu pai já tinha visto aquele símbolo antes.

Sabia que Erik conhecia histórias sobre Valenhall.

Sabia que Daniel Hall Lewis havia desaparecido ali.

E, mesmo assim...

Continuava calada.

A descoberta da passagem secreta mudou tudo.

Quando os cinco entraram pela primeira vez naquele corredor escondido, Clary sentiu algo diferente dos amigos.

Eles ficaram fascinados.

Ela ficou aterrorizada.

Enquanto caminhavam pelas paredes antigas, Clary lembrava das palavras de Erik:

"A propriedade é secundária. O acesso é o objetivo."

Na época, ela não sabia o que aquilo significava.

Agora começava a suspeitar.

Talvez seu pai estivesse procurando exatamente aquilo.

Uma passagem.

Um local escondido.

Alguma coisa que Valenhall mantinha longe dos olhos de todos.

Quando chegaram diante da enorme porta de ferro, Clary ficou completamente imóvel.

Cinco marcações.

Cinco cartas.

Cinco pessoas.

Noah aproximou-se.

— Clary?

Ela levantou os olhos.

— O quê?

— Você está bem?

— Estou.

Mentira.

Durante semanas, os cinco tentaram entender a porta.

Nunca conseguiram.

Procuraram fechaduras.

Mecanismos.

Marcas.

Inscrições.

Nada.

Cristian pesquisava livros.

Noah desenhava mapas.

Vick analisava as cartas.

Erick insistia em testar qualquer teoria que surgisse.

Clary...

Observava.

Até que certa noite percebeu algo que não contou a ninguém.

Em uma das laterais da porta havia um pequeno símbolo gravado no ferro.

Era quase invisível.

Mas Clary reconheceu imediatamente.

O mesmo brasão que aparecia nos documentos da família Hall Lewis.

Ela sentiu o sangue gelar.

Passou os dedos sobre a marca.

Erik tinha razão.

A família dela estava ligada àquele lugar.

Há muito mais tempo do que qualquer um imaginava.

— Encontrou alguma coisa? — perguntou Vick.

Clary retirou rapidamente a mão.

— Não.

Outra mentira.

Naquela noite, voltou para o dormitório sem conseguir falar.

Abriu o caderno.

Escreveu:

A porta tem o símbolo da família.

Depois:

Daniel provavelmente chegou até aqui.

E por último:

Erik sabe mais do que contou.

Ficou olhando para as palavras.

Poderia contar tudo aos amigos.

Talvez devesse.

Mas se fizesse isso...

Precisaria contar sobre o império criminoso de Erik.

Sobre a corrupção.

Sobre as ameaças.

Sobre o motivo pelo qual tinha medo do próprio pai.

Fechou o caderno.

Ainda não.

Pouco tempo depois...

Erick morreu.

Não houve preparação.

Não houve aviso.

A notícia chegou como uma explosão.

Clary lembraria para sempre do rosto de Noah.

Da forma como Cristian ficou completamente imóvel.

Do silêncio de Vick.

E da sensação de que alguma parte dela também havia morrido naquele dia.

O enterro aconteceu sob chuva.

Clary permaneceu entre Noah, Cristian e vick.

As pessoas falavam.

Professores.

Familiares.

Funcionários.

Ela não ouviu quase nada.

Apenas olhava para o caixão.

Quando tudo terminou, Clary se afastou.

Foi até uma árvore próxima.

Tentava respirar.

Então ouviu uma voz atrás dela.

— Clary.

Ela virou-se.

Erik.

Seu pai estava ali.

Vestido de preto.

Com dois homens esperando ao longe.

Clary sentiu a raiva surgir imediatamente.

— O que você está fazendo aqui?

— Vim ficar com você.

— Agora?

Erik permaneceu em silêncio.

— Você sabia.

Ele franziu a testa.

— Sabia o quê?

— Que alguma coisa aconteceria.

— Não.

— Não mente para mim.

— Clary...

— Você sabia que Valenhall era perigoso!

Ela começou a chorar.

— Você sabia!

Erik tentou aproximar-se.

Ela recuou.

— Não toca em mim.

Ele parou.

— Eu não sabia que isso aconteceria.

— Mas sabia que poderia acontecer.

Silêncio.

— Foi por isso que tentou me impedir de estudar aqui.

Erik abaixou os olhos.

Clary percebeu.

— Meu Deus...

— Você realmente sabia.

— Eu sabia que existiam histórias.

— Histórias?

Ela quase gritou.

— Meu amigo morreu!

Algumas pessoas olharam.

Erik falou baixo:

— Não aqui.

Clary aproximou-se dele.

— Você vai me contar tudo.

— Não posso.

— Então some da minha vida.

A frase atingiu Erik.

Clary continuou:

— Porque se você sabia de alguma coisa e deixou tudo acontecer...

Sua voz falhou.

— Eu nunca vou te perdoar.

Ela deu as costas.

Erik não a seguiu.

Nos dias seguintes, Clary quase não falou com ninguém.

Vick tornou-se ainda mais obcecada pela investigação.

Passava horas na biblioteca.

Voltava à passagem.

Procurava documentos.

Fazia perguntas.

Clary tentou acompanhá-la.

Mas Vick parecia sempre um passo à frente.

Até uma tarde em que encontrou a amiga sozinha no jardim.

— Você precisa descansar.

Vick sorriu.

— Você fala igual ao Noah.

— Talvez porque ele esteja certo.

— Estamos perto.

Clary sentiu um arrepio.

— Perto de quê?

Vick olhou para o prédio principal.

— Da verdade.

— Que verdade?

Vick demorou para responder.

— Ainda não sei inteira.

— Então como sabe que estamos perto?

Ela olhou diretamente para Clary.

— Porque começaram a apagar coisas.

Clary ficou imóvel.

— Como assim?

— Documentos que estavam na biblioteca desapareceram.

— Fotografias sumiram.

— Um funcionário que respondeu minhas perguntas foi transferido.

Clary imediatamente pensou no próprio pai.

Vick continuou:

— Alguém está com medo.

Clary respirou fundo.

— Vick...

Por um instante, quase contou tudo.

Quase falou sobre Daniel.

Sobre Erik.

Sobre a compra de Valenhall.

Sobre o brasão na porta.

Mas hesitou.

Vick percebeu.

— Você sabe alguma coisa.

Clary não respondeu.

— Eu sempre soube.

— Vick...

— Não precisa contar agora.

Ela sorriu tristemente.

— Só espero que conte antes que seja tarde.

Foi a última conversa realmente longa entre as duas.

Pouco depois...

Vick desapareceu.

Clary recusou-se a acreditar.

Durante os primeiros dias, procurou em todos os lugares.

Dormitórios.

Jardins.

Biblioteca.

Lago.

Torre.

Passagem secreta.

Chamava seu nome.

Nada.

A polícia chegou.

Funcionários foram interrogados.

Alunos foram questionados.

As buscas avançaram para fora do internato.

Nenhum sinal.

Na terceira noite sem notícias, Clary ligou para Erik.

Ele atendeu imediatamente.

— Clary?

— Vick desapareceu.

Silêncio.

— Eu sei.

A resposta fez o sangue dela ferver.

— Como sabe?

— Fui informado.

— Por quem?

— Isso não importa.

— Você tem gente dentro da escola?

Erik não respondeu.

— Pai!

— Sim.

Clary sentiu náusea.

— Há quanto tempo?

— Sempre tive pessoas observando.

— Observando o quê?

— Você.

— Não acredito.

— Era para protegê-la.

— Então encontre a Vick.

Erik permaneceu em silêncio.

Clary apertou o telefone.

— Você tem dinheiro.

— Pessoas.

— Polícia.

— Contatos.

— Compra juiz, político, empresário...

Sua voz falhou.

— Então usa tudo isso para alguma coisa boa uma vez na vida.

— Clary...

— Encontre ela.

Erik respondeu baixo:

— Vou tentar.

E tentou.

Clary soube disso anos depois.

Homens de Erik procuraram discretamente.

Pagaram informantes.

Investigaram antigas propriedades.

Buscaram registros.

Nada.

Vick havia desaparecido completamente.

As semanas viraram meses.

O grupo de cinco havia se tornado três.

Noah.

Cristian.

Clary.

Eles continuaram voltando à passagem secreta.

Continuaram tentando abrir a porta.

Mesmo com uma amostra de sangue de Erick...

Nada.

Sem Vick, o quinto espaço continuava vazio.

E a porta permanecia fechada.

Com o tempo, o ano terminou.

Os três seguiram caminhos diferentes.

Cristian foi estudar História e Literatura.

Noah seguiu para Educação Física.

Clary estudou administração e gestão.

Mas Valenhall nunca saiu da vida deles.

Clary voltou para a mansão Hall Lewis mais madura.

Mais fria.

Mais desconfiada.

Erik percebeu.

— Você mudou.

— Valenhall faz isso.

— Eu avisei.

Clary olhou para ele.

— E eu não esqueci.

A relação entre os dois nunca voltou a ser a mesma.

Ainda existia afeto.

Mas agora também havia segredos.

Desconfiança.

Culpa.

Anos depois, Clary começou a trabalhar no Grupo Hall Lewis.

Não na parte criminosa.

Nunca aceitou.

Erik cumpriu a promessa.

Manteve a filha distante da organização clandestina.

Clary assumiu empresas legais.

Administração.

Investimentos.

Educação.

Projetos sociais.

Era boa.

Muito boa.

Talvez até melhor do que Erik.

Foi durante uma dessas reuniões que o nome voltou.

Valenhall.

A escola enfrentava dificuldades.

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Problemas financeiros.

Processos.

Perda de alunos.

Manutenção cara.

Clary ouviu tudo.

Erik permaneceu calado.

No final da reunião, ela perguntou:

— É agora?

Ele levantou os olhos.

— Agora o quê?

— Você vai comprar.

Erik não respondeu.

Clary entendeu.

O processo demorou anos.

Empresas intermediárias.

Negociações.

Dívidas adquiridas.

Participações.

Até que finalmente...

Valenhall passou para o controle do Grupo Hall Lewis.

No dia em que assinou os documentos, Erik estava sentado no escritório.

Muito mais velho.

Clary ficou diante dele.

— Conseguiu.

— Conseguimos.

Ela respondeu imediatamente:

— Eu não fiz isso por você.

Erik sorriu.

— Eu sei.

— Fiz por Vick.

Ele abaixou os olhos.

— Eu sei.

— E pelo Erick.

Outro silêncio.

Clary respirou fundo.

— Agora não existem mais desculpas.

— Vamos descobrir tudo.

Erik assentiu.

Mas seu rosto demonstrava algo que Clary não esperava.

Medo.

O mesmo medo que vira quando criança.

Quando Valenhall foi reaberto em 2018, Clary decidiu assumir uma posição dentro da instituição.

Muitos acreditaram que era apenas uma escolha empresarial.

Uma Hall Lewis administrando uma propriedade da família.

Não era.

Clary estava voltando para terminar aquilo que havia começado em 1995.

Noah também voltou.

Cristian também.

Os três raramente falavam sobre a razão verdadeira.

Não precisavam.

Cada um sabia.

Aos poucos, Valenhall voltou a receber alunos.

Corredores foram restaurados.

Dormitórios reabertos.

A biblioteca reorganizada.

A torre continuou de pé.

E a passagem secreta permaneceu escondida.

A porta de ferro continuava fechada.

Durante anos...

Nada aconteceu.

Clary começou a pensar que talvez o ciclo tivesse terminado.

Até 2026.

As primeiras cartas reapareceram.

Depois...

Os símbolos.

Os alunos começaram a fazer perguntas.

Scott.

Trevor.

Elena.

Alex.

Liam.

Cora.

Katy.

Clary reconheceu imediatamente o padrão.

Era 1995 novamente.

Mas desta vez havia uma diferença.

Ela não era mais uma adolescente assustada.

Ela era a diretora.

Uma Hall Lewis.

E tinha acesso a quase tudo.

Ou pelo menos acreditava que tinha.

Depois que Liam desapareceu, Clary entrou sozinha em sua sala.

Fechou a porta.

Abriu uma gaveta com chave.

Dentro havia um caderno antigo.

Seu caderno.

O mesmo de 1995.

Abriu na primeira página.

DANIEL HALL LEWIS.

Continuou folheando.

Pentagramas.

Cartas.

A porta de ferro.

Erick.

Vick.

Até chegar a uma página quase no fim.

Ali havia uma frase escrita muitos anos antes:

Se isso acontecer novamente, eu não vou esconder nada.

Clary permaneceu olhando para aquelas palavras.

Então soltou uma pequena risada triste.

Porque havia passado a vida inteira prometendo que não esconderia mais nada.

E mesmo assim...

Ainda escondia.

Noah não sabia tudo sobre Erik.

Cristian não sabia tudo sobre Daniel.

Os alunos não sabiam quase nada.

E havia uma informação que Clary jamais tivera coragem de dividir com ninguém.

Ela abriu a última gaveta.

Retirou uma pequena pasta.

Na capa:

VICK — 1995

Dentro havia fotografias.

Relatórios.

Registros.

E uma folha recente.

Muito recente.

Clary segurou o documento.

O papel havia chegado apenas algumas semanas antes.

Um investigador particular contratado pela família havia encontrado uma mulher que correspondia parcialmente à descrição de Vick envelhecida.

Não havia confirmação.

Nenhuma prova definitiva.

Apenas uma fotografia tirada à distância.

Uma senhora de cabelos brancos.

Clary observou a imagem.

No canto da fotografia...

A mulher parecia olhar diretamente para a câmera.

Clary fechou os olhos.

— Vick...

Durante semanas havia escondido aquilo de Noah e Cristian.

Não porque não confiasse neles.

Mas porque não suportaria destruir a esperança dos dois caso estivesse errada.

Agora Liam havia desaparecido.

O passado retornara.

E Clary sabia que não poderia continuar esperando.

Na manhã seguinte, colocou a pasta dentro da bolsa.

Saiu da sala.

Caminhou pelos corredores.

Encontraria Noah.

Depois Cristian.

Contaria tudo.

Era o que pretendia.

Mas, ao atravessar o pátio...

Parou.

No alto da torre do relógio havia alguém.

Uma figura.

Parada atrás da janela.

Clary ficou imóvel.

Por alguns segundos, aquela imagem a transportou de volta a 1995.

Aos cinco adolescentes.

Às cartas.

Ao medo.

À fotografia.

À pessoa encapuzada.

Então a figura afastou-se da janela.

Desapareceu.

Clary apertou a pasta contra o peito.

E naquele momento finalmente compreendeu uma coisa.

Durante toda a vida ela acreditara que estava tentando descobrir os segredos de Valenhall.

Mas talvez fosse o contrário.

Valenhall nunca deixara de observar os Hall Lewis.

Clary voltou para sua sala.

Colocou a pasta sobre a mesa.

Olhou para a antiga fotografia de seus amigos.

Noah.

Cristian.

Erick.

Vick.

E ela.

Cinco adolescentes.

Antes de tudo dar errado.

Passou os dedos sobre o rosto de Erick.

Depois sobre o de Vick.

— Eu devia ter contado.

Falou sozinha.

— Devia ter contado tudo desde o começo.

Uma lágrima escorreu.

Mas Clary enxugou rapidamente.

Não havia mais espaço para culpa.

Havia um aluno desaparecido.

Seis jovens procurando respostas.

Uma amiga que talvez estivesse viva.

Um pai que construíra um império inteiro tentando alcançar os segredos daquele lugar.

E uma porta que continuava fechada havia décadas.

Clary respirou fundo.

Pegou o telefone.

— Meredith?

— Sim, diretora?

— Encontre Noah e Cristian.

— Diga que preciso dos dois aqui imediatamente.

— Aconteceu alguma coisa?

Clary olhou para a pasta de Vick.

— Aconteceu há trinta e um anos.

Fez uma pausa.

— Só que agora...

— Finalmente temos uma chance de terminar.

Desligou.

Do lado de fora, o relógio da torre marcou a hora.

Clary levantou-se.

Pela primeira vez desde 1995...

Não sentiu medo.

Sentiu raiva.

Raiva de Valenhall.

Raiva do próprio pai.

Raiva de todos que esconderam documentos.

Apagaram nomes.

Destruíram pistas.

E permitiram que pessoas desaparecessem enquanto o mundo simplesmente seguia em frente.

Ela caminhou até a janela.

Olhou para a torre.

— Chega.

Murmurou.

Durante toda a vida...

Clary Hall Lewis carregara o peso do sobrenome.

Agora estava pronta para fazer justamente aquilo que Erik sempre temera.

Usaria todo o poder daquele nome...

Não para esconder a verdade.

Mas para destruí-la até que não restasse nenhum lugar onde pudesse continuar escondida.

Porque Clary finalmente compreendia que seu maior legado não seria o Grupo Hall Lewis.

Nem Valenhall.

Nem o dinheiro.

Nem o poder.

Seu verdadeiro legado seria descobrir por que Erick morreu.

Encontrar Vick.

E impedir que aqueles sete alunos terminassem como eles.

Cinco escolhidos.

Dois perdidos.

Três sobreviventes.

Nunca mais.

Clary fechou as cortinas.

E esperou Noah e Cristian chegarem.

A investigação que começara quando ela ainda era adolescente...

Finalmente estava prestes a recomeçar.

Desta vez...

Clary não esconderia nada.