Internato Limoeiro
26 Capítulo XXV - Baque
Notas iniciais
A segunda-feira havia começado gelada, o frio matinal fazia com que os alunos quisessem, a todo custo, ficar em suas camas, mas não seria possível. Diferente dos dormitórios, no refeitório, os membros do jornal estavam bastante animados enquanto andavam de um lado para o outro.
Toni havia ido para o refeitório ainda pensativo sobre seu fim de semana, tanto que não percebeu vários olhares direcionados para si e muito menos Cebola se sentando ao seu lado.
“Sabe, Toni, eu cheguei a uma conclusão sobre nosso grupo. Ele é uma merda!” o moreno falou de repente e o outro o encarou.
“Sete da manhã, Cebola, ainda é muito cedo pra odiar o mundo.” Toni falou.
“Não odeio o mundo, odeio esse grupo.” o outro explicou e o loiro riu.
“Mamou nas tetas da popularidade desse péssimo grupo e agora vem falar que é uma merda? Se alguém tem razões pra odiar esse grupo, com toda certeza, não é você.” alfinetou e o moreno levantou a sobrancelha.
“O que quer dizer com isso?” perguntou.
Antes que Toni respondesse, Penha e Denise, a qual sequer vinha falando com eles, apareceram visivelmente zangadas e lançaram olhares feios para um trio que passou rindo.
“Que caras são essas?” Cebola perguntou.
“Vamos lá pra salinha do zelador, lá a gente explica melhor.” Denise falou apertando um jornal em suas mãos.
“Por quê?” Toni perguntou.
“Dá uma olhadinha em volta.” Penha disse e os rapazes olharam.
Praticamente o refeitório inteiro os encarava, mas não eram os olhares de inveja ou admiração que sempre recebiam, eram olhares de deboche em meio a cochichos e risadas. Os dois se entreolharam e logo foram puxados até a muito usada sala do zelador.
“Tá bom, o que acabou de acontecer lá fora?” o loiro perguntou.
“Um reflexo do fundo do poço. Acabamos de sofrer um exposed pelo jornal da escola.” Denise falou jogando o jornal na direção dele, que o pegou.
“Mas você não é a chefe de lá? Como deixou isso acontecer?” Cebola questionou esticando o pescoço para ler.
“Eu não sou mais. Lê em voz alta, Toni.” ela pediu e ele franziu o cenho.
“O jornal agora está sob nova direção, então, para se livrar de vez de resquícios da antiga gestão, vamos de exposed do pior grupo do internato que, por algum motivo, é tão endeusado.” começou.
“Penha: a esnobe e metida que sempre se achou melhor que todo mundo pela sua riqueza enquanto olhava para todos com aquele olhar irritante que ela tem. Fontes seguras revelaram que a francesinha perdeu toda sua fortuna e só está no IL graças à mãe que trabalha na cozinha, cuja filha sempre teve vergonha. Além disso, lembram do namoro exemplar dela com Cebolácio? Tudo mentira! Assim como a vida dessa garotinha abandonada pelo pai corrupto. Que triste, não?” leu e a morena negava com a cabeça.
“Cebolácio: o inteligente que usa sua inteligência para bullying, trote e mentiras. Que ele é um belo babaca que trata as pessoas mal, todos sabemos, agora pasmem! Aquele namoro que consideramos um exemplo de maturidade era FALSO! Algo convencional para a popularidade deles, até porque um casal bonitinho e maduro é invejável, né? Mas olha só... mais uma mentira! Cebolácio não é maduro! Fontes informam que após ser barrado pelo nosso capitão do time de futebol, ele parou de falar com Cássio! Parece que o rapazinho mimado não sabe o que são consequências dos próprios atos, como chamamos isso mesmo? Uma dica: começa com IMA e termina com TURO. Uma pena, um cara tão inteligente...” continuou e Cebola baixou a cabeça.
“Marco Antônio: um rapaz de rosto bonito e caráter feio. Assim como Cebolácio, todos sabemos que escrotoni é um boy-lixo, mas, por algum motivo, ele foi endeusado. Uma pessoa nojenta, mentirosa e dona de uma bela masculinidade frágil devia ter levado aquele soco de Sofia; um outro de Jeremias, que teve problemas por causa da inveja do nosso “amado”; e alguns socos de todo mundo que ele ofende com suas cantadas baratas e bullying gratuito. Um cara nojento!” continuou e quis parar ali, mas decidiu continuar.
“E, pra fechar com chave de ouro, a insuportável, manipuladora, péssima chefe e sem caráter: Denise! Pra quem é novo no internato, essa pessoa era a diretora chefe do jornal, atualmente ela foi expulsa por passar pano para as burradas de Toni enquanto expunha pessoas que não mereciam! Além disso, ela já infernizou a vida de muita gente a troco de nada, na verdade, em certos momentos queria plantar o ódio e colher membros para o jornal, como tentou com as atuais capitãs dos times de vôlei e futebol feminino (e não conseguiu!). Fora isso, forçava os demais membros a escreverem matérias manipuladas e sempre se achava melhor que todos, uma péssima chefe! E mais! Quando viu que o levante estava começando a decolar, deu um jeito de se trancar com Jeremias na biblioteca, conhecendo ela, talvez fosse para sumir com uma possível ameaça, afinal, a amiguinha dela estava se interessando por alguém decente, ficaria difícil de manipular. Ou acharam que Sofia saiu do grupo só por quase socar o Toni?” continuou e Denise ria sem humor.
“Finalizando nossa primeira grande matéria, precisamos ver uma pessoa quase apelar para a violência, e julgá-la por isso; precisamos ver um capitão de time ser vaiado por impedir a entrada de bullies no time; e precisamos ser silenciados no jornal para enxergarmos que endeusamos o grupo errado, demos popularidade às pessoas erradas. Por isso, o jornal pede desculpas por todo o ódio destilado a mando da antiga gestão e acrescentamos ainda: repensem a respeito de quem vocês estão dando tantos privilégios. Atenciosamente, a redação.” Concluiu rasgando o jornal ao fim.
Os quatro tinham um misto de emoções correndo pelo corpo, ia desde de raiva à incredulidade. Todavia, não conseguiam descordar tanto assim do que havia sido escrito, tanto que a irritação também era com eles mesmos.
“Penha, por que nunca me disse? A gente não namorou de verdade, mas ainda sim...” Cebola falava até Toni rir.
“Acorda, Cebola! Nenhum de nós nunca se importou com a vida um do outro! Por que ela te contaria?” falou e o moreno assentiu.
“Não, uma pessoa se importava. E nós a tratamos como o lixo que nós somos.” Penha disse.
“Eu não sou um lixo! Essa matéria que ‘tá exagerada e...” Cebola se defendia até Denise o pegar pela gola.
“Para de achar justificativas pras suas merdas, Cebolácio! Você é um lixo! Todos nós somos e sabe por quê? Porque durante esse tempo todo causamos dor pra fugir das nossas próprias dores e nunca demos a mínima pra isso! Sabe esse sentimento horrível que a gente ‘tá sentindo? É o mesmo que Milena, sua ex peguete, sentiu e você não fez nada! É o mesmo que Sofia sentiu, inclusive por culpa de vocês dois, e nós duas, Penha, não fizemos nada! É o mesmo que Jeremias, Xavier, Nikolas, Tikara, Gabriela e mais um monte de gente sentiu por nossa culpa, principalmente minha e... e...” falava balançado o rapaz várias vezes e não soube como completar, nenhum deles soube.
O silêncio pairou sobre a pequena sala com cheiro de produtos de limpeza baratos que tanto era usada pelos alunos para conversas particulares, esconderijos e, em alguns casos, pegação. Antes que alguém se pronunciasse, Denise deixou a sala sendo seguida por Penha e depois Cebola, naquele momento, novamente sozinho, Toni riu.
“E no único momento que o grupo devia se apoiar de verdade, todos se separaram. Nem me surpreende mais!” falou para si mesmo antes de deixar a sala.
*
A notícia sobre os populares deixou os adolescentes do segundo ano bastante elétricos, mas toda a energia se dissipou quando, na aula de Rubens, ele ligou o projetor e apareceu na parede um vídeo intitulado “gravidez na adolescência”.
“Hoje iremos assistir dois documentários. O primeiro sobre gravidez na adolescência e o segundo sobre sexo seguro.” o professor falou fazendo alguns alunos bufarem.
“Que saco! Esses documentários acabam com a graça da coisa.” um garoto comentou.
“Não é para ser engraçado, é pra ser seguro, consensual e bom para ambos os lados. É importante que entendam e conheçam os métodos contraceptivos e que evitem ISTs.” o mais velho falou.
“Toda vez esse papo, é papo de quem não transa.” Uma garota comentou e Rubens bufou.
“Assistam ao vídeo! A aula detalhada sobre esse tema está um pouco distante, mas a direção e eu achamos necessária essa abordagem após o sábado à tarde.” ele falou indo dar o play.
“Tinha gente transando? Nem chamou!” Titi zombou.
“Quem ficar de gracinhas vai sair da sala!” Rubens exclamou sério e os jovens se calaram. Ser expulso da sala rendia muitos problemas a eles.
“Por culpa sua a gente tem que assistir documentário, satisfeita?” Mônica cochichou para Magali que riu.
“Ops.” brincou e a amiga também sorriu.
Gabriela havia dito o mesmo à Milena, que apenas deu de ombros.
“Não me arrependo de nada.” falou sorridente.
Ao longo dos documentários, alguns alunos dormiram em suas carteiras, outros trocavam bilhetinhos entre si, alguns prestavam atenção, tinham aqueles que estavam com a cabeça nas nuvens e tinha Xavier, alguém que ao mesmo tempo que estava focado no documentário, que falava sobre sexo, estava com a cabeça distante.
“Percebe que é sempre um punheteiro que participa dessas entrevistas? Mas falar qual site que ele entra que é bom, nada.” Titi falou baixo, estava atrás de Xavier.
“Você nem vai embora, como tu assiste pornô?” Tikara perguntou, sequer olhava para a apresentação.
“Celular é liberado aos fins de semana. E eu conheço uns pontos cegos aqui no IL e tenho muitos contatinhos, entendeu, né? Não fico só no pornô.” respondeu risonho.
“Ponto cego? Qual?” o novato perguntou.
“Você ainda é novato, Tikara, ainda vai descobrir. E você quer ir pra lá pra quê? Pra bater uma? Isso os caras fazem até no vestiário ou qualquer banheiro.” Titi falou e Xaveco engoliu em seco.
“Só pra saber, ué.” falou e o outro riu.
“Nikolas que deve saber! Não pratica um exercício, é gamer, nerd e não é um balofo... só pode significar uma coisa... E todo dia, moleque!” um outro rapaz comentou fazendo um gesto com o punho.
“Metabolismo o nome, e eu pratico sim exercícios, mas não aqui. Fora que isso soou muito errado, cuidado com o jornal.” Nikolas respondeu, ele parecia desenhar algo em seu caderno.
“E você, Xavier? Qual tua atriz favorita?” Titi perguntou dando um tapa nas costas do loiro.
“Que atriz?” perguntou.
“Pornô, ué.” Respondeu.
“Ih, Titi, ‘tô achando que ele não pensa em atriz... pensa nas minas do IL mesmo. Essa cara de inocente dele não me engana.” o outro rapaz falou.
Xavier engoliu em seco novamente, andava tão estressado nos últimos dias que não tinha vontade alguma de se masturbar, mas as lembranças do banheiro da festa o assombravam quase sempre, e, em alguns momentos, a pessoa de suas fantasias o deixava animado até demais. E isso o fazia ter cada vez mais certeza de um questionamento que insistia em evitar: sobre a sua orientação sexual.
“É safado mesmo, ele mesmo já disse.” Tikara comentou.
“Eu não sou você, Tikara. E eu não faço essas coisas aqui, divido dormitório com mais três caras.” respondeu.
“Pra alguns isso não é problema, é até incentivo.” Titi comentou risonho.
Xaveco balançou a cabeça.
“Para, minha mente é fértil!” exclamou e os demais riram.
X
Enquanto isso, Sofia dormia na carteira enquanto Denise apenas encarava a projeção sem prestar atenção. Jeremias, que estava na carteira ao lado, se virou para ela.
“Eu li a matéria.” falou e ela o olhou.
“Nem tudo lá é verdade, uma das partes você sabe que é invenção.” ela disse.
“Só uma?” ele perguntou e a ruiva suspirou.
“Outras são exagero, mas o resto é exatamente aquilo. Eu me sinto tão... mal. Eu nunca me incomodei com os olhares que recebo, não é de hoje que sou odiada, mas dessa vez é diferente. A matéria me pintou como uma pessoa horrível, e eu acho que eu realmente sou.” confessou.
“Bom, todo mundo merece uma segunda chance se de fato se arrependeu, não acha?” Jeremias perguntou.
Denise sorriu e olhou para Sofia, ela havia sido a primeira pessoa a lhe dar uma segunda chance.
“Eu não mereço a amizade de vocês, sério. Mas quem anda com quem apareceu no jornal pode ser afetado.” ela alertou e ele deu de ombros.
“Denise, acha eu me importo com o que o jornal fala? Aquele dia na biblioteca, quando a gente começou a se aproximar, eu vi que você não é uma pessoa ruim, e pra mim isso que importa.” falou e ela sorriu para ele.
“Mas... você ainda tem que pedir desculpas verdadeiras pra algumas pessoas, não acha?” completou e a ruiva suspirou.
“Eu vou fazer isso, mas vou esperar a poeira baixar um pouco.” prometeu e ele lhe lançou uma piscadela.
*
O documentário pareceu durar horas, diferente do horário de almoço, que pareceu passar depressa. Quando os jovens se deram conta, faltavam alguns minutos para as atividades da tarde.
Penha havia ficado sozinha durante o almoço, queria um tempo apenas para si, então foi mais cedo para a sala 130, onde acontecia a monitoria, porém, sua surpresa foi ver Nikolas se aproximando junto de Mônica.
“Ah, Penha! ‘Tava te procurando!” o rapaz falou e ela olhou para os dois.
“Por que vocês ‘tão juntos?” perguntou automaticamente e a outra riu.
“Porque ele tem que falar com nós duas.” Mônica respondeu.
Nikolas suspirou.
“Seguinte, meninas, ‘tava falando com a Ana Paula e ela me falou que vocês evoluíram bastante com a monitoria, tanto que não precisam mais fazer comigo, mas ainda precisam de ajuda com as coisas do segundo ano. Ou seja, agora vocês agora vão fazer monitoria com a Hortênsia. Mônica, acho que você não conhece ela, ela...” ele falava até Penha o segurar pelos ombros.
“Nikolas! Como você dá uma notícia dessas calmo desse jeito?! A gente teve uma última monitorria juntos e você não disse nada?!” questionou e Mônica observou a cena surpresa.
“Eu só descobri no sábado, quando a Hortênsia foi falar comigo. Mas eu fiquei feliz por vocês, prova que ‘tão aprendendo!” ele disse.
Mônica sorriu.
“Nik, foi ótimo fazer monitoria com você!” falou e ele sorriu.
“Também foi bom ter vocês lá. Agora vocês vão pra sala 136, ali.” falou apontando para a direção onde ficava a sala.
Mônica assentiu e logo deixou o local. Penha ficou ali com a feição triste.
“Eu não ‘tô pronta, Nikolas! Principalmente agorra! Não vou conseguir encarrar o povo da monitorria me julgando, não hoje!” ela disse e ele negou.
“Consegue, sim. Você é muito forte! E concordo com a Ana Paula, você ‘tá pronta. Você evoluiu muito em matemática e em outras coisas, e sabe disso. Só ‘tá meio triste com... os acontecimentos de hoje.” Nikolas falou e a moça suspirou com um sorriso.
“Você, e Mônica também, vão fazer falta na monitoria, mas eu ‘tô orgulhoso!” concluiu e a moça não hesitou em abraçá-lo forte. Por mais que fosse uma simples mudança, e que ainda continuaria em contato com ele, saber que às segundas não teria mais o rosto dele tão perto ao seu a deixava desanimada.
“Obrigada! Você me ajudou nessa evolução.” Penha falou e se surpreendeu quando Nikolas segurou delicadamente em seu queixo, fazendo com que ela tivesse uma visão nítida de seu rosto, que tinha algumas mechas de dreads perto dos olhos gentis e iluminados pelo sol, que parecia contribuir com o momento.
“A maior parte foi você. Sabe, os meninos te acharam legal, então, se quiser, sabe onde encontrar a gente.” o rapaz disse e logo se afastou dela entrando na sala, que já estava destrancada.
Penha ficou parada ali no corredor sem fala, não sabia se era por conta do convite para andar com ele ou se fora pelo toque do rapaz que, para a sua surpresa, parecia ainda queimar em sua pele, e era uma boa sensação.
A moça despertou de seu transe ao sentir uma mão tocar em seu ombro. Era Hortênsia.
“Oi, Penha. Vamos lá?” falou e a morena seguiu sem falar nada.
Assim como na turma de Nikolas, aquela tinha bastante gente, principalmente do terceiro ano. Do segundo ano, conhecia o rosto de Mônica e o de Flávia, então foi se sentar ao lado da segunda, que sorriu para ela. Algumas pessoas cochicharam quando a viram, mas a moça apenas ignorou.
“Não sabia que você fazia monitorria.” comentou com Flávia que bufou.
“Ana Paula me mandou pra cá só porque errei uns cálculos bobos, não ‘tava muito a fim naquele dia.” respondeu.
“E como é a monitorria com a Hortênsia?” perguntou.
A mais baixa deu de ombros.
“Acho que normal.” respondeu.
Hortênsia não era uma monitora ruim, muito pelo contrário, sabia transmitir muito bem o que tinha em mente. Porém, para Penha, havia um único defeito: não era Nikolas. Por conta disso, durante alguns momentos, a morena se distraía e desenhava em seu caderno, Flávia, ao seu lado, viu o desenho e sorriu.
“Quem que você desenhou?” perguntou e a outra olhou para o próprio caderno e o fechou, inconscientemente havia desenhado uma rapaz de dreads na cabeça e sorriso aberto.
“Ninguém, não é ninguém!” falou e a outra estreitou os olhos com um sorriso.
“Mesmo? Ele me lembra muito o Nik!” Flávia disse e a outra perdeu a fala.
“Ah... não! Não é ele não. É o... não é ninguém!” exclamou e a outra riu e logo parou, Hortênsia havia olhado.
Assim que deixaram a sala, Flávia se aproximou de Penha.
“Você devia dar pro Nik!” falou de repente e a outra arregalou os olhos.
“O quê?” perguntou.
“O desenho, Penha. Você devia dar pra ele!” a de cabelos curtos explicou.
“Ai, Flávia, eu já disse que não é ele!” falou e a outra suspirou.
“Penha, seja sincera comigo. Você gosta dele, né?” perguntou e a de cabelos compridos arregalou os olhos.
“Clarro que eu gosto! Ele é meu amigo!” ela falou e a outra riu.
“Você sabe que não falei nesse sentido.” ressaltou e a outra bufou.
“Ah, me deixa!” exclamou saindo a passos rápidos e a outra a seguiu, ambas iriam para o mesmo lugar.
*
Enquanto isso, Cebola estava sozinho na sala de aula empinando a cadeira enquanto aguardava Mônica. Assim que ela entrou, quase caiu da cadeira ao se levantar.
“Oh, hello, Mônica! How are you?” perguntou animado e ela o olhou entediada.
“Hi.” respondeu seca e ele assentiu com um sorriso sem graça.
“Well... vamos falar sobre... sobre o quanto eu sou idiota.” ele falou e ela franziu o cenho.
“Disso eu sei, minha dificuldade não é essa e nem o foco da monitoria. Deixamos claro que a gente só ia conversar aqui sobre os assuntos daqui.” Mônica disse e ele suspirou.
“Por favor, Mônica, deixa eu só explicar. Aí você tira suas conclusões.” pediu e a morena suspirou.
“Tá, Cebola. Pode falar.” ela disse se sentando.
O rapaz respirou fundo.
“Eu fui um idiota.” falou e ela assentiu.
“Como eu disse, isso eu já sei.” falou.
“É que eu... a popularidade... meu grupo é um lixo, então eu acabei me influenciando e...” falava e ao olhar bem para ela, e sentir aquela sensação boa que transmitia, soltou o ar pela boca.
“Eu tive medo de perder os privilégios que a popularidade me traz, porque sem isso eu não sou nada! E eu quero ser alguém! Mas eu segui seu conselho e falei com o Cascão, e ele me disse que eu nunca penso nas consequências do que eu faço e isso não me torna a pessoa que eu quero ser, entende? Eu não sou esse cara que decepciona a pessoa que gosta porque quer, eu não sou tão cuzão assim com quem eu gosto, entende?” falou e ela apenas cruzou os braços.
“Quando o Toni veio falar comigo, eu pensei em muita coisa, no julgamento dele e de todo mundo e esqueci de ser eu mesmo, de agir como eu queria agir, eu me deixei levar de novo pela máscara. Mas agora, com aquela matéria, eu me libertei dela! E queria muito seu perdão!” concluiu sincero.
Mônica o observou por alguns segundos e respirou fundo, o olhar arrependido de Cebola a derretia por dentro.
“Não, Cebola, você não se libertou da sua máscara, aquela matéria não falou nada que ninguém não soubesse, talvez a parte da Penha. Você só vai se libertar dela quando assumir que não é aquele cara que todo mundo daqui acha que é, quando mostrar ao mundo aquele Cebola incrível que mostrou pra mim.” falou séria.
“E como eu faço isso? O meu grupo acabou, na verdade, ele nunca existiu, um grupo pelo menos se comunica.” ele falou reflexivo.
Mônica arrastou sua carteira e cadeira para bem perto dele.
“O que o Cebola de fora do IL faria? Pensa nisso, e tome sua decisão.” ela aconselhou.
Cebola sorriu se aproximando mais.
“Vou fazer isso, prometo. Mas eu preciso saber... você me perdoa?” perguntou tocando em sua mão.
Mônica sentiu a mão formigar e pernas bambearem, mas foi forte e repeliu o toque.
“Não sei! Palavras bonitas não vão mudar nada, Cebolácio. Você precisa mostrar que se arrependeu, aí eu vejo se te desculpo.” respondeu desviando o olhar e ele assentiu com um sorriso.
“Thank you, Mônica! Now... modal verbs!” exclamou e ela riu.
“Em português, pleeease!” pediu e ele riu.
“Mônica, tive reunião com a professora de inglês, e ela disse que você ‘tá melhorando muito!” ele revelou.
“Mesmo? Daqui a pouco ela faz que nem a Ana Paula e me coloca pra fazer monitoria com outra pessoa!” exclamou e ele riu.
“Inglês é um pouco diferente. Agora vamos lá!” começou e ela sorriu.
*
Quando o horário das atividades da tarde chegou ao fim, os adolescentes se viram livres para fazerem o que quisessem. Toni queria ficar um pouco longe dos olhares, o jornal havia surtido um efeito muito forte, então foi caminhar pelo internato. Ia passar reto por um corredor quando ouviu duas vozes femininas e se aproximou.
“Tá bom que é um escândalo, mas o Toni é um bom ator e ele parece estar arrependido.” era a voz de Gabriela.
“Aquilo lá não se arrepende, não, Gabriela!” a outra exclamou. Era Isadora.
“Você mesma me disse que ele interpreta muito bem a ponto de acharem que ele é um lixo e só.” a mais nova disse.
“Quer tanto assim contracenar com ele, Gabi? Pensei que vocês se odiassem!” a outra comentou.
Gabriela hesitou.
“Eu tenho conversado com ele e... Toni não é um lixo e só. Ele tem camadas! Camadas que escondem uma pessoa não tão ruim.” falou e o loiro não evitou um sorriso alegre, um dos primeiros do dia.
Isadora riu.
“Estamos lidando com o Shrek? Enfim, espero que valha a pena! Porque eu também acho que ele é um bom ator, mas ainda prezo pelo bem estar de todo mundo, inclusive dele. Sabemos que aparecer no jornal não é uma coisa fácil.” cedeu.
“Acho que ele vai ficar bem.” Gabriela disse.
“Ok. tenho que ir agora, tchau, Gabi!” a de cabelos compridos se despediu e saiu.
Toni se escondeu e, assim que Gabriela saiu, chamou-a fazendo com que a moça se assustasse.
“Que susto, menino!” exclamou e ele riu.
“Foi mal! Eu ouvi sua conversa com Isadora, nunca pensei que a miss certinha defenderia um cara como eu.” comentou e a moça riu.
“Só fiz pela arte.” a loira respondeu e ele estreitou os olhos ainda com um sorriso.
“É sim... Bom, eu me encontro no fundo do poço, então foi bom ouvir ao menos uma coisa positiva sobre mim neste dia maravilhoso.” Toni comentou e ela riu.
“Fundo do poço só porque apareceu no jornal? Você é popular, logo esquecem.” ela disse e ele negou.
“Talvez eu não queira que esqueçam, hoje só tive a certeza que estar naquele grupo não era tão bom assim. E não sou mais popular, talvez conhecido, mas popular privilegiado, acho que não mais.” comentou.
“Cuspindo no prato que comeu?” ela perguntou.
“Não, é que... sei lá! Eu devia estar puto com o jornal, mas eu não ‘tô! Acho que ‘tô decepcionado, mas não com o jornal. Ah... é o fim pra mim!” falou e ela riu.
“Pode até ser o fim pra sua popularidade, mas pode ser o momento ideal pra um recomeço! Pensa nisso! Tenho treino agora.” ela falou saindo em seguida.
Toni ficou ali com aquelas palavras na cabeça e sorriu se sentindo um pouco mais motivado.
*
Na área verde, Mônica estava sentada relaxadamente em um banco junto de Cascão, não sabia quando os dois se sentaram juntos e nem quando começaram a conversar, só que o papo com ele fluía muito bem.
“Aí eu disse que ele tinha que mostrar que realmente se arrependeu! Eu queria ter desculpado, aquele rostinho lindo manipula a gente. Mas eu fui forte.” ela falou.
“Agiu certo! Cebola precisa ver que a vida é uma partida de futebol, um dia você acerta a bola, e no outro ela que te acerta, e bem na cara!” Cascão falou e ela riu gostosamente.
“Profundo, Cascão! Muito profundo! Mas me fala... como ‘tão você e a Magali? A gente teve que assistir um documentário por culpa de vocês.” ela disse e ele riu.
“Eu gosto da Magali, Mônica. É uma pessoa muito foda, não falo isso só porque é tua amiga, mas sim porque ser legal, corajosa, fofa e muito bonita, tudo junto, não é pra qualquer um.” ele disse e ela levantou a sobrancelha.
“Tá... você não respondeu minha pergunta. Vocês ‘tão ficando sério?” perguntou e ele deu de ombros.
“Não sei, a gente não se vê muito por causa da correria. Mas quando se vê... é como se rolasse uma força de atração.” falou e ela riu.
“E o que vão fazer a respeito dessa força?” perguntou e ele suspirou.
“Eu não sei, real! Não quero iludir ninguém, mas eu também não sei se ‘tô me iludindo, entende? Acho que tu não entende, o Cebola é louco por você!” falou e ela ajeitou o cabelo.
“Ele é?” perguntou e o rapaz riu.
“É! Nem pra mim ele fala as coisas de fora do IL! Se ele foi sincero com você, é porque tocou o cara de um jeito especial.” falou e ela sorriu.
Cascão levantou.
“Tenho que ir agora, exigências do time. A gente se vê, Mônica. E pensa no Cebola com carinho.” falou e saiu rapidamente.
Mônica também levantou e foi para seu dormitório, pensando nas palavras de Cascão.
*
Na quadra havia uma intensa movimentação. Cascão se juntou à Milena e às outras meninas do futebol, que pareceram bastante animadas após a proposta que ele fizera.
“Rapaziada, presta atenção aqui! Átila não vai conseguir treinar nós do fut’ todo dia e eu também preciso de treino, então, pedi aos amores da minha vida pra ajudar a gente! Mileninha, é com você!” exclamou abraçando a cacheada pelos ombros.
“Seguinte, meninos, Cascãozinho me pediu pra ajudar no treino de vocês e é claro que eu topei e chamei as meninas pra ajudar, mas não achem que é porque a gente gosta de vocês, só queremos que o IL ganhe.” ela disse com um tom brincalhão ao fim que fez os rapazes rirem.
“Como podem não amar a gente? Nós amamos tanto vocês!” um deles falou fazendo um coração com as mãos.
“Amor unilateral é foda.” uma delas falou fazendo high-five com outra.
Átila, que até então falava com Gabriela, apareceu onde eles estavam.
“Já falaram pra eles? Ótimo! Orientei elas a não pegarem leve com vocês! E se vocês vierem com cavalaria pra cima delas, que sei que tem muito cavalo nesse time, vai pro banco! E obedeçam às ordens da Milena, caso contrário, tem minha autorização de dar na cara deles, Milena.” falou e logo saiu.
“Pode me bater à vontade, Mileninha.” Titi comentou piscando um olho.
“Você me dá pena, Timóteo. Bora! Coloquem suas chuteiras e vamos lá.” ela disse indo até a arquibancada.
Tikara observava a moça quando Xavier o cutucou.
“Sendo treinado de novo pela crush? Será que se você acertar o chute ganha beijinho?” o loiro perguntou sorridente e o amigo suspirou.
“Xaveco, acha que Milena já ficou com alguém do time? Tipo Cascão ou Timóteo?” perguntou.
“Não sei, por quê? ‘Tá achando que ela ‘tá dando mole pra eles? Porque se for isso, tu ‘tá sendo burro.” o amigo respondeu.
“Não é isso! É que... ficaria difícil de competir com eles. O Felipe ela deu um fora monstro, mas o Titi tem uma confiança inabalável e o Cascão...” falava até Xaveco bufar.
“Ô Tikara, qual foi? Por que você fica tão inseguro quando o assunto é ela? Você vive dizendo que é um cara direto e tudo mais, foi corajoso com aquele Felipe lá...” ele perguntou e o amigo soltou o ar boca.
“Sei lá, cara, é que ela me intimida um pouco. Talvez porque todas as minas que eu fiquei antes não eram como ela. Eu que tinha mais atitude.” confessou e o loiro estreitou os olhos.
“Pera aí, você ‘tá repensando seu lance com a Milena só porque ela tem atitude? Sério isso, Tikara?” questionou incrédulo.
“Não sei. Eu gosto muito dela e não quero pensar desse jeito, mas não sei como mudar essa ideia que meus colegas da antiga escola colocaram na minha cabeça. Eles sempre diziam que essas meninas cheias de atitude são um problema pro cara, e eu não quero acreditar nisso! Eu gosto de garotas assim! Eu gosto dela!” exclamou e Xaveco ia dizer algo quando a voz de Milena soou.
“Tikara! Xavier! O jogo já vai começar!” alertou e os dois foram para seus lugares.
Xaveco respirou fundo e olhou na direção da moça com as palavras do amigo na cabeça, foi naquele momento que Nimbus se colocou ao lado dela e sorriu para si. O loiro retribuiu o sorriso sentindo o coração bater mais rápido e tentou focar no jogo.
*
Enquanto isso, no refeitório, Magali conversava com Jeremias, Do Contra e Ramona sobre o levante.
“Sábado fizemos um tipo de ‘noite na fogueira’ e hoje um dos inspetores veio falar comigo uma coisa interessante. Ele é ex-professor de música e disse que adoraria voltar a dar aulas, mas ele não pode fazer isso de graça, né?” Jeremias falou.
“Pelo menos agora sabemos que temos o apoio dos funcionários.” Do Contra falou.
“Do Contra, é muito bom ver seu otimismo e que muita gente esteja apoiando, mas não ‘tá ajudando a gente tanto assim!” Magali disse.
“Tá sim!” ele disse e os três negaram.
“Não, Do Contra, não ‘tá. A gente não tem uma sala, não tem um horário, só tem um instrumento já que nem o teclado dela e nem sua bateria estão aqui e nem o professor a gente tem! Tipo assim, pra quem a gente ‘tá tentando montar um grupo de música? Só pra gente ou pra quem estiver disposto a aprender a tocar um instrumento ou conhecer mais sobre música?” Ramona falou e o de cabelos lisos suspirou.
“Nunca tinha pensado nisso.” comentou.
“Olha... eu sei o quanto é importante esse levante, mas... será que ‘tá valendo a pena?” Magali perguntou.
“Sim, ‘tá valendo! A gente não pode desistir agora! Já tivemos alguns avanços! Aposto que se... bom, a gente pode...” o veterano tentava argumentar.
“A gente precisa de patrocínio! O Carlito não quer desembolsar nada! Mas eu acho que se a gente conseguir patrocinadores, ele libera a sala, faz um contrato com o professor e só vai faltar o horário e instrumentos.” Jeremias disse.
“É aí que ‘tá, Jerê. Onde a gente vai arrumar alguém que patrocina?” Magali perguntou.
Os quatro suspiraram desanimados. Não sabiam como avançar com o levante.
*
No dormitório 220B, Mônica lia um livro em sua cama quando Penha entrou no quarto, parecia cansada. A novata ignorou a presença da outra, mas tudo mudou quando ouviu a voz de Penha.
“Mônica! O que achou da monitorria da Hortênsia?” perguntou e a outra olhou surpresa, não havia deboche nem nada na voz da outra.
“Normal.” a novata respondeu.
“Não sentiu nem um pouco de falta da explicação do Nik?” Penha perguntou e Mônica riu.
“Claro, eu tinha acostumado com o bom humor dele. Mas ele mesmo disse que foi bom pra gente.” ela disse e a outra assentiu.
Para Mônica, era muito estranho falar com Penha de maneira amigável, ainda mais após tudo que aconteceu entre elas. Mas ela não a irritava há muito tempo e a matéria pareceu deixá-la sensível.
“Eu li o jornal, deve ter sido um baque pra você.” decidiu conversar e Penha encarou surpresa.
“Não precisa ter dó.” a outra rebateu.
“Eu não tenho dó, você mereceu. Mas... não acho que eles agiram certo em tentar colocar sua condição financeira e o trabalho da sua mãe como algo a se envergonhar.” falou sincera e a veterana assentiu.
“Eu sei disso.” Penha disse e a outra se levantou.
“Que bom.” Mônica concluiu deixando o quarto.
Penha encarou o teto e riu, nunca imaginou que uma aparição no jornal pudesse mudar tanto as coisas.
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