Internato Limoeiro
27 Capítulo XXVI - Papo
Notas iniciais
A terça-feira havia passado em um piscar de olhos, principalmente para os agora antigos populares que, pela primeira vez, entenderam o motivo de todos aqueles que apareciam no jornal geralmente se ocuparem ou sumirem pelos corredores do internato: os olhares que recebiam eram incômodos demais. Por mais que estivessem acostumados com as observações, daquela vez era completamente diferente, eram olhares de deboche, de nojo e, em alguns casos, pena.
A quarta-feira havia começado quente, Cebola encarava o nada enquanto pensava em várias coisas: as palavras de Denise, as de Cascão, as de Mônica e até mesmo em qual seria sua atitude diante de tudo. Sentia-se destruído e impotente, mas queria fazer algo.
“O que o Cebola de fora do IL faria?” questionou-se e seu olhar se voltou para a porta do banheiro, que se abriu deixando escapar um pouco de vapor. Era Nikolas.
“Ei, Nikolas! Você... você ainda joga?” perguntou e o outro nem o olhou.
“Às vezes.” respondeu seco e Cebola se sentou.
“Eu também gosto de jogar! Seria foda a gente jogar um dia! Você tinha um canal de games!” falou animado e o outro o encarou sério.
“Cebola, eu sei que as pessoas podem mudar, mas isso não acontece de um dia pro outro. Então para de tentar dar uma de amiguinho pra cima de mim.” Nikolas falou.
“Eu não ‘tô tentando dar uma de amiguinho pra cima de você, moleque! Eu só quero me aproximar do meu colega de quarto!” exclamou.
“Engraçado que antes da sua exposição nunca deu a mínima pra minha existência, até zombava de mim! E agora que todo mundo que te ‘amava’ ‘tá te xingando e olhando feio quer se aproximar? Me erra!” exclamou pegando sua mochila e deixando o dormitório em seguida.
Cebola revirou os olhos e bufou ao ouvir uma pessoa descendo da cama enquanto ria.
“Dói, né?” era Tikara com um sorriso debochado.
O veterano não disse nada, apenas levantou de sua cama e entrou no banheiro. Cascão também saiu de sua cama com um riso.
“Cês são cruéis.” comentou e o novato negou com a cabeça.
“E ele nunca foi com a gente, né?” comentou irônico e Cascão deu de ombros, de fato Cebola precisava ver que não seria tão fácil assim conquistar amizades.
*
No refeitório, Nikolas havia se juntado a Xavier para tomarem café da manhã. O veterano aproveitou para terminar os relatórios da monitoria, porém, um mesmo erro cometido três vezes seguidas o fez bufar.
"O que foi?" Xaveco perguntou.
"Eu escrevi de novo o nome da Penha! Ela não faz mais monitoria comigo!" exclamou negando com a cabeça.
O loiro deu um gole em seu café enquanto sorria.
"Por isso você 'tá todo tristinho?" perguntou e Nik o olhou.
"Eu não 'tô tristinho!" respondeu e o loiro riu.
"Desde segunda você 'tá desanimado, e olha que teve motivo pra pular de alegria! O grupo que fez você deletar seu canal se fodeu." falou e o outro deu de ombros.
"Não 'tô nem aí pra aquele grupo! Já sabia que ali era um lixão." comentou tranquilo.
"Até a Penha? Porque você parece ter esquecido que o grupo todo colaborou pro fim do seu canal." o loiro instigou e o outro suspirou.
"Com a Penha é diferente. Eu vejo que ela 'tá tentando ser uma pessoa melhor, e 'tá conseguindo! Não foi de um dia pro outro, é uma coisa lenta, mas de muito resultado." respondeu sincero e Xaveco riu.
"Se você gosta tanto assim dela, por que 'tá com esse contatinho secreto?" perguntou fazendo o outro se afundar na cadeira.
"Ah, nem tem contatinho! Eu só não queria… espera aí! Gosto tanto assim dela? Pirou, Xavier?" falou e o amigo bufou.
"Nem vem mentir pra mim! Eu já te disse que sou observador, Nikolas. Você sempre fala bem dela; ignorou o fato de que a escola toda 'tá falando mal dela; sugeriu que ela andasse com a gente; 'tá na cara que pensa nela pra caramba… preciso falar mais?" enumerou e o moreno desviou o olhar.
"Nada a ver! Isso só mostra que somos amigos." Nikolas desmentiu e o outro cruzou os braços.
"E essa sua hesitação só mostra que você tem medo de aceitar seus sentimentos! E sabe por quê? Porque tem medo que aconteça o mesmo que aconteceu com Carmem e Mônica!" Xaveco exclamou e o amigo arregalou os olhos enquanto o encarava.
"Já vi que não dá pra esconder nada de você, Xaveco." falou e o loiro sorriu largamente.
"Aqui é conexão, maninho! Desde o meu primeiro dia aqui! Por que não fala pra ela?" perguntou após apontar para a sua própria cabeça e depois para a dele.
"Não dá, Xavier! Em uma coisa o Cebola tem razão: uma garota como a Penha jamais ficaria com um cara como eu. A escola inteira 'tá falando sobre ela e ela não fez que nem eu, que me tranquei na biblioteca, ela vem pro refeitório, senta com a gente, vai falar com a mãe … eu não tenho a menor chance." falou desmotivado e o amigo até tentou se segurar, mas não resistiu e estapeou, de um jeito fraco, o rosto do amigo, que o olhou incrédulo.
"Mas que po..." Nik falava sem entender quando o loiro começou a falar.
"Me desculpe, Nikolas, mas você mereceu esse tapa! Desde quando você dá ouvidos pro Cebola? Ele é um mentiroso! E outra, a Penha é sim uma garota muito forte, mas você também é um cara pica! Ela 'tá tendo seu apoio nessa barra pesada, que em partes ela mereceu, mas você 'tava sozinho naquela época, era uma escola toda contra um cara só que 'tava de coração estraçalhado! E olha só! Você aguentou!" começou.
"E para de falar que não tem chance! Um cara bonito feito você, simpático e que ela adora… mano, tu tem chance sim! Então para de falar merda, porra!" finalizou sério e Nikolas olhava surpreso.
"Caramba, Xavier, é a primeira vez que te vejo bravo desse jeito! Calma! Mas valeu pela força." falou com um riso incrédulo e o cacheado o encarou.
"Vai falar pra ela?" Perguntou.
Nik olhou para o lado.
"Deixa a poeira do exposed baixar e eu vejo." falou e o outro bufou.
"Olhe lá, hein?" brincou e Nik riu.
"Mas e você? Nada até hoje?" Nikolas mudou o foco e Xaveco deu um último gole em sua bebida.
"Não, nenhuma garota me interessa." respondeu e o outro assentiu.
Antes que falassem alguma coisa, duas pessoas do terceiro ano se aproximaram. Eram Hortênsia e Nimbus.
"Nik, a gente precisa conversar urgente." ela disse puxando o rapaz, que nem teve tempo de pegar suas coisas.
Nimbus se sentou de frente para Xavier.
"E ai, Xaveco? Tudo firmeza? Deve estar feliz com o que aconteceu com Toni! Ou ele tentou descontar a raiva em você?" perguntou e o loiro negou.
"Não, ele tem me deixado em paz. E não vou mentir, fiquei pelo menos um pouco feliz!" confessou e o outro riu.
"Muito bom saber disso. Ah! Eu não acredito que até hoje não te parabenizei direito! Parabéns por ter entrado no time! Certeza que Cascão tomou a decisão certa!" exclamou e o loiro sorriu tímido.
"Valeu, Nimbus." agradeceu.
Nimbus sorriu abertamente e Xaveco se perdeu por alguns instantes no sorriso do outro.
"Sabe… eu sou do time de vôlei masculino e acho que este ano as coisas 'tão diferentes. Então eu pensei em, no sábado, geral ir pra casa pra gente comemorar essa mudança pra melhor! 'Cê toparia? Eu falo com o Cascão, a Mi e a Gabi pra ir os times todos! O que acha da ideia?" perguntou e Xaveco piscou um olho de cada vez.
"Iria! Mas acha que todo mundo pode?" o novato perguntou.
"Relaxa, eles dão um jeito. E, em último caso, a gente dá um rolê só nós dois." o outro falou com um riso, que fez o loiro engolir em seco enquanto suas mãos suavam.
"Ér… tomara que topem! Não que sua companhia seja ruim, Nimbus, é que… seria legal ter um dia com os times todos!" comentou e o moreno assentiu.
"Verdade! A gente nunca faz isso." falou pensativo e Xaveco, envergonhado, levantou pegando as coisas do amigo e sua mochila.
"E-eu vou atrás do Nik pra entregar essas coisas, ele vive dizendo que Ana Paula é braba. Tenho que ir atrás do… do… falou, Nimbus!" despediu-se nervoso saindo rapidamente.
Afastado, Xaveco suspirou fundo e quase deixou as folhas do amigo caírem ao passar as mãos nos cabelos enquanto seu coração batia mais rápido.
"Para de pensar nessas coisas, Xavier! O cara não 'tava te chamando pra sair exclusivamente. É o time todo, moleque!" falou para si mesmo enquanto ria ao fim.
*
Tikara estava indo para o refeitório quando encontrou Penha. A moça andava de cabeça erguida ignorando todos os olhares e cochichos. Quando ela o viu, aproximou-se dele.
"Oi, Tikarra. Cadê o Nik? E o Xavier. " cumprimentou.
"Nik comeu o rabo do Cebola e saiu pra tomar um café depois. O Xaveco deve estar com ele." respondeu e ela franziu o cenho com um riso.
"O quê?" a moça perguntou e ele riu.
"É que ele mandou um papo pro seu ex, que tentou dar uma de amiguinho de todos pra cima dele." fofocou e a moça riu alto.
"O Cebola não se toca mesmo… forra que ele nem gosta do Nik, ele tinha que ter falado com você." ela comentou e o moreno negou.
"Comigo? Ele roubou minhas cuecas e abaixou minhas calças no meio do refeitório lotado! Eu ia mandar ele ir se foder!" respondeu fazendo-a rir.
Tikara continuou ao lado de Penha e a olhou antes de pensar em algo.
"Penha, você que é uma garota pode me ajudar." falou.
"Em quê?" ela perguntou.
"Um amigo meu gosta muito de uma mina cheia de atitude, mas ele sempre ouviu que devia fugir dessas. Mas o foda é que ele gosta desse tipo de garota e mais ainda dessa garota em questão. O que eu posso falar pro meu amigo fazer? O burrão tem até se afastado um pouco dela por não tirar da cabeça isso e pode ser que ela tenha se relacionado com pessoas que os rodeiam." Tikara perguntou e ela o encarou.
"Fala pro seu amigo falar pra essa garrota o que 'tá acontecendo. Agorra se essa garrota, por acaso, tiver aparrecido no jornal ou ser capitã de um time de futebol feminino, eu dirria pra esse seu amigo ficar esperto, pessoas que sofrerram daquele jeito fecham o corração bem depressa." a moça respondeu e ele lambeu os lábios com um riso.
"Como o Nikolas é cagueta! Ele te disse!" exclamou e ela riu.
"Naquele dia do show, você puxou o menino pra cá só pra você ficar em cima da Milena, eu 'tava aqui e vi. Agorra que falamos de rolo alheio… descobrirram quem é o contatinho dele?" mudou de foco.
"Nem tentei." o rapaz respondeu e ela sorriu.
"Então vamos investigar!" exclamou esfregando as mãos.
Tikara levantou a sobrancelha.
"Eu nem comi ainda!" mencionou e a moça deu de ombros.
"A gente pega um pão e vai comendo pra biblioteca, vulgo habitat do Nik." ela sugeriu e ele riu aceitando, até que achava Penha divertida.
X
Os dois de fato pegaram seus respectivos pães e foram até a biblioteca, onde, realmente, Nikolas estava. O detalhe era que Hortênsia estava com ele.
Tikara olhou para a moça ao seu lado e percebeu algo que o fez rir: ela não queria descobrir para zoar o amigo, como ele pretendia fazer, ela queria saber quem era "a outra."
"Penha, aquele boato lá de que você traiu o Cebola com o Nik era lenda?" ele perguntou após dar uma mordida em seu pão e ela o olhou.
"Eu nunca traí o Cebola." respondeu.
"Nem namorou de verdade." Tikara lembrou e ela deu de ombros.
"Eu querria aumentar minha popularridade." respondeu.
"E de repente deixou de querer?" ele questionou e a morena suspirou.
"Não foi de repente, eu comecei a me sentir sozinha no grupo e percebi que não valia tanto a pena. Mas é meio difícil simplesmente sair." a moça explicou voltando sua atenção para os dois monitores e ele assentiu.
Enquanto Penha queria ouvir a conversa entre Nikolas e Hortênsia, Tikara nem se importava tanto assim. Os dois estavam abaixados atrás de uma prateleira ao lado de uma lixeira quando o rapaz esticou um braço para jogar fora seu guardanapo e, ao apoiar uma de suas mãos no chão, Penha, sem perceber, colocou seu joelho bem em cima da mão de Tikara, que quase gritou.
"AI!" reclamou alto tirando a mão de lá.
"Cala a boca, Tikarra!" ela sussurrou o olhando feio.
"Você ajoelhou na minha mão!" sussurrou de volta.
"Fica com a mão no chão, querria o quê?" ela disse.
"Ouviu isso? Pareceu a voz da Penha." a voz de Nik soou e os dois se calaram.
"Esquece ela e foca em mim!" Hortênsia falou.
Tikara levantou.
"Aonde 'cê vai?" Penha perguntou.
"Pra aula, daqui a pouco começa. Cansei de brincar de espionar o Nik, 'tá na cara que é a Hortênsia o contatinho dele.” falou saindo e a moça suspirou.
Penha decidiu sair também, mas trombou com Hortênsia, que já estava sozinha.
“Então você ‘tava aqui mesmo!” comentou e a outra deu de ombros.
“Tava procurrando um livro.” mentiu e a outra assentiu.
“Ok. Eu ‘tava falando sobre você. Os relatórios que Nik fazia sobre você são bem diferentes do que vi na segunda. Não vi a pessoa que queria aprender como ele tanto escreveu.” Hortênsia revelou séria e Penha suspirou.
“Segunda foi um dia difícil pra mim.” a outra explicou.
“Entendo, mas espero que na próxima segunda esteja mais focada, depois é de mim que Ana Paula cobra.” a mais velha falou e a outra assentiu.
Hortênsia já ia sair quando Penha a chamou.
“Hortênsia, você e Nikolas são ficantes, né?” perguntou e a outra fez uma careta enquanto ria.
“Não!” exclamou e a outra franziu o cenho.
“Nossa, você negou como se odiasse o menino! Pela frente você parrece gostar dele.” observou e a de cabelos cacheados riu mais.
“Eu gosto, mas não desse jeito. E cá entre nós, eu prefiro garotas.” respondeu e a outra olhou boquiaberta.
“Ah! E ele sabe?” Penha perguntou e a outra assentiu.
“Sim, uma das poucas pessoas. Então não se sinta ameaçada por mim.” Hortênsia falou piscando um olho.
Penha arregalou os olhos.
“Ameaçada? Hã?” questionou e a outra olhou maliciosa, mas saiu sem dizer nada.
A de cabelos lisos ficou ali parada por alguns segundos até ouvir o sinal e sair correndo rumo à sala de aula.
*
As aulas passaram um tanto entediantes. O horário de almoço logo chegou e logo se foi, dando espaço para as atividades da tarde.
No auditório, Sofia e Jeremias terminavam a última cena do roteiro. Os dois, como mexiam com uma cena romântica, conversavam sobre a vida amorosa.
“Eu não tenho ficado com ninguém, ando ocupado demais. E você?” Jeremias perguntou e ela riu.
"Eu ‘tô mais preocupada em trabalhar minha autoaceitação, mas eu não sei bem como se faz isso. Até pensei em pedir uns conselhos pra Denise, mas nem sobre o exposed eu falei, então não posso pedir nada." Sofia respondeu.
"Aposto que ela sabe o que você pensa sobre o que aconteceu." ele disse.
"Como ela pode saber se nem eu sei, Jeremias? É claro que eu não queria que ela sofresse, mas ao mesmo tempo achei importante ela se tocar do que fez, eu odiava as coisas que ela escrevia no jornal!" exclamou.
"Mas ela ainda é minha melhor amiga, eu preciso falar alguma coisa! Mas eu não sei o quê! O que eu faço?" concluiu com um questionamento e ele abriu e fechou a boca.
"Ah… eu não sei. Pra mim foi mais direto." o rapaz respondeu e ela riu.
"É ela que sempre sabe exatamente o que dizer. E olha que não teve conselho de mãe. Ah... esquece o que eu falei, ‘tá?!” Sofia falou sem pensar e cobriu a boca após falar da mãe da amiga.
Jeremias riu.
“Relaxa, ela me falou sobre isso uma vez.” respondeu e Sofia encarou boquiaberta.
"Sério? Ela não fala isso pra quase ninguém!” exclamou.
“É que num dia a gente se abriu um pro outro e foi aí que começamos a nos aproximar.” ele disse e ela riu involuntariamente.
“Vocês se abriram antes de se aproximarem?” Sofia perguntou risonha.
Jeremias demorou alguns segundos para entender o riso.
"Você é uma menina má, Sofia!” exclamou e ela riu alto.
“Ué, você que ‘tá pensando coisa aí! Eu não disse nada demais.” a moça se defendeu.
No mesmo momento, Denise entrou com papéis em mãos.
"Denise, sua amiga aqui é muito maliciosa!” o rapaz falou e a ruiva deu de ombros enquanto entregava os papéis a eles.
“Descobriu isso só agora? Se você ouvisse o que ela me disse no show de sertanejo enquanto copiava a arrochada dos cantores!” falou despreocupada e a outra arregalou os olhos.
“Denise! Não era pra falar!” exclamou e Jeremias sorriu interessado.
“O que era?” perguntou e a ruiva sorriu largamente.
“Nossa, essa calça apertada dele bem que podia...” falava até Sofia cobrir-lhe a boca.
“Cala a boca! Ele não precisa saber disso! Foi num momento sombrio da minha vida!” exclamou e o rapaz riu.
“É claro que eu preciso!” ele exclamou e a amiga negou.
Antes que falassem mais alguma coisa, Isadora apareceu.
"E ai, Isa! Como se sente por finalmente termos chegado ao fim do roteiro?" Jeremias perguntou ainda risonho e ela sorriu amarelo.
"Feliz. Mas eu tenho um pequeno pedido a fazer: uma mudança no final." falou e a ruiva bufou.
"Porra, Isadora! Já é a quinta vez que a gente muda esse final!" Denise reclamou.
"É aí que ‘tá! Eu tive a ideia perfeita! Um baile! A banda já temos!" a mais velha disse apontando para Jeremias.
Denise estralou os dedos.
"Ótima ideia! E se usássemos a peça pra trazer maior apoio ao grupo de música? Essa parte do baile pode se transformar em um baile do IL mesmo! Escolhemos um tema, convencemos o Carlito e ficamos felizes." Denise sugeriu e Isadora deu um pulinho.
"Eu amei a ideia!" Sofia exclamou.
Jeremias crispou os lábios.
"O grupo de música ‘tá passando por vários problemas em conseguir tudo, meninas. Pra esse evento a gente não pode ensaiar no dia igual aconteceu na festa de boas-vindas. Então não sei, não." ele disse e as três suspiraram.
"O levante não ‘tá indo bem, Jerê?" Isadora perguntou preocupada.
"Não! Precisamos de algum patrocinador pelo menos pra conseguirmos pagar um professor de música e comprar instrumentos. Fora que ainda faltam outras coisas como um lugar, um dia e um horário." respondeu.
Denise abraçou Jeremias pelos ombros.
"Jerê, por que não me disse que 'tava nesse nível? Eu posso te ajudar!" exclamou e ele a olhou.
"Como?" perguntou.
"O exposed mostrou muita coisa, mas esqueceu de uma! Um dos motivos de Carlito fazer vista grossa pras nossas artes é que nossos pais são grandes colaboradores! Meu pai é do tipo que apoia no que vê resultado, agora os do Cebola e Toni eu não sei." ela disse.
"Então você consegue, Denise? Se conseguir a gente vai ficar muito feliz!" Jeremias exclamou animado e ela assentiu.
"O que eu não consigo, meu amor? Pode contar comigo, mas precisamos deixar a poeira abaixar um pouco, até mais ou menos certos assuntos serem esquecidos." a ruiva disse e o amigo sorriu abertamente.
"Claro! Isa, vamos montar esse baile!" Jeremias disse e Isadora assentiu animada enquanto se aproximava dele.
“Eu tenho que ir pro meu treino. Diferente de certas pessoas, eu ‘tô no time.” Denise brincou jogando o cabelo para o lado.
“Humildade mandou lembranças.” Jeremias provocou.
“Fala pra ela que eu ‘tô no time. Beijos de luz!” ela disse mandando um beijo e saindo em seguida.
Jeremias ria abobado enquanto era observado pelas maliciosas Sofia e Isadora. Não demorou para ele perceber.
“O quê?” perguntou e as duas negaram.
“Nada! Vamos começar a montar esse final!” Sofia disse batendo uma palma.
*
Enquanto isso, na quadra, Gabriela e Milena estavam sentadas na arquibancada enquanto os demais treinavam.
"Então você deu um jeito da Isadora não tirar o Toni da peça? Interessante." Milena comentou maliciosa.
"Nem vem! Eu fiz isso por ele ser um bom ator e por eu estar me acostumando a interpretar ao lado dele." Gabriela explicou e a amiga riu.
"E quando vamos saber como é essa peça? Você e Isa nunca falam nada sobre ela, nem sobre os ensaios." Milena perguntou e a loira fez um gesto de “zíper na boca.”
"Sigilo é exigência da Isadora, mas não se anime muito, é clichê. Voltando ao Toni, eu acho que desde um pouco antes do exposed ele tem pensado um pouco na vida. Acho que não só ele, Penha já ‘tava há um tempão sem mexer com ninguém." a de cabelos curtos comentou e a outra deu de ombros.
"Denise também parecia diferente, mas certeza que é pela Sofia e talvez pela proximidade com o Jeremias. O Cebola, pelo que Mônica disse, é ótimo com ela, o que não passa pela minha cabeça! Nem se tratando do Toni, como você fala.” ela disse
"Tudo esquisito, mas vamos combinar que o exposed foi merecido." Gabriela comentou e a amiga riu.
"Claro! Eles têm que provar um pouco do próprio veneno! Talvez agora eles se toquem e se tornem pessoas melhores." a morena disse.
"Eu quero acreditar nisso. Mudando de assunto, por onde anda a Ramona? Ela nunca mais andou com a gente!" comentou olhando em volta.
"Ramona tem ficado direto com o Do Contra, mas no dormitório a gente conversa. Ela fala bastante sobre o levante, eles ‘tão na merda." respondeu.
"Você acha que ela e o Do Contra já se pegaram?" a loira perguntou e a amiga deu de ombros.
"Não sei, eles 'tão bem fissurados nesse levante, deve que nem pensam em outra coisa." a morena observou.
"E você? Tikara agora é seu pupilo de novo, 'tá difícil conciliar?" Gabriela perguntou subindo e descendo as sobrancelhas.
Milena respirou fundo enquanto cruzava as pernas.
"Conciliar o quê? Gosto muito do Tikara, mas ele some do nada! Me pergunto se ele realmente gosta de mim ou se só queria uma aventura." comentou desanimada.
"Não acha que ele pode se sentir ameaçado por estar ficando com a capitã do time?" a loira supôs e a amiga deu de ombros.
"Ele já sabia desde o começo! E se ele se sente assim, o que custa me falar? Sério, eu não sei se aguento mais uma desilusão!" Milena confessou.
"Calma, Milena, você mesma disse que ele te falou que você deixa ele desestabilizado, talvez seja isso ainda. Se olha no espelho, miga, os caras ficam nervosos perto de meninas bonitas." Gabriela e a amiga riu.
"Toni fica como perto de você?" perguntou e a loira revirou os olhos.
"Quer parar?! O Toni até que é bonitinho e um cara nem tão ruim assim, mas ficar com ele já é demais!" exclamou e a outra assentiu com um riso.
"Ah, 'tava esquecendo de te perguntar, você vai no rolê sábado, né? A capitã do vôlei precisa estar lá." perguntou e Gabriela fez uma careta.
"Ah, vou nada. Tenho que estudar! Tem simulado de exatas semana que vem e eu tenho que ir bem." respondeu e Milena a encarou.
"Gabi, eu também tenho que estudar, mas pode ser legal sair um pouquinho dessa rotina! Você pode se aproximar mais do seu time, você quase nem conversa com eles, só faz seu papel de capitã." a de cabelos compridos falou e a loira negou.
"Eu 'tô de boa! Não quero amizade com o time, acho que pode me atrapalhar em dar as ordens. E outra, o Cascão vai estar lá! Por mais que a gente esteja de boa, os meninos do time são uns idiotas que vão ficar zoando. E eu prefiro estudar!" exclamou e a amiga suspirou, era praticamente impossível tirá-la dos livros.
Por mais que Milena também focasse até demais nos estudos, queria tirar a limpo algo que a incomodava quando Tikara estava no mesmo lugar que ela e os meninos do time.
*
Atrás da quadra, perto do muro baixo, Magali havia se sentado no gramado enquanto olhava para o céu sentindo um cheiro de cigarro, um funcionário havia saído a pouco dali.
"Olha só quem 'tá aqui!" a voz de Cascão soou e ela sorriu.
"Oi, Cascão! 'Tava pensando na vida enquanto fugia do treino de vôlei. Nem sou do time, por que eu ainda treino?" a morena falou e ele riu.
"Tá ficando rebelde, hein?" comentou se sentando ao lado da moça que riu.
"Acho que é o contrário, você é o capitão e 'tá aqui fora." observou e o moreno assentiu.
"No meu caso a gente poderia chamar de vagabundice, mas a Milena 'tá treinando com as meninas agora, então ‘tá de boa." explicou.
"Então você aproveitou pra sentar no muro?" a moça perguntou.
"Nesse horário? Não! Daqui a pouco chega uns…" ele falava até dois inspetores aparecerem.
"O que estão fazendo aqui?" um deles perguntou sério.
"Nada, a gente só 'tava conversando. Mas já estamos de saída!" Cascão disse levantando e Magali o acompanhou.
"Essa menina do Carlito precisa abrir o olho, ele não aprovaria esse menino." o outro inspetor comentou e a moça os olhou, mas não disse nada e saiu com amigo.
Cascão olhou para a moça por alguns segundos e teve uma ideia.
"Magali, a galera dos times vai dar um rolê no sábado pra comemorar os times, seria legal você ir." convidou e a morena riu.
"Mas eu nem sou do time, lembra?" lembrou.
O rapaz sorriu.
"Relaxa, eu posso dar um perdido e ir pra rampa ou pro campo de futebol aqui perto. Nem vão perceber!" ele disse com um sorriso sugestivo, que Magali não captou.
"Não vão perceber que o capitão sumiu? Sei não, Cascão, pode dar errado pra você." ela respondeu ainda pensando na fala dos inspetores.
Cascão riu sem jeito.
"É… 'cê que sabe. Se quiser colar lá, vai ser legal. Tenho que voltar pro trabalho! Cuidado com a Gabi." falou piscando um olho e saindo em seguida.
Magali sorriu e pensou por alguns instantes se lembrando de um dia em especial quando Cascão indiretamente a chamou para sair. Ele havia falado sobre rampa de skate e futebol, e, agora, havia reiterado o convite. Com isso, a morena abriu a boca incrédula consigo mesma.
"Como eu sou burra! Ele 'tava me chamando pra sair!" reclamou dando um tapa na testa.
Segundos depois, ela olhou para a quadra, onde viu Cascão começar a correr.
“Será que eu aceito?” questionou-se mordendo o lábio inferior.
*
Na sala 144, Do Contra e mais dois rapazes observavam entediados Cebola jogar contra Ramona pela terceira vez, ela havia vencido todas e ele não aceitava.
“Xeque-mate.” ela falou com um bocejo.
“Revanche!” o rapaz exclamou e ela bufou se levantando.
“Ah, pra mim já deu! Você já perdeu três vezes e as três foi por desatenção!” a ruiva exclamou.
“Não foi, não! Eu sou um cara muito atento!” rebateu.
“Ser você é, mas não ultimamente! Faz mó tempão que você saiu do pódio! Tu não joga mais como antes, Cebola!” um dos rapazes disse.
“Vai ver até as jogadas eram de mentira.” o outro, que antes bajulava Cebola, zombou com um riso.
Cebola bufou.
“Eu só saí do pódio porque eu... porque eu...” falava sem saber como responder, muitas coisas vinham o distraindo.
“Porque você ‘tá distraído! E adivinha, Cebola, se você não focar, você não vai ganhar!” Do Contra comentou simples.
“Eu ‘tô em que posição?” ele perguntou para o outro rapaz que anotava a pontuação de Ramona.
O rapaz riu.
“Bom, aí depende, se pensar em todos os membros inscritos, você ‘tá na sexta posição de vinte e duas. Agora se levar em conta que só seis pessoas jogam... você ‘tá em último lugar. Xavier ‘tá em primeirão, Ramona foi pra segundo e Do Contra terceiro, novatos ‘tão mandando ver! Bora, cara, já ‘tá quase na hora do rango.” ele respondeu zombeteiro e saiu rindo com o colega.
Cebola bufou.
“Claro! Não foram expostos!” reclamou e os outros dois se entreolharam.
“Mas você ‘tá decaindo desde antes da exposição, Cebola.” Ramona comentou.
“E o que você tem a ver com isso?!” rebateu grosso.
“Eu por acaso menti? O exposed foi na segunda e você ‘tá perdendo partida há muito tempo!” ela retrucou estralando os dedos ao fim deixando Cebola surpreso enquanto Do Contra sorria orgulhoso, o xadrez aumentava a confiança de Ramona.
“Porque eu... eu... o grupo me influenciava e eu... eu...” falava sem uma resposta.
“Você... você... precisa parar de achar desculpas, Cebolácio! ‘Tá bom que você era só uma alma inocente naquele grupo malvado.” Do contra começou com a voz debochada.
“Mas aposto que muita coisa lá você fez porque quis! Quem sabe no dia que você parar de jogar toda culpa no resto do grupo e assumir que também foi culpado, seu foco volta? Vamos, Ramona, o perdedor arruma tudo.” concluiu e a ruiva levantou.
Cebola olhou boquiaberto para os dois que saíram calmamente. Por mais que soubesse disso, não queria ter ouvido de Do Contra.
“Denise, Cascão e Mônica eu até aceito, agora ficar com conselho de Do Contra na cabeça já é demais. Eu ‘tô ficando maluco!” exclamou apertando os olhos.
“Falando sozinho?” uma voz conhecida soou e ele olhou para a porta. Era Mônica escorada no batente de braços cruzados.
“Tá aí há muito tempo?” perguntou e ela negou.
“Não, passei pra falar com o Do Contra, mas ele anda rápido. Desde quando você fica aqui de quarta?” a moça perguntou e ele bufou.
“Desde quando eu não fui escalado pro time, ficar na quadra é humilhação. O que você queria com o Do Contra? Vai apoiar o levante?” Cebola respondeu com outras perguntas.
“Eu já apoio, mas vim falar sobre coisa do grupo de teatro com o grupo de música.” Mônica falou entrando e ele riu enquanto guardava as peças.
“Eu nem sabia que o grupo de música existia. Nunca ouvi nada por aí, soube que nem o lugar eles têm.” o rapaz comentou risonho.
“Nem todo mundo ganha privilégios através de mentiras, Cebolácio. Algumas pessoas preferem alcançar as coisas sendo quem elas realmente são.” a morena rebateu e ele parou de rir.
“Eu já pedi desculpas!” o veterano exclamou e ela deu de ombros.
“Tá, e tentou mudar?” perguntou e ele respirou fundo.
“O exposed foi na segunda e hoje é quarta! Como que eu ia mudar tão rápido?” questionou e logo tombou com a cabeça entendendo exatamente o motivo de Nikolas ter sido frio consigo.
Mônica sorriu abertamente.
“É isso! Você finalmente entendeu! Eu ‘tava falando com o Nikolas há pouco e ele me disse sobre você tentar ser amiguinho dele.” Revelou fazendo Cebola bufar.
“Na boa, o que esse cara tem demais? Você e Penha ficam atrás dele!” perguntou e ela deu de ombros.
“Ele era nosso monitor favorito! É claro que a gente iria se afeiçoar a ele!” a moça respondeu e Cebola desviou o olhar cruzando os braços.
“Favorito? Ele também canta na monitoria, por acaso?” perguntou e Mônica riu indo até ele.
“Você morre de ciúmes dele, né, Cebola?” a moça perguntou e ele riu.
“Ciúmes? Eu? Dele? Não me faz rir, Mônica! Eu só não entendo o que ele tem de tão especial assim!” Cebola falou e ela assentiu.
“Aham. Enfim, eu fico feliz que você esteja tentando agir diferente, mas vai com calma. Que isso?” aconselhou e fez uma pergunta ao ver o caderno onde ficava o ranking.
“Nada, isso não é nada!” ele exclamou indo pegar, mas ela já havia lido.
“Você ‘tá em sexto lugar? Uau!” falou o encarando e ele revirou os olhos.
“Parte disso é culpa sua.” Cebola falou e ela franziu o cenho.
“Você não sabe jogar xadrez e a culpa é minha?” Mônica questionou incrédula.
“Não, é que pra jogar xadrez, você precisa estar concentrado. E você me desconcentra!” exclamou e ela desviou o olhar.
“Como se eu nem fico aqui?” a moça perguntou e ele se aproximou.
“Fisicamente, não. Agora aqui...” falou apontando para a própria cabeça enquanto sorria.
Mônica mordeu o lábio inferior e teve que se segurar para não avançar nele, para beijá-lo, ali mesmo. Mas queria que ele se redimisse primeiro.
“A-Arruma sua sala aí.” a novata disse deixando a sala e Cebola riu.
“Ai, Mônica...” suspirou enquanto ajeitava as peças.
Não só o resto do dia como o resto da semana passaram depressa, logo já era manhã de sábado, um dia que podia ser tão entediante quanto os outros. Ou não.
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