Internato Limoeiro

25 Capítulo XXIV - Reflexão


Notas iniciais
Boa leitura ♥

O ônibus estava barulhento durante o trajeto de volta ao internato, os alunos pareciam animados. Uma música de pop internacional com uma batida de brega funk tocava alto enquanto alguns alunos do terceiro ano dançavam.

“Abaixa esse som, gente!” Rubens reclamou.

“Alá, ‘sor! Câmera lenta pra você aprender!” Cascão apontou para um rapaz que levava cada mão a uma parte da cintura enquanto balançava o corpo devagar, era como se sarrasse em câmera lenta.

“Sarraaaadaaa em slooow moootiooon.” Timóteo zombou falando devagar, como se estivesse em câmera lenta.

Rubens virou a cabeça para o lado aos risos. Marocas, que estava ao seu lado, também ria.

“Rubens, Rubens... não ia ser acampamento?” ela perguntou e ele bufou ainda com um sorriso.

“Flagrei alunos se beijando, imagina o que aconteceria à noite?” respondeu e ela riu.

“Interrompeu a pegação dos alunos? Eles vão te odiar. E outra, acha mesmo que nos outros anos isso nunca aconteceu?” a loira perguntou.

“É claro que já aconteceu, mas eles não foram pegos.” Rubens disse risonho e ela deu de ombros.

Em bancos da metade do ônibus, Mônica havia contado todo o ocorrido com Cebola à Magali.

“Sério que ele fez isso? Que cuzão!” xingou olhando na direção de Cebola, que tinha a touca do moletom cobrindo o rosto.

“É, mas esquece ele, não quero pensar mais nisso! Quer fazer alguma coisa hoje? ‘Tô a fim de esquecer esse dia de merda.” Mônica disse e a outra negou.

“Podemos ir lá pra casa jogar vídeo game ou assistir série.” a veterana sugeriu e a amiga fez uma careta.

“No território do Carlito? Não sei...” comentou e Magali negou com a cabeça enquanto ria.

“Ele sempre ‘tá ocupado com coisas do IL, relaxa.” alertou e a amiga deu de ombros.

“Tá, eu vou.” aceitou.

X

Em alguns bancos mais à frente, Tikara sentia ser observado. Quando olhou para trás, deu de cara com uma garota loira gordinha, que não fazia ideia de quem era, com um sorriso malicioso enquanto o encarava.

“Cara, aquela menina ali não para de me olhar, devo me preocupar?” o moreno perguntou a Xaveco, que estava ao seu lado.

O loiro olhou, sem discrição alguma, e logo encarou o amigo.

“Como assim você não conhece a Isadora, Tikara?! Ela que salvou o grupo de teatro e inspirou o Do Contra a começar o levante!” falou e o outro deu de ombros.

“Me desculpe se eu não sou do grupo de música igual a você pra saber disso. Mas isso não explica o motivo de ela ficar olhando.” falou e o amigo deu de ombros.

“Talvez ela esteja a fim de você. Ou porque ela é amiga da Milena, que pode ter explanado pras amigas que você deixou ela pra correr atrás de mim, ou seja, você já era.” Xaveco supôs e Tikara bufou.

“Pra sua informação, eu fiquei com a Milena hoje.” revelou e o amigo olhou surpreso.

“Sério? E nem falou nada! Ei, Nik! Nosso pequeno Tika já está virando um rapazinho.” o loiro zombou chamando o amigo, que estava no banco ao lado junto de Penha.

“Como ‘cê é idiota, Xavier...” o de cabelos lisos comentou com um riso.

“Por quê? O que aconteceu?” Nikolas perguntou.

“Ele ficou com a Milena.” Xavier respondeu e o dono dos dreads assentiu com um sorriso.

“Pô, aí sim! Deve estar feliz.” comentou e o outro assentiu.

“Óbvio, né, Nik! Mas uma amiga dela fica me olhando... será que eu beijo mal?” comentou.

“Sei lá! Olhando daqui, acho que você só tem pose.” Nikolas zombou.

“Depois dele mostrar que ‘tá com medo das amigas dela você ACHA, Nik? Eu tenho certeza!” Xaveco também zombou.

Tikara negou com a cabeça.

“O nome disso é inveja, meus senhores.” rebateu e logo os três ouviram a risada de Penha, que havia tirado os fones para ouvir a conversa.

“Vocês ‘tão aí zombando dele, mas nenhum dos dois têm contatinhos.” ela comentou.

“Eu não tenho mesmo, umas meninas do vôlei até vieram falar comigo, mas não quero nada com elas. E outra, quando pinta a chance de zoar esses dois, eu ‘tô zoando.” Xaveco falou.

“Quem disse que não tenho?” Nikolas respondeu e todos o encararam surpresos.

“Que contatinho que você tem? Você não fala com ninguém além da gente.” Tikara comentou.

“Na verdade, ele fala sim.” o cacheado comentou enquanto apontava para Penha com a cabeça.

Os dois novatos trocaram um sorriso malicioso.

“Agora entendi porque Penha anda com a gente.” o moreno comentou baixo, para Penha não ouvir, recebendo um olhar frio do amigo em resposta.

“Claro que eu converso com outras pessoas! Esqueceram que eu sou monitor?” Nikolas falou e Penha assentiu.

“Um ótimo monitor, mas e ai? Quem é o contatinho?” ela perguntou curiosa.

“Aposto que é aquela Hortalícia, ela te dá mole!” Xaveco comentou e Penha franziu o cenho confusa.

“Hortênsia, sua anta!” Tikara corrigiu risonho.

“Hortênsia me lembra horta, e horta tem hortaliça, me confundi! Desculpe por não ser perfeito, Tikara!” Xaveco falou fingindo drama fazendo os outros rirem.

“Hortênsia é nome de flor... mas não pode ser ela, você disse que ela não erra sua namorradinha.” Penha disse.

Nikolas riu.

“Não é ela, mas não vou falar quem é! Da última vez que eu disse, deu azar.” falou.

“A gente vai descobrir! E te zoar por isso.” Xaveco alertou simples e ele riu.

“Podem tentar.” respondeu despreocupado e Penha o olhou firme.

“Não vai me falar mesmo?” ela perguntou e ele desviou o olhar.

“Não. Trato todos meus amigos igualmente.” o rapaz respondeu e ela riu.

“Xavier, Tikarra, contem comigo parra descobrir e zoar o Nik depois.” ela falou e eles riram.

“Três contra um... que covardia.” Nik balbuciou negando com a cabeça.

*

O trajeto durou apenas quinze minutos, mas, para os responsáveis, parecia ter durado horas. Assim que desceram do ônibus, alguns pais já esperavam no internato, haviam sido avisados do cancelamento do acampamento.

Do Contra não tinha a intenção de ir para casa, mas ver seu pai ali o esperando o deixou sem muitas escolhas. Assim que chegaram em casa, após um silencioso percurso, o pai enfim se pronunciou.

“Maurício, fui alertado sobre um tal de levante pelo grupo de música. O que seria isso?” perguntou sério.

“Lembra quando chamei uns amigos pra ensaiar aqui? Foi uma ação do levante. Queremos trazer de volta o direito à música.” o rapaz respondeu e o pai suspirou.

“Por que você se envolve nessas coisas?” perguntou.

“Por que eu não me envolveria?” o filho rebateu.

“Devia ser mais como seu irmão! Um homem sério que nos enche de orgulho!” o pai falou e Nimbus bufou.

“Me deixa fora desse papo aí. Eu não vejo problema no levante, não ‘tá ferindo ninguém.” o primogênito comentou.

“Fere a gente! O diretor disse que esse movimento não tem futuro nenhum.” a mãe se pronunciou.

“O diretor aceitou! Por uma situação conveniente pra ele, mas aceitou. Não se preocupem com o levante, não vai respingar na carreira perfeita de ninguém.” Do Contra disse.

Os pais se entreolharam entediados.

“Olha, Maurício, estamos preocupados com você.” a mãe falou e ele olhou sem entender.

“Preocupados com o quê?” perguntou.

“Esse seu jeito diferentão pode te trazer problemas. Meu filho, você ‘tá batendo de frente com um diretor!” o pai falou.

“Do jeito que vocês falam parece até que eu ‘tô ameaçando o homem. Eu converso com ele de forma pacífica e pretendo continuar, principalmente pelos meus colegas. Se me dão licença, eu cansei dessa conversa.” o mais novo disse e logo foi para seu quarto.

Do Contra deitou em sua cama e não demorou para Nimbus aparecer no cômodo.

“DC! Você falou lá que preza pelos seus colegas, mas nunca me disse que o Xavier ainda sofria nas mãos do Toni!” começou zangado.

“Nimbus...” falava e o irmão continuou.

“Tá bom que você não é tudo isso, mas o Jeremias, por exemplo, além de forte não tem medo do Toni e mesmo assim não fez nada! Cara, eu ‘tô muito puto!” falou e o caçula bufou.

“Ei! Antes de destilar seu ódio, tem algumas coisinhas que você precisa saber: 1- Nem eu, nem Jeremias ficamos 24 horas por dia em cima do Xavier, o Toni pode aparecer a qualquer momento! 2 — Nós dois já tentamos sim ajudar ele, mas o próprio não quer tanto assim que a gente se meta na vida dele. E 3 — Você ‘tá subestimando o cara.” falou e Nimbus arregalou os olhos.

“Subestimando?” perguntou.

“É! Eu sei que você gosta dele, mas eu percebi que o Toni parece estar deixando ele em paz, e posso te garantir que nem eu e nem o Jeremias temos alguma coisa a ver com isso. Você pode ajudar o cara, mas confia na força que ele tem, sendo física ou não.” falou com a voz mais baixa e o outro deu de ombros.

“É que ele é tão... sei lá, eu não quero que ele sofra nas mãos daquele babaca, na de ninguém na verdade.” falou e o outro sorriu malicioso.

“Mano, quando você vai falar pra ele como se sente? Eu já banquei o cupido uma vez, e você não fez nada!” Do Contra disse e o irmão respirou fundo.

“Eu não sei nem se o cara é gay, Do Contra. E mesmo que ele seja, o colega de quarto dele é um cuzão, não quero trazer mais problemas do que ele já tem. E as pessoas também não sabem sobre mim.” respondeu e o outro riu pegando seu celular e conectando fones de ouvido.

“Bom, eu não sou um expert em nada, mas já percebi algumas particularidades dos meus colegas de quarto.” Do Contra comentou e o outro franziu o cenho.

“O que isso quer dizer?” perguntou e o mais novo colocou os fones.

“Nada, Nimbus, não quer dizer nada.” respondeu risonho enquanto ligava uma música.

O mais velho bufou.

“Eu te odeio.” falou antes de sair do quarto.

*

Um pouco longe dali, Cebola estava deitado em sua cama fitando o teto com o pensamento longe. Por um lado, nunca quis tanto que Toni não tivesse aparecido naquela hora, mas, por outro, se ele não tivesse aparecido, nunca teria percebido o quanto estava sendo um idiota.

“Eu realmente rejeitei uma garota incrível por causa do que um cara, que nem é meu amigo de verdade, iria falar...” balbuciou negando com a cabeça.

Como se sua mente quisesse o torturar, lembranças de alertas voltavam a todo vapor.

“Fica aí pensando que sua popularidade vai te fazer feliz e quebre a cara! Mas não vai ser por falta de aviso!” era uma fala de Cascão.

“Acho que o Cebola de fora do IL é muito mais legal. Mas seria ainda melhor se ele pudesse ser quem ele quer ser, e não quem os pais ou os ‘fãs’ querem.” aquela era de Mônica.

“É muito idiota andar com quem não te interessa só pra ser popular!” outra fala da moça.

Com a última lembrança Cebola riu de desgosto e pegou seu celular a fim de esquecer disso, mas deu de cara com seu grupo. Nenhuma mensagem, nenhum convite para curtir o resto do sábado, nada. Essa ausência de qualquer coisa fez com que Cebola sentisse um vazio.

“Eu não pertenço àquele grupo. Ninguém pertence!” exclamou para si mesmo enquanto mudava de conversa e decidiu mandar um áudio.

“E ai, Cascão! Sei que faz um tempo já, mas... ér... você ‘tá no IL hoje? Se não tiver topa dar um rolê?” enviou e, no mesmo instante, a mensagem foi visualizada e em alguns segundos recebeu uma resposta.

“Eu ‘tô no IL. Se quiser colar aqui, eu sento no muro.” respondeu com outro áudio. Cebola apenas bloqueou o celular e saiu rapidamente.

X

Assim que chegou no internato, de fato Cascão estava sentado no muro.

“Sobe aí!” chamou e o outro olhou para o muro.

“Hum...” balbuciou e Cascão riu pulando do muro e pousando no chão tranquilamente.

“Você é maluco? Se os inspetores te pegam aqui fora, ‘cê tá ferrado!” Cebola exclamou e o outro deu de ombros.

“Relaxa, eu conheço os esquemas. E ai? O que você quer? Pensei que não quisesse mais falar comigo.” falou se sentando no chão e se encostando no muro.

Cebola se juntou a ele, mas não o encarou.

“Eu... ér... foi mal.” falou e o outro assentiu.

“Pelo quê?” Cascão perguntou.

“Ah, ‘cê sabe! Aquele lance lá.” o outro disse ainda sem olhá-lo.

“Que lance, Cebola?” perguntou e o outro bufou, enfim o olhando.

“Minha treta com você por causa do time! Você ‘tava certo em não me escalar, eu também não me escalaria se tivesse a mesma consciência que você!” revelou e o outro riu.

“Eu tinha entendido, mas queria ouvir. Só não entendi esse papo de consciência.” Cascão disse e Cebola levantou um joelho e esticou a outra perna.

“Você não faz o que querem que você faça, você vai lá e faz o que acha certo. Tudo que eu faço é pensando na minha popularidade, mas... não sei se vale a pena!” exclamou sincero e Cascão riu.

“Tá, o que fez você chegar a essa conclusão? Um tempo no mato que não foi.” falou e Cebola bufou.

“Toni me viu com a Mônica e eu disse que não era nada. Eu magoei a mina que eu gosto, Cascão! E tudo a troco de quê? Da minha popularidade! Eu sou um idiota!” exclamou.

Cascão assentiu.

“Que bom que você sabe.” falou e o amigo o encarou.

“Sério isso?” questionou e Cascão bufou.

“Você quer que eu fale o que, Cebola? Que não é? Você mesmo já percebeu.” concluiu.

“Bom, eu queria ouvir alguma coisa positiva.” Cebola disse.

“Talvez esse seja seu problema, você faz merda e acha que não vai ferrar pra você. ‘Tá bom que popular não se ferra, mas nem todo mundo te trata com essa exclusividade, né?” o outro falou.

“Mônica não me trata com essa exclusividade e me disse a mesma coisa.” Cebola revelou e o outro riu.

“Por isso que eu gosto dela!” Cascão comentou.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.

“Eu não sei o que fazer, Cascão. Eu não quero perder os privilégios que a popularidade traz, mas, ao mesmo tempo, não quero perder o respeito da Mônica! Ela é... especial pra mim.” Cebola confessou e o outro assentiu.

“Quais são esses privilégios, afinal?” questionou.

“Muitos! Se eu fizer um trote, eu não sou pego; a escola inteira me ama e respeita; tudo que eu quero, eu consigo em um estralar de dedos...” falava até Cascão interromper.

“E adivinha, Cebolácio! Você não ‘tá feliz com isso! Você precisa fazer uma escolha, irmão!” exclamou.

“Pra você é fácil falar, suas escolhas são fáceis!” Cebola disse e o outro riu.

“Jura? Vamos pensar no time! Acha que foi fácil não escolher meu amigo? Acha que foi fácil encarar uma quadra inteira de gente me xingando pelas minhas escolhas? Acha que é fácil carregar nas costas o peso das expectativas de todo mundo? Não é, Cebola! Mas eu escolhi esse caminho, então tenho que lidar com as consequências dele!” começou ficando de pé e o outro fez o mesmo.

“Eu não me arrependo de ter te tirado do time, cara. E ‘tô do lado da Mônica por tentar te fazer enxergar além dessa sua realidade de menino popular que nada de ruim acontece. Você sabe quais são suas opções, então vai fundo.” concluiu se afastando e olhou para os lados antes de pular no muro e se sentar nele.

“Mas o que eu faço exatamente?” Cebola perguntou.

“O que achar certo.” o outro respondeu voltando para dentro do internato.

Cebola suspirou, Cascão pareceu lhe deixar ainda mais confuso.

*

Não tão longe dali, Magali e Mônica estavam na sala assistindo série enquanto falavam sobre as aulas e comiam pipocas.

“Eu não sei como ‘tô aguentando! Aquela rotina é péssima! Me pergunto onde você vai achar tempo pra mexer com o grupo de música, Magali.” Mônica comentou.

“Pra ser sincera, eu também não sei! Acho que vamos jogar um monte de coisa pra Ramona, Jerê e Xaveco. Não por preguiça, e sim porque eu faço estudo avançado e o Do Contra faz um milhão de coisas, mas ainda temos que ver isso.” a outra respondeu.

“Ih, miga, acho que Jeremias também não tem tanto tempo livre. Ele mexe com o roteiro da peça da Isa, que é exigente pra caramba! Tanto que ela fez ele e a Denise se unirem!” comentou e Magali riu.

“E acho que funcionou, porque eu vi hoje os dois de braços dados e direto eles ‘tão juntos. Será que eles se pegam?” perguntou.

“Jeremias merece coisa melhor, Magali. Aquela Denise é que nem a Penha: gente que não presta!” a de cabelos curtos comentou.

“Mas a Penha parou de te encher e a Denise ajudou a gente com a apresentação.” Magali lembrou.

Mônica deu de ombros.

“É... A Denise deve ser por influência da Sofia, e a Penha parece mais ocupada ultimamente, assumo. Mas, voltando ao assunto, Isadora não pega leve, então não sei se ela vai deixar o Jeremias de boa.” falou.

“Não sei também, mas ela é favorável ao grupo de música.” Magali revelou.

“Como vai funcionar? Acho que nunca ficou muito claro.” a novata perguntou e a amiga riu.

“Acredita que eu também não sei? Ainda não conseguimos um professor de música e só temos nossos próprios instrumentos.” respondeu.

“O diretor ‘tá oferecendo um salário tão baixo assim pra esse professor?” Mônica perguntou.

“Nem ‘tá oferecendo! Ele jogou tudo nas nossas costas e eu não conheço ninguém que toparia dar aula de música de graça. Sabe, Mônica, isso faz eu pensar se o levante realmente ‘tá valendo a pena.” Magali confessou.

“Não desiste, Magali! Se fosse fácil não seria uma luta, né? E você não ‘tá sozinha, mais da metade da escola é favorável e uma parte vocês já conseguiram que foi a autorização do nosso amado diretor.” a outra falou e a amiga riu.

“E você? Como ‘tá indo a peça?” perguntou, quase nunca falavam sobre esses assuntos.

“Os roteiros ‘tão melhores, a amizade entre Jeremias, Sofia e Denise é muito positiva pra eles, fora que Isadora é exigente, mas faz um ótimo trabalho. Mas ainda acho que foi vacilo ela colocar Gabriela e Toni pra serem amigos! O Toni é um merdinha, assim como qualquer pessoa daquele grupo.” a outra respondeu e Magali a encarou.

“Quer falar sobre isso? Sobre o outro merdinha do grupo?” perguntou e Mônica deu de ombros.

“Não, não vale a pena. Mas e você e nosso querido.... mascote do dormitório! Meu coelhinho de pelúcia! Você perdeu o medo dele?” falava até mudar de foco ao olhar para fora um ponto específico atrás de Magali.

Magali franziu o cenho e olhou para trás, seu pai passava pelo corredor com um celular em mãos.

“Ah... sim! Era só o aspecto macabro dele que me assustava.” improvisou e a amiga riu.

“Coelhinho macabro, Magali?” questionou e a outra deu de ombros.

“Isso não pode ficar assim, Marocas! Esses jovens precisam de limites! Onde já se viu usar um passeio escolar pra ficar de beijinhos?” a voz de Carlito soou alta.

“Imagina se ele descobre quem era que ‘tava de beijinho.” Mônica comentou e Magali riu.

“Para! Se ele ouve, eu ‘tô ferrada! E o Cas também.” sussurrou.

“Cas?” Mônica repetiu maliciosa recebendo um dedo médio em resposta.

“Boba!” xingou e a amiga riu.

De súbito, Carlito apareceu na sala.

“Olá, Mônica.” cumprimentou.

“Senhor Carlito!” respondeu.

“Vocês duas, por acaso, sabem quem ficou de beijinhos no passeio de vocês?” ele perguntou.

“Não, não vimos. Nosso foco era a explicação do professor Rubens.” Magali respondeu enquanto Mônica olhava no celular para não rir.

“Certo. Se souberem, me avisem. Isso não pode ficar assim.” ele pediu e saiu.

Magali se virou para Mônica, que segurava o riso.

“Nem vem com essa, você também ‘tá na jogada!” falou e a outra soltou um riso.

“Tô nada, ninguém me viu!” respondeu.

“O que será que ele faz se descobrir?” perguntou.

“Talvez uma advertência, mas vamos voltar a jogar? Essa série ‘tá meio chatinha e eu ‘tava ganhando de você!” falou e Magali aceitou.

*

O dia foi passando devagar. Quando o começo da noite chegou, Jeremias jogava bola com Titi e outros rapazes quando um inspetor foi até ele com uma bolsa de violão.

“Jeremias, seus avós mandaram esse violão. Você tem autorização pra ter ele aqui no internato, mas não espere que a gente fique de olho.” entregou e saiu.

“Legal! ‘Tava com saudades dele!” exclamou se sentando para abrir o zíper.

“Vai pegar um monte de mina com esse violão!” um dos colegas comentou.

“Ainda tem vaga no grupo de música? Quero pegar mulher também!” um outro falou.

“Quer entrar no grupo de música pra pegar mulher? Não aceitamos gados!” Jeremias falou e os demais riram alto.

“Jeremias, acabei de ter uma ideia aqui! Não rolou o acampamento, mas a gente pode fazer uma fogueira improvisada e tu fica tocando violão em volta. Denise ‘tá aqui no IL hoje, ela pode convencer os inspetores, e a gente pede umas velas pras tias da cozinha pra improvisar uma fogueira.” Timóteo sugeriu animado.

“Que romântico! ‘Tá tentando impressionar quem?” o outro perguntou.

“Uma mina do primeiro. Quebra essa pro parça aqui! E você também sai no lucro.” respondeu e Jeremias deu de ombros.

“Tá bom.” topou.

“Beleza! Fala com a Denise que eu cuido do resto.” Titi falou batendo uma palma.

“Por que você não fala com ela? A ideia foi sua.” o amigo questionou.

“Porque vocês dois que ‘tão de rolo!” respondeu e Jeremias levantou a sobrancelha.

“Acha que ninguém viu vocês de braços dados hoje cedo?” um outro perguntou.

“Era na base da amizade! Também fiz o mesmo com a Sofia.” Jeremias lembrou.

“Na boa, Jerê, por que você anda com a Sofia? Com a Denise é ok, a mina é gata. Mas a Sofia... queima teu filme!” um deles falou.

Jeremias olhou feio.

“Titi, segura meu violão.” falou e ficou de pé perto do rapaz de braços cruzados.

“O que tu disse da Sofia, moleque? Repete!” falou sério e outro que engoliu em seco.

“Não, irmão, relaxa! N-não foi nesse sentido, não, mano. É no sentido de que ela... é bravona, sabe, amigão?” falou amedrontado.

“Acha que eu sou idiota? Você ‘tá chamando minha amiga de feia! A Sofia não é feia! E outra, se eu ouvir alguém falando mal dela mais uma vez...” falava e o garoto assentiu.

“Não, cara, era brinks! Eu vou... eu vou lá.” falou e saiu rapidamente.

“Calma, Jeremias. Sabe como são esses novatos. Tirando você, é claro. Agora vai lá falar com a Denise!” Titi falou e o outro respirou fundo enquanto saía de lá.

X

Denise havia ficado para mexer com seus roteiros e estudar um pouco mais, além de que achava que Sofia não estava muito bem. A ruiva estava há horas na biblioteca quando Jeremias apareceu.

“Oi, Denise!” ele cumprimentou.

“Incrível como fiquei aqui o dia todo e não te vi. Vem dar uma olhada no roteiro que fiz pro Toni e vê se ainda ‘tá soando muito cuzão.” comentou e ele riu.

“Mas não é isso que ele é?” perguntou se aproximando.

“Pra ser sincera, eu não sei. Jerê, sabe da Sofia? Ela sumiu hoje o dia todo!” ela disse.

“Não vi, fiquei mexendo com umas tarefas também.” o rapaz respondeu lendo o roteiro.

“Ela ‘tava tão tristinha no passeio...” Denise comentou.

“O roteiro ‘tá bom. E acho que a ideia que o Titi deu pode animar a Sofia.” falou e ela olhou sem entender.

“Ideia do Titi? Aposto que envolve pegação.” comentou e ele deu de ombros.

“Aí eu já não sei. É que meu violão chegou e o Titi sugeriu um tipo de ‘noite na fogueira’, você que é influente poderia falar com uns funcionários pra toparem, ele disse que arruma umas velas pra parecer uma fogueira e eu toco.” explicou e ela riu.

“Tá bom. Eu falo com eles.” aceitou.

“Beleza, tenho que ir falar com o resto.” falou.

“Vou com você!” ela disse fechando seus cadernos e o acompanhou.

*

Não fora difícil para Denise convencer os funcionários, mas, naquela vez em especial, surgiu um pedido inusitado: eles queriam que fossem tocadas as músicas que eles gostavam. Os jovens, como não tinham nada a perder, aceitaram.

A noite caiu rápida e fria, os poucos adolescentes que ficaram no internato se reuniram com seus cobertores e se sentaram na área verde; lá, as cozinheiras colocaram uma bacia com um pouco de água e várias velas juntas formando uma “fogueira”. Junto dos alunos, estavam os poucos funcionários que ficavam lá e estavam bem animados com uma pequena diversão.

A música em questão era “Evidências”, de Chitãozinho e Xororó, e todos pareciam conhecer, tanto que nem era possível ouvir a voz de Jeremias cantando, apenas o som do violão. Denise tinha um sorrisinho nos lábios enquanto observava o amigo, Sofia, que enfim apareceu, não perdeu tempo ao reparar.

“Você sorri tão bonitinho olhando pra ele.” comentou e a ruiva deu de ombros ajeitando o cobertor.

“Nada a ver! O que ‘tá rolando, Sofia? Você não ‘tava legal hoje!” Denise perguntou e a amiga revirou os olhos.

“Nada, Denise! Esquece isso!” falou deixando o local e Denise abandonou seu cobertor e a seguiu.

“Sofia! Eu quero te ajudar, mas preciso que você colabore comigo!” exclamou e a outra se sentou em um dos bancos do refeitório vazio e abaixou a cabeça, estava cansada.

“Hoje cedo eu ouvi alguém falando que eu era um dragão. Não é a primeira vez, mas isso... dói! Eu sempre sou a gorda, a feia, o escudo, aquela que alguém só se aproxima pra chegar em outra pessoa... E quando eu finalmente consigo me sentir bem com as duas pessoas que eu mais amo neste internato, eu sinto que eu devia me afastar de vocês, porque não quero que a minha feiura ofusque a beleza de vocês.” Sofia desabafou com lágrimas nos olhos.

Denise ficou alguns segundos atônita.

“Sofia... você é maravilhosa, tanto por fora quanto por dentro! Essas pessoas que te xingam são amargas, ridículas e muito infelizes! Ser gorda não é um defeito, e não deixe que as palavras deles façam você esquecer da sua beleza, amiga! Você não é feia! E Jeremias e eu não poderíamos estar mais felizes por sermos seus amigos!” ela começou e a outra suspirou.

“Pra você é fácil falar, Denise! Nunca te chamaram de feia! Você nunca foi vista só como um escudo ou uma ponte pra chegar em alguém!” exclamou e a ruiva fechou a boca, não sabia o que falar, então decidiu seguir seu coração.

“Tem razão, nunca me disseram isso. Mas, Sofia, você é uma pessoa poderosa! Menina, olha pra tudo que você fez em favor da sua felicidade! Você saiu do grupo, enfrentou péssimos olhares, péssimas palavras e tudo mais porque você sabe que merece coisa muito melhor do que o que um bando de idiota do internato acha!” começou.

“Se eles querem ficar presos a um padrão de beleza feminina e fecham os olhos pra pessoa doce, compreensiva e maravilhosa que você é... minha amiga, você ‘tá se livrando de pessoas que não te merecem!” continuou.

“Sofia... você pode até não enxergar o quanto é incrível, mas saiba que você é! E não deixe que te façam pensar o contrário! Promete que vai pelo menos pensar sobre isso?” falou estendendo o mindinho ao fim.

Sofia esboçou um sorriso em meio suas lágrimas e juntou seu dedinho ao dela.

“Prometo! Obrigada, Dê!” agradeceu e a ruiva a abraçou forte.

“A carência bateu de repente?” a voz de Jeremias soou, ele não havia ouvido nada.

“Vem cá, rapaz. Junte-se a nós!” Denise chamou e ele se juntou ao abraço.

“Não sei porque estou abraçando vocês, mas ‘tá gostoso.” o rapaz comentou.

“Três gostosos reunidos, não podia ser diferente.” Denise falou com um riso.

Sofia riu alegre, por mais que soubesse que tudo não iria mudar da noite pro dia, tinha em mente que ter aqueles dois ao seu lado já era um grande começo.

*

Enquanto isso, sentado em um banco afastado, Toni encarava o céu. Havia decidido ficar no internato, e seu pai, como o rapaz já ia ficar fora o fim de semana, não se importou. O pensamento do loiro estava distante por conta do ocorrido mais cedo, estava tão aéreo que não percebeu alguém se sentando ao seu lado.

“Estou surpresa em te ver aqui e não dando em cima de alguma menina apaixonada pela música romântica que ‘tão tocando.” ela disse e ele olhou. Era Gabriela.

“Não ‘tô muito a fim hoje.” falou e ela assentiu.

“É por causa de mais cedo? É normal se perder da trilha.” ela disse e ele suspirou.

“Não é por isso. É que hoje eu descobri que sou um zero à esquerda pras pessoas daqui.” explicou.

“Descobriu só hoje?” perguntou e ele bufou.

“Não dá pra falar com você!” comentou já levantando e ela o puxou para se sentar novamente.

“Toni, qual é? Você nunca deu a mínima pra ninguém e sempre tratou todo mundo feito lixo, queria que as pessoas te amassem? Para, né?” falou sincera.

“Não, mas... o Xavier...” o loiro falou sem concluir.

“O que ele tem a ver com isso?” ela perguntou.

“O cara deixa todo mundo tratar ele feito lixo, não sabe bater, tem conversas profundas até demais...” enumerava e ela deu de ombros.

“E?” perguntou.

“E eu era exatamente assim! E sofri bullying por isso!” desabafou alto e ela olhou surpresa.

Toni colocou os cabelos para trás.

“Quando eu cresci, coloquei na cabeça que ninguém nunca mais iria fazer isso comigo! Então ver gente demonstrando fraqueza e nunca reagir... me incomoda!” exclamou.

Gabriela ficou em silêncio.

“E também me emputece que a única pessoa que lembrou de mim foi aquela que conversa comigo por obrigação. Logo eu, que sempre dizem me amar. Isso é... frustrante!” concluiu.

A loira suspirou.

“Olha, sobre isso de todos te amarem... seja sincero com você pelo menos uma vez na vida, Toni, no fundo você sabia que eles não gostam de verdade de você, e sim da sua popularidade. Isso vale pro seu grupinho todo.” falou e o rapaz deu de ombros.

“Sei lá, talvez eu tenha me negado a acreditar nisso. Talvez até demais.” confessou e ela assentiu.

“Agora sobre o Xavier... você percebe que ‘tá fazendo com ele o que fizeram com você? Você sabe como uma pessoa que sofre bullying se sente, você realmente quer que outra pessoa se sinta assim?” a moça perguntou e ele bufou, mas não disse nada.

“Acho que o Xavier só encontrou um caminho diferente do seu. Você chama ele de fraco por não ter a mesma massa muscular que você, mas pelo visto, você sabe que de fraco ele não tem nada.” ela disse e o rapaz fitou o céu, estava com algumas estrelas.

“Talvez seja exatamente isso que me incomoda. Como a vida é engraçada, é tropeço atrás de tropeço, puta que pariu.” ele reclamou com um riso.

Gabriela o observou por alguns segundos.

“Toni, você não é um cara mau. Só alguém meio... confuso, sei lá. Eu não passo pano pra nenhuma merda que você fez, mas se você estiver disposto a realmente melhorar como pessoa, vai ser um prazer te apoiar.” falou e ele a encarou.

A moça não o olhava com pena e muito menos com falsidade, ela parecia realmente querer ajudá-lo. Aquilo fez crescer um sentimento bom em seu peito, tanto que sorriu, verdadeiramente.

“E você não parece ser alguém que só se interessa pelos estudos. Mas ainda precisa se divertir mais.” mudou o foco, estava ficando desconfortável.

A moça riu e estendeu a mão.

“Eu te apoio no seu processo de se tornar uma pessoa melhor e você me ajuda a me divertir mais? Fechou?” ela sugeriu e ele riu.

“Fechou! Ah, e o que a gente falou aqui...” deu um toque na mão dela e já fazia um pedido quando ela levantou.

“Não se preocupe, eu sei que vocês populares são bem medrosos. Espero que leve a sério o combinado, não quero perder meu tempo.” ela provocou e saiu em seguida.

Toni riu e continuou sentado, não sabia se havia ou não tomado a decisão correta, só que sentiu um breve orgulho de si mesmo e um certo alívio.