Internato Limoeiro
13 Capítulo XII - Jornal
Notas iniciais
Os domingos sempre cediam lugar para a segunda-feira de um jeito rápido. Toni levantou em um pulo de sua cama e sorriu para Do Contra, que terminava de ajeitar seu topete.
"Fala aí, Do Contra!" falou animado.
Do Contra parou o que fazia para encará-lo.
"Por que 'tá tão feliz?" perguntou.
"Sei lá, algo me diz que hoje vai ser um dia muito divertido. Por onde anda o Sonic? Ou ex-Sonic, sei lá." o loiro perguntou.
"Lamento, não conheço nenhum Sonic." o outro respondeu e Toni negou com a cabeça.
"Sua chatice não vai me desanimar hoje, Do Contra." comentou e o outro estranhou.
"Por que esse interesse repentino pelo Jeremias? O foco de suas zoações não era o Xaveco?" o moreno perguntou, fazendo Toni rir.
"Você além de estranho é curioso? Eu não posso querer saber do meu colega de quarto?" ele perguntou.
"Não é de hoje que te conheço, você só se interessa por aquele seu grupo." o outro respondeu.
"E por garotas bonitas, não se esqueça. Enfim, tenha um bom dia." o loiro completou e deixou o quarto.
Do contra franziu o cenho.
"Acho que Xaveco não é o único que precisa ficar esperto por aqui…" comentou enquanto terminava de ajeitar seu cabelo.
*
Enquanto isso, no refeitório, Nikolas alternava entre seu copo de café e um documento que escrevia apressado.
"O que você 'tá fazendo, Nik?" Xaveco perguntou enquanto o observava.
"Eu simplesmente esqueci de fazer o relatório de reforço da… da menina do primeiro ano. E tenho que entregar hoje pra professora." respondeu.
"Reforço? Mas isso não foi na semana passada?" o loiro perguntou.
O dono dos dreads ia responder que havia sido no sábado quando se lembrou que não podia.
"Sim, eu esqueci! E a Ana Paula vai comer meu rim se eu não entregar." respondeu.
Xaveco assentiu e levou seu olhar até Tikara, que olhava seriamente em um ponto fixo. O loiro olhou na mesma direção e riu ao ver que ele encarava Milena, que estava com outros jogadores.
"Que cara é essa? Sendo ignorado pela pitanguinha?" o cacheado perguntou com um riso.
"Hã? Ah, não. É aquele cara ali, Felipe o nome. Ele me disse pra manter distância dela, acredita?" Tikara respondeu apontando com o queixo.
"E você vai?" o outro perguntou.
"Claro que não, né, Xaveco?! Tenho medo de homem nenhum, não!" o moreno respondeu.
Xaveco cruzou os braços.
"Então não devia estar lá puxando papo com ela? Você fala que é um cara de atitude, mas eu nunca vi você chegando nela." falou sincero e Nik riu.
"Toma!" o veterano disse sem tirar os olhos do documento.
Tikara riu.
"Não é assim também, né? Tenho que ser cauteloso, ela foge de esquemas pelo visto. Mas, Nik, você não pode rir! Tem a chance de xavecar a Mônica e nada!" explicou apontando para Nikolas ao fim.
"Eu nunca disse que era um cara de atitude que nem você, sou até tímido." o veteranos se defendeu.
"O caralho que tu é tímido, Nikolas! Você que puxou conversa comigo e é monitor! Nem vem com essa!" Xaveco lembrou e os amigos riram.
Tikara estralou os dedos.
"Ah, amigão, o que rolou entre você e uma tal de Carmem, amiga da Denise?" perguntou a Nikolas, que engasgou com seu café.
"Tikara… como você sabe que eu e Carmem nos conhecemos?" ele perguntou ainda tossindo um pouco.
"Ela 'tava lá em casa no sábado e ouvi uma conversa delas. O assunto chegou em você e fiquei curioso. Ela comentou que lamenta pelo que fez com você." o outro respondeu.
Nikolas suspirou.
"Eu conto depois, tenho que terminar isso e daqui a pouco começa a aula." falou.
"Ele vai enrolar a gente! Vamos cobrar porque eu também fiquei curioso." Xaveco disse e o outro assentiu e tentou voltar ao relatório enquanto os amigos mudavam de assunto.
*
Já na sala de aula, Denise estava escorada em sua mesa enquanto falava com um dos redatores do jornal.
"Não terminaram de escrever todas as matérias de hoje? Não aconteceu tanta coisa assim." Denise comentou.
"Ah, as meninas do terceiro disseram que ainda 'tavam escrevendo sobre o trote. Mas até a hora do almoço elas terminam." o rapaz respondeu.
"Tá, olha, eu tenho umas coisas pra fazer, então vou confiar no conteúdo de vocês e deixo a distribuição por conta de vocês também." ela disse e o rapaz assentiu deixando a sala em seguida.
A ruiva se sentou e logo viu seu grupo entrando junto de vários bajuladores.
"Idiotas…" comentou enquanto negava com a cabeça.
Eles foram até o fundo da sala, onde todos se sentavam, e Toni era o mais animado de todos.
"Denise! Ouvi dizer que hoje o jornal vai estar ótimo!" ele falou.
"Não sei, eu só escrevi duas matérias e não revisei nada de ninguém. Cebola e Penha, eu fiz a matéria como vocês pediram, então se preparem que no almoço vai vir uma chuva de gente querendo consolar vocês." a ruiva respondeu.
"Valeu, Dê!" o rapaz agradeceu.
"E sobre a Sofia?" Penha perguntou.
Denise deu de ombros.
"Só escrevi o básico: que ela saiu do grupo por ter novas opiniões que não cabiam no grupo." respondeu.
A sala ia enchendo e várias pessoas iam até o fundo da sala falar com o grupo, era notável a intenção de cada um deles. Sofia, assim que entrou na sala, suspirou e olhou em volta antes de colocar suas coisas em uma carteira vazia que ficava bem longe do antigo grupo.
"Alá, agora 'tá sozinha!" uma pessoa cochichou.
"Foi a escolha dela, agora aguenta! Eu vou lá sentar perto deles!" uma garota disse se levantando, mas outros levantaram também e quase houve uma briga pelo lugar.
"Que coisa ridícula…" Xaveco comentou com os amigos que concordaram.
"Tem gente que gosta de se humilhar mesmo, olha aquilo…" Gabriela comentou com Milena que assentiu.
Assim que o professor entrou, ordenou que os jovens se sentassem.
"Bom dia, alunos. Tenho dois recados da direção! O primeiro é sobre os estudos avançados: para aqueles que ainda desejam fazer, hoje é o último dia de inscrição, para isso, procure à coordenação." começou.
"O segundo é que esta semana começam as avaliações semanais, então, se organizem da melhor forma." ele disse e Mônica levantou a mão.
"Professor, o que seriam essas avaliações semanais?" perguntou.
"O nome não diz nada?" Penha zombou e surgiram alguns risos que Mônica ignorou.
"Todas as terças e sextas vocês terão simulados sobre alguma área do conhecimento nos dois últimos horários das aulas da tarde. Os conteúdos serão apenas aqueles já vistos em sala e vistos em anos anteriores. Desta semana será de biológicas." o professor explicou.
"Além daqueles testes de vestibulares, tem mais isso?!" Mônica questionou.
"Aqueles são quinzenais." ele lembrou.
"Mas por que quer tanto testar a gente?" a novata perguntou.
"Mônica, diferente da sua escola anterior, aqui prezamos pelo aprendizado em seu mais alto nível. Mais alguma pergunta? Ótimo! Agora vamos para a aula. Apostila página 34." o professor explicou e nem esperou a moça responder para se virar para a lousa.
*
Após as aulas cansativas, o almoço chegou como um alívio. Em uma mesa afastada, estavam Do Contra e Ramona junto de pessoas que não faziam ideia de quem eram.
"Ainda 'tá sofrendo trote, Ramona?" ele perguntou.
"Não! A Denise tem me deixado em paz, não é como se eu estivesse dando conteúdo." ela respondeu e o rapaz riu.
"Se estiver com saudades de aparecer no jornal, pode me ajudar no meu levante pelo grupo de música!" o moreno disse e a moça levantou a sobrancelha.
"Levante pelo grupo de música?" perguntou.
"Sim! Eu falei com o Jeremias e ele disse que talvez o grupo de música foi pro saco porque ninguém lutou para que ele ficasse. Então pensei: por que não?" comentou e ela riu.
"O Jeremias te disse pra fazer um levante?" a moça perguntou.
"Não exatamente, talvez ele só estivesse brincando, mas eu gostei da ideia! O que acha?" ele perguntou.
"Sei lá, eu não toco nenhum instrumento, mas posso te ajudar!" a ruiva aceitou e ele sorriu.
"Valeu! Acha que nossas queridas atletas nos ajudam com a visibilidade?" Do Contra perguntou.
"Posso ver com elas." ela respondeu.
Os dois ainda estavam no assunto quando, de repente, o restante da mesa parou de falar e fixaram o olhar em um ponto específico. Do Contra e Ramona olharam e deram de cara com Sofia.
"Oi! Eu… posso sentar aqui?" ela perguntou com sua bandeja em mãos.
"Claro! Senta aí!" Ramona disse indo para o lado e Sofia se sentou ali.
"Valeu, não quero chamar atenção hoje. Milena e Gabriela não ficam com vocês?" a veterana perguntou ao perceber que nenhuma das duas estavam lá.
"Às vezes, elas mexem muito com coisas dos times durante o almoço." Ramona respondeu.
"Hoje devem estar atarefadas, mesa dos atletas 'tá o puro movimento." Do Contra apontou com a cabeça para lá e, de fato, estava com várias pessoas.
A mesa estava mais silenciosa do que Sofia esperava que estaria, ela gostava de Do Contra e Ramona, mas era um tanto monótono se sentar com eles já que os dois ficavam longos momentos em silêncio e, às vezes, falavam de xadrez e livros que nunca havia ouvido falar. Pela primeira vez, ficou aliviada ao ver alguém do jornal se aproximar.
"Jornalzinho pra vocês." a pessoa disse colocando alguns exemplares e logo saiu.
Sofia folheou o jornal e arregalou os olhos ao ler a segunda página.
"Não acredito nisso!" comentou e os dois a olharam, haviam ignorado o jornal.
"O quê?" Ramona perguntou e Sofia apenas deixou a mesa e os dois olharam o jornal e logo entenderam o motivo.
*
Na mesa dos atletas, o movimento havia parado um pouco quando o jornal chegou, mas assim que leram, as feições ficaram incrédulas.
"Cara… dois capitães em escândalo, o Átila vai surtar!" Titi comentou.
"Isso nem é nada se comparar com o que 'tão dizendo do Jeremias!" Felipe falou.
"Gente… como descobriram isso?" Milena perguntou ainda desacreditada no que havia lido.
Gabriela e Jeremias, que haviam deixado a mesa por alguns segundos para devolverem as bandejas, retornaram.
"Gente, o que 'tá rolando? 'Tão olhando pra gente e cochichando!" a loira comentou.
Os três olharam para eles.
"O jornal. Leiam! Em voz alta, por favor." Titi entregou o jornal à moça e o novato se aproximou para ler.
"Nossa quadra já pode servir de cenário amoroso! Gabriela, a capitã do time de vôlei, e Cascão, o capitão do time de futebol masculino, andaram quebrando regras e trocando saliva por aí. Mas olhe só, ela queria um namoro, mas quem disse que ele queria? Tadinha, né? Mas convenhamos, pelo tanto que é rodada, entendemos o Cascão. E a história não acaba aí, amores! A princesa do IL, Magali, sabendo da situação da colega de quarto ficou feliz. Ou seja, Cascão já pode ser chamado de príncipe do IL? E Magali? É a talarica do IL? Vamos esperar o desfecho." a loira leu com as mãos trêmulas e, quando terminou, olhou para os demais.
"Na boa, vai tomar no cu quem escreveu essa merda!" Gabriela exclamou com os olhos se enchendo de lágrimas enquanto amassava o jornal.
"Não rasga! O Jeremias tem que ler a parte dele!" Felipe disse enquanto terminava seu almoço.
"Minha parte?" Jeremias questionou surpreso.
"Jeremias… vai na página dois e prepara o rabo! O Cascão e o Átila vão acabar com você hoje." Titi disse e o outro foi até a página dois.
"Como os atletas estão em alta hoje, temos nosso belo novato do segundo ano: Jeremias. Quem diria que o tão perfeitinho novato seria o bullie de uma colega acima do peso. Gordofóbico que fala, né? Tsc, tsc. Que decepção, tentou dar uma de santo pra cima de Sofia, a ex integrante dos populares, mas o jornal sempre descobre a verdade." ele leu sentindo a cabeça rodar e o ar sumir de seus pulmões.
O rapaz, por alguns segundos, não viu ou ouviu mais ninguém ao seu redor, apenas sentia um desconforto no peito e respirava ofegante. Logo ele despertou de seu transe ao sentir ser levemente chacoalhado por Timóteo.
"Pega água pra ele, gente!" a voz preocupada de Milena soou e ele balançou a cabeça.
"Não, eu 'tô bem!" exclamou enquanto era abanado com o próprio jornal.
"Não surta, amigão. Esse jornal vive espalhando notícia falsa por aí." Titi disse.
Jeremias engoliu em seco.
"Não, cara… não é falso. Eu realmente fiz isso!" ele revelou e todos, exceto Gabriela, que relia a notícia com a expressão zangada, olharam incrédulos.
"Tá zoando? Você já fez bullying?" Felipe questionou.
"Sim, quando eu tinha onze anos e era um idiota muito influenciável. Eu me arrependo disso, me desculpei com a menina, tive um monte de problemas por isso...enfim! Achei que isso tinha ficado no passado." Jeremias respondeu com as mãos nos cabelos.
"Esse jornal gosta revirar o passado dos outros… Titi, acompanha o Jerê até o banheiro ou área verde, sei lá. E eu acompanho a Gabi até o banheiro feminino. Se eles ficarem aqui, vão surtar." a cacheada disse e Felipe riu.
"Essa mulher é incrível, né? Não é à toa que tem meu coração!" falou piscando um olho e a moça revirou os olhos.
"Se toca, cara! Não vê que eles 'tão na merda?! Faz alguma coisa de útil e leva as bandejas." Titi disse se levantando.
Milena teve que puxar a amiga que chorava de raiva até o banheiro, mas Jeremias já estava deixando o refeitório quando sentiu um forte puxão em sua camisa. Era Sofia com o semblante furioso.
"Eu confiei em você! E você só quis me usar pra se redimir por um erro passado!" ela exclamou decepcionada.
"Não, Sofia! Isso é tudo um mal entendido!" Jeremias disse e ela se afastou.
"Eu não quero ouvir suas desculpas! Eu 'tô muito decepcionada com você!" exclamou e logo e saiu correndo com os olhos úmidos.
Jeremias pensou em correr atrás dela, mas Titi o impediu.
"Não, mano! Melhor falar com ela depois." ele disse e o outro suspirou enquanto deixava o local.
X
Sofia ainda corria quando trombou com Denise que, curiosamente, a procurava.
"Amiga! Eu li a notícia! E eu…" ela falava até Sofia apontar um dedo para si.
"Você prometeu que não ia escrever nada sobre ele! Você mentiu!" exclamou.
"Sofia, não fui eu que escrevi! Eu assino embaixo, lembra?!" Denise exclamou.
A morena ignorou a resposta da ruiva.
"Eu não quero saber! Você mentiu! Duas pessoas que eu gosto muito mentiram pra mim! Eu não aprendo mesmo! Primeiro o merda do Fábio e agora vocês... Eu sou mesmo uma idiota!" Sofia disse e saiu de lá.
"Sofia!" Denise ia atrás dela quando várias pessoas a cercaram, a maioria queria saber sobre as notícias que ela sequer havia escrito e outros a agradavam para entrar no grupo.
"Sai da minha frente! So… sumiu!" a ruiva disse suspirando ao fim.
*
Afastada de toda a agitação do refeitório estava Magali sentada na área verde ao lado de Mônica. Quando o jornal chegou, as duas saíram da multidão para que a veterana pudesse tomar um ar.
"Não acredito nisso, Mônica! Por favor, me diz que é mentira que apareceu no jornal que eu fiquei feliz por saber que Cascão não queria namorar a Gabriela!" Magali pediu e a outra forçou um sorriso.
"Lamento, miga. Como que a Denise descobriu isso? Ela tem ouvidos em toda a escola mesmo!" Mônica disse e a amiga suspirou.
"Até tem, mas não sei se realmente foi ela. Lembra daquele dia que falamos sobre o Cascão quando tinham outras pessoas na mesa? Devia ter alguém do jornal no meio que ouviu." ela disse levando as mãos aos olhos.
"Com que cara que vou olhar pra Gabriela hoje no dormitório? Ou pro próprio Cascão se eu esbarrar com ele?" Magali questionou e Mônica não disse nada, não sabia o que dizer.
Antes que o silêncio ficasse mais constrangedor, um inspetor apareceu.
"Magali, o diretor quer que você compareça à sua sala." ele disse e a moça gelou.
"Se quiser, eu posso ir junto." Mônica se ofereceu.
"Apenas a senhorita Magali!" o inspetor ressaltou grosso e a novata deu de ombros.
"Tudo bem, Mô. A gente se vê depois." a outra disse e logo deixou local com o inspetor.
*
Na sala do diretor, Denise já estava lá dentro com os nervos à flor da pele enquanto o diretor tinha um exemplar do jornal em sua mesa e os braços cruzados.
"Pensei que tivéssemos um acordo, Denise." ele disse.
"Diretor Carlito, eu te juro que não fui eu que escrevi sobre a Magali! Eu assino embaixo das minhas notícias! No próprio jornal de hoje dá pra ver isso!" ela argumentou.
"Não me interessa quem escreveu! Você é a chefe desse jornal, tem que barrar essas coisas! Enfim, o jornal está proibido de circular por três semanas." o homem decretou e a moça olhou incrédula.
"O quê? Só porque foi sua filha que apareceu? Metade do jornal é fofoca de aluno e o senhor veta a gente só por causa de uma mísera citação à Magali?!" Denise questionou.
"Não é só por isso, também é pelo trote de semana passada. Acharam mesmo que não seriam punidos severamente?" Carlito falou.
A ruiva cruzou os braços.
"Por que 'tá punindo a escola toda? Foi o terceiro que fez o trote! Inclusive, isso 'tá escrito no jornal de hoje!" ela exclamou apontando para o jornal.
"Pode sair da sala." ele disse girando a cadeira para ficar de costas para ela.
Denise riu sem humor e deixou à sala. Assim que saiu, deu de cara com Magali, que aguardava para entrar.
"Por sua culpa, o jornal foi vetado por três semanas! No seu lugar, eu ficaria esperta!" exclamou apontando o dedo para a morena e logo deixou o local.
Magali engoliu em seco e entrou na sala.
"Queria me ver?" ela disse e o diretor se virou.
"O que eu li nesse jornalzinho de quinta categoria é verdade?" perguntou.
"Não! É um boato que inventaram." Magali mentiu.
O pai a encarou bem, mas pareceu relevar.
"Ok. Pode…" ele dizia até ela o interromper.
"É verdade que o jornal vai parar por três semanas?" perguntou.
O mais velho levantou as sobrancelhas.
"Então é verdade… as notícias voam por aqui. Sim, toda ação tem uma consequência." ele disse.
"É por minha causa?" ela perguntou e ele riu.
"Não, não é por sua causa. Agora pode ir." Carlito disse e a moça saiu séria.
*
O tempo passou mais rápido para uns do que para outros, logo já era hora do reforço e estudos avançados. Cebola havia tido um péssimo primeiro tempo de monitoria por conta das notícias do jornal, o fato da oficialização da saída de Sofia do grupo somado ao seu término com Penha fez com que as bajulações fossem tantas que o irritavam.
Assim que acabou o reforço com a turma, Mônica apareceu.
"Hi, Cebola!" ela cumprimentou.
"Hello." ele falou sem muito ânimo.
Mônica olhou bem para o rapaz que parecia estressado.
"Tá tudo bem com você?" ela perguntou e ele deu de ombros.
"Sim! Eu acabei meu namoro, sabe? É normal ficar meio pra baixo." Cebola disse e a moça riu.
"No sábado, você já tinha terminado com a Penha e não 'tava nada pra baixo. E nem agora você 'tá! Você parece irritado!" a novata observou e ele a encarou.
"Você quer ditar como me sinto? Vamos direto pro reforço." ele disse e a moça levantou os braços em rendição.
"Só 'tava comentando." falou enquanto abria o caderno.
A monitoria foi passando de um jeito diferente da outra vez, o estresse de Cebola afetava em sua maneira de explicar a matéria, mas a desatenção de Mônica também não colaborava, algo a intrigava e ela queria saber.
"Alguma pergunta?" Cebola perguntou ao fim de toda ajuda.
"Por que você mente tanto?" ela perguntou e ele franziu o cenho.
"Do que você 'tá falando, garota?" perguntou.
"Me disse que 'tava pra baixo, mas nós dois sabemos que não é isso! E a pior mentira é a que você 'tá contando pra você mesmo!" Mônica disse e o veterano riu.
"Que mentira que eu 'tô contando pra mim mesmo?" o rapaz perguntou.
"Essa máscara que você usa! No reforço e fora do IL você é um cara legal, Cebola. E dá pra ver que aquele é você de verdade! Não essa pessoa que trata os outros feito lixo e se acha melhor que todo mundo!" ela exclamou e o moreno a olhou surpreso.
O rapaz ficou alguns segundos em silêncio e olhou para o relógio na parede.
"Nosso horário acabou, tenho que ir pro meu grupo de xadrez e ganhar de uma pessoa." falou se levantando e ela também se levantou.
"Espera aí! Não vai me responder?" a moça questionou.
Cebola apenas pegou suas coisas e caminhou até a porta em silêncio. Lá, ele se virou para ela.
"Talvez algum dia você entenda que nossas vidas são diferentes, Mônica." falou e a morena olhou entediada.
"Só porque você é popular e eu não?" ela perguntou.
"Exatamente por isso. Bye, bye." Cebola respondeu e saiu.
Mônica bufou não acreditando nessa resposta, e isso a deixava mais curiosa ainda.
*
Após as atividades da tarde, os alunos se dispersaram pelo internato. Cascão estava sentado em um banco da área verde junto de Jeremias.
"Mano, o Átila não ficou muito feliz com a matéria sobre você. Ele disse pra eu te mandar pro banco, mas quero ouvir sua versão primeiro. Não confio muito no jornal." o veterano disse.
"Não é mentira, mas 'tá equivocado. Eu fiz isso quando tinha onze anos, mas o jornal fez parecer que foi recente." Jeremias respondeu.
Cascão crispou os lábios.
"Sua situação 'tá foda, Jeremias. O povo acredita demais no jornal, e talvez te julguem, mesmo que fiquem atrás do Toni, que é bullie até hoje. Infelizmente, até a poeira baixar, eu tenho que te deixar no banco." ele disse com pesar e o outro deu de ombros.
"Beleza, mas por que o Toni e Cebola não vão pro banco se todo mundo sabe que eles chamavam a Sofia de bujão?" Jeremias perguntou.
O outro tombou com a cabeça para os lados.
"É que assim… quando você vai parar no jornal por certos motivos vira escândalo, e o Átila e o diretor não gostam disso. Felipe terminou com Milena por isso; ano passado ela e Gabriela só saíram do banco por necessidade e as duas só são capitãs porque Denise pediu desculpas." revelou e o novato riu sem humor.
"Então até nisso ficamos à mercê deles? Que merda." Jeremias comentou negando com a cabeça.
"Lamento, cara." Cascão disse e deu dos tapas no ombro do outro e saiu.
Cascão, diferente de Gabriela e Magali, não tivera problemas pela aparição no jornal. Mesmo que a loira não tivesse tido problemas com Átila, ela estava sendo zoada pela escola enquanto Cascão era visto como um "grande homem" que tinha duas garotas bonitas aos pés.
"Será que essa notícia é verdade? A parte da Gabriela é, mas não vi Magali pra descobrir…" comentou consigo mesmo curioso, mas não iria perguntar para a morena, pelo menos não por enquanto.
*
Enquanto isso, no dormitório 226B, Milena e Ramona conversavam até Denise aparecer.
"Pisou na bola, Denise." Milena comentou.
A ruiva, que já estava estressada, bufou.
"O que foi agora, garota?" questionou.
"Aquela sua matéria toda manipulada do Jeremias e aquela péssima sobre a Gabi! Na minha época você já era ruim, hoje em dia 'tá pior." a cacheada respondeu.
Denise cruzou os braços.
"Como pode ter lido tantas matérias que escrevi sobre você e nunca ter visto que eu assino embaixo do que escrevo, Milena? Fora que se eu tivesse escrito sobre Jeremias, teriam mais detalhes e não teria esse monte de furo. E se eu escrevesse sobre a Gabriela, eu não seria idiota de citar a Magali. Raciocina antes de vir me acusar das coisas! Tenha dó!" Denise rebateu e logo entrou no banheiro batendo a porta em seguida.
Ramona olhou para a porta.
"Que abusada!" comentou e a outra parecia pensar.
"Ramona, vem comigo até a biblioteca?" Milena perguntou.
"Claro, pra quê?" a ruiva perguntou.
"Lá tem esses jornais, podemos ver se ela realmente assina embaixo." respondeu e as duas saíram.
X
Na biblioteca, as duas foram até os fundos e pegaram dois jornais e, de fato, as matérias que Denise escrevia eram uma das únicas assinadas.
"Nossa, então ela disse a verdade!" Ramona disse surpresa.
"Tá, me sinto um pouco mal agora. Mas podemos falar com a Sofia sobre o Jerê. Ele me disse a verdade por trás dessa notícia." a cacheada falou.
"É nosso dia de sorte!" Ramona disse apontando para Sofia, que deixava a biblioteca, e as duas saíram rapidamente.
"Sofia! Queria falar com você!" a de cabelos compridos chamou.
"Se veio tentar me convencer a desculpar o Jeremias, recomendo nem perder seu tempo." a outra disse sem parar de andar.
"Não quero te convencer a nada! Só acho que você devia pelo menos ouvir o que ele tem a dizer." Milena disse.
"O mesmo serve pra Denise." Ramona completou.
"Denise?" a atleta perguntou sem entender.
"Eu ouvi ela e Sofia conversando hoje cedo, elas brigaram." a ruiva esclareceu.
Sofia parou de repente, fazendo as outras duas trombarem.
"Vocês leram o jornal, né?" Sofia perguntou cruzando os braços enquanto as encarava.
"Justamente por isso viemos! Eu digo isso como alguém que teve sérios problemas por ter aparecido lá, Sofia! Aquilo é cheio de manipulações, acho que só acreditar no jornal sem nem ouvir o que Denise e Jeremias têm a dizer é meio injusto. Acabei de cometer esse erro." Milena disse sincera e Ramona concordou com a cabeça.
Sofia suspirou.
"Descobrir que alguém que você admira pratica uma das coisas que mais te feriu é horrível! Assim como quando alguém quebra uma promessa. Jeremias nunca me disse fazia isso; e Denise é a chefe do jornal, as coisas passam nas mãos dela antes de serem publicadas! Não sejam ingênuas." falou séria.
"Mas, Sofia…" a atleta falava até a ruiva interromper.
"Não, Milena, essa é uma decisão que ela precisa tomar sozinha, ela sabe o que sente. Mas, Sofia, pensa com carinho! Denise e Jeremias parecem gostar muito de você, e pelo visto você também gosta deles." Ramona disse e logo saiu com Milena.
Sofia respirou fundo enquanto pensava no que havia ouvido. De fato o jornal era traiçoeiro com quem mexia com populares, e sabia que às vezes Denise deixava as coisas nas mãos dos outros membros do jornal; sem contar que as duas, que tinham motivos para odiarem Denise, defendiam que elas deviam conversar.
"O que eu faço?" perguntou-se enquanto voltava a caminhar.
*
Já era hora do jantar quando em uma mesa do refeitório Tikara e Xaveco encaravam Nikolas, que os olhou sem entender.
"O quê?" ele perguntou.
"Qual foi teu lance com a tal Carmem?" Xaveco perguntou.
Nikolas bufou.
"É uma longa história, vocês realmente querem ouvir isso?" respondeu com outra pergunta.
Os amigos assentiram.
"Até o toque de recolher tem bastante tempo, Nik." Tikara lembrou.
O veterano passou as mãos na cabeça e decidiu contar, talvez seria bom.
"Eu sempre tive facilidade com matemática, então quando entrei aqui no IL há dois anos, a professora Ana Paula me incentivou a entrar na monitoria. Carmem tinha problemas com matemática e entrou no reforço. Como você deve ter visto, Tikara, ela é muito bonita, e eu me interessei por ela." começou.
Os amigos se entreolharam, mas não disseram nada. Já Nikolas parecia perdido em suas lembranças enquanto franzia o cenho.
"Por incrível que pareça, eu tive coragem de chegar nela. E, no começo, ela disse que o foco dela era nas notas e ficaria comigo se eu a ajudasse a ter melhores notas, mas não por meio de estudo, e sim por colas." continuou.
"Eu, idiota, passei cola até pouco antes de entramos de férias de meio do ano. Ela não só disse que jamais sairia com um nerd iludido como eu, como também falou tudo pra Denise, que publicou o acontecido no jornal." disse e os dois arregalaram os olhos.
"Tá zoando?!" Tikara falou.
"Queria, mano! Eu fiquei mal, mas as férias seriam meu consolo. Mas… as pessoas descobriram meu canal de games no youtubo e foram lá pra me sacanear e eu decidi excluir o canal. Eu fui zoado por causa da Carmem e pela exclusão do canal o resto do ano, então cheguei a conclusão que se fosse um completo invisível, eu não teria que me preocupar com todo mundo me zoando." falou e riu ao fim e os olhou.
"É isso. Ela, felizmente, não voltou pro reforço; não estuda mais aqui; e o grupo dela não me enche porque nunca me veem fora da sala de aula." concluiu.
Tikara e Xaveco olhavam boquiabertos, tanto pelo amigo nunca ter dito nada sobre isso quanto por ele ter aguentado continuar no internato.
"Cara… eu teria pedido pra mudar de escola." Xaveco comentou tentando não demonstrar pena do amigo.
"Por isso que você não tem coragem de chegar na Mônica?" Tikara perguntou e logo levou um chute de Xaveco embaixo da mesa.
Nikolas deu de ombros.
"É. Eu sei que Mônica não vai publicar isso no jornal, mas é que eu…" falou sem saber como completar.
"Não precisa se explicar, Nik. Só de ainda conseguir encarar a escola toda, já é uma coisa foda!" Xaveco tentou consolar o amigo, que forçou um sorriso.
Os três ficaram em um desconfortável silêncio ouvindo apenas o som do refeitório. Diante disso, o dono dos dreads bufou.
"Por isso que eu não queria falar! Olha o clima estranho que ficou! Não encanem com isso! Foi faz tempo, isso é passado e eu 'tô bem." o rapaz falou.
Os amigos não tiveram tempo de dizer nada quando Cebola apareceu na mesa.
"Xavier! Não tive a chance de jogar com você hoje, mas nosso acordo ainda 'tá de pé?" perguntou.
Xaveco arregalou os olhos.
"Que acordo? Eu não fiz acordo nenhum com você!" exclamou.
Cebola sorriu.
"Mas deveria!" falou antes de olhar para Nik.
"Eu realmente me equivoquei sobre você, Nikolas. Uma mulher como a Penha jamais ficaria com alguém feito você. Não só como a Penha, né?" falou e deu um forte tapa nas costas de Tikara antes de sair rindo.
"Moleque do caralho! Que acordo vocês fizeram?" o de feições asiáticas perguntou massageando as costas.
"Nenhum! Ele quer que eu jogue contra ele valendo coisa em troca! Eu não sou nem bobo de topar, não confio nesse grupo. Mas, Nikolas, aquele dia tu 'tava dando em cima da Penha?" o loiro perguntou.
Nikolas por um momento quis rir da fala do amigo, havia feito exatamente o que o amigo negaria. Todavia, limitou-se a negar com a cabeça.
"Não, Cebola que é paranoico. Ela 'tava me zoando, como esse grupo geralmente faz." mentiu.
"Tão zoando até veterano agora? Ou é porque você anda com a gente?" Tikara perguntou.
"Ninguém 'tá a salvo, leram o jornal de hoje?" Nikolas comentou e o assunto mudou.
*
Mais tarde, no dormitório 220B, Penha estava sentada em sua cama terminando de preencher alguns formulários dos estudos avançados quando Mônica e Magali entraram.
"Não tem motivo pra ela ficar brava com você, Magá." Mônica tentou acalmar a amiga.
"Acha mesmo?" Magali perguntou.
"Acho! Ela é mó gente boa!" a amiga afirmou.
Penha riu e as duas olharam.
"Eu por acaso disse alguma coisa engraçada, Penha?" Mônica perguntou.
"É proibido rir agorra? Eu, hein! Nem tudo é sobre vocês." ela disse.
As duas decidiram ignorar Penha e logo Gabriela entrou indo direto para a sua cama, onde deitou de barriga para baixo.
"Gabi! Eu…" Magali dizia e a loira apenas virou a cabeça em sua direção.
"Magali, deixa isso pra outro dia. Não 'tô muito a fim de conversa hoje." ela disse com a voz melancólica.
Magali assentiu e Penha negou com a cabeça.
"Parrece que ser uma pessoa de boa é inversamente proporcional a ficar de boa quando a colega de quarto deseja seu ficante." Penha comentou com um sorrido e as três a olharam feio.
"Cuida da sua vida, garota! Que saco!" Mônica exclamou.
"Eu por acaso citei nomes? E outra, o que sai no jornal fica na boca da escola inteirra. Não achem que sou a única falando disso." ela disse e Magali entrou no banheiro séria.
Mônica negou a cabeça enquanto olhava para Penha e se segurou para não retrucar, precisava tentar manter a promessa que fez aos pais.
A noite acabou tensa, as publicações do jornal deixavam um clima pesado no ar.
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