Internato Limoeiro

14 Capítulo XIII - Compreensão


Notas iniciais
Boa leitura ♥

Pela primeira vez no ano, Jeremias ignorou seu relógio biológico e ficou deitado após tímidos raios de sol alcançarem sua cama. O rapaz balançava o pé que estava fora da cama e encarava o teto enquanto pensava no quão surreal estava a sua situação.

"Confesso que 'tô surpreso em te ver por aqui ainda." a voz de Do Contra soou e Jeremias, que estava em uma cama de cima, olhou para baixo.

"Tava pensando no sítio, saudades de lá." comentou e o outro assentiu.

"Saudades do tempo que o jornal da escola não existia na sua vida?" o veterano perguntou e Jeremias riu enquanto descia da cama.

"Demais. Do Contra, as coisas que aparecem no jornal chegam aos ouvidos dos nossos pais?" perguntou e o de cabelos lisos negou.

"Depende, se você ou alguém falar, sim. Não esquenta com isso, logo o povo esquece do que leu." Do Contra assegurou.

"Você acreditou?" o outro perguntou.

"Não te conheço há muito tempo, Jeremias. Sendo verdade ou não, você hoje é contra isso. Então não devia se importar com o que 'tão falando por aí, muita gente que fala de você pratica bullying como se fosse uma coisa normal." o veterano falou apontando para Toni que dormia.

"Valeu, cara!" o novato agradeceu com um sorriso e Do Contra entrou no banheiro com uma toalha no ombro.

Jeremias se espreguiçou se sentindo melhor, até um pouco animado.

*

Diferente de Jeremias que quis ficar um pouco mais no dormitório, Gabriela já se arrumava para deixar o quarto quando viu Magali se sentar e coçar os olhos após seu alarme tocar.

"Bom dia!" desejou com um bocejo e a loira assentiu.

"Bom dia." respondeu sem ânimo.

"Gabriela, sobre o que publicaram ontem, eu não fiquei feliz com…" Magali dizia nervosa até a outra negar com a cabeça.

"Relaxa, eu não acredito em nada daquele jornal. Mas… e ai? O que ele te disse sobre isso?" Gabriela perguntou.

"Nada, eu nem vi ele. E pra você? Aposto que ele foi te consolar!" a morena perguntou e a outra riu.

"Eu 'tô ignorando ele faz um tempo. Fora que eu não iria querer a consolação dele." respondeu.

"Mas ele é um cara tão legal, acho que seria de coração." Magali observou.

A loira suspirou.

"Magali, o Cascão é uma boa pessoa, mas ele ainda é o cara que não quis nada sério comigo, é difícil pra mim." explicou calma.

Magali sorriu sem jeito.

"É… faz sentido! Que ideia a minha! Você não deve estar querendo ver ele nem pintado de ouro." falou e a outra riu.

"Tenho que ir nessa. Ah! Hoje depois da aula vou chamar a galera do vôlei pra jogar um pouco, aparece lá na quadra e chama a Mônica, um passarinho me contou que vocês duas andam fora de forma." Gabriela disse e a morena arregalou os olhos.

"Não é que ele disse mesmo?! Quer dizer… a gente aparece sim!" falou e a cacheada sorriu antes de sair.

Magali se espreguiçou e franziu o cenho ao ouvir um riso.

"Quem dirria? A princesa do IL é uma mentirrosa." Penha falou ainda deitada em sua cama.

"Do que você 'tá falando?" a outra perguntou.

"Não sei como Gabriela não percebeu que você 'tá dando pistas que realmente tem um crush no Cascão." ela falou e Magali arregalou os olhos.

"D-de onde você tirou isso?!" questionou.

"Simples: você 'tava nervosa enquanto falava com ela, quem não deve, não teme. Sem contar que você 'tava defendendo o carra que deu um forra na sua amiga." Penha respondeu.

Magali encarou a outra com firmeza.

"Eu 'tava nervosa porque eu não queria ser indelicada. E por que eu falaria mal do Cascão se nem ela que levou o fora teve motivos? Se agora que você terminou com o Cebola você sai falando coisas que ele não é… já é desvio de caráter seu." rebateu e Penha a encarou por alguns segundos.

"Andar com a Mônica transformou você… mas eu não ligo. Quem 'tá mentindo não sou eu." ela disse e logo entrou no banheiro.

Magali revirou os olhos e foi pegar seu uniforme, mas não evitou de sentir um certo orgulho de si mesma por ter sido firme com Penha.

*

Por conta da enorme bajulação aos alunos populares e cochichos sobre as matérias do jornal, o dia estava passando de maneira lenta e cansativa. Já era de tarde, quase na última aula do dia, e era para os alunos terem aulas de filosofia, mas como o professor era o mesmo que lecionava física e sociologia, havia uma recorrente mistura de conteúdos.

"Diante disso, vemos que a densidade vale aproximadamente 2,55 g/mL. Aqui no mundo sensível, é claro, no inteligível as coisas podem ser outras." Licurgo disse enquanto escrevia no quadro.

Tikara franziu o cenho enquanto olhava para a lousa e para o seu horário para ter certeza que era aula de filosofia. Assim que garantiu, olhou para Xaveco.

"Esse cara é louco!" sussurrou, mas soou alto o suficiente para o professor ouvir.

"Quem me chamou de louco?" perguntou se virando para os alunos de cenho franzido.

"Aquele maluco ali! O Tikara!" Cebola apontou sem nem ter certeza se realmente havia sido o colega de quarto.

Tikara engoliu em seco enquanto o professor o encarava.

"Você não é aquele rapaz que abaixaram as calças no refeitório e estava sem nada por baixo? E eu que sou o louco?" Licurgo falou e o novato sentiu o rosto esquentar enquanto a sala explodia em risadas.

O docente não riu, apenas manteve o olhar até ver que Tikara não iria dizer nada.

"Vamos lá, nem foi engraçado! Jovem, por que acha que sou louco?" perguntou cruzando os braços.

"Não, é que eu não entendi o que esse negócio de mundos tem a ver com a densidade." o rapaz explicou.

"Pense além, meu rapaz! Que tudo fará sentido, ou pelo menos pode trazer mais questionamentos." falou e olhou as horas em seu relógio de pulso para, sem mais nem menos, apagar a lousa.

"Eu 'tava copiando!" uma aluna reclamou.

"Que pena. Quero falar com vocês, é sobre o jornal." ele disse enquanto terminava de apagar o quadro.

Jeremias sorriu satisfeito, achava que o professor daria um sermão, principalmente em Denise, que era a chefe. Olhou na direção da ruiva e viu que ela não parecia preocupada, muito pelo contrário, estava tranquila.

"Como vocês sabem, sou leitor assíduo e confesso que o jornal vem me deixando muito surpreso." ele disse se sentando na mesa e cruzando as pernas.

"Jeremias! Você teve problemas com o jornal, não é? Você é contra a publicação dele?" perguntou após ver o novato revirando os olhos.

O rapaz abriu a boca para responder, mas quem falou foi alguém do fundo.

"Claro que ele vai dizer que é!" comentou.

"Eu não sou contra o jornal." Jeremias disse e todos, sem exceção, olharam surpresos.

"Como assim, Jeremias? Ele te trouxe problemas! Eu, por exemplo, sou super contra essa bobagem!" Mônica disse e Ramona assentiu, às vezes algumas pessoas ainda riam quando ela passava.

"Deixa eu explicar, as coisas aqui dão errado porque ninguém deixa ninguém explicar nada. Eu sou a favor do pingo de liberdade que o jornal pode trazer pra um internato que tem muitas regras. MAS, eu não defendo o tipo de conteúdo que está sendo escrito nele. Digo isso porque não vejo sentido nenhum em expor a vida pessoal de alguém daquele jeito só pra fazer trote ou provocar." ele explicou.

Licurgo olhou surpreso e animado, sua intenção inicial era apenas falar sobre o impacto que o jornal trazia e logo mudar de assunto, mas o rumo que estava tomando seria melhor.

"OBRIGADA! Finalmente alguém falou isso! Praticamente todo mundo da sala sabe o inferno que aquele jornal faz da vida de quem não é popular!" Milena exclamou.

"Mais ainda se não abaixa a cabeça pra eles." Gabriela completou.

"Vocês duas nunca mudam o disco? A Denise até pediu desculpas!" um bajulador disse.

"E de que aquelas desculpas fajutas adiantaram? Eu apareci nesse jornalzinho de merda ontem e reviveram o boato! Fora que as marcas que isso deixou na gente não se apagaram com uma matéria meia boca da Denise." Gabriela rebateu.

"O assunto era o Jeremias! Nem sei por que voltamos no tempo desse jeito!" outra pessoa do jornal tentou fugir da refutação.

"Fora que só vimos quem Jeremias é de verdade." Toni comentou.

"Ah, toma vergonha nessa tua cara! Quem eu sou de verdade? Não vou citar nomes, mas quem escreveu aquela matéria manipulou os fatos. Eu já fiz bullying, confesso! Mas quando tinha onze anos! Eu me arrependo e não faço mais isso há muito tempo!" Jeremias retrucou sério.

Denise riu.

"Tentou jogar uma indireta sem provas, fofo? Parece que o jornal tem razão em dizer que você não é o perfeitinho que aparenta ser." ela disse.

"Eu não disse que foi você. Aqui na sala tem mais gente do jornal, mas se a carapuça serve." ele rebateu e a ruiva o encarou feio.

Cebola não evitou o riso com as vaias que surgiram.

"Jeremias, ou você é muito corajoso, ou muito burro. Você vai aparecer no jornal de novo, cara." comentou.

O novato deu de ombros.

"Quer saber, eu nem ligo! Tenho mais com o que me preocupar." ele disse e os demais olharam surpresos.

"Devia ouvir o Cebola, todo mundo sabe que ele e o resto do grupo são a voz da razão. E palavras bonitinhas não vão apagar o fato que você se aproximou da Sofia ali pra se redimir desse seu passado." uma garota falou piscando um olho para Toni.

Jeremias riu.

"Acho muito engraçado você vindo me julgar por uma coisa que eu acabei de dizer que não faço mais e me arrependo, enquanto passa pano pro Cebola e Toni que AINDA fazem bullying! Inclusive com a Sofia, que eu nunca tentei usar pra me redimir de erros passados!" rebateu.

"Nisso de bullying eu vou ter que concordar com o Jeremias." Denise falou e todos a encararam incrédulos.

"Estou sonhando? Denise concordando com uma atitude decente?" Gabriela comentou recebendo um olhar feio em resposta.

"Pera lá! Não era bullying, era só uma brincadeira entre amigos." Cebola disse coçando a nuca.

"Eu com onze anos pensava o mesmo." Jeremias comentou fazendo Sofia sorrir.

"Então chegamos à conclusão que a popularidade influencia na aparição no jornal?" Licurgo perguntou

"Óbvio! No próprio jornal de ontem deu pra ver! Escreveram sobre o fim daqueles dois de um jeito mó diferente do que disseram de mim." Cascão falou.

"Gente, só estamos noticiando! Que saco!" um outro membro do jornal comentou.

O sinal bateu e Licurgo liberou a sala com um riso, o jornal sempre trazia opiniões contrárias.

*

Na área verde, Nikolas olhava para o nada enquanto Tikara e Xaveco copiavam o conteúdo da aula de física que não conseguiram copiar do quadro.

"Até os barracos daqui são estranhos! Não vi ninguém levantando pra apontar o dedo na cara dos outros ou batendo na mesa ou geral se metendo na treta e vaiando todo mundo." o loiro comentou.

"Não se fazem barracos como antigamente." Tikara brincou fazendo os outros rirem.

"O Jeremias só disse o que todo mundo queria dizer há muito tempo." Nikolas falou.

"Eu não teria essa coragem, não. Deve ser horrível aparecer no jornal, o povo deve que comenta por onde você passa." Xaveco confessou.

"É isso mesmo que acontece. Por que acha que preferi ficar isolado na biblioteca?" Nik confirmou.

"Agora que o Licurgo lembrou daquele dia deplorável, acham que Milena viu meu pau?" Tikara mudou de assunto de repente.

"Aquilo? Acho que não." Xaveco brincou fazendo um gesto com a mão, que indicava algo pequeno, que fez o outro revirar os olhos.

"Quem fala assim é porque tem inveja." Tikara rebateu e os amigos riram.

Nikolas cutucou Xaveco com um riso enquanto olhava para um ponto específico.

"Por que você não pergunta pra ela, Tikara?" perguntou.

O de cabelos lisos franziu o cenho.

"Por que eu faria isso? E outra, nem tem como! Eu chegaria tipo: oi, Milena, você me viu pelado naquele dia que o arrombado do Cebola abaixou minhas calças e eu 'tava sem cueca?" ele questionou afinando a voz.

"Na verdade, foi tudo tão rápido que eu acabei nem vendo." a voz de Milena soou atrás de Tikara, que não conteve um grito.

"AAAAH! Milena… 'tá aí há quanto tempo?" ele perguntou com o rosto vermelho e um sorriso sem graça que fez a moça rir.

"Acabei de chegar. Oi, meninos." ela disse e os outros dois sorriram enquanto se seguravam para não rir do amigo.

"A gente já volta." Xaveco saindo com Nikolas. Os dois, porém, se esconderam atrás da árvore.

Tikara fechou seu caderno para fitar a moça, que agora estava ao seu lado.

"Tudo bem com você?" perguntou sentindo o suor escorrer.

"Meio cansada, mas bem. E você?" ela respondeu.

"Eu 'tô melhor agora… porque as aulas acabaram, sabe? E não… ér… você veio falar alguma coisa séria? Não que me incomode, é claro! Sua presença é agradável! Você é agradável! Como pessoa!" ele disse se perdendo nas palavras.

"Calma! Eu te assustei mesmo, desculpe. Eu vim porque você nunca fala comigo fora da quadra e até hoje não veio treinar comigo, como você mesmo pediu." a cacheada disse e ele sorriu amarelo.

"Ah… é que você sempre 'tá com gente do time… não quero que te zoem por falar com um cara meio apagado que nem eu." Tikara disse e ela negou com a cabeça.

"Deixa eu te contar uma coisa: naquele grupo um é mais bobo que o outro, pode me falar oi sem medo. Mas e ai? Que dia você 'tá livre?" perguntou e ele arregalou os olhos.

"Hã? Quer dizer… sábado?" respondeu e a moça crispou os lábios.

"Sábado? É que eu fico aqui no IL aos fins de semana… hoje, agora, você tem muita coisa pra fazer? Que as meninas não 'tão muito a fim de jogar hoje, então 'tô de boa." ela respondeu e o rapaz riu enfim entendendo o que ela quis dizer.

"Ah, sim! O treino… posso! Claro que posso!" aceitou.

"Beleza! Nikolas e Xavier? Vocês vêm também?" wla perguntou aos dois que saíram de trás da árvore sorrindo amarelo.

A dupla olhou para Tikara.

"Não. Eu tenho que terminar de copiar as coisas de física e Nik prometeu me ajudar com os cálculos." Xaveco disse.

"Ok. Tikara, eu vou só guardar minhas coisas e já vou pra lá." ela disse e logo saiu.

Tikara observou a moça se afastar com um sorriso bobo nos lábios. Isso não passou despercebido para os amigos, que vaiaram.

"E depois vem me zoar! Tu se perdeu demais!" Nikolas exclamou.

"Tikara, se sua intenção é não demonstrar que 'tá a fim dela, você falhou!" Xaveco disse.

"Nem pra me dizer que ela 'tava atrás de mim, né?" Tikara reclamou.

"Não é você que é o todo confiante que vai direto? Tua chance chegou." Nik disse.

Tikara suspirou enquanto passava as mãos nos cabelos e riu.

"Eu 'tô com bafo?" perguntou bufando próximo de Xaveco, que o empurrou.

"Bufa na cara do teu pai! Pega aí." falou pegando um chiclete de menta de sua mochila e entregando ao amigo.

"Xaveco anda preparado pro ataque." Nik brincou também ganhando um chiclete.

"Por que acha que chamam ele de Xaveco? Partiu!" Tikara disse e logo saiu.

Os amigos o observaram se afastar.

"Acha que ele consegue?" Xaveco perguntou após fazer uma bola de chiclete.

"Milena é difícil, mais ainda porque tem todo o lance do ex dela. Mas vai que ele dá sorte?" Nik comentou.

*

A quadra tinha bastante gente, principalmente do vôlei. Jeremias estava lá com uma bola de basquete em mãos junto de alguns outros alunos. O rapaz, após fazer uma cesta, foi até o bebedouro beber água. Quando se virou, deu de cara com Denise, que o encarava de braços cruzados.

"Pensei que tinha sido mandado pro banco." ela disse.

"Realmente fui, mas do time de futebol. Estou jogando basquete, o esporte sem time. Se me dá licença…" falou e ela barrou o caminho.

"Quero falar com você." disse e ele olhou em volta.

"Aqui? O que seus leitores vão pensar ao vê-la conversando com o cara que tentou dar uma de santinho pra cima da Sofia?" Jeremias perguntou com a voz carregada de ironia.

Denise revirou os olhos.

"Relaxa, as pessoas daqui não mexem comigo. Enfim… você não deve ter reparado que na matéria a seu respeito não tinha assinatura de ninguém." ela disse.

"E…?" o rapaz perguntou.

"E eu assino as que escrevo! Ou seja, não fui eu que escrevi. Eu prometi à Sofia que não escreveria nada a seu respeito, e sou uma pessoa de palavra. Fora que se eu tivesse escrito, seria mil vezes melhor! Aquilo 'tá cheio de furo, dá até pena." a ruiva disse e o novato riu.

"Não sei se me sinto melhor." ele falou.

"Isso já não é comigo. Só vim esclarecer as coisas, mas saiba que você ainda 'tá na mira do jornal, mesmo que não seja a minha." ela disse sincera e o rapaz sorriu.

"Fazer o quê?! Tenho um jogo pra vencer agora." ele disse.

"Não espalha por aí o que eu te disse, senão eu quebro minha promessa!" a moça exclamou e ele riu fazendo um gesto de zíper na boca e saiu.

Denise sorriu e logo tomou seu caminho. O que nenhum dos dois chegou a ver fora Sofia, que não conseguiu esconder um largo sorriso orgulhoso.

*

Com o passar do tempo, a quadra ia perdendo o movimento. Tanto que do vôlei sobraram apenas Magali e Flávia, que treinavam após Gabriela tê-las mandado treinar bem mais após uma sequência de erros.

"Magali, eu 'tô exausta!" Flávia disse ofegante.

"Só mais esse saque! Eu sempre erro nessa parte!" a outra disse.

Magali tentou novamente e a bola bateu na rede. A de cabelos medianos levantou a sobrancelha.

"Desisto! Eu nunca vou conseguir fazer um saque decente!" a de cabelos longos reclamou enquanto se sentava no chão.

Flávia crispou os lábios e logo sorriu ao ver alguém se aproximando.

"Cascão! Você pode ajudar a Magali a treinar o saque?" a moça pediu e Magali arregalou os olhos enquanto encarava Cascão.

"Não! Não precisa, não. Cascão deve estar indo treinar os meninos do futebol!" ela disse.

"Que meninos? Os caras 'tavam morrendo, liberei já. Eu te ajudo de boa!" ele falou.

"Valeu! Bom treino!" Flávia disse piscando um olho para Magali ao sair.

Cascão foi do outro lado da rede.

"Primeiro deixa eu ver como você saca!" ele disse.

"Mal! Uma criança de sete anos saberia melhor que eu." a moça disse fazendo a bola quicar.

"Aí depende da criança, eu nessa idade sabia jogar futebol como ninguém." Cascão comentou e ela riu.

"E hoje?" perguntou.

"Hoje eu sou o ninguém que eu imitava." ele brincou e Magali riu ficando mais relaxada.

A moça sacou e, novamente, a bola bateu na rede.

"Tá vendo? Toda vez é isso!" ela exclamou irritada.

"Acho que você precisa pôr mais força e mais altura." Cascão sugeriu.

"Mas como eu faço isso? Gabriela me disse a mesma coisa!" a morena perguntou.

Cascão passou por baixo da rede, pegou a bola e foi até ela.

"Acho que já sei o que 'tá faltando, Magali. Confiança!" falou e ela o olhou séria.

"Sério isso? Esse coaching não vai me ajudar a fazer um saque! Eu cheguei num nível que nem no banco mais eu 'tô, e sim na arquibancada!" a moça disse.

"Não, não 'tô sendo coach. É que você precisa confiar na sua jogada, principalmente porque na quadra o tempo 'tá correndo, se tu for ficar parando pra duvidar... o time surta." Cascão explicou.

"E como eu faço isso?" ela perguntou e ele riu.

"Isso quem tem que te dizer é sua capitã e o treinador Átila. Não vou roubar o trampo deles." brincou e ela riu.

"Sabe, Cascão… gosto muito da Gabriela, mas ela é muito sisuda. Seria legal ter você como capitão." Magali disse e ele negou.

"Eu não sou esse brincalhão o tempo todo, eu também pego pesado, mando gente pro banco e tudo mais. Mas pega leve com a Gabi, metade do seu time acha que ela é incapaz." Cascão disse e a moça arregalou os olhos.

"O quê?" questionou.

"Nunca ouviu por aí? Muita gente fala que Felipe devia voltar a ser capitão, que ela é muito chata e tudo mais. Átila colocou bastante trabalho nos capitães pra gente ter confiança, sabe? Mas é foda acreditar em você mesmo quando metade do seu time queria que você fosse substituído." o rapaz disse.

"E ela sabe disso?" a moça perguntou.

"Sabe, mas Átila não escolheu ela à toa, ele sabe que a mina é forte e que saberia pegar no pé de todo mundo." Cascão disse e ela suspirou.

"Você realmente não gosta dela? Em termos amorosos?" Magali perguntou de repente.

Cascão levou as mãos à nuca.

"É o que eu disse aquele dia pra você: não é que eu não gosto dela, eu gostava de ficar com ela. Mas era só isso." explicou e ela assentiu.

"Já que entramos nesse assunto, eu… o que disseram no jornal sobre eu ter ficado feliz…" ela disse e Cascão olhou em seus olhos.

Magali perdeu a fala e lembrou o motivo exato de ter sentido uma pontada de felicidade ao saber que ele não era apaixonado por Gabriela: ela tinha um interesse por ele. Talvez desde o ano anterior, quando um novato alegre que falava com todo mundo a tratou bem, ignorando completamente os boatos.

"Eu… eu fiquei feliz por você não querer iludir ela. E não por… você sabe! Vocês terem parado." ela disse enquanto brincava com uma mecha de cabelo evitando o contato visual.

Cascão sorriu para ela.

"Você tem um coração gigante, Magali. Acho isso muito legal em você!" ele disse sincero e ela riu sentindo as bochechas corarem.

"Há quem diga que é um defeito." a moça comentou.

"Você não concordando com isso, 'tá ótimo. Acho que você merece um descanso, amanhã tem treino real." ele disse e ela assentiu.

"Sim! Obrigada pelas dicas!" agradeceu e deixou a quadra a passos largos enquanto sorria.

*

Sentados na arquibancada estavam Milena e Tikara. A moça não pegou leve com ele, que nem se importou com isso, mas quando se cansaram decidiram conversar para se conhecerem melhor.

"Então a Denise é sua meia irmã?" ela perguntou surpresa.

"Mais ou menos, eu não considero." o rapaz respondeu.

"E ela é chata na casa de vocês?" a moça perguntou e ele riu, já estava se sentindo menos nervoso em falar com ela.

"Não converso muito com ela, então não. Mas ela realmente pegava no seu pé por causa do Cebola? Argh, com todo respeito, ele não foi uma boa escolha." Tikara comentou e ela riu.

"Ele é um rostinho bonito. Mas não foi só por isso, eu nunca deixei barato as provocações. E você sabe o que acontece com quem não deixa barato, né?" Milena disse e ele assentiu.

"Sei, fiquei quase uma semana sem cuecas… e eu não precisa ter te dito isso." o rapaz disse se arrependendo ao fim e ela riu.

"Não se preocupe, seu segredo está a salvo comigo. Mas o que fez você querer devolver o trote sozinho?" ela perguntou.

"Não foi sozinho, eu arrastei o Xaveco junto. Eu até chamei o Nik, mas ele é contra mexer com aquele grupo." Tikara explicou.

"Ah, não seja tão duro com ele, Tika. Diferente de você, que desde que entrou teve ele e o Xaveco do lado, Nikolas sempre foi muito sozinho aqui." a moça comentou.

"Você nunca tentou falar com ele? Que você também era novata, né?" ele perguntou.

"Não na mesma época que ele. Eu entrei ano passado, e, sinceramente, meu foco era sobreviver ao IL sem surtar." respondeu.

"Conseguiu. E por que você escolheu logo o IL pra tentar uma bolsa? Eu só vim porque fui obrigado mesmo." o rapaz perguntou.

Milena sorriu.

"Sabia que quase ninguém me pergunta por que eu escolhi logo um internato? Eu escolhi porque queria focar mais e ter um futuro brilhante. Meus irmãos são o que chamam de superdotados, então o tempo todo eu sou comparada a eles." ela disse.

A moça abraçou os joelhos após suspirar.

"Eu 'tava cansada de ser só a medíocre da família. Então decidi… fugir um pouco." ela disse e ele abriu a boca.

"Nossa, mas se me permite… você e seus irmãos são pessoas diferentes, nada mais justo que agir diferente deles." Tikara disse e a moça o encarou atônita e um tanto sem graça.

"Você conseguiu me deixar sem graça, mas valeu." falou e ele sorriu.

"Então vamos mudar de assunto. O tal Felipe é realmente seu ex namorado?" o rapaz perguntou.

"Mudou de assunto mesmo! E sim, ele é." respondeu.

Tikara desviou o olhar.

"E…você ainda gosta dele?" perguntou.

A moça balançou a cabeça para os lados.

"Mais ou menos, foi uma coisa intensa. Mas no momento eu só quero estudar, passar de ano e jogar." falou e ele assentiu.

"Não acha meio radical?" perguntou.

"Por que a pergunta?" a morena devolveu na lata.

"Ah… é que você é muito bonita. Deve ter uma fila de marmanjo atrás de você." ele disse.

"Na verdade, não. Quando seu ex é o antigo capitão de um time, os caras têm medo de chegar em você. Ou eu que não presto atenção, muita decepção ano passado." começou.

"Fora que Nimbus sempre me diz que eu desestabilizo alguns caras por ser capitã de um time de futebol, o que dizem ser um esporte masculino. Mas eu não 'tô nem aí. Eu já te desestabilizei, Tika?" completou com uma pergunta.

"É…" ele ficou sem uma resposta e ela riu.

"Parece que sim." ela disse e foi a vez de ele rir.

"Tá, já me desestabilizou. Mas não foi por causa do futebol, não, Mi." falou e ela olhou curiosa.

"Foi pelo quê?" perguntou e ele sorriu.

Antes que Tikara respondesse, Cascão apareceu.

"Fala aí! Lamento atrapalhar o papo de vocês, mas o zelador quer fechar a quadra." ele disse.

"Nossa! Nem vi a hora passar! Seu Zé, vou levar a bola lá dentro, 'guenta aí. Tika, você 'tá melhor do que naquele dia! Tchau, meninos!" ela se despediu e saiu correndo com a bola.

Cascão acompanhou Tikara para fora da quadra.

"E ai? Falou pra ela?" ele perguntou.

"Eu ia tentar, mas você apareceu." o novato disse.

Cascão fez uma careta.

"Ih, foi mal… vacilei. Mas 'cê ficou um tempão falando com ela! Tu moscou também, Tikara." falou.

"Ah, para. Eu não sabia quase nada sobre ela, hoje eu conheci ela um pouco mais." o outro disse.

"E aí? Continua a fim?" o veterano perguntou e o outro riu.

"Você viu como meu apelido horrível fica bonito quando é ela falando?" o de feições asiáticas falou e Cascão riu.

"Então é mais sério do que eu pensava. Mas agora na próxima vai, né?" ele disse.

"Não sei, não quero fazer que nem os idiotas do Cebola e Felipe. E ela ainda sente alguma coisa por aquele loiro de farmácia." Tikara disse e o outro riu.

"Boa sorte no seu esquema, mas vê se não demora muito. Você não é o único de olho nela, e o que mais tem no time é talarico." ele disse.

"Bom saber!" o outro falou com um sorriso.

*

Ramona ultimamente não ficava sozinha, quando não estava com Milena e Gabriela, estava com Do Contra. Por mais que gostasse da companhia de todos, às vezes queria ficar sozinha e sabia que sua escolha seria respeitada.

A ruiva estava no quarto sem fazer absolutamente nada, apenas estava deitada em sua cama aproveitando sua solidão quando ouviu Denise entrar e se afastou para perto da parede, quando deitava ali diminuía a visão que tinham de si.

"Qual foi, Denise?! O jornal se fodeu por causa dela!" A gente precisa revidar!" uma garota disse.

"Olha, por mais que eu odeie admitir, a culpa nem foi tanto assim da Magali, confesso. Todo mundo do jornal sabia que não podemos falar dela, o idiota que escreveu aquela matéria que é o culpado! Sabe quem escreveu?" Denise perguntou.

"Não, mas o Carlito 'tá tirando tudo que a gente gosta!" a outra disse.

"Percebeu isso só agora? Grupo de música e o de dança foram cortados, o teatro quase teve o mesmo fim e até os times ele não liga muito. Fora que aqui é um internato, diversão é a última coisa que aqui tem. Enfim! Vou tentar descobrir quem escreveu aquela matéria." a ruiva disse e a outra saiu.

Ramona ficou ali observando Denise se sentar na cadeira da escrivaninha, ela parecia cansada. A de cabelos curtos pensou em descer, mas logo a porta se abriu revelando Sofia.

"Oi, Denise!" a de cabelos castanhos claros cumprimentou.

"Decidiu falar comigo?" a outra perguntou.

"Eu decidi te dar uma chance pra se explicar. Pretendo fazer o mesmo com Jeremias, mas não o vi ainda." Sofia disse.

Denise sorriu.

"É aquilo que eu te disse: não fui eu que escrevi. Eu te prometi, né?" a ruiva falou.

"Desculpe por nem mesmo ter te ouvido." a outra disse e a amiga negou.

"Tudo bem, isso acontece. Pela primeira vez, quem deu puxão de orelha em quem?" ela disse e Sofia riu.

"Não se acostume." falou e Denise levantou e tocou no ombro da amiga.

"Eu 'tô com fome! Vamos até a cozinha ver se tem alguma coisa." ela disse e as duas saíram.

Ramona se sentou em sua cama com um sorriso surpreso.

"Denise não parece ser a pior pessoa do mundo… Será que ela ajudaria no levante?" questionou-se enquanto deitava novamente, veria isso com Do Contra no dia seguinte.