Internato Limoeiro

5 Capítulo IV - Esporte


Notas iniciais
Boa leitura ♥

A manhã havia começado mais cedo para Xaveco e Tikara, que haviam dormido na sala multimídia e foram acordados com a parte debaixo de uma vassoura de palha. Assim que abriram os olhos, assustaram-se com o zelador, que os encarava sério.

"Dormiram aqui com autorização de quem?" ele perguntou sem rodeios.

Os dois se entreolharam ainda sonolentos.

"Foi… trote! Fomos presos aqui pela... Denise!" Tikara respondeu em meio a bocejos.

O zelador assentiu.

"Entendo. Agora saiam! Tenho que limpar aqui!" expulsou dando leves “varridas” neles.

"A gente já 'tá indo, calma!" Xaveco disse e os dois saíram sentindo as costas doerem pelo mau jeito.

Os dois andavam devagar e não eram os únicos nos corredores já que muitos jovens acordavam mais cedo e iam caminhar. Quando entraram em seus quartos, já esperavam algo acontecer, porém, nada aconteceu.

Xaveco esperava um soco no estômago ou coisa pior, mas Toni o ignorou completamente e saiu. O rapaz olhava incrédulo e encarou Do Contra, que amarrava seu cadarço.

"E-ele realmente me ignorou?" questionou.

"Ao que tudo indica, sim. Vi que você se inscreveu no grupo de xadrez." o outro disse e o loiro assentiu.

"Sim, por quê?" perguntou.

"Esteja na sala 144 às duas em ponto." o moreno disse e logo jogou sua mochila nas costas e saiu.

Xaveco o observou se afastar imaginando o quanto achava Do Contra estranho. O cacheado foi olhar suas roupas com cautela, tinha em mente que um trote viria a qualquer momento.

x

Já no outro dormitório, a situação era diferente. Tikara revirava sua gaveta apenas com uma toalha enrolada na cintura a procura de cuecas.

"Ô, Cascão, Nik! 'Cês por acaso viram alguma cueca minha?" ele perguntou e os outros dois riram.

"Por que eu saberia disso, Tikara?" Nik perguntou.

"Se você que é dono não sabe…" Cascão comentou.

Cebola entrou e saiu do banheiro recém desocupado com um sorriso no rosto.

"E ai, japa? Se divertiu dormindo em sei lá onde?" perguntou e o outro franziu o cenho.

"Onde você enfiou minhas cuecas, Cebola?" Tikara questionou e o outro riu.

"O que eu quero com cueca sua, Tikara?" Cebola disse e saiu do quarto.

O de feições asiáticas bufou e olhou para os dois colegas de quarto.

"Certeza que esse arrombado pegou! Vocês realmente não viram nada?" perguntou e eles negaram.

"A pessoa que já acordou cedo só pra desenhar uma rola na sua cara não me surpreende mais." Cascão comentou e Nik assentiu concordando.

Tikara deu de ombros.

"Que seja! Não vou me irritar a essa hora. Uso a de ontem mesmo." falou entrando novamente no banheiro, todavia, chegando lá, teve uma surpresa.

"O CARA PEGOU MINHA CUECA USADA? ELE VAI FAZER FEITIÇO OU O QUÊ?!" ele falou e os outros dois não evitaram o riso.

"Caralho, mano. E agora?" Nikolas perguntou.

Tikara respirou fundo.

*

Enquanto isso, no refeitório, o grupo de Penha estava reunido em sua mesa habitual enquanto tomavam café da manhã.

"Seu cabelo 'tá radiante hoje, Toni." Denise zombou, recebendo um olhar feio em resposta.

"Esperra aí, Cebola… você pegou as cuecas do Tikarra? Inclusive a que ele tinha acabado de usar? Que nojo!" Penha comentou enojada.

"Em nome da vingança! Aquele japa vai aprender a não tentar fazer trote comigo." Cebola justificou.

"Cebola, devia aprender com o Toni que decidiu deixar pra lá. Atitude muito boni…" Sofia falava até ouvir a risada do loiro.

"Quem disse que deixei pra lá? Ele vai ter o dele ainda! Só estou fazendo ele acreditar que venceu essa." confessou.

"Aff, gente, o que vocês ganham com esses trotes?" Sofia perguntou.

Os três a encararam.

"E essa agorra? 'Tá com pena? Quando você entrou…" Penha falava até a outra bufar.

"Quando eu entrei, ninguém teve pena de mim e as coisas só melhoraram quando você apareceu. Eu sei disso! Mas é que esse trote não faz o menor sentido!" a de cabelos curtos completou.

"Essa daí 'tá se bandeando pro outro lado! Ontem eu 'tava dizendo que o Sonic…" Denise falava enquanto comia um pedaço de pão.

Sofia bufou enquanto se levantava.

"O nome dele não é Sonic, é Jeremias! Coisa chata!" falou saindo com sua bandeja.

Os demais olharam.

"Acham que ela tem uma queda por ele?" Penha comentou.

"Ele não faz o estilo da Sofia." Denise disse.

"Estilo botijão?" Cebola zombou e os demais riram, exceto Denise.

"Cala a boca, Cebola! Toni, por que o Sonic não 'tá mais sofrendo trotes? Você 'tá amolecendo?" ela perguntou.

"Amolecendo? Eu? Óbvio que não! Eu só não quero ir pro banco de reserva, ele ficou amiguinho do Cascão, o capitão do time." Toni explicou.

"Medroso!" Penha exclamou.

"Precavido! Se eu for pro banco, como as meninas vão ver tudo isso em campo?" ele perguntou apontando para si com as mãos.

Os demais reviram os olhos.

"Penha, eu soube que você foi pra diretoria. O que aconteceu, mulher? Um de nós ser mandado pra lá é quase impossível." Denise mudou de assunto.

"Disse certo: quase. Deve ter sido culpa da Magali." Penha mentiu.

"Deve ser. Se me dão licença, tenho umas coisinhas pra fazer." a ruiva disse saindo da mesa.

"Eu também tenho que ir nessa, resolver umas coisas do meu grupo. Até mais, linda." Cebola disse beijando a namorada e saindo.

Toni olhou para Penha e riu.

"Ô Penha, você que divide quarto com ela… sabe se essa Mônica é solteira?" ele perguntou.

"Você vai mesmo dar em cima dela, Marco Antônio?" ela questionou.

"A rival é sua, eu posso muito bem dizer que só sou sua vítima, já fiz antes e funcionou. E olha pra mim? Sou o sonho de consumo de toda garota!" ele disse e Penha riu.

"Sabe, Toni, eu tenho pena de você. Das suas insegurranças então, nem se fala. A propósito, já disse o quanto esse glitter combina com seu cabelo? Querria ter visto com a tinta rosa." a moça falou fazendo o sorriso dele morrer.

"Cala a boca, Penha!" o rapaz exclamou e ela riu se levantando.

"Pela sua reação, estou certa." ela disse e saiu.

O loiro bufou.

*

A aula não demorou a chegar e passava de maneira lenta já que os alunos foram submetidos a avaliações de todas as matérias para que fosse testado o nível de conhecimento deles.

À tarde, assim que chegou a hora do almoço, o refeitório estava cheio de jovens famintos e exaustos. Em uma das mesas, Mônica e Magali comiam. A de cabelos curtos até tentou convencer a amiga a comerem na mesa dos alunos influentes, mas a outra não quis.

"Magá, seu pai não sabe do bullying e trotes que rolam aqui?" Mônica perguntou após engolir seu macarrão.

"Sabe." Magali respondeu simples.

"E ele não faz nada?" a outra perguntou surpresa.

A veterana tombou com a cabeça.

"Geralmente, esses bullies são de famílias que colaboram muito com o IL. Tem saído mais aluno do que entrado, então, pra não ficarmos no prejuízo, essa ajuda financeira é ótima." ela disse.

"Então por isso eles são protegidos? Porque os pais pagam mais?" Mônica perguntou e a outra sorriu amarelo.

"É basicamente isso." concluiu.

Mônica revirou os olhos.

"Que bobagem! Só por serem riquinhos eles podem fazer o que querem?" ela perguntou.

"Não é bem o que querem, só… não são punidos severamente." Magali esclareceu.

A novata revirou os olhos.

"Por isso que as matrículas caem, o inocente sofre e ainda é ignorado. Mas e você? Também é protegida?" Perguntou.

Magali riu.

"Eu queria, Mônica. Mas, na real, eu preciso ser exemplar o tempo todo. A filha do diretor da escola perfeita precisa ser perfeita." respondeu.

"O que quer dizer com perfeita?" a outra perguntou.

"Ah, você sabe: notas altas, gentileza, boa perspectiva de futuro, disciplina…" a de cabelos longos enumerava.

"Ser alvo de bullie e não poder fazer nada, deixar o povo te tratar como bem entendem… na boa, Magali, essa perfeição que seu pai quer só vai te foder." Mônica interrompeu sincera.

Magali sorriu fraco.

"É… mas e hoje? Penha te irritou?" ela mudou de assunto e Mônica sorriu enquanto bebia seu suco.

"Acredita que ela não fez nada? Eu não sei se acho isso bom ou ruim." confessou

"Talvez ir para a diretoria tenha feito ela mudar de ideia." Magali comentou.

Mônica fez uma careta.

"Assim? Do dia pra noite? Eu duvido! Vou ficar de olho." falou e a amiga assentiu.

*

Em outra mesa estavam Nikolas, Tikara e Xaveco almoçando.

"Espera aí! 'Tá dizendo que o Toni não fez nada? Deixou por isso mesmo?" Tikara perguntou surpreso.

"De manhã ele não fez nada, ainda tem um dia inteiro pela frente." Xaveco disse após engolir sua comida.

"Vocês dois são doidos em revidar trote daqueles dois." Nikolas comentou enquanto dava a última garfada em seu macarrão.

"Não é a gente que é doido, você que é medroso, Nik. Cara, como você fazia quando era novato? Fugia o tempo todo?" o de cabelos lisos perguntou também terminando de comer.

"Sim, era exatamente isso que eu fazia. Eu decidi ser um verdadeiro invisível na sala de aula." Nik confirmou.

"Tão invisível que acabou sem amigos, né?" Tikara observou.

Xaveco olhou feio para o de feições asiáticas.

"Tikara! Deixa o Nik em paz, não é como se na nossa sala tivesse gente receptiva. Mas e você? O que o Cebola fez?" ele perguntou também já satisfeito.

"Deixou ele peladinho." Nikolas falou risonho.

"Como assim?" o loiro perguntou se levantando com os dois.

"O cara sumiu com todas as minhas cuecas, inclusive a que eu 'tava ontem, essa ele pegou quando eu saí do banho hoje cedo." Tikara explicou andando com eles.

O loiro arregalou os olhos.

"Então você 'tá sem nada aí embaixo?" ele falava até Cebola aparecer sorridente.

"Fala aí, Tikara! Ouvi dizer que sua popularidade muda rápido, é verdade?" ele perguntou.

Tikara franziu o cenho.

"O quê?" questionou e os amigos também olharam sem entender.

"Ué, ontem você era o cara de rola, hoje é o que perdeu a ceroula!" Cebola disse e, no mesmo instante, abaixou as calças de Tikara, que largou sua bandeja e cobriu as partes baixas com as mãos, mas como estava bem no meio do refeitório, muita gente viu.

"Idiota!" exclamou antes de sair rapidamente enquanto subia suas calças em meio a várias risadas.

"Espera, Tikara!" Xaveco gritou e deixou sua bandeja na primeira mesa que apareceu e arrastou Nikolas consigo, que também deixou a sua ali.

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A mesa que as coisas haviam sido abandonadas era a que estavam Cascão, Gabriela, Milena e Jeremias junto de outros jogadores. Todos já haviam acabado de comer, mas ficaram por ali.

"Caralho, Cebola, pegou pesado!" Cascão exclamou quando o outro se aproximou aos risos.

"Ele tentou fazer um trote comigo, só paguei na mesma moeda." ele disse.

"Na mesma moeda? E o menino por acaso te humilhou na frente de todo mundo?" Gabriela questionou.

Cebola revirou os olhos.

"Chatos!" exclamou antes de sair.

"Qual é a dele? Sei que é um dos bullies, mas ele parece ser diferente dos outros." Jeremias observou.

"É tudo farinha podre do mesmo saco, Jerê. Mas o Cebola é menos violento que o Toni, ele gosta mais de fazer esquema pra zombar de alguém.” Milena explicou.

"Bando de ridículos! Acham que dão medo!" o novato disse.

"De alguns deles deveria ter, Jeremias. No seu caso que é novato, mais da fofoqueira, a Denise." Gabriela revelou e ele riu.

"A que me chama de Sonic pra me atingir?" falou debochado.

"A questão não é o apelido, é o que ela pode espalhar por aí. O povo acredita mais nela do que na própria pessoa." Cascão disse.

"E eu sou do quarto dela, ontem ouvi ela falando pra uma das discípulas dela que você devia estar falando alguma coisa pra fazer a Sofia não querer mais mexer com trote." Milena revelou.

"Sofia ser do bem incomoda a amiguinha, pelo visto. Enfim, eu não ligo pra eles." Jeremias concluiu.

"Mudando de assunto, cadê a sua amiga, Mi? A novata… esqueci o nome dela." Gabriela perguntou.

"A Ramona. Eu chamei ela pra sentar com a gente, mas ela disse que tinha umas coisas pra resolver." ela disse e os demais deram de ombros.

*

O horário do almoço, como sempre, passou rápido. Logo os alunos foram liberados para as suas atividades da tarde.

Na sala 144, Ramona estava no fundo da sala batucando seu dedo indicador na mesa enquanto esperava os outros membros do grupo de xadrez chegarem, dentre eles, Átila, o responsável pelos esportes. Quando o professor entrou, a moça e também Xaveco se surpreenderam ao virem que Cebola entrou com ele, assim como Do Contra.

"Boa tarde, gente. Esses dois aqui vão cuidar da lista de presença, o resto é com vocês." Átila disse e logo saiu.

Ramona e Xaveco, que eram novos ali, olharam surpresos para a falta de interesse do docente. Mas a surpresa cresceu quando a lista que foi colocada em cima da mesa foi assinada por vários alunos que logo deixaram a sala sobrando apenas os dois novatos, os dois responsáveis pelo grupo e mais dois rapazes que estavam sentados nas carteiras da frente.

"Ué?" o loiro comentou.

Do Contra, que estava sentado tranquilamente na cadeira do professor, olhou para ele.

"Ah, é. O treinador não supervisiona o grupo, às quartas sou eu e às segundas, pra quem não faz EA, o Cebola; então se quiser só assinar a lista e sair pra fazer alguma coisa, é só ir. Mas saibam que os inspetores sempre estão por aí, então não deem bobeira." explicou simples.

“Se algum de vocês faz futebol, tem dez minutos pro primeiro treino começar.” Cebola disse e saiu.

Xaveco olhou para Ramona, que também parecia confusa, e depois para Do Contra.

"Ér… o que é EA?" ele perguntou.

"Estudos avançados. Aquele que você escolhe uma disciplina específica e estuda mais sobre ela." o moreno respondeu.

"Ah, então eu posso vir só de segunda? Hoje eu tenho futebol." o outro perguntou

"Você pode fazer o que quiser, Xavier. Eu não vou forçar ninguém a ficar aqui se a vontade é outra." Do Contra respondeu e o loiro levantou.

"Fechou! Falou!" ele disse, assinou e saiu.

Ramona olhou para a sala parcialmente vazia em que apenas os outros dois rapazes arrumavam o tabuleiro de xadrez na mesa deles.

"É isso? Ninguém liga?" ela perguntou.

"Ou você participa de um EA ou de um esporte ou dos dois, o povo não quer nem um e nem outro, então eles escolhem o único esporte que o treinador ignora e também ignoram, mas como a presença ajuda, assinam a lista." Do Contra explicou.

"Mas…” ela falava até ouvir um dos jogares.

“Ei, dá pra ficar quieta? Tem gente tentando jogar aqui.” ele repreendeu.

“Pega leve, é o primeiro dia dela aqui. Vou te falar como as coisas funcionam, Ramona: se você quiser jogar, é só ter uma dupla; se quiser orientar algum jogador, é só se juntar a ele; e se quiser discutir alguma jogada, pode escrever as coisas na lousa.” ele disse apontando para a lousa.

A ruiva piscou um olho de cada vez.

“Às segundas é assim também?” ela perguntou.

“Não sei, de segunda é o Cebola que fica aqui. Eu faço EA em filosofia.” o moreno respondeu.

“Eu já vim numa segunda, é a mesma coisa. Só que o Cebola é chato de competir, ele é competitivo demais.” o outro jogador disse.

A moça olhou entediada.

“E... você não vai jogar, Do Contra?” ela perguntou.

O moreno se espreguiçou.

“Hoje não ‘tô muito a fim, dormi muito tarde por causa do Toni, ele lavou o cabelo umas cinco vezes ou mais.” ele respondeu.

A ruiva crispou os lábios e olhou para os rapazes que jogavam.

“Nem olhe pra gente, não queremos ninguém em cima.” um deles disse sem olhar para ela.

Ramona suspirou e deitou a cabeça na carteira com um suspiro ficando um tempo assim. Quando levantou, quase se assustou com a proximidade de Do Contra, ele havia se sentado de frente para ela.

“Mas, eu posso falar com você. Pra atrapalhar os dois ali e trabalhar o foco diante do barulho.” ele disse.

“Falar de quê?” perguntou.

“Da sua nova realidade. Como tem sido estudar aqui?” o rapaz perguntou e Ramona quis rir.

“Em uma palavra: péssimo. E você? O que o trouxe a este lugar maravilhoso?” ela perguntou.

O rapaz empinou a cadeira.

“Eu sou um cara meio excêntrico, gosto de coisas que fogem do padrão. E tenho pais conservadores, uma coisa não combina com a outra, sabe? Então um cara ‘rebelde sem causa’ como eu devia ser disciplinado para ‘aprender a ser gente’. E aqui estou.” respondeu e a moça arregalou os olhos.

“Nossa... eu... sinto muito.” ela disse.

“Não sinta, é até melhor... pra mim e pro meu irmão.” o rapaz disse.

“Seu irmão estuda aqui também?!” ela questionou incrédula.

“Eles também queriam que ele aprendesse uma coisa, mas era ‘ser um homem de verdade’. Ele ‘tá no terceiro ano, este ano sai daqui, eu ainda tenho um ano pela frente.” revelou.

Ramona não entendeu o que ele quis dizer ao falar do que o irmão deveria aprender, mas não comentou.

“E você? Eu imagino que não veio só pra se socializar.” ele disse.

A ruiva negou.

“Na verdade, é só pra isso mesmo. Eu sou um pouco tímida, e minha mãe acha que isso é um problema muito grande. Então eu precisava viver muito com outras pessoas para aprender a me socializar melhor e... perder a timidez.” explicou.

“E você acha que vai funcionar?” Do Contra perguntou.

“Não. Eu só converso com duas pessoas, você e Milena. Mas ainda assim, não falo muito ou estou sempre com algum de vocês.” confessou.

O moreno assentiu e logo se levantou para ir até uma caixa. De lá, ele tirou um tabuleiro.

“Eu quero ser as pretas, tudo bem?” falou colocando o tabuleiro em cima da mesa e pegando as peças.

“Ok. Já aviso que jogo muito bem.” ela falou e arriscou uma piada que tirou um sorriso de Do Contra.

“Veremos.” ele disse e ela riu.

Enquanto ele ainda colocava as peças, ela se lembrou de algo.

“Realmente o Cebola...” ela falava e DC não evitou um riso.

“Sim, ele é um grande jogador de xadrez. Aquele grupinho pode até ser idiota, mas eles são mais habilidosos do que parecem.” ele disse e a moça assentiu sem vontade de perguntar sobre eles.

*

Enquanto isso, na parte de dentro da quadra, três times estavam reunidos, os de futebol masculino, futebol feminino e vôlei, que naquele ano seria unissex. Para a surpresa dos alunos novos, não tinham mais esportes além desses, e isso resultava em times com bastante alunos, já que o time era único para o internato inteiro.

Átila, o treinador e professor de educação física, não interferia muito nas decisões dos três capitães. Todavia, era ele quem mediava tudo e os orientava.

“Tá, agora os novatos da minha sala. Xavier, Tikara e Jeremias! Geralmente vocês ficam em qual posição?” Cascão perguntou após falar com outros novatos de outras salas e com o treinador.

“Sonic de quatro, por ser um ouriço; Tikara com o pau pra fora; e...” Cebola zombava até ser interrompido pelo capitão.

“Sem gracinhas, Cebola! E a pergunta foi pra eles.” ele falou e o outro se calou, havia esquecido que Cascão ficava sério nos treinos.

“Foi mal.” desculpou-se.

“Eu jogo em qualquer posição.” Jeremias disse.

“Eu também.” Tikara falou com o olhar perdido.

“Eu jogo no gol.” Xaveco disse.

“Certo. Pra quem é novo aqui, a gente divide a quadra com a galera do vôlei e do futebol feminino, infelizmente é assim. Então cuidado pra bola não bater na galera do vôlei e temos intervalos pra dividir com as meninas do fut’ ali.” Cascão falou e apontou para os times.

“Todas as oito?” um aluno questionou.

“Sim, todas as oito! E já vou avisando, é pra respeitar as minas. Agora quero ver os novatos em ação!” ele respondeu batendo palmas.

Átila sorriu para Cascão.

“Muito bem, Cascão! Você vai ser um ótimo jogador ou até mesmo técnico no futuro.” ele elogiou e o outro forçou um sorriso.

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Enquanto isso, Gabriela chamou o treinador para ajudá-la a dividir pequenos grupos para observar as habilidades dos novatos. Eram muitos membros no time.

“Quero conhecer a maneira que vocês jogam também! Os novatos, se dividam em dois times. Já vou avisar desde agora, odeio corpo mole e quem ficar de corpo mole, seja novato ou veterano, vai ficar pra arrumar a quadra.” ela falou metódica e o professor levantou um polegar quando ela o olhou.

“Essa daí ‘tá se achando.” Denise sussurrou para Sofia e Penha.

“Sempre se achou. Denise, não se esqueça do que te pedi! Aquela dentuça deve ter algum podre...” a de cabelos negros longos disse olhando para Mônica e a outra assentiu.

“Pode deixar!” a ruiva exclamou sorridente.

Penha se virou para os rapazes que jogavam.

“Esses novatos da nossa sala não vão chegar aos pés dos que saírram ano passado do time.” comentou.

“Talvez o Sonic, ele parece jogar bem e certeza que vai conseguir umas dicas com o Cascão e o Titi que são amiguinhos dele. Já o Tikara, conseguiu ser um zero à esquerda até pra arranjar amigos; e o Xavier... sem comentários.” Denise observou enquanto os encarava.

A de cabelos negros olhou para Sofia, que observava o jogo de vôlei.

“Sabe, Sofia, seu crush até que é bonitinho.” comentou.

“Meu crush?” Sofia questionou.

“O Sonic.” Penha disse.

“Ele não é meu crush. E seu nome é...” ela dizia calmamente até a morena rir.

“Penha, meu nome é Penha.” brincou e as duas riram. Depois do riso, Sofia pareceu relaxar um pouco mais.

“Você é boba.” a de cabelos curtos disse.

“Sofia, Denise e Penha. Pra quadra!” Gabriela chamou e as três bufaram.

Propositalmente ou não, Mônica e Penha acabaram em times diferentes. Essa ocasião fez com que a primeira visse a chance de atacar a segunda sem levar culpa.

A primeira chance que Mônica teve para fazer um ponto foi usada para outro fim, ela tentou acertar uma bola forte em Penha que estava de frente para si do outro lado aparentemente desinteressada. A grande reviravolta para Mônica veio quando Penha, de uma maneira sagaz, conseguiu defender o ataque devolvendo a bola com uma força que acertou em cheio o chão do time de Mônica que encarava boquiaberta.

Penha sorriu levantando os dedos médios enquanto os balançava para cima e para baixo.

“Mônica, é pra mirar o chão, não a oponente. Deixe suas tretas fora da quadra, por favor.” Gabriela alertou e Penha riu gostosamente.

A loira encarou a de cabelos longos.

“Tá rindo de quê? O mesmo vale pra você.” ela disse e a outra parou de rir incrédula.

“Como que é? Ela que tentou me acertar! Você viu!” Penha argumentou.

“Eu vi você mostrando o dedo do meio pra ela.” a capitã disse.

“Porque ela tentou me acertar! Abaixa a bolinha, Gabriela.” a outra falou gesticulando com as mãos.

Gabriela olhou feio para Penha.

“Abaixa você a sua, eu sou a capitã do time. Sei o que eu ‘tô fazendo!” ela exclamou.

Penha riu sem humor.

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Os horários dos jogos, com intervalos no meio, passavam bem rápido. Quando acabaram, era responsabilidade dos alunos arrumarem a quadra, então os capitães escolhiam membros do time para isso. Cascão, como era democrático, perguntava ao time.

“Rapaziada, geral jogou muito bem hoje. Votação pra saber quem fica pra arrumação.” ele disse.

“Eu voto no Xavier, ele perdeu cinco bolas por bobagem hoje.” Toni sugeriu.

“Votado!” os demais responderam em uníssono e logo foram para o vestiário.

Cascão sorriu para ele.

“Hoje não tem muita coisa, só guardar as bolas e ajudar a galera do vôlei a descer a rede, falou? Tu jogou bem, irmão!” ele exclamou, deu um tapa nas costas dele e saiu.

Xaveco bufou e foi pegar as bolas.

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Do time de vôlei, Gabriela escolhia a pessoa a partir de seu comprometimento no jogo, isto é, se fazia corpo mole ou não.

“Denise e Magali, as duas fizeram muito corpo mole. Ficam pra ajudar.” ela disse.

“Queridinha, eu tenho mais o que fazer pra ficar perdendo meu tempo guardando rede!” Denise exclamou.

“Pensasse nisso antes de fazer corpo mole! Já sabe que se não fizer vai perder a presença, e você sabe que precisa ter, né?” a capitã disse e saiu para o vestiário.

A ruiva bufou.

“Menina chata! Mas olha só... ela me rendeu uma matéria: ‘filha do diretor não recebe tratamento especial da capitã do time e chora’. O que acha, Magali?” ela perguntou sarcástica.

Magali revirou os olhos e não disse nada enquanto ia até a rede, Denise ria do efeito que causou até sentir uma bola acertar suas costas e até sentir o corpo ir para frente.

“Opa, foi mal.” a voz de Milena soou.

Diferente dos colegas, o time todo da cacheada ficava para a arrumação, inclusive ela.

“Fez isso de propósito, né?!” ela falou massageando as costas, havia doído.

“Por que eu faria isso, Denise? Você ‘tá em uma quadra, está propensa a receber boladas. Fora que você é tão santinha, nunca tenta humilhar ninguém... Seria um sacrilégio eu fazer isso de propósito.” a outra falou irônica e a ruiva riu sem humor.

“Não vou falar nada, só de ver seu time com oito membros e várias meninas saírem do seu time pra vir pro vôlei... eu já vejo que a vida fez a humilhação por mim. Beijos, lindinha.” Denise disse e a outra ignorou.

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Não demorou para que a arrumação acabasse, então logo os alunos puderam se trocar e irem tomar banho para jantarem mais tarde. Xaveco entrou no vestiário para pegar suas coisas quando sentiu um empurrão tão forte que o derrubou.

“Quem tu pensa que é pra tentar fazer um trote daqueles comigo?! Você não passa de um merdinha aqui dentro, Xavier! Abaixa essa porra de bola que tu acha que tem!” era Toni com o semblante sério.

Estavam apenas os dois no vestiário, cuja luz oscilava. Naquele momento, o cacheado sentiu medo.

“Desculpe, eu... eu...” o outro falava sem saber como completar.

“Eu... eu... Cadê aquela coragem toda que teve pra colocar aquilo no meu shampoo? Enfiou no cu?” ele questionou se aproximando do rapaz que, assim como no primeiro impacto entre eles, protegeu o rosto.

“Toni! O que ‘cê ‘tá fazendo?” a voz de Cascão soou.

O de cabelos lisos olhou para trás.

“Nada, só ‘tava trocando uma ideia com o Xavier aqui e o cara escorregou. Andam encerando demais pra dar a aparência boa, não é, Xavier?” ele perguntou e o outro assentiu.

“É!” Xaveco respondeu.

Toni saiu e Cascão olhou para o cacheado e foi ajudá-lo.

“Tudo bem, cara?” ele perguntou.

“Tudo, foi só um escorregão.” o outro disse.

Cascão negou com a cabeça.

“Olha, Xaveco, o Toni ameaça mais do que bate, mas ele implicou com você por algum motivo. Aqui no fut’ ele não vai te encher porque ele sabe que se fizer bullying vai pro banco na hora, mas fora daqui... fica esperto.” alertou e o loiro forçou um sorriso.

“Valeu, Cascão.” Xaveco agradeceu e o outro assentiu.

“Agora vamos vazar daqui que o zelador é chatão com horário.” Cascão disse saindo com o outro.

*

Quando chegou o horário do jantar, muitos jovens estavam cansados do dia cheio que tiveram. Assim que acabou de comer, Denise saiu de sua mesa à procura de Sofia que, por algum motivo, não havia jantado com eles.

A moça caminhou até a área verde, onde Sofia mais gostava de ficar, e achou a moça em um banco mais afastado com Jeremias e se escondeu atrás de uma árvore para ouvir a conversa.

“Desculpe por eles! Você não se parece nada com o Sonic.” Sofia disse e ele riu.

“Eu nem ligo pra isso, mas, com todo respeito, seus amigos são muito idiotas.” Jeremias disse e a moça riu enquanto balançava as pernas.

“No fundo, eles não são essas pessoas más que aparentam, Jeremias.” a moça falou.

“Mas o problema é que precisa cavar demais pra achar essa bondade. É mais fácil achar petróleo, Sofia.” o rapaz brincou e ela riu.

“Comigo eles...” ela dizia sorrindo mais fraco.

“Fazem bullying. Você não precisa aguentar isso só porque são seus amigos, sabe?” o moreno falou calmo.

“Mas... a Denise, por exemplo, ela...” Sofia dizia até a ruiva sair do esconderijo.

“Te achei! Ah, oi, Son... Jeremias.” ela disse e ia falar o apelido quando Sofia a olhou feio.

O rapaz olhou surpreso.

“Oi, Fofoqueira.” ele cumprimentou.

“Jeremias, por favor. Ela te chamou pelo nome.” Sofia pediu.

O rapaz suspirou.

“Oi, Denise.” corrigiu e a ruiva sorriu.

“Esqueceu do toda linda e poderosa.” ela disse levantando um braço e Jeremias não evitou o riso.

“Poderosa por causa do seu jornal? O poder que você tem vem do medo que as pessoas têm de aparecer lá, sabia?” ele comentou e a moça deu de ombros.

“Problema deles.” ela disse e o rapaz se levantou.

“Vou indo nessa. Tchau, Sofia. Denise.” ele disse.

“Tchau, Sonic!” a moça provocou.

“Fofoqueira!” ele rebateu saindo em seguida e Denise tentou esconder um sorriso.

Sofia riu maliciosa.

“Percebe que ele não desmentiu que você é linda?” ela comentou e Denise encarou a amiga.

“Sofia... ‘cê por acaso ‘tá me shippando com seu amiguinho?” perguntou e a outra riu.

“Não, mas você não deveria ser tão chata com ele. Ele é legal.” Sofia disse.

“Legal... você trocou duas palavras com ele, como sabe que é legal mesmo e não quer só te manipular?” a ruiva perguntou.

“Me manipular? Por quê?” ela perguntou.

“Sei lá, pra não sofrer trote? Você anda com as pessoas mais influentes do colégio, minha filha. Sabe muito bem que isso é possível, aconteceu antes e você ficou mal pra caralho depois.” Denise lembrou.

Sofia parou de sorrir.

“É diferente. Daquela vez eu ‘tava apaixonada e... enfim, daquela vez ‘tava na minha cara que era ilusão, eu que fui boba. Mas voltando ao Jeremias, eu não ‘tô a fim dele e ele negou fazer parte do grupo, lembra?” ela falou.

Denise suspirou.

“Ai, Sofia... você tem que fechar esse seu coração mole. Confia nos seus amigos... ou pelo menos em alguns.” ela disse e Sofia riu.

“Não se preocupe.” falou calmamente.

*

Enquanto isso, em uma mesa do refeitório já sem comer mais nada, estavam Nikolas, Tikara e Xaveco. O dono dos dreads não falava nada, apenas ouvia os desabafos irritadiços dos amigos que, inclusive, brigavam entre si.

“Eu disse que ia dar merda, Tikara! O Cebola no máximo faz uns trotes, mas o Toni é violento, caralho!” Xaveco exclamou sério.

“Uns trotes? O cara sumiu com todas as minhas cuecas e abaixou minhas calças no meio do refeitório! Você ainda pode ir na direção reclamar; já eu, com que cara eu vou lá falar que o cara pegou minhas cuecas?” Tikara rebateu.

“Como que eu vou lá caguetar o cara mais influente desta merda, Tikara? Nem a filha do diretor tem paz aqui, acha que eu, um relés novato, vou ter se ir lá falar?” o loiro retrucou.

“Quem tem paz aqui, Xavier? Nikolas! Fala alguma coisa!” o de cabelos lisos exclamou.

“Quer que eu fale o quê? Vocês ‘tão competindo quem ‘tá mais no fundo do poço, mas é óbvio que é o Xaveco.” o rapaz se pronunciou e o loiro apontou para o amigo.

“Obrigado!” Xaveco agradeceu.

“Nikolas, eu ‘tô sem cueca até agora! ‘Tá bom que é confortável, mas eu não duvido nada que vou ser chamado na diretoria por isso. Mas só eu, porque o merdinha lá é influente.” Tikara comentou.

“O diretor é mais merda que a escola, já viu a cara dele? Parece que tem medo dos alunos.” Xaveco comentou.

“De certa forma é isso mesmo. Mas e ai? O que vocês vão fazer?” Nikolas perguntou.

“Sei lá. Eu ‘tô tão puto que não sei o que fazer.” Tikara disse.

“Idem! Chega de falar daqueles merdas! O que você ficou fazendo o dia todo, Nik?” Xaveco perguntou.

“Revisando conteúdo pras aulas de reforço, que começam assim que sair o resultado das provas, e estudando.” o amigo respondeu.

“Provinha do cão, hein! Espero não ter me lascado.” Tikara comentou.

*

No dormitório 226B, Ramona estava sentada na cama de Milena junto com ela, as duas conversavam e a ruiva estava até mais animada.

“Você deu uma bolada nela?” a ruiva perguntou sorridente.

“Convenhamos, Ramona, ela ‘tava merecendo. Não só pelo que falou de você no jornal, mas é uma vingancinha pelo ano passado.” Milena disse.

“O que ela fez?” a outra perguntou.

“O time de futebol feminino nunca foi grande, e ano passado era muito fraco. Na nossa sala só tinha eu e Ana, que não estuda mais aqui, mas ela queria sair do time justamente por ser muito precário. Num dia que ela matou a aula de educação física, eu ia ficar sozinha na arquibancada já que Gabi joga vôlei e eu só era amiga dela. Aí eu fui pedir pros meninos pra jogar com eles.” começou.

“Eles toparam e foi até bem divertido, mas as coisas se complicaram quando eu fiquei com um cara do time que a Denise queria ficar há muito tempo e nunca pediu.” continuou.

“Ela começou a escrever indiretas no jornal dizendo que eu colava em prova; que só pedia pra jogar porque era maria-chuteira e outras bobagens. Foi um ano inteiro ouvindo isso do grupo dela, mas no fim do ano ela desmentiu dizendo ter sido só um trote.” Milena completou.

“O que fez ela mudar de ideia?” Ramona perguntou.

“Acho que o fim do ano mesmo ou porque eu sempre fui muito séria com eles e muitas vezes batia de frente com a ajuda da Gabi. Então, talvez ela ainda pegue no seu pé, mas no que eu puder te ajudar, eu ajudo!” ela exclamou e Ramona sorriu.

“Obrigada! É muito bom ter pelo menos dois amigos aqui!” ela disse.

“Dois?! Você fez amizade com mais gente?” a outra perguntou e a ruiva assentiu.

“Eu tenho conversado com o Do Contra, ele é muito legal.” ela disse e a outra olhou surpresa.

“O Do Contra? Uau!” exclamou.

“Por que a surpresa?” a outra perguntou.

“Porque o Do Contra... ele nunca conversa com ninguém da sala. Só o necessário e olhe lá.” revelou e Ramona também ficou surpresa.

*

No dormitório próximo ao delas, estavam Magali, Mônica e Gabriela, todas sentadas no chão enquanto conversavam.

“Ah, Gabriela, fiquei muito chocada quando recebi uma advertência sua. Magoei.” a novata disse.

“Desculpe, Mônica, mas na quadra as coisas mudam.” a loira falou.

“Mudam mesmo, aquela Penha sabendo jogar vôlei me surpreendeu. Mas ela deve estar tramando alguma coisa, 'tá muito quieta.” Mônica disse desconfiada.

“Talvez ir pra diretoria fez ela colocar os pés no chão. Aquela lá tem mesmo é que se foder.” Gabriela disse.

“Quanto ódio, hein?” Magali comentou risonha.

“Lembra do ano passado? O grupo dela inventou que eu era rodada porque fiquei com dois meninos do time; diziam que eu colava nas provas porque vim de escola pública e tirava notas altas; e ainda diziam que eu ia pedir pra sair.” a loira fez uma careta ao lembrar.

“E eles pararam do nada?” Mônica perguntou.

“Às vezes eles param com tudo no fim do ano, deve que o objetivo deles é irritar durante um ano inteiro.” Magali respondeu.

“Por que vocês dizem às vezes? Eles param ou não?” a novata perguntou.

“Eu até hoje só tive o trote da tinta, mas nunca acabaram os boatos sobre eu ser x-9. Fora que eles, vira e mexe, provocam algumas pessoas.” Magali explicou.

“Confesso que eu também acreditava no boato, Magali. Mas o Cas e eu vimos que você não é.” Gabriela disse.

“Cas? Quem é Cas?” Mônica perguntou curiosa.

“O Cascão, o capitão do time de futebol.” a loira explicou.

Mônica sorriu maliciosa.

“Você ‘tá pegando ele, Safada? Ele é gatinho.” comentou e Gabriela riu.

“Escondidos por aí. Magali viu a gente, mas não disse nada ao pai dela.” falou animada.

Magali forçou um sorriso.

“Não tem porque eu fazer isso, né?!” ela disse com a voz forçada, Gabriela não percebeu, mas Mônica sim e encarou a amiga.

Magali bocejou.

“Ai, meninas, eu vou dormir. Amanhã o dia é cheio!” exclamou.

Antes que falassem algo, a porta se abriu.

“Sentadinhas no chão? Que gracinha! Combina dirreitinho com vocês da ralé!” ela zombou e as três bufaram.

“Engraçado você dizer isso quando quem acabou levando fumo da direção foi você.” Mônica rebateu.

Penha riu.

“Querrida, foi só um mal entendido. Se toca! Ai, ai...” ela disse caminhando até sua cama.

As outras três reviraram os olhos e foram para as suas.

*

No dormitório 226A, Do Contra estava atento à conversa que acontecia entre Jeremias e Xaveco.

“O Toni te ameaçou?” Jeremias questionou incrédulo.

“Não foi bem uma ameaça, ele só me empurrou e xingou. O que ele sempre faz.” o outro respondeu.

“Você não acha que devia procurar a direção?” o maior perguntou.

“Desculpe me meter, mas o Toni é privilegiado e as notícias por aqui voam. O Xaveco não teria muita segurança nem se trocassem ele de dormitório.” Do Contra falou.

“Eu ‘tô bem, gente. Vou pensar no que vou fazer.” o loiro comentou enquanto se direcionava até o banheiro.

“Olha, se quiser eu posso ficar de olho nele também.” Jeremias falou.

“Não precisa esquentar com isso, mano. Mas valeu!” o cacheado disse entrando no banheiro. O loiro não diria alto, mas estava bem mais aliviado por ter dito aos seus colegas de dormitório.

Não demorou muito para que todas as luzes dos quartos se apagassem e os alunos fossem dormir. Mais um dia havia se findado.