Internato Limoeiro
6 Capítulo V - Perdidos
Notas iniciais
A sala do segundo colegial parecia mais silenciosa que o habitual naquele dia. O fato de que a qualquer momento alguém entraria com o resultado das provas os deixavam ansiosos. A professora de matemática escrevia alguma fórmula na lousa enquanto falava com sua voz monótona quando um inspetor entrou.
"Bom dia, professora! Os resultados das avaliações acabaram de chegar! Alunos, aqueles que tiveram um resultado insatisfatório, utilizem o horário do almoço para conversarem com os professores das disciplinas em questão. Como sabem, notas baixas não são toleradas." ele disse de maneira mecânica e logo se retirou após entregar o envelope.
A professora abandonou as provas em cima da mesa.
"Só irei entregar ao fim da aula." ela disse e ouviu os jovens bufarem.
Por mais que a docente tentasse, nenhum aluno estava prestando atenção em sua explicação, seus olhares estavam fixos no volumoso envelope amarelo. Quando faltavam cinco minutos para o fim da aula, ela foi até sua mesa, onde abriu o envelope e chamou os alunos pelo nome.
"Aos que tiraram nota baixa em matemática, venham falar comigo." ela falou e talvez nenhum aluno tenha ouvido já que seus olhos estavam fixos no gabarito que estava ali junto de suas respostas.
Penha lia seu documento tentando não esboçar reação nenhuma, mas, por dentro, estava amedrontada. Uma das disciplinas que não conseguiu colar de Cebola havia sido a única em que tirara uma nota baixa: matemática. Quando o sinal bateu, ela esperou todos saírem para falar com a professora, que se escorou na mesa.
"Penha, aquela prova não estava difícil. Principalmente pra quem já estudava aqui." a professora começou.
"Eu tenho dificuldades em matemática." a mais jovem disse.
"Sim, eu vi. Mas me responda uma coisa… como você acertou os cálculos pra chegar no resultado da prova de física e química e errou os de matemática básica?" a outra perguntou de sobrancelha erguida.
A moça abriu e fechou a boca algumas vezes.
"Penha, você sabe que sua situação aqui agora é outra. Eu vou recomendar que você faça monitoria." a mais velha disse enquanto fazia anotações em um caderno.
Penha engasgou com o ar.
"Monitorria é o reforço? Se me virrem em uma aula de reforço…" ela falava até a outra interromper.
"Fale com o monitor de matemática!" falou.
A morena mordeu o lábio inferior.
"Eu...eu posso pedir pro meu namorrado me ajudar!" sugeriu.
"Eu quero saber como anda sua evolução na matéria e seu namorado não é monitor de matemática! Fale com Nikolas. Pode ir." ela disse e Penha saiu da sala com um suspiro.
*
Enquanto isso, na sala do diretor, Magali segurava o choro enquanto ouvia seu pai a repreender furioso.
"Onde já se viu? Você precisa dar o exemplo! Você faz inglês como atividade extracurricular, como que tirou nota baixa em inglês, Magali?" ele questionou.
"Eu… eu… me confundi!" respondeu com um nó na garganta.
"Acho bom que faça esse reforço e que a próxima nota seja uma das melhores da turma! Pode sair agora!" o diretor falou ríspido e a moça saiu a passos rápidos.
Magali caminhava de cabeça baixa e, às vezes, trombava com outros alunos que também tinham suas próprias aflições. No meio desses alunos, ela trombou com Mônica.
"Miga! Eu 'tava te… o que aconteceu, Magá?" ela perguntou e, ao ouvir aquela frase, Magali olhou triste.
"Eu… meu pai…" ela dizia sem forças e a amiga olhou em volta antes de puxar a amiga até um banheiro feminino.
Magali não se permitiu chorar, foi direto até a pia e lavou o rosto. A outra não perguntou nada, mas ficou ali com ela.
"Lembra o que eu falei sobre eu ter que ser uma aluna exemplar? Eu tirei nota baixa em inglês e meu pai ficou puto. Eu sei que é ridículo eu chorar por isso, mas…" a de cabelos longos falava e lágrimas brotavam em seus olhos.
"Não, não é ridículo." Mônica disse abraçando a amiga que não conteve o choro daquela vez.
"O que eu vou fazer, Mônica? Quando Denise e cia descobrirem que eu, a filha do diretor, fui pro reforço elas vão…" ela falava negando com a cabeça até a outra interromper.
"Elas não vão fazer nada. Não é da conta delas! Não se preocupe, você vai sair dessa! E você não ‘tá sozinha, eu tenho que fazer reforço em inglês e matemática. A propósito, sabe quem é Nikolas? E quem é o monitor de inglês? A professora não disse." a novata falou.
Magali passou o braço no rosto e respirou fundo já havia parado de chorar, mas ainda tinha que se acalmar. Mônica aguardou pacientemente.
"Nikolas é aquele de dreads que anda com Tikara e Xavier. Já o monitor de inglês…" ela respondeu e fez uma careta ao fim.
"Quem que é? Não me diga que é aquela chata da Penha?" Mônica questionou e a outra negou.
"É o Cebola, namorado dela." Magali respondeu.
Mônica bufou e encarou o teto.
"Percebe que nesta escola a gente não tem uma notícia boa?!" ela questionou se sentando no chão e Magali fez o mesmo.
*
Sentados na área verde, já alimentados, Xaveco, Nikolas e Tikara estavam felizes por não terem tido nenhuma nota baixa e falavam de suas atividades extracurriculares.
"Aí eu escolhi escrita criativa pra não dar de cara com nenhum daqueles bocós daquela panelinha e vejo o nome da Sofia lá na lista. A Ramona e um tal de Maurício também 'tão, mas a Sofia que me surpreendeu." Tikara disse.
"Em informática, da nossa sala, só tem o Xaveco e a Denise, mas parece que ninguém vai querer ficar perto daquela lá." Nikolas comentou.
"E quem quer ficar perto de bullie? Falando em bullie, ainda 'tá sem cueca, Tikara?" o loiro perguntou.
"Sim, ainda não encontrei nenhuma." outro respondeu.
"Torce pra ninguém vir abaixar tua calça de novo. Nik, nem pra emprestar uma pro colega de quarto." Xaveco brincou e o amigo riu.
"Não se empresta esse tipo de coisa, fora que olhando pro Tikara… sabemos que não caberia." Nikolas disse e o loiro riu alto.
"Tem razão, ficaria muito apertado." Tikara rebateu com um sorriso.
"Posso te garantir que não." o outro comentou.
Os três ainda falavam banalidades quando o grupo de Toni passou e Xaveco sentiu alguém tocar em suas costas, mas ignorou. Não demorou para que fosse a vez de Nikolas sentir alguém o cutucar.
"Oi, Nikolas!" uma voz feminina cumprimentou e ele se virou para encará-la, era Mônica.
"Oi!" cumprimentou a observando bem, era a primeira vez que se falavam.
"A professora de matemática disse que eu precisava falar com você sobre a monitoria." a moça disse.
O rapaz piscou um olho de cada vez como se tivesse se esquecido de algo, mas logo lembrou.
"Ah, sim! Eu… que dia você pode? Quer dizer, eu ajudo alguns alunos do primeiro ano de segunda. Se você não faz EA… eu posso te encaixar… com eles! Na mesma sala… hã… é isso." ele falou confuso e a moça riu.
"Ok." respondeu e logo saiu.
Tikara e Xaveco trocaram um olhar cúmplice.
"Parece que o pequeno Nik 'tá caidinho pela Mônica." o moreno comentou.
Nikolas o encarou.
"Eu 'tô nada!" exclamou sério.
"Tu ficou perdidinho, Nik. Assume!" Xaveco disse risonho.
"Porque eu fiquei surpreso. Ela nunca falou comigo!" o dono dos dreads se explicou.
"É isso sim… Vamos sair daqui, o sol 'tá quente." Tikara sugeriu se levantando e os outros dois o acompanharam.
Eles não andaram muito já que, no meio do refeitório, Xaveco sentiu alguém chutar seu calcanhar o fazendo cair e trombar na lata de lixo.
"Mas que porra?!" questionou e não se surpreendeu quando olhou para trás e deu de cara com Toni e Cebola risonhos.
"O que foi? Vai chorar?" o de cabelos medianos perguntou afinando a voz enquanto cruzava os braços.
O cacheado não disse nada, apenas se levantou lentamente.
"O que é isso nas suas costas?" Nik perguntou tirando um papel das costas do amigo.
"Me chute?" Tikara leu e, no mesmo segundo, levou um chute de Cebola.
“Você que pediu." o outro disse levantando os braços em rendição.
"Ora seu…" Tikara falava zangado até Xaveco o impedir.
"Deixa, Tikara! Vamos vazar daqui!" ele disse e os dois o seguiram.
X
A dupla ria descaradamente quando olharam para o lado e deram de cara com Sofia, que os encarava friamente.
"Qual o problema de vocês?" questionou de braços cruzados.
Os dois reviraram os olhos.
"Ai, Bujão… deixa de ser chata!" Cebola reclamou.
"Vai atrás de alguma coisa pra comer ou fazer, vai." Toni falou.
A moça olhou para o lado, onde viu Jeremias sentado com alguns amigos, e se lembrou do que ele havia lhe dito. Os dois perceberam o olhar da moça.
"Eu não quero que vocês falem assim comigo!" ela disse e a dupla riu.
"É só uma brincadeirinha inofensiva." Cebola defendeu.
"Sofia, entende uma coisa, aquele Jeremias só se aproximou de você pelo mesmo motivo que geral se afastava antes de você começar a andar com a gente: medo de apanhar." Toni falou e a moça estreitou os olhos.
"Isso não é verdade!" exclamou.
"Repara bem no grupo que ele anda. Só tem atleta, tudo magrinho ou sarado. Acha mesmo que você cabe ali naquele meio?" o moreno perguntou.
Sofia olhou para lá, deixando a fala dos rapazes entrar em sua mente.
"Ér… não sei." ela disse.
"Seu lugar é com a gente, mas ajudando nos trotes! Bora, Cebola, eu 'tô faminto e depois ainda tenho que ir pra aula de teatro." Toni disse dando um tapinha no ombro dela.
"Teatro?" o moreno questionou.
"Fui obrigado." o loiro respondeu e os dois se afastaram.
Pensativa, Sofia mordeu o lábio inferior.
*
O Internato Limoeiro, diferente do que muitos imaginavam, não tinha muitas atividades extracurriculares, tanto que várias que tiveram no ano anterior foram cortadas. Eram apenas língua inglesa, escrita criativa, informática e arte, esta, em especial, era a única com duas subdivisões: teatro e pintura.
Da turma de arte, o teatro era a com maior número de membros já que a responsável, uma aluna do terceiro colegial, havia panfletado arduamente o grupo, que corria o risco de fechar, como havia acontecido com a dança.
Uma das pessoas que nunca se imaginou ali era Gabriela, que havia aceitado por querer ajudar o grupo a não fechar. A dona dos cabelos curtinhos havia chegado um pouco atrasada junto de Jeremias, os dois viram Mônica bem desanimada sentada no fundo do auditório e não esconderam a surpresa ao virem que Toni também fazia parte da turma.
"O que aquele moleque 'tá fazendo aqui? Aposto que veio pra fazer bullying com os outros…" a loira comentou.
"Não sei, só sei que espero não ter que contracenar com esse daí." Jeremias disse.
"Idem! Deve ser um péssimo ator." ela falou com um riso.
"Boa tarde, gente! Sou Isadora, do terceiro ano, e estou muito feliz com todos aqui! Eu sou a 'professora' de teatro já que quase sofremos um boicote, então o diretor nem se importou em colocar algum professor aqui." a loira gordinha se apresentou.
"Enfim, teremos um grande ano pela frente! Mas, antes de tudo, alguém aqui manja de edição de vídeo, som e outras coisas que usam internet? A galera da informática ajuda a gente, mas não podemos deixar tudo pra eles." ela perguntou e ninguém disse nada.
Jeremias riu, desacreditando dos demais.
"Eu sei um pouco. Pode me colocar nisso." ele respondeu e Gabriela o cutucou.
"Ótimo! Qual é seu nome e série?" Isadora perguntou pegando uma prancheta.
"Jeremias, do segundo ano." ele respondeu e ouviu alguns risos.
"A roça modernizou, hein?" Toni balbuciou.
"E você não, pelo visto." rebateu e o loiro riu.
Enquanto Isadora falava algumas coisas sobre as aulas, Gabriela cutucou Jeremias.
"Jerê, você se lascou! Quem mexe com essa parte de imagem, som e tudo mais é a…" ela falava até alguém se aproximar de onde Isadora estava.
"Olá, amores! Quem vai ser meu ajudante?" era Denise ali com um sorriso.
Jeremias respirou fundo.
"Ah, não..." ele balbuciou.
"Oi, Denise! Vai ser o Jeremias! Aquele ali." Isadora apontou e Denise sorriu abertamente.
"Não acredito! O Sonic! Tem ideia do tanto de matéria que essa parceria vai render? Não fique esperto e me traga conteúdo!" ela disse e o rapaz revirou os olhos.
"Isadora, acho melhor mudar a pessoa que vai ajudar a Denise, não manjo tão bem assim dessas coisas." ele disse.
"Ah, que isso! Eu vou te ensinar, neném. Não fique triste." ela falou com a voz sarcástica e logo deixou o local.
"Boa sorte, amigo!" Gabriela disse tocando no ombro de Jeremias que suspirou.
*
Já em uma sala de aula, onde aconteciam as aulas de pintura, as coisas eram diferentes. Havia uma professora e um número considerável de alunos.
Penha entrou observando a turma sentada em um círculo e bufou, os únicos rostos que conhecia um pouco mais eram o de Do Contra e o de Cascão, mas não queria sentar perto deles. Então se sentou ao lado de uma moça de cabelos medianos negros.
"Bom, galerinha, nosso primeiro projeto será em dupla! Façam dupla com quem está do seu lado direito e o objetivo de hoje é desenhar essa pessoa a partir do que ela te disser sobre o futuro dela. Mãos na massa!" a professora disse.
A morena de cabelos longos olhou para sua colega de atividade e a reconheceu, mas viu que nunca havia falado consigo antes. Já a outra garota sorriu abertamente.
"Oi! Sou Flavia!" ela cumprimentou animada e a outra assentiu.
"Penha." disse seca.
"Eu sei, somos da mesma sala." a outra disse.
"Então por que está se apresentando?" Penha perguntou e a outra riu sem graça.
"Ah… porque eu sento lá na frente e nunca nos falamos, talvez você não soubesse meu nome." a de cabelos medianos disse.
"Realmente não sabia. Enfim, eu não 'tô com muita cabeça pra papo hoje. Vamos logo com isso! Eu vou ser uma futurra psicóloga. O que eu tenho que saber sobre você pra esse desenho?" a outra perguntou.
"Bom… eu também quero ir pra área da saúde! Quero ser…" Flavia dizia até a outra a interromper.
"Tá, vou te desenhar com um jaleco branco." Penha falou já começando a desenhar.
Flavia a encarou sem reação, mas, ao julgar a expressão facial de Penha, ela realmente parecia estar em um péssimo dia. Então relevou e começou seu desenho.
*
As atividades extracurriculares passaram depressa naquele dia. Já era hora do jantar e Nikolas estava sozinho indo até o refeitório quando foi puxado para um corredor pouco iluminado.
"Mas o quê?" ele questionou.
"Relaxa, garroto. Sou eu!" o sotaque revelou quem era.
"Ah, Penha. O que quer comigo?" ele perguntou curioso.
"Vou ser dirreta. Eu preciso da… você sabe o que de matemática." ela disse olhando para os lados.
Nikolas levantou a sobrancelha.
"Da monitoria?" perguntou.
"Fala baixo! Não querro que ninguém saiba ou me veja com um nerd feito você." a moça disse e o rapaz revirou os olhos.
"Segunda-feira na sala 130 às duas horas. Se você faz EA, a gente pode ver o que faz." ele disse.
Penha crispou os lábios.
"Eu não faço EA, mas não pode ser de sábado?" ela perguntou.
"Eu não fico aqui aos fins de semana." o rapaz respondeu.
"Eu também não, mas… a gente poderria se encontrar forra daqui! É até melhor que ninguém descobre." a moça disse e o dono dos dreads riu.
"Eu não vou fazer isso. Eu só posso te ajudar a partir do que eu já disse, agora se você que não quer que te vejam como uma relés mortal que não tem facilidade com matemática, eu não posso fazer nada." ele disse e ela bufou.
"Menino chato! O que você quer em troca de me ajudar aos sábados?" Penha perguntou.
Nikolas pensou por alguns segundos.
"Quero que seu grupinho deixe meus amigos em paz." pediu.
Penha arregalou os olhos.
"Como você quer que eu faça isso? Não vai dar, não." falou negando com a cabeça.
"Então não vai dar pra eu te ajudar." ele disse girando os calcanhares.
A moça mordeu o lábio sentindo o desespero falar mais alto e o puxou pelo braço.
"Não, esperra! Eu… eu vou falar com o Toni e o Cebola. Mas é pra me ajudar e não pode falar pra ninguém! Senão eu acabo com sua vida!" ela exclamou séria.
"Se você fizer sua parte, eu faço a minha." o rapaz disse e ela assentiu.
"Combinado! A gente se fala na sexta antes de eu ir pra casa." ela disse apertando a mão do rapaz, que logo saiu.
Penha colocou o cabelo para trás com um suspiro e saiu do corredor, porém, ao virar, deu de cara com Cebola.
"O que vocês 'tavam fazendo nesse corredor escuro?" ele perguntou e ela lambeu os lábios.
"Nada." respondeu.
"Nada?" o namorado questionou.
"Erra bullying! 'Tava dizendo o quanto ele é patético!" a moça mentiu e o rapaz cruzou os braços.
"Essa é a pior desculpa que já ouvi na minha vida! Esse cara 'tava dando em cima de você?" o moreno perguntou.
"O quê? Não!" Penha exclamou.
"Então era o quê?" o moreno insistiu.
A namorada bufou.
"Ai, Cebola! Me erra! Você nunca foi desses papinhos!" ela disse.
"Claro! Ninguém nunca deu em cima de você! Esse nerd deve estar querendo alguma coisa… somos do mesmo dormitório, sabia? Eu vou descobrir." ele disse já saindo e ela o puxou.
"Cebolácio! Deixa o menino, ele não fez nada e acha que eu ficarria com um pé rapado sem nada demais feito ele?" ela falou e o outro riu.
"É… foi mal. Tudo bem? Parece preocupada." Cebola mudou o foco e ela forçou um sorriso.
"Eu 'tô bem, só 'tava pensando em… em como é horrível dividir quarto com aquelas meninas." mentiu, era a última coisa que passava em sua cabeça.
"Sei como é. Eu decidi devolver as cuecas do Tikara agora à tarde, um dos inspetores 'tava quase achando meu esconderijo. Mas é claro que não deixei barato." ele disse.
"O que você fez, Cebola?" a moça perguntou cansadamente.
"Deixei na água sanitária. Só as brancas que não, essas eu coloquei numa mistura de…" ele falava até ela o interromper.
"Ai, não querro saber, não. Não acha que devia, sei lá, parrar de mexer com ele?" Penha perguntou e o rapaz estreitou os olhos.
"Você pedindo pra eu parar com o trote com o Tikara logo depois de falar com o amigo dele… com o que aquele Nikolas 'tá te chantageando, Penha?" ele questionou.
Penha bufou.
"E eu lá caio em chantagem? Eu só… sei lá, a Sofia falou com tanto fervor sobre trotes que eu…sei lá." falou e o rapaz riu a abraçando.
"Ah, não liga pra ela, Amor. Aquele tal Jeremias conseguiu virar a cabeça dela." ele disse e a moça sorriu.
Antes que falassem alguma coisa, a voz de Denise soou.
"Penha! Penha!" a ruiva chamou.
"O quê?" a morena perguntou.
"Enquanto eu 'tava na minha aula de informática, eu entrei nas minhas redes sociais e stalkeei a novata." ela disse com um sorriso orgulhoso.
"A Mônica? E o que você descobriu?" Penha questionou e a outra sorriu abertamente enquanto abria o jornal, que ainda estava sendo distribuído aos alunos.
A morena lia com um sorriso no rosto enquanto Cebola balançava a cabeça para os lados com um riso.
"Isso vai dar uma merda, Denise." ele comentou.
"Ela que procurou, né, fofo?" a ruiva deu de ombros.
*
Após jantarem, Mônica e Magali ficaram na mesa que era mais afastada enquanto falavam do fim de semana.
"Eu mal posso esperar pro fim de semana! Finalmente vou poder comer uns docinhos!" Magali comentou e a outra a encarou.
"Você come doces? Eu nunca vejo você comendo sobremesa." Mônica observou.
A amiga engoliu em seco.
"É que eu… tento manter a dieta, sabe?" ela disse e a outra assentiu sem acreditar muito.
"Sei… mas me diz uma coisa… sabe o Cascão?" perguntou e a de cabelos longos sorriu.
"Sei? O que tem ele?" respondeu com outra pergunta.
"O que acha dele?" Mônica perguntou e a outra olhou para o nada.
"Acho incrível. Além de ele ser uma pessoa muito legal, representa o segundão muito bem." ela respondeu brincando com uma mecha de cabelo.
Mônica sorriu maliciosa.
"Só isso?" perguntou e a outra olhou.
"Aonde quer chegar, Mônica?" devolveu uma pergunta.
"Eu te achei meio séria quando a Gabi falou dele. Até achei que ele, sei lá… fosse seu crush." revelou e a amiga arregalou os olhos antes de desviar o olhar.
"Não, ele não é… quer dizer, eu acho ele bonito, mas… eu jamais teria chance com ele! Ele e Gabi parecem firmes e… o cara é muito popular por aqui, nem teria como." ela falou e Mônica riu.
"Hum... " balbuciou maliciosa e a outra bufou.
"Para, Mônica! Não se esqueça que as paredes aqui têm ouvidos!" Magali falou e a outra riu.
"O quê? Você só 'tá dizendo que ele é bonito!" ela comentou.
"Mas os boatos por aqui são destrutivos!" Magali disse e, no mesmo instante, uma das pessoas que mexia com o jornal de Denise foi até elas.
"Jornal da escola!" entregou e logo saiu.
"Esse jornal é o motivo de muita transferência de escola." Magali falou enquanto o abandonava na mesa.
"E seu pai não faz na… caralho! Aquela vaca 'tá falando de mim!" Mônica, que lia por cima, exclamou.
"Diferente da novata que é minha colega de quarto, aquela cuja vida não tem nada de emocionante, a outra novata da minha sala é o oposto! Sabiam que ela foi expulsa da antiga escola por ser briguenta e por fazer atos obscenos que tenho que censurar? Algo me diz que isso vai se repetir, afinal, dormir com alguém, ela já dormiu, só falta a briga." a moça leu e a outra encarou boquiaberta.
"Como aquela piranha descobriu isso? Eu vou é tirar satisfação agora! Quem ela pensa que é?" Mônica levantou e saiu a passos rápidos.
"Mônica! Espera aí! Não faça algo que vai se arrepender depois!" Magali exclamou indo atrás dela.
X
Não foi difícil para Mônica encontrar Denise já que ela também estava no refeitório, sem nenhum de seus amigos. Assim que a viu, nem falou nada, apenas a empurrou com força, fazendo-a cair do banco.
"Que porra é essa?!" questionou enquanto se levantava chamando a atenção de todos que estavam em volta.
"Quem você acha que é, garota?! Vem falar de mim como se eu fosse uma das tuas amiguinhas idiotas? Se toca, você nem me conhece!" Mônica exclamou e a outra riu.
"Querida, é você que não me conhece! No seu lugar, eu pensaria duas vezes antes de mexer com alguém influente como eu." a ruiva respondeu beijando o próprio ombro ao fim.
Mônica riu sem humor.
"Nossa… que garota ridícula. Vai se ferrar! Você, seu jornal e aquele monte de bosta que você chama de amigos!" ela exclamou apontando o dedo.
Denise riu debochada.
"Como eu vou andar com um monte de bosta se eu nem ando com você e muito menos com a caguetinha aí?" ela questionou apontando para Magali ao fim.
"Deixa a Magali fora disso! Você explana que ela é cagueta e quem fala da vida dos outros é você, hipócrita do caralho!" a outra rebateu.
"Foda-se! Não vou dar moral pra barraqueira, ou seria boque…" Denise dizia venenosa até ser interrompida por uma furiosa Mônica que voou para cima de si.
"MÔNICA! LARGA ELA!" Magali gritou enquanto via a amiga puxar os cabelos de Denise, que se debatia.
"AAAI! Me larga, filha da puta!" a ruiva reclamou enquanto tentava desvencilhar dos tapas de Mônica.
Uma rodinha havia se formado ao redor delas e incentivava a briga com o sonoro "briga, briga, briga" até um inspetor entrar no meio.
"Pra direção, agora!" o funcionário exclamou segurando no braço da morena.
"Ela que começou!" Mônica exclamou.
"Não quero saber, pra direção!" o funcionário disse.
"Só eu? Essa idiota aí que…" ela falava.
"DIREÇÃO!" o funcionário gritou e a morena bufou saindo de lá.
Denise levantou e passou a mão no rosto e depois nos cabelos bagunçados e riu.
"Você 'tá fodida, Mônica! Mexeu com a pessoa errada! Idiota! E vocês? Não têm nada de bom pra fazer?" falou ajeitando a própria roupa e os demais começavam a dispersar.
X
Duas pessoas que riam satisfeitas eram Milena e Gabriela, que estavam perto quando a briga aconteceu. Ramona, que estava com elas, também riu, mas de um jeito mais contido com medo de sobrar para si.
"Como eu amei ver aquela idiota apanhando! Vou parabenizar a Mônica!" Gabriela exclamou animada.
"Acho que ela realizou o desejo de muita gente daqui! O que achou, Ramona?" Milena perguntou.
A outra sorriu mais.
"Acho que ela vai parar um pouco com as fofocas." a ruiva disse.
"Ah, eu duvido. Aquela lá não tem vergonha na cara, não. Acho que ela vai é infernizar a vida da Mônica." a loira disse.
"Quero nem ver a cara da Denise hoje no dormitório." Ramona comentou e Milena riu.
"Eu quero! A cara de derrota que sempre quisemos ver!" exclamou.
"Você odeia mesmo ela, hein?" a novata observou.
"Ih, Ramona, se você visse ano passado… a gente ouviu muita merda por causa dela, e só um pedido de desculpas no fim do ano não adiantou de porra nenhuma. Milena aqui perdeu o que poderia ser o amor da vida dela por culpa da Denise." Gabriela revelou.
"Amor da minha vida? Menos, bem menos." a amiga disse com um riso.
"Essa parte eu não sei." Ramona disse olhando para a cacheada.
"Depois da primeira indireta no jornal, eu suspeitei que ela me enchia por causa do Cebola, mas…" ela dizia até ver a expressão surpresa da ruiva.
"Isso mesmo, Ramoninha, ela já pegou aquele traste." a loira comentou com uma careta.
"E a Denise queria pegar ele? Ela hoje em dia anda com ele e Penha!" exclamou confusa.
"Aqui só dá maluco, Ramona. Enfim, eu parei de ficar com o Cebola e um tempo depois comecei a ficar com um outro cara que tinha meu coração todinho. Mas foi eu começar a ficar sério com ele que vieram boatos sobre eu só estar com ele pra ganhar popularidade já que ele era o capitão do time de vôlei." ela disse.
"E teve idiota que acreditou nisso?" a ruiva perguntou.
"Sim! Na verdade, quase todo mundo acreditou, e ele achou melhor acabarmos com tudo, porque os boatos estavam ferrando ele no time." a cacheada falou com um semblante triste.
"Poxa… lamento! E esse cara saiu do internato?" Ramona perguntou e Gabriela riu.
"Ele estuda aqui ainda, é do terceiro colegial, mas anda com os caras do time. Talvez você já tenha visto, é um loirinho de topete, ele chama Felipe." ela falou e a outra negou.
"Nunca vi. Mas vocês… espera aí… você anda com seu ex ficante?" Ramona questionou confusa e Milena riu.
"De um jeito ou de outro eu iria ficar trombando com ele por causa dos esportes. Então… não tive muita saída." respondeu.
"Mas não fica estranho?" a ruiva perguntou.
"Demais! Ele leva um monte de menina pra mesa e dá pra ver que Milena se incomoda, tanto que eles pararam de ficar no meio do ano passado e ela nunca mais abriu o coraçãozinho pra ninguém!" Gabriela que respondeu.
"Por que será? Das duas vezes que abri eu me decepcionei. Então meu foco agora é estudar, passar de ano e jogar!" Milena disse.
Ramona e Gabriela se entreolharam.
"Vê como ela se afetou? Mas e você, Ramona? Achou alguém bonitinho?" a loira perguntou.
Ramona negou.
"Confesso que não reparei em ninguém, em meio a tanta decepção com esse internato fica difícil." ela respondeu.
"Nem o Do Contra? Ele é bonitinho." Milena comentou.
"Do Contra? O menino mais calado e estranho da sala?" Gabriela perguntou surpresa.
"Ele conversa com ela! Eu também me surpreendi!" a cacheada falou.
"Eu nunca reparei nele desse jeito." Ramona revelou.
"Eu acho o irmão dele mais atraente." Gabriela comentou.
"Quem é o irmão dele?" a novata perguntou.
"Aquele ali, é do time de vôlei. Ah, ele 'tá vindo." apontou para o rapaz que se aproximava.
Ramona olhou surpresa, o rapaz de cabelos negros lisos medianos ao mesmo tempo que lembrava Maurício, era bem diferente. Além disso, havia o achado muito bonito.
"Oi, meninas! Viram o… ah, atleta nova?" o rapaz perguntou.
"Do xadrez, esta é Ramona. Ramona, esse é Mauro, mais conhecido como Nimbus." Milena os apresentou.
Nimbus sorriu para Ramona, que corou.
"É um prazer te conhecer, Ramona! Se você é do xadrez deve conhecer meu irmão, Maurício." ele disse.
"Não… quer dizer sim! Conheço." ela respondeu perdida no olhar do rapaz.
"Mas eu sou mais bonito que ele, né?" o rapaz perguntou e a ruiva ficou mais vermelha ainda e perdeu a fala.
"Para de envergonhar a menina, Nimbus." Gabriela repreendeu.
"Eu 'tô brincando. A gente se vê, garotas. Achei o Titi já." ele disse e logo saiu.
Milena e Gabriela trocaram um olhar.
"Gostou do Nimbus, Ramona?" a morena perguntou.
"Ele parece ser um cara legal." responde enquanto se abanava.
"Só isso?" Gabriela perguntou maliciosa fazendo Ramona rir.
"Ah, eu não sei…" ela disse e as duas riram.
"Eles têm uma genética boa. Mas acho importante você saber que quase não vemos Nimbus com garotas." Milena alertou.
"Então ou ele é que nem a madame estudos e esportes aqui e não tem tempo, porque tem muita menina que dá mole pra ele; ou ele não gosta de mulher." Gabriela revelou.
Ramona observou o rapaz de longe tentando o desvendar.
*
Na diretoria, Mônica estava de frente para o diretor se segurando para não falar nada.
"Aqui no IL prezamos por disciplina e respeito, Mônica! Brigas não são toleráveis! Eu vou deixar passar porque seu histórico diz que você é suscetível a desavenças." ele disse sério.
"Desavenças? O senhor viu o que ela falou de mim naquele jornal ridículo?!" ela questionou alto.
"Mônica! Está falando com o diretor, respeito!" a vice-diretora exclamou.
"Não me interessa o que está escrito naquele jornal, a senhorita perdeu a razão quando partiu pra agressão." Carlito disse.
Mônica irônica, mas não disse nada.
"Pode ir agora, e nada de confusões." ele disse e a moça saiu.
"Ah, perdeu a razão quando partiu agressão e nhem nhem nhem…. E ela 'tá certa em falar merda e assuntos que não tem nada a ver com o jornal? Diretor puxa saco do caralho!" Mônica resmungava e caminhou até a área verde a fim de fugir de Magali, queria ficar sozinha, sabia que iria xingar o diretor e queria evitar de fazer isso na frente da filha dele.
Mônica respirou fundo e olhou para cima enquanto ouvia cochichos a seu respeito.
"Que saco de internato!" praguejou alto.
"De saco você entende, né?" uma voz feminina e muito conhecida soou e Mônica bufou.
"O que você quer, Penha?" ela questionou.
"Uou, ficou brava! Vai bater na gente também?" o namorado de Penha perguntou.
Mônica os encarou.
"Vocês não têm nada de bom pra fazer? Por que não vão se pegar e me esquecem?" ela perguntou.
"Só viemos te alertar de uma coisa: você não sabe com quem mexeu!" Penha falou.
"Sei sim, com a amiguinha ridícula de vocês. A propósito, qualquer um que ande com vocês é ridículo." a novata disse.
"Cuidado, Mônica. Denise tem uma arma poderosa que é o jornal. E você tem o quê? A amiguinha que é filha do diretor? Lamento informar, mas é o mesmo que nada." Cebola disse.
"Foda-se? Já deram o recadinho de vocês, podem ir!" ela disse apontando para o lado.
O casal riu.
"A gente avisou!" Penha disse e logo saiu com Cebola.
Mônica bufou enquanto cobria os olhos com as mãos.
*
Faltava pouco tempo para o toque de recolher e Xaveco ainda estava na sala multimídia sem fazer nada, havia decidido ficar o máximo possível fora do dormitório para evitar Toni.
Assim que saiu de lá e entrou em seu quarto, não viu que Toni estava atrás da porta e o acertou levemente.
"Moleque? Qual é a tua? Eu ainda 'tô te devendo uma surra pelo trote!" Toni exclamou zangado saindo de lá e, como de costume, empurrando Xavier.
"Desculpe, foi um acidente!" o cacheado disse.
"Minha mão na sua cara também pode ser um acidente!" exclamou já levantando o punho.
Xaveco cobriu o rosto e sentiu um soco no estômago seguido de um chute na canela. Pela primeira vez, Toni havia realmente o agredido. Esperava mais socos quando ouviu a porta.
"Toni! Que porra 'cê tá fazendo?! Larga o menino!" a voz de Do Contra soou alta e desesperada.
"É pra ele aprender a não fazer trote comigo! Que isso nunca mais se repita, franguinho!" exclamou antes de entrar no banheiro e bater a porta.
O de topete foi até Xaveco e o ajudou a levantar.
"Cara, você 'tá bem?" o moreno perguntou preocupado e o loiro assentiu fraco.
"Tô… por incrível que pareça, não é a primeira vez que apanho de alguém na escola." riu sentindo o estômago doer.
"Quer que eu chame um inspetor? Acho que se tratando de agressão eles deixam de ser inúteis." o outro perguntou.
Xaveco o encarou, pela primeira vez viu alguma reação que não fosse tediosa em Do Contra.
"Não, eu prefiro não ter mais problemas com ele. Pode me fazer um favor?" ele perguntou.
"Claro, o quê?" Do Contra perguntou.
"Não fala disso pra nenhum dos meus amigos ou pro Jeremias ou pra ninguém." o loiro pediu e o outro levantou a sobrancelha.
"Você tem certeza que quer sofrer isso sozinho?" ele perguntou.
"Tenho! Por favor, Maurício!" Xaveco pediu e o colega suspirou.
"Tudo bem." cedeu e o outro sorriu.
O dia não demorou a acabar dando para a tão esperada sexta-feira.
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