Interlaced
2 Until the End
Notas iniciais
"Eu sempre, sempre desejo que esses pensamentos fugazes cheguem até você."
Subaru não consegue pensar, gritar ou mesmo respirar. Seu corpo está paralisado, uma estátua de carne diante do caos.
— Hokuto-chan... — sussurra.
Uma chama ardente reflete em seu rosto. A batalha final chegou e o mundo arde. Ferido e imóvel, ele testemunha a transformação surreal da realidade. Naquele dia, tudo se distorceu em uma pintura grotesca e contaminada. O céu azul deu lugar a um tom esverdeado doentio; a lua emitia um brilho sinistro, enquanto um líquido negro-avermelhado escorria de objetos antes inanimados. O ar, envenenado e tóxico, tornava cada inspiração um sacrifício. A visão corroía a mente de quem ousasse contemplá-la.
Fūma fez tudo isso.
Num instante, o poder de Fūma trouxe a destruição total. Os Kamui da Terra buscavam o Dia Final, a última noite do mundo.
— Monou Fūuma... esse é realmente o seu desejo?
Um som estranho ecoou e a escuridão tremeu. A parede do mal inclinou-se, ameaçando engolir Subaru, mas uma luz celestial irrompeu, dissipando a massa negra. Daquele brilho ofuscante emergiu um jovem de cabelos castanhos, envolto em uma aura dourada. Seus olhos determinados irradiavam um poder misterioso. As roupas, adornadas com detalhes majestosos, brilhavam em ouro com a pureza de um verdadeiro anjo.
O jovem atacou. Era um anjo de guerra enfrentando a Noite Escura na última batalha: Kamui do Céu contra Kamui da Terra. Luz e escuridão colidiam e se repeliam em um ciclo perigoso. Subaru, hipnotizado, não conseguia desviar o olhar do espetáculo — um mito ganhando vida diante de seus olhos.
A exaustão distorcia o rosto bonito do menino. Subaru sentia a dualidade vibrando nele, uma parte da alma mergulhada em trevas. Rachaduras percorriam seu corpo delicado e faíscas de energia saltavam em sua luta desesperada. Contudo, o resultado tornava-se inevitável: a escuridão consumia a luz.
Nesse instante, seus olhares se encontraram.
Os olhos do garoto tremiam, tomados por uma torrente de confusão. A presença de Subaru ali pareceu trazer-lhe uma última dúvida. Sentimentos conflitantes inundavam seu coração — o destino, o sacrifício de sua mãe, as vidas ceifadas, o fardo de ser um Kamui. Ele desejava carregar esse peso sozinho, mas o limite estava próximo. Sua carne e alma queimavam; as chamas em suas veias o consumiam. Ciente da derrota iminente, ele reconhecia que não cumpriria suas promessas. Aceitar o fim? Nunca.
Fūma sorria... Mas Kamui iria impedi-lo.
Kamui tremia, sentindo os membros vacilarem. O corpo semi-divino, que deveria ser um trunfo, tornara-se um fardo de algemas de ferro torturantes. Ele perdia os movimentos. Ossos e sangue. Se pudesse, teria derramado lágrimas, mas não agora. Com determinação trágica, reuniu o resto de suas forças. Já havia vivido solidão suficiente e perdera quem amava; não permitiria mais mortes. Jurou proteger o mundo onde as almas de Kotori e Fūma pudessem descansar. O mundo onde Subaru viveria.
Com o próximo ataque, liberou seu poder latente.
Subaru sentiu o impacto nos ossos. Esplêndido. Era uma visão poderosa e dolorosa: relâmpagos azuis desenhavam padrões belos no ar. As asas de Kamui surgiram, revelando o anjo verdadeiro enquanto lágrimas de sangue escorriam por suas bochechas. O padrão reluzente expandiu-se, engolindo a escuridão e torcendo a luz em uma espiral de preto e branco.
Kamui apontou para Fūma.
Um golpe de choque terrível atravessou seu antigo amigo. Os pés de Fūma deixaram o chão, atingido por um impacto comparável a uma bola de ferro em brasa. Dano massivo. Fūma gritou.
— ...!!
A Espada Sagrada surgiu na mão direita de Kamui. Ele a empunhava com tanta força que a lâmina feria suas palmas, o sangue escorrendo entre os dedos. Fūma, gravemente ferido, mantinha um último sorriso que revelava seus verdadeiros desejos. As Shinkens de ambos estavam prontas para o fim. Palavras foram trocadas até que tudo desmoronou.
— Não...
Subaru não suportava ver Kamui chorando. O som do mundo sumiu quando a lâmina penetrou o corpo do inimigo. Ambos sangravam até a morte, atingindo os pontos vitais um do outro. Fūma morreria nos braços de seu velho amigo... e Kamui também.
— Ka... — Um vazio tomou conta de Subaru. Sua mão erguida congelou. — ...mui.
Um kekkai brilhou. O último resplendor cobriu tudo. Subaru ficou cego diante de tamanho poder, mas sentiu algo quente e gentil... até que sua mente foi engolida pela torrente.
“Vamos acordá-lo quando chegarmos lá...” A voz suave de sua avó e o sorriso de Hokuto piscaram em sua mente. Subaru pensou estar de volta ao jardim da infância, dormindo no colo da irmã. Em sua consciência desvanecida, ouviu a voz trêmula do menino:
— Viva, Subaru.
Ele se lembrou... Naquela noite, teve um sonho estranho. Ele abraçava Kamui por trás em um quarto azul profundo. Ao acordar, a sensação de perda foi uma dor aguda.
Subaru fechou os olhos para aquela memória.
Diante do espelho quebrado, ele começou um novo dia.
— Bom dia, Hokuto-chan.
Seu olho, agora brilhando com uma luz dourada, não derramava mais lágrimas — algo que nem mesmo Seishirou-san seria capaz de fazer. Antes de sair, ele olhou com um sorriso dolorido para a cicatriz em seu peito. Subaru deixou o apartamento, entrando na manhã cinzenta e sombria.
— Eu vou indo agora, Kamui.
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