Interativa - World of Raven
8 Desires
Notas iniciais
Harley se sentou em um local afastado da Grande Arvore, longe da cidade também. Cruzou as pernas no chão e fechou os olhos. Havia um sério problema em ter aquele monte de emoções e sentimentos na cabeça dela o tempo todo. As vezes quando estava em lugares muito movimentados quando era mais jovem, ela sentia como se não fosse uma pessoa, um ser vivo. Se sentia como uma simples energia vagando entre as pessoas, parecia que nenhum sentimento era dela, a raiva, medo, paixão, toda vez que sentia algo ela não sabia se era dela ou de outra pessoa.
Muitas pessoas diziam, “que poder legal” ou “queria poder usar esse também”, sem fazer a mínima ideia de como era difícil aquilo, como era se perder em meio a emoções que ela nem sabia direito como era. Talvez seja por isso que ela tenha ficado um pouco longe das pessoas por um tempo, não se entendia, como iria entender todos ao seu redor ao mesmo tempo?
— Você é estranha demais. – A voz de Vincent a acordou, e ela abriu os olhos devagar. Olhou para ele por um instante e desviou o olhar.
— Obrigado, valeu pela ajuda naquela luta. – Ela falou e deu uma risada curta. – Provavelmente eu teria perdido se não fosse por você...
— Duvido muito, você tem uma habilidade e tanto. – Vincent se sentou na grama ao lado dela, deitando no chão em seguida.
— Não é tão boa assim... – Harley olhou para o chão e fechou os olhos novamente.
— Eu sei, digo, estar em contato com sentimentos assim, deve ser um pouco amedrontador as vezes... – Harley não sabia dizer se Vincent estava sendo apenas gentil ou sincero realmente. – Muitos veem nossos poderes como um presente, mas para alguns de nós isso pode ser uma maldição.
Ela podia sentir um pouco da tristeza que Vincent sentiu ao falar isso, os dois pareciam ter essa opinião em comum.
— Eu não costumo contar isso para os outros, mas eu... “feri” alguém com meus poderes já. Fiquei sem usá-los por um tempo... – Vincent encarava o céu azul e sem nenhuma nuvem de Greeleaf, suspirou devagar.
— Às vezes eu me pergunto se as pessoas que gostam de mim, gostam realmente, se não sou eu na cabeça delas, imputando esses sentimentos...
Harley deitou na grama também, fechou os olhos mais uma vez, voltou a pensar nas coisas em que estava pensando antes.
* * *
Ágda caminhava também por um local silencioso da escola, como num fim de semana, em qualquer mundo, ninguém estaria na escola, mas ela era diferente. Ela estava decidida a vencer, mas sabia que não seria fácil, e não tinha muita família para visitar, não sabia onde eles estavam, e talvez nem quisessem vê-la. Então resolveu estudar, afinal, o lado bom de nunca esperar o melhor, é se preparar para o pior.
Ela entrou na biblioteca, aparentemente vazia. Olhou as prateleiras até encontrar o histórico de lutas da Batalha, estava em uma prateleira alta demais para ela.
Apontou a mão para cima e fez uma pequena ondulação nas ondas ao redor do livro, empurrando o para baixo, mas se surpreendeu com o tamanho dele, com certeza teria mais de duas mil páginas. Pegar aquele livro em queda de dois metros foi um bom exercício.
Levou ele até uma mesa e sentou, olhando o relógio viu que ainda era uma da tarde. Tinha bastante tempo para ler em silencio ali.
Abriu a primeira página, a primeira Batalha. Era difícil acreditar que faziam 200 anos já, e que as pessoas tinham poderes daquele tamanho. Ela leu que um garoto de treze anos foi capaz de destruir toda vida em uma área de cem metros quadrados, o que levou a criação da barreira, parecia magia mas era tecnologia, magia não existe mais. Essa barreira transparente alimentada por alguma energia desconhecida era capaz de nulificar qualquer poder que passasse por ela, ou seja, podia acontecer um Big Bang dentro, se fosse causado por um poder, as pessoas do lado de fora apenas sentiriam um vento forte e ouviriam os gritos.
Não encontrou registros de nenhum Ondulatório, o que a fazia pensar se era algo bom ou ruim. Seus poderes eram desconhecidos, ou eram tão fracos que nem era páreo para outros ali.
E mais a frente, encontrou algo interessante, alguém havia interferido no torneio 192, oito anos atrás. Isso invocou uma lembrança vaga de um discurso que alguém falava quando ela estava em sua casa, assistindo com sua família. Lembra que um cara com uma lança havia derrotado seu oponente e gritado que tudo era uma farsa, então ele baixou a lança em seu inimigo. A tv cortou a cena seguinte. Aquilo era algo curioso, e mesmo sendo algo indiferente para ela, seus instintos diziam que algo ali estava muito errado...
Teria continuado lendo se Grimoir não tivesse gritado “mas que droga!” e atrapalhado sua concentração. Se levantou e foi até onde o som havia sido feito. Lá estava Grimoir atirado no chão, com três livros sobre Condução sobre ele.
— Mas que merda você... – Ele se levantou rapidamente e limpou as roupas, guardando os livros antes que ela pudesse ver algo.
— Eu é que pergunto. Você é tão confiante nas suas habilidades, porque estava lendo sobre elas? – Ela assumiu um tom levemente provocativo. – Ah... Vincent também é Condutor, certo? – Não faria isso normalmente, mas mais uma vez confiou em seus instintos, era quase um poder secundário.
— Acho que você devia se importar com os seus poderes, visto que são tão fracos que nunca apareceram nas Batalhas. – Grimoir também havia lido aquele livro, e então ela lembrou do que Harley havia dito sobre o motivo de ele não gostar de Vincent.
— Pelo menos eu não tenho inveja dos outros, mas qual deve ser o motivo, você queria ser como ele? Ou talvez tenha percebido que seus poderes são tão ruins quanto os meus e queira os dele? – Ela se mantinha calma, sempre foi serena e seria agora também.
— Quando for da sua conta, quem sabe você descubra. – Ele disse rispidamente e deu as costas para Ágda, sem que ela pudesse responder, mas ela nem queria responder também, então simplesmente deixou passar. Mas agora ela sabia que algo estava errado realmente com Grimoir e a Batalha 192.
Grimoir saiu pisando forte da biblioteca.
— Quem aquela desgraçada pensa que é... – Ele parou e deu um grito de raiva, socando a parede em seguida. Correu pelo corredor até um dos banheiros e se trancou lá. Tirou uma foto de um bolso da sua roupa. Duas garotinhas gêmeas, e uma mulher estavam na imagem. – Aguentem firme por favor... Eu vou salvar vocês... Custe o que custar. – Ele sentou no chão, e talvez uma lagrima tenha escorrido por seu rosto.
* * *
— Você sabe que não pode vingar sua mãe ainda. – Ariel falava com uma velha senhora, de cabelos brancos. Sua casa era toda de madeira, e as janelas estavam abertas, deixando a luz brilhante do sol entrar.
— Mas Aurora, eu não posso deixar isso passar... – Ele falou e deu um soco na mesa.
— Garoto, você não é mais estupido como era uma vez, e essa cicatriz nas suas costas está ai para te lembrar o que acontece quando fazemos algo desejando vingança sem pensar. É corajoso, mas te falta paciência.
A senhora falou enquanto preparava algum chá, em dois minutos estava pronto e ela os serviu.
— Quando eu te salvei quase morto na sua casa, sua mãe falou para eu nunca deixar você se arriscar assim. Luriel deu a vida por você, será que ela gostaria que você morresse assim?
Ariel refletiu um pouco e suspirou. Acima de tudo, Aurora estava certa. Não desperdiçaria o sacrifício de sua mãe.
— Acho que você está certa. – Ariel tomou um gole do chá e suspirou.
— Me fale quando eu não estou, – Ela disse e desarrumou o cabelo o jovem, os dois riram um pouco disso. – E além disso, acredite, seu momento vai chegar. – Ela falou e encarou o garoto, que sorria para ela.
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