Insólito

9 Capítulo 8


CAPÍTULO 8: ESPERANÇA AUSENTE

O loiro abraçou o travesseiro, tentando abafar os soluços, mas as lágrimas escorriam sem parar. Seu parceiro alado o encarava sem entender, fazia semanas que Takeru andava estranho, mais quieto e menos sorridente, mas ele nunca tinha visto o adolescente chorar dessa forma.

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O som da xícara atingindo o chão e se despedaçando interrompeu a conversa. Os dois adolescentes voltaram à atenção para o menor, que permanecia imóvel no centro da cozinha, os olhos arregalados, os lábios trêmulos. Ao perceber olhares sobre si, desculpou-se timidamente e se abaixou para recolher os cacos. Yamato foi em direção ao irmão dizendo que não era necessário, e que ele arrumaria a bagunça, mas o loiro queria manter a cabeça ocupada e afastar o comentário que ecoava em sua mente.

“Ai” os cacos no chão se mancharam de vermelho, quando o garoto acidentalmente se cortou. Ele não estava prestando atenção ao que estava fazendo.

“Takeru!” Yamato abaixou-se ao seu lado, puxando a mão ferida, era um corte grande, mas não muito profundo. “Eu disse que arrumaria isso”, seu tom era preocupado.

“Eu estou bem, Onii-chan” sorriu fracamente.

“Você está sangrando, vamos dar um jeito nisso” disse, puxando o garoto e o arrastando até o banheiro.

Takeru estava sentado sobre a tampa da louça sanitária. Yamato estava ao seu lado, limpando o ferimento com um chumaço de algodão, sobre a pia do lavabo estava uma caixinha de primeiros socorros. Taichi estava recostado no batente da porta, assistindo a cena. O mais novo mantinha os olhos fixos no chão, tinha certeza que seus olhos se encontrassem com os do moreno, eles entregariam sua decepção.

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Quando Takeru decidiu visitar o irmão fora de seu dia habitual, ele não tinha muita certeza se a coragem que reunira seria suficiente para explicar o porquê de estar ali, mas sentia a necessidade de contar alguém, e ninguém era tão confiável como seu irmão. Durante todo o caminho foi ensaiando como abordaria o assunto com o mais velho e como exporia o caso.

Quando tocou a campainha do apartamento dos Ishida, pôde ouvir que vozes animadas vinham de dentro. Imaginou que talvez Sora estivesse lá, ou o pessoal da banda, o que fez boa parte da sua coragem e determinação se esvair. Yamato ficou surpreso ao ver o caçula parado ali, em um dia que não era o usual, mas convidou-o a entrar. Se a coragem do loiro já tinha reduzido a metade ao ouvir vozes da porta, ela desapareceu por completo ao ver com quem seu irmão conversava.

Sentado a mesa da cozinha, Taichi tomava uma xícara de café. Espalhados sobre o tampo da mesa, vários panfletos de cursos universitários e faculdades renomadas se misturavam. O moreno pareceu ligeiramente incomodado com a presença do menor, mas disfarçou com um sorriso e o cumprimentou cordialmente. O clima pesado que se instaurou não passou despercebido ao dono da residência, mas Yamato achou que uma conversa despretensiosa afastaria o clima ruim.

“E como vão os estudos?” perguntou ao irmão, enquanto servia uma xícara de café para o menor.

“Bem” respondeu. Estava em pé, no meio da cozinha, os olhos fixos no irmão. “Acho que eu deveria ter ligado avisando” sorriu amarelo. “Eu devo estar atrapalhando”, os olhos correram pelos panfletos espalhados e migraram para a figura morena, mas passaram direto. O mínimo contato visual fazia seu corpo desconfortavelmente se aquecer em partes não muito adequadas.

“Que é isso, nós só estávamos falando sobre a faculdade” disse o loiro, ajeitando-se na cadeira. “Taichi quer ir para a Kyoudai[1] só porque a namoradinha dele vai pra lá”, sorriu maliciosamente.

Takeru sentiu o rosto se aquecer e as mãos tremerem, o estômago embrulhou. A sensação ficou ainda pior quando o riso constrangido do moreno cortou o cômodo. As mãos tremiam tanto, que ele agarrou-se na xícara para disfarçar.

“Como é mesmo o nome dela?” Yamato colocou os dedos nos lábios, pensativo. “É aquela amiga da Mimi, não é?” sorriu malicioso.

“Ruky[2]” Taichi estava visivelmente sem graça com o questionário, sabia que Yamato podia ser muito inconveniente quando queria, mas ele nunca se importara, afinal conseguia ser muito mais irritante que o amigo. Entretanto, as coisas haviam mudado significativamente nos últimos dias, e essa conversa, na frente de Takeru, não era nenhum pouco adequada. “Mas nós somos só amigos” completou de forma não muito convincente.

“Qual é, eu peguei vocês no maior amasso outro dia” Yamato provocou. Antes que Taichi pudesse dizer algo, o som de algo se quebrando chamou a atenção de ambos.

Takeru estava pálido e tremia tanto que era impossível não reparar, suas palavras mal saíram quando ele se desculpou e começou a recolher os cacos maquinalmente, mesmo sob os protestos do irmão.

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O adolescente soltou um gemido de dor, quando o irmão aplicou álcool em sua mão, para desinfetar o ferimento. Yamato ia começar a fazer um curativo quando o telefone tocou. Pensou seriamente em deixar o aparelho tocando, mas lembrou-se que podia ser o pai e levantou-se para atendê-lo, não sem antes pedir que Taichi fizesse o curativo.

O garoto dos cabelos castanhos aproximou-se da pia e pegou o material necessário para fazer uma atadura, mas ao pegar a mão do loiro, sentiu-o puxar a mão bruscamente, encolhendo-a perto de si.

“Espero que tenha se divertido” a voz saiu supreendentemente baixa, porém firme. O garoto encarava o maior, o olhar fuzilante, cheio de ódio e desprezo. Os lábios e mãos tremiam, o loiro não sabia quanto tempo mais conseguiria conter a raiva. “Ingenuidade minha achar que...” mordeu os lábios antes que qualquer palavra sentimental saísse sem seu consentimento. “Pelo jeito sua namorada não dá conta do recado.” Um sorriso malicioso contorceu seus lábios, Taichi só vira aquela expressão uma única vez e fora no rosto de Yamato.

“Takeru, não é nada disso...” Taichi avançou na direção do menor, tentando se fazer ouvir, mas quando as peles se tocaram, ele pôde sentir toda a raiva que emanava do garoto.

“Eu não sou seu brinquedo” a raiva o havia dominado, a frase saiu em forma de grito, agudo e doloroso. O garoto se levantou e empurrou o maior, que fechava a passagem do banheiro. O impacto fizera o ferimento sangrar, mas ele não se importou. Atravessou o apartamento com passos pesados e saiu sem se despedir do irmão.

Yamato ficou com o telefone suspenso na mão, os olhos presos na porta que ficara aberta, uma mancha de sangue na maçaneta. Bateu o fone no gancho, sem se importar com quem estava do outro lado da linha e correu em direção ao banheiro. Taichi estava encostado na pia, o peito da camisa estampado com sangue, os olhos desfocados.

“O que aconteceu?” A pergunta saiu alta e rigorosa.

“Eu sou um idiota” murmurou o moreno, a voz chorosa.

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Takeru não sentia a mão doer, nem o esforço da caminhada que fizera a passos rápidos. As lágrimas já não o incomodavam mais, nem o olhar confuso que Patamon lhe lançava. Seu coração parecia bater lentamente, cada batida um enorme sacrifício, e cada sacrifício uma dor que ele achou que jamais suportaria.

Desde que seus lábios haviam se unido aos do mais velho várias sensações e sentimentos haviam cruzado seu coração. Vergonha, medo, aversão, ciúmes, desejo, raiva, mas nenhum deles havia sido tão intenso quanto o sentimento de derrota que o dominava. Toda a coragem que passara dias reunindo não tinha mais significado após aquela tarde. Assim como demorara em se convencer, levaria outro tanto para esquecer, mas ele não podia mais negar: estava apaixonado por Taichi.

Notas finais
N/T: [1] Kyoudai é uma renomada universidade em Kyoto.
[2] Ruky não é uma personagem OC, na verdade em alguns episódios de Digimon Adventures aparecem algumas amigas da Mimi, não me recordo se são citados os nomes das garotas, mas a Ruky dessa história faz alusão a uma dessas amigas.