Insólito
10 Capítulo 9
Notas iniciais
CAPÍTULO 9: CORAGEM COM SABOR DE ESPERANÇA
Takeru encarou o rosto inchado no espelho do banheiro, chorara até adormecer. Ele acreditou que isso o faria sentir-se muito melhor, mas ao acordar no dia seguinte nada havia mudado, e a dor que sentia em seu peito era exatamente a mesma.
Sentiu um frio na espinha quando ouviu a campainha tocar e sua mãe atender alegremente. Só podia ser uma pessoa, e ele não fazia a menor ideia do que dizer. Imaginou o interrogatório ao qual passaria e como isso poderia arruinar uma amizade de longa data. Pensou seriamente em escapulir pela janela, maldita hora que morava no décimo primeiro andar.
“Takeru-kun, temos visitas” informou a mãe, da sala. “Eu já estou de saída, se não vou me atrasar, se apresse e venha logo, não o deixe esperando.” Ouviu a mãe despedir-se demoradamente da visita e o som da porta se fechando, quando ela saiu.
O garoto lavou o rosto e escovou os cabelos com a mão, arrastou o corpo para sala, ainda de pijamas, sem o menor ânimo, estranhou que o irmão não o tinha arrastado do banheiro, mas imaginou que depois de ontem, ele deveria estar mais cauteloso. Iria ser uma manhã de sábado muito longa.
“Bom dia, Oni...” Seus olhos se arregalaram e o corpo travou.
“Taichi” gritou alegremente a voz fininha de Patamon, que veio voando do quarto, curioso ao ouvir que eles tinham vistas. O líder esperava no meio da sala, trajava roupas leves de verão e uma expressão suave. “Faz tempo que você não vem nos visitar”, o tom animado e infantil contrastando com o clima desconfortável que a presença do moreno criava.
Takeru não esperava encontrá-lo ali, se não estava preparado para o interrogatório de Yamato, muito menos esperava que o causador de todo seu sofrimento fosse aparecer com a cara mais deslavada em seu apartamento. Precisava livrar-se dele e rápido, antes que Patamon percebesse alguma coisa.
“É, mas ele não vai ficar muito, veio só trazer um recado da Hikari” disse, empurrando o maior em direção à porta. Era uma desculpa idiota, Hikari podia muito bem ter ligado ou mandado uma mensagem, mas foi a primeira desculpa que conseguiu inventar. Pôde ouvir um “Tchau Taichi”, quando fechou a porta atrás de si, após empurrar o moreno para fora do apartamento.
“Eu preciso falar com você” o moreno finalmente se manifestou ao ver que o menor pretendia voltar ao apartamento.
“Não temos nada para conversar” cortou o assunto.
“Se você não tem nada a dizer, vai ao menos, me ouvir” disse puxando o garoto pelo braço. Esse tipo de situação estava se tornando bastante corriqueira, pensou o loiro.
“Eu não quero saber” protestou o garoto, tentando puxar o braço.
“Você vai me ouvir” manteve o aperto firme.
“E se eu não quiser?” a frase soou infantil e mimada, e o adolescente sentiu o rosto corar.
“Você pode gritar, espernear, me bater se quiser, mas você vai me ouvir” o moreno afrouxou o aperto, vendo que o loiro não parecia mais tentado a fugir.
O corredor não era o local mais apropriado para conversarem, ele ainda estava de pijamas e algum vizinho curioso podia ouvir a conversa. Também não podia levá-lo de volta ao apartamento, Patamon estava lá e o conteúdo daquela conversa não seria nada apropriado para o monstrinho. Olhou para o final do corredor e viu a saída de emergência, próxima ao elevador. A não ser que o prédio pegasse fogo ou algo do gênero, ninguém passava por ali.
Takeru fechou a porta o mais silenciosamente que pode, após entrarem. As escadas eram largas, mas o local era mal iluminado, apenas algumas luzes de emergência, próximas a porta, refletiam as marcações dos degraus.
“Pode falar” enfiou as mãos nos bolsos do pijama e desviou o rosto para o lado. Aguardou o discurso, podia imaginar as palavras que seriam ditas, as desculpas que seriam usadas, o olhar de ‘eu não quis te magoar’, aquilo o deixava louco. Mas ele não era mais nenhum garotinho ingênuo e não iria cair em nenhuma conversa furada.
Estranhou quando o maior não disse nada. O silêncio era incômodo e sufocante, o menor virou o rosto na direção do mais velho. “Você não disse que queria...”, mas as palavras morreram ao ver Taichi com o rosto muito próximo ao seu, um olhar determinado no rosto. Sentiu o moreno envolver seu rosto com as mãos, os lábios roçarem nos seus. Takeru achou que o mais velho iria selar o beijo quando de repente se afastou, ficando de costas.
“Eu...” ensaiara aquelas palavras à madrugada toda, colocara seus sentimentos em ordem e juntara toda a coragem que possuía para estar ali. “Eu sinto muito por tudo o que aconteceu. Eu não quero que você entenda as coisas de forma errada...” Uniu as mãos evitando que elas tremessem, por que estava tão nervoso? Sua mente parecia ter sido pintada de branco, as palavras sumiram e ele não conseguia dizer nada. Encarou o rosto do loiro, que mantinha os braços cruzados diante do peito em aguardo.
Sentia a coragem sumir aos poucos, enquanto as palavras lhe fugiam e o faziam sentir-se um completo idiota. Encarou a cara pouco receptiva do outro. Respirou fundo, concentrou todo o resto de coragem que lhe sobrara, danem-se todas as palavras que havia ensaiado, todos os argumentos que criara.
“Eu te amo.”
Um estranho silêncio desceu sobre eles após as palavras reverberarem nas paredes. Taichi sentia-se mais leve, sabia que as três palavras não aliviariam seu lado e que ainda devia uma explicação ao loiro, mas não aguentava mais guardar aquilo dentro de si. Curto, direto e sincero, assim como ele era, afinal.
Takeru sentiu o rosto corar ao ouvir tais palavras, automaticamente desviou os olhos para baixo e percebeu que suas mãos tremiam. Sentiu um arrepio na espinha e os olhos se encherem de lágrimas, um sorriso bobo tentou atravessar seus lábios. Mas ele não podia se deixar levar por palavras tão levianas, não seria tão ingênuo de acreditar que Taichi realmente se importava com ele.
“Desculpe, mas eu não acredito nisso” a frase saiu baixa e não muito precisa.
“Entendo.” Taichi imaginava esse tipo de reação, seria um milagre se Takeru o aceitasse de braços abertos, depois de tudo o que acontecera. Na verdade, o moreno suspeitava que o adolescente sequer sentisse algo por ele. A crise de ciúmes, o fato de ter se entregado tão facilmente, tudo isso podia não significar absolutamente nada. Talvez fosse seu olhar apaixonado sobre a situação que imaginara que o garoto correspondesse aos seus sentimentos. “Mesmo assim, minha declaração é sincera” completou laconicamente, juntando as mãos diante do corpo.
“Se assim fosse, você não estaria com aquela garota” a frase ecoou pela escadaria vazia. Takeru apertava as mãos ao lado do corpo e encarava Taichi. Sentia a raiva e o ciúme dominá-lo novamente. Não importava que decidisse afastar o moreno de seu coração, ele ainda estava lá e a declaração só servira para causar mais confusão nos sentimentos do adolescente.
“Como?” Os olhos de Taichi se arregalaram diante da reação do menor, imaginou que após declarar seus sentimentos, Takeru fosse dar o fora dali o mais rápido possível, e não interrogá-lo sobre uma garota qualquer. “O que o Yamato disse, foi só para me sacanear, não existe nada entre a Ruky e...”
“Eu vi vocês juntos” interrompeu, diminuindo a distância entre eles. “No dia dos namorados”, baixou o rosto, sentindo as bochechas inflamarem. Nunca vira o líder sorrir para ninguém como sorrira para a garota.
“Nós...” Taichi mal se lembrava do dia dos namorados e precisou vasculhar a mente para recordar a situação. “Aquilo não significa nada” respondeu vacilante. “Você não entenderia” completou. A relação que Taichi mantinha com Ruky, a amiga da Mimi, era apenas uma amizade colorida. Não significava nada para ambos, além de distração.
“É você quem não entende” gritou, puxando o maior pela manga da camisa. Os sentimentos se estapeavam dentro dele, o maldito dragão que morava em seu íntimo parecia roer seu coração. Por que simplesmente não ignorava aquelas três palavras e voltava para sua vida normal?
A mão soltou a manga amarrotada e deslizou pelo braço até se unir a do castanho, sem perceber. Sentiu seu coração bater acelerado e descompassado. Por mais que não quisesse acreditar nas palavras de Taichi, por mais que tentasse se convencer de que elas eram mentirosas, seu coração não podia ignorá-lo. Aumentou o aperto das mãos e deixou que seus lábios se tocassem. Taichi estava delirando, aquilo não podia ser real. Os corpos se uniram em um abraço apertado, as mãos bagunçaram seus cabelos e sentiu que seu coração ia explodir, aquele gesto significava que o loiro aceitava seus sentimentos. Ele não estava delirando.
As mãos infantis puxaram desajeitadamente as roupas do moreno, despindo-o. Os pés tropeçaram nos degraus fazendo com que caíssem sentados. Taichi habilmente despiu o menor e o puxou sobre seu colo. O adolescente fechou os olhos ao sentir Taichi deslizar para dentro de si. Na posição em que estavam o moreno podia assistir de camarote o rosto juvenil se contorcer de prazer.
“Takeru” chamou docemente. O loiro abriu os olhos lentamente, encarando o garoto abaixo, o rosto corado e suado. “Eu te amo” repetiu num sussurro. Takeru fechou os olhos e deixou que um sorriso bobo habitasse seus lábios, dessa vez, ele tinha acreditado.
Notas finais
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