Insólito

8 Capítulo 7


CAPÍTULO 7: BONDADE INDOLENTE

Takeru enxugou os cabelos úmidos de suor na toalha e cumprimentou os companheiros de time pela vitória. Ouviu seu nome ser chamado e viu a melhor amiga correr em sua direção, parabenizando-o pelo jogo.

Era semana do undokai[1], onde todas as atividades escolares eram suspensas e os alunos disputavam entre si diversas modalidades esportivas. O time de Takeru havia vencido a 9-C, classe da Hikari, mas ela não parecia nem um pouco chateada com isso. Apenas agarrou o garoto pela mão e o arrastou em direção ao campo de futebol, onde Daisuke jogaria em instantes.

As arquibancadas estavam cheias e barulhentas, os times já estavam em campo, apenas esperando o apito do juiz para começarem a partida. Hikari andava habilmente entre as pessoas, arrastando o loiro pela mão e procurando um lugar para sentar. Então viu uma mão acenando no meio da multidão e rumou para lá.

Takeru ficou pálido, as pernas se negavam a andar e ele só chegou até o local onde estavam seus lugares, porque a menina o puxara pela mão o tempo todo. Taichi deu um sorriso para a irmã e cumprimentou o adolescente casualmente. Os lábios do menor mal se moveram em resposta, sentou-se ao lado da morena e fixou o olhar no campo.

O garoto passara dias atormentado com o que havia acontecido da última vez que encontrara o líder, ele não conseguia dormir ou se concentrar. A cena repetia inúmeras vezes em sua cabeça, deixando-o cada vez mais confuso. Não conseguia entender porque Taichi fizera aquilo. Eles eram meninos e o mais velho tinha uma namorada, tudo não deveria passar de uma brincadeira de mau gosto. E era isso que mais o incomodava, se não passava de uma brincadeira, por que mexia tanto com ele? Por que toda vez que pensava nos beijos e carícias seus lábios automaticamente se abriam em um sorriso?

Seus olhos se moveram do campo em direção ao garoto. Será que era uma característica genética dos Yagami conseguir agir como se nada tivesse acontecido? Hikari continuava sendo sua fiel amiga mesmo após recusar seus sentimentos no dia dos namorados e Taichi parecia o mesmo, as mesmas piadas, o mesmo fanatismo por futebol, era como se nada tivesse acontecido. Takeru não sabia se isso o deixava apreensivo ou aliviado, mas decidiu afastar esses pensamentos por hora e tentar se concentrar no jogo.

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Takeru desligou a ducha, passou as mãos pelos cabelos para remover o excesso de água e se enrolou em uma toalha. Ao sair do banho, ouviu Daisuke gritar, na ducha do lado, que o loiro não iria embora sozinho com a Hikari, era seu jeito, não muito delicado, de pedir que o amigo o esperasse. O garoto atravessou o vestiário, foi até o armário onde suas coisas estavam guardadas e começou a se vestir.

O jogo se estendera para os pênaltis, e quando o juiz apitou o final da partida, o céu já estava escuro. A única vantagem desse atraso é que todas as outras atividades do undokai já tinham acabado, e com exceção dos garotos que disputaram a partida de futebol, o vestiário estava vazio. O time do ruivo fora muito bem, mas infelizmente um dos jogadores perdera um dos pênaltis, o que os impediu de disputar a final.

“O Daisuke já foi embora?” Takeru calçava os tênis, e virou-se lentamente para encarar o dono da voz. Taichi estava parado ali, as mãos enfiadas no bolso. O primeiro pensamento que passou pela cabeça do loiro era de que o vestiário era reservado apenas aos estudantes, e ele não deveria estar ali, mas a julgar pelo horário, o garoto imaginou que ninguém se importaria com a invasão de um ex- aluno.

“Está na ducha” respondeu enquanto amarrava os cadarços. Maldita hora que decidira calçar os sapatos antes de por a camisa, era como se o olhar de Taichi sobre seu peito nu queimasse a pele.

“Eu queria parabenizá-lo pelo ótimo jogo” disse sorrindo.

O menor não disse nada, sentiu as mãos se crisparem e conteve a vontade de pular no pescoço do moreno. Desde que Motomiya fizera um belíssimo gol, Taichi não parou de elogiar suas habilidades. No começo o loiro não se importou, ou fingiu não se importar, mas quanto mais o líder elogiava o ruivo, mais irritado ficava. Se o mais velho achava Daisuke assim tão incrível deveria trocar beijos com ele. O pensamento fez o menor morder os lábios.

“Hikari me disse que você também foi muito bem, talvez eu venha vê-lo amanhã. Vocês foram para as finais, certo?”

“Mas você não gosta de basquete” a voz saiu baixa e falha, as mãos tremiam tanto que ele não conseguia fazer o laço no cadarço. Por que ele estava tão irritado?

“Realmente eu não me interesso muito pelo esporte”, Taichi coçou a cabeça. “Mas...”

“Eu não sou um substituto” o grito ecoou pelo vestiário. O menor tinha se levantado, o rosto vermelho, distorcido por uma expressão que Taichi nunca tinha visto antes. “Eu não preciso que você venha me ver só porque o time do Daisuke perdeu e agora você tem um tempo livre.” O loiro sentia o corpo inteiro tremer, ele não era nenhum maldito substituto que se contentava com uma migalha de atenção quando a estrela principal não aparecia.

“Takeru, eu sinto muito não ter visto seu jogo hoje” Taichi não sabia como agir, já vira Yamato explodir várias vezes, mas Takeru era seu oposto, era calmo e sempre tentava resolver as situações através do diálogo.

“Você não sente nada.” Takeru deu um passo em direção ao maior, seu autocontrole tinha ido pro espaço. Ele não era só um bonequinho com quem o moreno se divertia quando ninguém de interessante estava por perto.

Ao vê-lo avançando em sua direção, Taichi agarrou o loiro pelo braço e o empurrou contra os armários do vestiário. Aumentou o aperto no braço quando o menor tentou reagir e com a outra mão segurou seu ombro, mantendo-o preso contra os armários.

“O que há com você?”, Taichi não queria gritar, mas naquelas circunstâncias o nervosismo tomara conta dele. “Pare de agir como se eu não me importasse com você.”

“Se você realmente se importasse não teria feito aquilo” gritou, enquanto soltava o braço do aperto. Os olhos castanhos se arregalaram, os azuis se encheram de lágrimas, que escorreram profusamente pelo rosto juvenil.

“Takeru, eu...”

“Vocês estão brigando?” Daisuke perguntou curioso, enrolado em uma toalha, os cabelos molhados, encarando a cena que acabara de flagrar.

“Não, claro que não” disfarçou Taichi, afastando-se do menor e indo em direção ao ruivo. “Nós só... Bem, eu vim aqui para parabenizá-lo pela ótima partida, você jogou muito bem.” Embora sorrisse, as palavras saíram atropeladas.

“Obrigado” o garoto agradeceu com uma pequena mesura.

“A Hikari e eu estamos com um pouco de pressa, você se importa se não o esperarmos?” Taichi acompanhou os olhos do jogador lentamente pousarem em Takeru, que permanecia imóvel encostado nos armários.

“Tudo bem, o Takeru me acompanha.” Daisuke podia não ser tão inteligente ou perspicaz, mas não passaram despercebidos os hematomas no braço e ombro do colega de classe.

“Certo” concordou maquinalmente. “Até mais” fez um aceno com a mão. “Tchau, Takeru” despediu-se, mas o garoto não emitiu som algum. Taichi saiu. Os passos ecoando sobre o chão ladrilhado.

Os olhos do ruivo se desviaram da porta do vestiário, que acabara de se fechar e encararam o amigo. Embora a franja loira cobrisse os olhos, Daisuke sabia que o amigo chorava. Um gemido escapou pelos lábios pálidos, então outro e mais outro. O garoto escondeu o rosto com as mãos, mas o choro silencioso havia dado lugar a um choro mais doloroso e se suas mãos podiam esconder o rosto inchado, não poderiam esconder a raiva e frustração que sentia.

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Taichi andava tão rápido que Hikari precisava correr para alcançá-lo. Ela não entendera porque os garotos não estavam com eles, mas o irmão cortara o assunto e rumara para casa o mais depressa que seus pés permitiam.

Como pôde ser tão ingênuo achando que se ignorasse a situação e fingisse que nada tinha acontecido ficaria tudo bem? Agira por impulso, deixando que seus desejos falassem mais alto que seu lado racional. Foi uma estupidez, embora ele não se arrependesse. Não imaginara que outro podia ficar tão alterado. Takeru estava irritado, confuso e enciumado... Taichi parou de repente, fazendo com que sua irmã esbarrasse nele.

“Onii-chan?” Perguntou, encarando o rosto do irmão.

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Takeru secou as lágrimas com as costas da mão, seus olhos pararam na figura de Daisuke sentado ao seu lado, a cabeça apoiada contra os armários, os olhos fechados.

“Daisuke-kun...”

“Eu liguei para minha mãe buscar a gente, já está bem tarde” disse o garoto com os olhos ainda fechados.

“Você não precisava ter ficado aqui...”

“É para isso que servem os amigos, certo?” Abriu um dos olhos, lentamente e encarou o amigo.

“Obrigado” murmurou, encarnado as mãos.

“Deve estar frio lá fora”, Daisuke se levantou e atirou um casaco de moletom para o loiro. Takeru ainda estava sem camisa, e os pelos dos seus braços estavam arrepiados. O menino não esperava voltar para casa tão tarde e não levara nenhum agasalho.

“Mas e você?” Levantou-se também, devolvendo o casaco. Provavelmente o ruivo não andava com um casaco extra, então ele passaria frio. Mas Motomiya apenas fez um sinal com a cabeça, recusando o casaco, apontou então para o próprio braço. Takeru olhou para o seu próprio e viu uma gigantesca marca arroxeada, onde Taichi o havia segurado. Contra a pele alva, a marca se destacava a distância. Se a mãe de Daisuke visse faria várias perguntas. O loiro vestiu uma camiseta, colocou o casaco e fechou o zíper.

“Daisuke sobre o que aconteceu hoje...”

“Acho que não seja algo que eu deva saber.” Disse enquanto passava a mochila sobre os ombros. “Ao menos, por enquanto” completou.

“Eu vou te contar, um dia” respondeu o outro, com um sorriso sincero.

“Eu sei.” Daisuke abriu a porta do vestiário e saiu para o ar noturno. Seu primeiro pensamento foi que iria congelar e rezou para que sua mãe chegasse logo.

Notas finais
N/T: [1] undokai é um evento esportivo, onde os estudantes disputam entre si, em competições individuais ou em grupo. Pais, irmãos e outros familiares também podem participar da competição.