Insólito

5 Capítulo 4


CAPÍTULO 4: QUANDO A LUZ SE APAGA

“Não acha isso meio exagerado?” Miyako ajeitou os óculos, encarando Daisuke. O garoto estava parado na esquina, trazendo um enorme urso de pelúcia caramelo nos braços, o urso era tão grande que a moça da loja não conseguira embrulhá-lo para presente. O urso tinha uma fita vermelha amarrada ao pescoço e trazia um coração nas mãos.

Takeru e Miyako eram vizinhos e embora estudassem em colégios diferentes, faziam parte do percurso para o colégio juntos. Todos os dias a mesma rotina, andavam cerca de três quarteirões, encontravam com Motomiya que sempre os esperava na esquina, caminhavam mais três quarteirões e se separavam, Inoue virava a direita, em direção a Academia T, enquanto os garotos seguiam até o colégio fundamental.

“Claro que não, esse ano tenho certeza que Hikari vai se apaixonar por mim” disse com um sorriso confiante. “E você, loiro azedo, não vai ter nenhuma chance” fez uma careta para Takeru. Todos os anos, Daisuke comprava presentes de dia dos namorados para Hikari, ele acreditava que quanto maior fosse o presente, maior a possibilidade da jovem Yagami se apaixonar por ele.

“Se você diz” provocou, passando a mão pelos cabelos. “Mas tenho certeza que a Hikari apreciaria muito melhor a companhia de alguém que tenha um Digimon que completa o dela” sorriu mordaz.

Daisuke fechou a cara em uma carranca, toda vez que lembrava que as evoluções de Patamon e Tailmon eram anjos ficava profundamente irritado. Porque Veemon não tinha uma evolução daquele tipo?

“Vocês estão com inveja porque não vão ganhar presente nenhum” disse arrogante, enquanto ajeitava o gigantesco urso nos braços.

“Por que teríamos inveja disso?” Miyako estendeu o olhar para o urso e imaginou quão embaraçoso deveria ser ganhar algo do gênero, ainda mais na escola.

“Aposto que o Ken não vai te dar nada” virou-se para a garota, com um sorriso zombeteiro.

“E por que ele me daria algo?”

“Vocês estão namorando, não estão?” provocou.

“Isso não é da sua conta” bufou. “Mas só para você não sair fofocando por aí, não, nós não estamos namorando” respondeu pondo um ponto final no assunto.

A verdade é que a relação que Miyako mantinha com Ken poderia ser muito bem classificada como namoro, entretanto, a garota preferia não dar classificação alguma.

“Boa sorte para Hikari” A garota falou ao se despedir dos amigos e tomar seu caminho para o colégio.

“Não seria boa sorte com a Hikari?” Daisuke corrigiu.

“Não, é boa sorte para a Hikari mesmo, ela vai precisar quando você aparecer com esse urso gigante.”

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“É pra você, Hikari-chan.” Daisuke estendeu o urso na direção da garota. A menina se inclinou para o lado, desobstruindo a visão que o urso cobria e encarou Motomiya, o jovem trazia um sorriso tímido nos lábios.

Takeru revirou os olhos, a entrega do presente não poderia ter sido pior. Daisuke tinha planejado dar o presente durante o almoço, mas o urso não coubera em seu armário como imaginara. Então, decidira antecipar a entrega para o final do primeiro período. Yagami estava no mesmo ano que os garotos, mas não na mesma turma, e promover a entrega no meio do corredor cheio de alunos, durante a troca das aulas não tinha nada de romântico.

“É lindo, Daisuke, mas não posso aceitar” a jovem deu um sorriso cordial.

“Por que não?” Baixou o urso, desanimado.

“Eu tenho renite alérgica. Coisas que acumulam pó me deixam muito mal, e imagino que um urso desse tamanho acumule bastante. Eu não posso ter bichinhos de pelúcia, cortinas ou tapetes” informou, em tom professoral.

“O que faço com ele?” Daisuke agitou o urso furioso, gastara tanto tempo escolhendo qual o melhor presente para sua amada, para no fim dar algo que mais faria mal do que bem.

“Porque você não dá para a Jun?” Sugeriu a castanha. Daisuke fez uma careta em desagrado, preferia morrer a dar qualquer coisa para a irmã. “Mas de qualquer forma, eu adorei o urso, ele é lindo.” Hikari deu um de seus sorrisos mais radiantes e beijou a bochecha do adolescente em agradecimento.

O sinal para o início do segundo período soou, fazendo com que os alunos voltassem para suas salas. Hikari foi até Takeru, no final do corredor.

“Takeru-kun, você vai estar ocupado hoje?”

“Não Hikari, por quê?” perguntou curioso.

“Você poderia me encontrar no parque Odaiba às cinco horas, eu gostaria de falar com você” a voz saiu mais fraca que de costume. Ela parecia acanhada com tal pedido.

O garoto queria perguntar o que era tão importante que não podia ser conversado na escola, mas o corredor tinha se esvaziado rapidamente, e Daisuke gritava da porta da sala para que se apressasse. O loiro apenas concordou com o encontro com um aceno de cabeça e correu para sua sala, sem ver o sorriso bobo que se formara no rosto da amiga.

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O garoto olhou no relógio, faltavam cinco minutos para cinco. Acomodou-se na mureta ao lado das roseiras e observou os transeuntes enquanto esperava o tempo passar. A praça estava repleta de casais trocando presentes e juras de amor. O sol começava a se pôr, tingindo o céu com um gracioso tom alaranjado e tornando o ambiente ainda mais romântico.

Todos os anos, Hikari e Takeru trocavam chocolates no dia dos namorados. O hábito começara entre a garota e o irmão, que trocavam chocolates caseiros nos formatos de seus respectivos brasões. Takeru não se lembrava de como começara a participar do evento, mas na data, a amiga lhe fazia chocolates, com o formato do brasão da esperança. Na mochila que o loiro trazia a tira colo, estavam guardados os chocolates que daria a amiga esse ano, pequenos chocolates em forma de flor, similares ao brasão da luz. O rapaz gostava da troca, pois os quitutes da amiga eram deliciosos, e ele via no ato uma forma de solidificar a amizade que os unia.

“Atrasei-me?” A voz melodiosa o tirou de seus pensamentos. Takeru encarou a amiga, espantando, enquanto ele ainda trajava o uniforme do colégio, a garota vestia uma saia rosa e uma camisa preta com detalhes brilhantes, uma pequena bolsa caramelo pendurada ao lado do corpo. O cabelo estava arrumado e o rosto maquiado.

“Eu que cheguei mais cedo” sorriu, enquanto abria a mochila à procura dos chocolates que fizera. “Eu fiz chocolates pra você, não devem estar muito bom, Patamon tentou me ajudar, mas...” A frase lentamente morreu na garganta quando ele olhou para a amiga.

Parada diante dele, encarando os próprios pés, Hikari estendia-lhe um grande chocolate em formato de coração, o doce estava embrulhado em plástico transparente, fechado com uma fita branca decorada com pequenos corações vermelhos. No chocolate, em glacê estava escrito “Eu te amo”.

“Por favor, aceite, junto com meus sentimentos” a voz da menina saiu baixa e engasgada, as mãos tremiam e o rosto estava inflamado, mas ela permanecia encarando os sapatos, como se fossem a coisa mais interessante do mundo.

Takeru não sabia o que dizer, embora muitos fizessem piadinhas sobre a relação deles, o garoto nunca imaginou que realmente Hikari fosse apaixonada por ele. O adolescente gostava muito da amiga, mais do que gostara de qualquer garota e ele tinha certeza que o que sentia não era só amizade, mas também sabia que não era amor. Ele não saberia definir o que era, mas aceitar os sentimentos dela seria errado, já que ele não poderia corresponder da mesma forma. Não queria magoá-la, mas não podia enganá-la, nem enganar a si mesmo.

“Me desculpe, Hikari-chan, mas eu não posso.” A voz não saiu tão firme quanto desejou.

A garota levantou a cabeça lentamente, o rosto não estava mais vermelho e seu olhar não parecia tímido, triste ou ansioso, parecia a mesma garota de sempre. “Eu entendo” concordou fracamente, mas seu sorriso a traiu, embora tentasse parecer conformada, aquele sorriso que deformava suas feições dizia o contrário.

“Hikari...”

“Eu estou bem” disse com simplicidade. “Não vou tomar mais do seu tempo, e já está ficando tarde, melhor eu ir também” disse enquanto guardava o chocolate de volta na bolsa, tentava manter a voz firme e constante.

“Quer que eu a acompanhe?” O garoto pulou da mureta.

“Não precisa” a garota balançou a cabeça efusivamente em negativa. Despediu-se com uma delicada reverência e partiu.

Takeru sentia-se péssimo, não queria magoar a garota de quem tanto gostava, mas não havia outra resposta a dar. Caminhou lentamente, dando a volta no parque, sentia-se muito mal pela menina.

Chegou à esquina e ficou aguardando o semáforo abrir, os olhos seguiram despretensiosamente para o outro lado da rua, analisando curiosamente cada um que passava, tentando se distrair. Foi quando o olhar posou em uma figura conhecida, Taichi andava pela rua, tranquilamente, de braços dados com uma garota que Takeru nunca vira. Eles pareciam íntimos e sorriam um para o outro. Presumiu que deveria ser uma garota do mesmo colégio que o moreno. Será que era a menina da qual Taichi havia se referido, aquela a quem pretendia se declarar?

O dragão que morava nas entranhas do adolescente começou a se mexer, mordiscando algo dentro dele, que fazia seu estômago doer e as mãos ficarem úmidas. Estava tão absorto com a cena, que nem viu o sinal abrir. De repente, começara a odiar o dia dos namorados.