Insólito

6 Capítulo 5


Notas iniciais
Desculpem o atraso com o capítulo.

CAPÍTULO 5: O DOCE GOSTO DA CORAGEM

Pela primeira vez, Takeru deu graças a Deus por Daisuke estar ali. Os três amigos se encontravam na casa dos Yagami, para o grupo de estudos. O jovem de cabelos claros não fazia a menor ideia de como agir perante a amiga, após o ocorrido no dia dos namorados, embora ela o estivesse tratando normalmente.

Alguns dias antes do dia dos namorados, Hikari tivera a ideia dos três se reunirem para estudar para o exame de admissão da Academia T, que seria em meados de julho. A partir de então, uma vez por semana, eles se reuniam, alternando as casas. Daisuke não poderia estar mais feliz com a ideia, além de poder passar mais tempo ao lado de sua amada Hikari, ele teria ajuda com as matérias. Takeru também ficara animado com a ideia, já que não tinha a menor motivação para estudar sozinho. Talvez para Hikari, o grupo não fizesse muita diferença, já que era a mais inteligente e esforçada dos três, mas como ela mesma dissera, não teria sentido se apenas ela fosse aprovada nos exames.

“Acho que já chega por hoje” Hikari espreguiçou-se, esticando os braços para cima, visivelmente cansada, mas feliz por ajudar os amigos, Tailmon que adormecera sobre seu colo remexeu-se, mas não despertou. O trio passara a tarde toda estudando, imersos em difíceis questões de química.

“Por mim, está ótimo.” Takeru fechou os livros e cadernos e começou a guardá-los na mochila. “Eu já vou” anunciou, após reunir todos os pertencentes, se levantando da mesa.

“Eu te acompanho” ofereceu a garota, levantando-se também, derrubando o Digimon que acordou mal humorado.

“Ah, Hikari-chan, por favor, explique esse exercício novamente” Daisuke estendeu o caderno na direção da garota. Era evidente que ele queria passar algum tempo com ela, sem a presença do outro.

“Tudo bem” disse Takeru antes que a menina falasse algo. “Eu conheço o caminho até a porta.”

“Não, de jeito nenhum.” Hikari era educada e hospitaleira, não era do seu feitio deixar que uma visita fosse embora sozinha, mas também não lhe agradava deixar Daisuke esperando. “Taichi” chamou.

O garoto veio se arrastando pelo corredor, o cabelo mais bagunçado do que de costume, a cara amassada. Quase tropeçou quando a gata digital deslizou por entre suas pernas, em direção ao quarto.

“O que é?” A voz saiu embromada, evidenciando que o rapaz estava dormindo.

“Por favor, acompanhe o Takeru-kun até a porta” pediu.

“Hikari, isso não é necessário, eu posso muito bem...”

“Nada disso, seria muita falta de educação da minha parte não recepcioná-lo adequadamente. Dizem que se você não acompanhar a visita até a porta, ela nunca mais volta a sua casa” a garota estava bem séria quanto à superstição.

Takeru apenas sorriu, não iria discutir as crenças da menina. Despediu-se dos amigos e foi em direção à saída, acompanhado de Taichi. Já havia escurecido, e um vento frio soprava levemente. O garoto virou-se para o mais velho e se inclinou, profundamente.

“Obrigado por sua hospitalidade.”

“Por que a rejeitou?”

Takeru levantou o corpo, bruscamente. Taichi estava sério, uma mão segurando a maçaneta da porta, a outra apoiada no batente.

“O quê?” Takeru não conseguia entender.

“Hikari, por que você a rejeitou?” A pergunta saiu ainda mais séria que da primeira vez. “Ela chegou chorando em casa, não quis me contar o que houve, mas era óbvio que aquele coração era pra você.”

“E-e-e-eu sinto muito.” O loiro não esperava por isso, então era sobre o ocorrido no dia dos namorados. Se Hikari brigasse com ele, dissesse que não queria mais vê-lo ou ser sua amiga, era compreensível, mas não esperava ter que lidar com um irmão furioso.

“Ela não é boa o suficiente para você?” Taichi deu um passo na direção do menor.

“Não, não é isso. Hikari-chan é incrível.” Takeru sentiu os joelhos tremerem e a voz falhar, odiava brigas e se Taichi partisse para a porrada, o loiro apanharia, ele era muito menor e mais fraco.

“Então quem é?”

“Como?” Estava tão nervoso que perdera parte da conversa? A última pergunta do líder não tinha o menor sentido.

“Se você rejeitou minha irmã, mesmo a achando tão incrível, é porque você já gosta de alguém.”

Takeru não sabia dizer se as palavras tinham sido ditas com sarcasmo. A princípio lhe pareceu, mas repassando-as rapidamente na mente, não tinha tanta certeza assim. O adolescente tentou responder algo, mas só conseguiu produzir uma série de sons desconexos, que não significavam nada.

“Você gosta de alguém, não é?”

“Sim... Não. Quer dizer, eu acho que não.” Por que Taichi o estava acuando daquela maneira?

“Você acha” um sorriso zombeteiro cruzou os lábios do maior, fazendo-o ficar ainda mais intimidador.

“Me desculpe, mas eu preciso ir.” O menino inclinou a cabeça e virou-se para sair, mas sentiu uma mão puxar-lhe pelo braço.

Takeru voltou-se para protestar, mas foi silenciado quando o maior cobriu os lábios com o seus. O menor estava atônito, sentia o mais velho apertar-lhe o pulso e a língua invadir violentamente sua boca, a respiração quente e ritmada fazia cócegas em seu rosto. O monstro que morava dentro de si, remexeu-se satisfeito. As mãos suavam frias, o corpo estava quente e os joelhos pareciam feitos de gelatina. Sentia vontade de rir, de chorar e principalmente de gritar.

Quando finalmente recobrou o controle de seu cérebro, afastou o castanho com um empurrão. Sentiu o rosto queimar, quando os olhares se cruzaram. Takeru queria dizer alguma coisa ou esperava que Taichi dissesse, mas os dois apenas se encaram em um incômodo silêncio. O mais jovem ajeitou a mochila e foi em direção ao elevador, tentando andar o mais natural possível, mas sentiu que seus pés corriam, levando-o para longe dali o mais rápido possível.

=8=

“Aconteceu alguma coisa?” Hikari se levantou, preocupada, quando o irmão retornou ao apartamento. Taichi parecia totalmente alheio aos chamados da irmã, e só respondeu quando ela lhe deu um chute. “Vocês pareciam estar discutindo.”

“Impressão sua” respondeu o irmão com um bocejo. Fez um breve aceno para Daisuke e voltou para seu quarto.

“Eu disse que era só impressão sua” comentou Motomiya, quando a garota acomodou-se ao seu lado. “Não teria motivo para o Takeru e seu irmão estarem brigando.”

Hikari queria acreditar nas palavras do amigo, mas sabia como seu irmão era superprotetor e como ele ficara encanado com a história do dia dos namorados. Não seria surpresa se ele decidisse tirar satisfações com Takeru.

=8=

Taichi fechou a porta do quarto e recostou-se nela, lentamente deixou seu corpo escorregar, até sentar no chão.

“Taichi, você está bem?” Agumon saltou da cama de cima do beliche e foi na direção do parceiro. O garoto estava pálido, os olhos perdidos e com uma expressão que o Digimon jamais vira no rosto do companheiro.

“Estou ótimo” respondeu sombriamente. Ele não estava mentindo.

=8=

Takeru parou diante do prédio onde morava, sem ter coragem de entrar. Se Patamon o visse naquele estado ficaria muito preocupado e o cobriria de perguntas. O coração estava acelerado e ele ainda suava frio. Não era possível que aquilo realmente tivesse acontecido. Taichi tinha uma namorada, não fazia sentido algum aquele beijo. O que mais atormentava o rapaz era que, mesmo não querendo admitir, ele gostara do beijo. A mão foi em direção aos lábios, como se quisesse manter aquela sensação preservada para sempre e sem perceber, estava sorrindo.