Insólito
4 Capítulo 3
CAPÍTULO 3: AMOR NÃO CORRESPONDIDO
Takeru entrou na banca de revista e foi até a sessão de shoujo mangá. Correu os olhos pelos títulos, duvidoso de qual deveria levar. Patamon adorava essas coisas. Mesmo não entendendo nada dos textos, gostava das imagens, principalmente quando tinha algum casalzinho jovial trocando beijos. O garoto não entendia como seu parceiro poderia gostar desse tipo de coisa tão feminina e adocicada, mas se recusar a comprar significaria o Digimon alado reclamando por dias a fio, agindo como uma criança mimada.
O loiro não sabia qual título escolher, todas as capas pareciam iguais, e as sinopses tratar do mesmo tema. Nunca conseguia decorar quais eram os preferidos do anjo. Escolheu alguns através da ilustração da capa, e se preparou para sair rapidamente dali.
“Eu não sabia que você gostava desse tipo de histórias, Takeru.”
O guardião da esperança deu um pulo assustado e encarou seu interlocutor.
“Taichi-san!” O mais novo fechou os mangás em um abraço, tentando escondê-los do moreno.
“A Hikari também gosta dessas coisas” disse, espionando os braços do amigo.
“Ah, não é pra mim” sentiu o rosto corar. “O Patamon que gosta dessas coisas.” Taichi curvou as sobrancelhas, desconfiado. “Ele gosta das figuras” completou não muito esperançoso.
“Tudo bem, você não precisa me dar satisfações” o mais velho falou, balançando as mãos de forma amistosa.
Takeru tinha certeza que o moreno não havia acreditado na história, era muito embaraçoso imaginar que Taichi achava que ele gostava desse tipo de publicação.
“Bem, e o que você faz aqui?” Sua voz saiu desajeitada, Takeru sentia-se nervoso com a situação, ainda mais com Taichi o flagrando na sessão de shoujo.
Taichi estendeu a revista que trazia nas mãos para que o menor visse a capa, era um periódico sobre esportes, que exibia uma grande matéria sobre a seleção japonesa. Taichi adorava esportes, principalmente futebol, ele jogava no time do colégio e era muito bom.
Ele passou um longo tempo discorrendo sobre a evolução da seleção japonesa, os jogadores, o estádio nacional, Takeru apenas sorria e concordava com a cabeça, ele não sabia praticamente nada sobre o esporte.
=8=
“Eu vou por ali” apontou Taichi para a direção que tomaria. Os garotos haviam saído da loja e andando cerca de um quarteirão, trocando frivolidades. Takeru fez um acenou com a cabeça, em despedida. O moreno fez um gesto com a mão e deu as costas ao loiro, para seguir seu caminho.
“Você ainda gosta da Sora, não é?” A frase saiu antes que Takeru pudesse refreá-la, não imaginou que a pergunta que há dias dominava seus pensamentos atingiria seus lábios. Taichi virou-se lentamente, os olhos arregalados, encarando o garoto parado diante de si.
“Pergunta isso por causa do que aconteceu na casa do Yamato?” Questionou perspicaz.
“Para você ter fugido daquela forma, ainda deve sentir algo por ela.” As palavras pareciam difíceis de serem proferidas como se arranhassem a garganta. Mas já que finalmente as palavras haviam saído, não podia fingir que não dissera nada.
“Eu fui apaixonado pela Sora por um longo tempo, ainda me é incômodo vê-la com outra pessoa, mesmo sendo seu irmão” respondeu, sério.
“Então...”
“Eu sempre gostei dela, desde que éramos crianças” interrompeu. “Eu achei que ficaríamos juntos para sempre. Mas só eu pensava assim, Sora me via como um irmão, acho que nunca disse nada antes porque não queria me magoar.” Os olhos de Taichi encararam o céu, melancolicamente. “Eu sabia que ela tinha se apaixonado pelo Yamato, e deveria ter feito algo, qualquer cara teria. Mas eu queria vê-la feliz acima de tudo e se ela achava que ele lhe proporcionaria esse tipo de felicidade, não havia porque me opor.” O castanho voltou o olhar para o rapaz diante de si, piscou os olhos lentamente, impedindo as lágrimas que se formavam de derramarem. “Talvez Yamato esteja certo no final das contas, de que eu nunca fora realmente apaixonado por Sora, eu era apenas apaixonado pela ideia de ter alguém ao meu lado.”
Takeru não sabia como reagir, nunca imaginara que Taichi se exporia tanto diante dele, fosse tão transparente. Sabia que parte de seu lado intempestivo havia dado lugar a um adolescente maduro, mas não imaginava que seria capaz de tal sacrifício.
“Mas respondendo a sua pergunta” a voz do moreno estava animada novamente, com o mesmo tom que Takeru acostumara a ouvir. “Eu não gosto mais da Sora. Na verdade fico feliz que esteja dando tudo certo com o Yamato, eu só preciso me acostumar com a situação.” Enfiou uma das mãos no bolso e encarou as feições surpresas diante de si. “Além disso, eu já gosto de outra pessoa.”
“Então Taichi-san tem uma namorada?” A voz soou curiosa e infantil, o loiro sentiu-se novamente com oito anos e o rosto corou em constrangimento, ele não era mais nenhuma criança para fazer as perguntas de forma tão direta.
“Não, claro que não” respondeu risonho. “Digamos que eu tenha uma sina por amores platônicos.”
“Ela não gosta de você?”
“Tecnicamente, eu não sei. Suspeito que essa pessoa nem sabia o que sinto, nunca tive coragem de me declarar.” Takeru estava surpreso com a desenvoltura com que Taichi tratava do assunto, ele não estava constrangido ou chateado ao comentar seu amor não correspondido.
“Você deveria se declarar para ela” a voz do loiro soou como uma ordem, o que sobressaltou o mais velho. “Quer dizer...” Takeru não queria ter sido tão ríspido. “Talvez ela goste de você também, e só não demonstre porque acha que você não gosta dela.”
“Você pode estar certo” disse, coçando o queixo. “Acho que devo me declarar então.” Deu um sorriso confiante ao menor, mas Takeru não sorriu de volta, algo dentro da sua cabeça dizia que ele não deveria ter dado esse tipo de incentivo.
=8=
Takeru repassou em sua cabeça a conversa que tivera com Taichi diversas vezes. Ficava feliz por saber que lentamente ele estava superando o amor que nutria pela Sora, mas toda vez que imaginava que o castanho gostava de alguém, algo se remexia dentro dele, como se um dragão morasse em sua barriga e estivesse muito faminto.
Passou as mãos violentamente pelos cabelos, sem entender o que era aquilo que sentia, desejava inconscientemente que o novo romance do líder não desse certo. Patamon não percebeu que algo afligia seu companheiro, estava ocupado demais se deliciando com seus mangás.
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