Insólito
3 Capítulo 2
Notas iniciais
CAPÍTULO 2: DESONESTO
O ano novo havia chegado, e com ele uma grossa camada de neve que cobria as ruas e tornava as calçadas escorregadias. Takeru corria em direção ao apartamento do irmão com um embrulho nos braços. Passara muito tempo economizando a mesada para poder comprar um bom presente de natal para o mais velho, entretanto, quando finalmente a festividade chegou, o jovem de cabelos claros ainda não tinha dinheiro suficiente para comprar o presente desejado. Por isso, uma semana após a chegada do novo ano, Takeru aproveitou as promoções de queima de estoque das lojas para comprar uma lembrança para o irmão.
O adolescente lamentava não ter passado o feriado ao lado do irmão, Takeru queria muito ter visto a apresentação da banda de Yamato na véspera do natal. Mas a mãe do adolescente reclamara do horário tardio das apresentações e impedira o garoto de ir. Não que se natal tivesse sido desperdiçado, passara um tempo muito agradável ao lado dos digiescolhidos na casa de Ichijouji.
Takeru entrou no saguão do prédio, ofegante, subiu as escadarias de dois em dois degraus e atingiu o patamar do terceiro andar, onde ficava o apartamento dos Ishida. Diminuiu o passo, recuperando o fôlego, dobrou o corredor à direita, mas parou. No final do corredor, diante da porta do apartamento do irmão, estava Sora e Yamato. A menina encarava os sapatos e tinha o rosto muito corado. Eles conversavam, mas Takeru não conseguia ouvir o que diziam da distância que se encontrava. O adolescente sentiu que havia algo de estranho na presença da garota ali, Sora e Yamato não eram tão próximos a ponto de se visitarem. Balançou a cabeça, afastando qualquer tipo de pensamento e deu mais um passo em direção ao casal, mas parou de novo.
Yamato envolveu as mãos de Sora entre as suas. A garota ficou ainda mais vermelha e levantou a cabeça para encará-lo, Yamato aproveitou a oportunidade e beijou a jovem, que correspondeu ao beijo.
Takeru só poderia estar sonhando. Sora era namorada do Taichi, não era? Por que então Yamato estava a beijando, e por que ela o estava beijando de volta? Takeru teve vontade de gritar, tirar satisfação com o irmão e a amiga, mas tudo que suas pernas conseguiram fazer foi correr. Quando Takeru deu por si, ele já havia decido vários lances de escada e atingindo o saguão. Todos os seus pensamentos se esvaíram, e tudo o que ele conseguia fazer era correr. Após correr vários quarteirões seu corpo cedeu ao cansaço e ele recostou-se em um banco no parque Odaiba. O contato com o metal gelado o fez voltar à realidade. Ele mal conseguia respirar, o corpo todo tremia, e quando mais ele se esforçava para inalar o ar, mais extenuado ficava.
Não era possível que Sora estivesse traindo Taichi dessa maneira. Não fazia sentido, Yamato e Taichi eram melhores amigos, amigos não faziam esse tipo de coisa. Takeru estava muito confuso, sempre confiara no irmão, nos seus valores e honra. Mas onde estavam esses valores agora? Sentiu o ódio invadi-lo, nunca odiara Yamato, mas agora não conseguia ver algo que justificasse a atitude do irmão. Ele estava traindo o melhor amigo, jogando anos de amizade e companheirismo no lixo por causa de uma garota qualquer, não era algo que Takeru poderia perdoar tão facilmente.
=8=
Takeru virou-se na cama, tomando cuidado para não acordar Patamon, adormecido ao seu lado e encarou o embrulho amassado sobre a escrivaninha. Havia se passado mais de dois anos desde que flagrara Yamato com Sora, todo o mal entendido havia se desfeito, mas mesmo assim, o adolescente nunca conseguira entregar o presente que comprara para o irmão. Era como se uma parte sua nunca tivesse realmente perdoado Yamato.
=8=
O jovem digiescolhido passou semanas evitando o irmão, toda vez que pensava em Yamato, automaticamente lembrava-se de Sora, e isso o deixava furioso e enojado. As coisas só ficaram claras, quando um dia, enquanto voltavam da escola, Hikari comentou o assunto.
“A Sora é parte da sua família agora” comentou, divertida.
“Como é?” Takeru sentiu o rosto contorcer-se em esgar, a voz saiu mais alta que de costume.
“A Sora e o Yamato estão namorando, não estão?” questionou ao ver a reação do amigo. “Eu a encontrei ontem, enquanto fazia compras e ela me contou.”
“Deve ser então” cortou o jovem, dando de ombros.
“Você não aprova?” A garota perguntou curiosa.
“Ela estava com o Taichi, não é?” As palavras saíram mais agressivas do que desejava.
“Eles nunca namoraram de verdade” informou a menina. “Além disso, o Onii-chan sabia que a Sora estava apaixonada pelo Yamato, foi ele quem a incentivou a se declarar pro seu irmão.”
Takeru a encarou surpreso. Desde que eram crianças, Taichi sempre deixou claro seus sentimentos por Sora, não fazia o menor sentido ele abrir mão dela tão facilmente.
“Taichi-san concorda com esse relacionamento?”
“Bem, acho que ele deve ter ficado um pouco chateado, mas ele não demonstrou nada. Ele disse que ficava muito feliz de duas pessoas que ele realmente gosta poderem ser felizes juntas” concluiu.
=8=
Talvez Taichi não tivesse superado essa situação tão bem quanto ele gostava de demonstrar, pensou Takeru, ao recordar-se do dia anterior, quando o líder dos digiescolhidos foi embora rapidamente após a chegada de Sora.
Encarou o teto e deu um suspiro, tentando afastar Taichi de sua mente, pouco importava se o moreno ainda amava Sora, desde que isso não interferisse na relação entre a moça e o irmão. Sentiu um gosto amargo nos lábios diante de tal pensamento. Talvez, e apenas talvez, Takeru realmente se importasse com o que o líder sentia pela tenista.
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