Insólito
12 Capítulo 11
Notas iniciais
CAPÍTULO 11: MILAGRE PROXIMAL
Taichi pegou mais um brigadeiro na bandeja posta sobre a mesinha de centro na sala e inclinou a cabeça tentando ver o que passava na TV. Gabumon estava sentado diante dela cobrindo quase toda a imagem. Yamato se aproximou, estendendo uma garrafa de cerveja ao amigo.
“A nossa nova vida” brindou, batendo os bicos das garrafas.
“Vocês ainda não tem idade para beber” repreendeu Gabumon, encarando a dupla adolescente. Yamato fez uma careta em resposta e ingeriu o conteúdo da garrafa. O castanho acompanhou, degustando o líquido amarelo e amargo.
“Então, como as coisas estão com a Sora?” perguntou de soslaio. Imaginou que o amigo deveria estar em uma situação complicada, já que não fora admitido na mesma universidade que a garota. Talvez eles estejam brigados, talvez ela estivesse infeliz, talvez...
“Bem, acho que vai ficar tudo bem”, o garoto sorriu, encarando o aparelho eletrônico. “Ela parece bem animada com a mudança, e nós podemos nos ver aos finais de semana.” Deu um longo gole na cerveja.
Sora e Yamato iriam para universidades diferentes, ela para Kyoudai, em Kyoto, ele para Toudai, em Tóquio. O castanho acreditou que a situação podia ser muito similar a sua, mas ficou surpreso com a resposta tranquila do loiro.
“E você?” perguntou Yamato, os olhos grudados no televisor.
“Eu o quê?” Retorquiu sem entender.
“Ele odeia despedidas” disse lentamente. “Deve ser por causa dos nossos pais” complementou solene.
Taichi quase engasgou com a cerveja. Sentiu o líquido entrar pelo nariz e queimar na garganta. Seu cérebro parou de funcionar, com certeza ele não ouvira direito. Virou o rosto devagar, encarando o amigo que permanecia com o olhar preso a TV.
“O que foi?” Encarou o amigo, divertido. Os olhos do líder estavam arregalados e seus lábios se moveram, mas não produziram som algum. “Takeru não me contou se é isso que você quer saber. Aliás, acho que ele morreria se soubesse”, disse naturalmente. Voltou atenção ao aparelho. “Entende agora, porque brigávamos tanto quando crianças?” Havia nostalgia em sua voz. “Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, você iria roubá-lo de mim.”
Sentiu o rosto queimar, num misto de nervosismo, ansiedade e vergonha. As brigas entre Taichi e Yamato tinham sido há muito tempo, não tinha como estarem relacionadas aos seus sentimentos pelo menor.
“Você sempre o olhou de um jeito diferente” complementou. “E era mútuo.” Encarou a expressão ainda mais espantada do amigo. “Achei que vocês nunca iriam perceber.”
“Mas...”
“Por isso eu te disse...” interrompeu. “Você nunca foi verdadeiramente apaixonado pela Sora.” O loiro sorriu condescendente.
“Então você não está chateado com isso?” O nervosismo preencheu sua voz, dando a frase um efeito estranhamente cômico.
“Ele parece muito feliz ao seu lado, então não tenho do que reclamar.” Yamato se ajeitou melhor no sofá, colocando os pés sobre a mesa de centro. Taichi engoliu em seco, realmente também acreditava que o menor fosse feliz ao seu lado, mas com a repentina separação não tinha mais tanta certeza. “Mas se você o fizer chorar, eu vou arrancar a sua cabeça.” Yamato voltou o olhar sobre Taichi, os olhos zelosos e ameaçadores, e o moreno teve certeza de que o loiro falava sério.
=8=
Takeru estava sentado, solitário, na sala de seu apartamento assistindo TV. Na cozinha, pendurado na geladeira, havia um bilhete da mãe informando que faria horas extras e só voltaria no dia seguinte. Não que o garoto se incomodasse, de certa forma, acostumara a passar boa parte do tempo sozinho.
O céu assumia uma tonalidade púrpura, tentava manter atenção no programa, mas lentamente seus olhos vagavam em direção a porta. Em dois dias Yamato se mudaria para Tóquio. Em dois dias, ele nunca mais veria Taichi. Sentiu os olhos ficarem úmidos, mas reprimiu a vontade de chorar, havia se decidido e não voltaria atrás. Tentou voltar a atenção ao programa, seus olhos foram para a porta novamente. TV. Porta. TV. Porta. TV... Desligou o aparelho e foi em direção a porta. Ele não estava mudando sua decisão, ele estava apenas... Abriu a porta do apartamento e saiu.
=8=
Patamon encarava seu reflexo na janela, Odaiba já estava iluminada pelas luzes artificiais, dando a cidade uma configuração muito diferente da que tinha a luz do sol.
“Patamon, o jantar já está na mesa” chamou Veemon, entrando no quarto de Daisuke e equilibrando-se no batente da janela, ao lado do Digimon amarelo.
“Não estou com fome” respondeu com um muxoxo.
“Mas você precisa se alimentar, ou nunca será forte e bonitão como eu” fez uma pose galante, que passou despercebida pelo monstrinho alado. “Você parece chateado?” observou, sem muita certeza.
“Por que Takeru me abandonou?” abriu o berreiro, chorando como uma criança.
O Digimon azul encarou o outro sem entender, não sabia por que o menor chorava, nem que história era essa de abandono.
“Takeru não te abandonou.” Daisuke estava encostado no batente da porta, as mãos enfiadas nos bolsos da calça. Pedira a Veemon chamar o menor para o jantar, mas com a demora fora verificar o que tinha acontecido. “Ele pediu para que eu o trouxesse porque você estava muito entediado, e achou que te faria bem brincar um pouco com o Veemon.”
“Mesmo?” perguntou o anjo desconfiado.
“Claro” deu seu sorriso mais confiante.
“Então por que ele não está aqui, para brincar com todos nós?” replicou.
“Porque... Ele está ajudando Yamato com a mudança, é isso” revirou os olhos.
“Eu poderia ter ido ajudar” reclamou.
“Mas não é muito mais divertido estar aqui, do que ficar carregando um monte de coisas pesadas?” interrompeu Veemon.
Patamon pareceu ponderar, então seu rosto se iluminou. Pensando bem, Takeru estava sendo bom ao poupá-lo do esforço e dando-lhe a oportunidade de brincar com Veemon, porque sim, o Digimon alado andava muito entediado. Animado, voou em direção a cozinha, acompanhado do dinossauro azul.
Motomiya deu um suspiro aliviado, não sabia qual outra desculpa inventar se Patamon não tivesse acreditado. Não fazia ideia do porquê Takeru pedira para que ficasse com Patamon naquela semana, mas o loiro pedira com tanto afinco, que não teve como negar. O garoto andava diferente, parecia melancólico e cabisbaixo, e embora Daisuke estivesse curioso para saber o motivo desse comportamento, preferiu não perguntar nada.
=8=
Taichi enrolou-se no agasalho e apertou o passo. Não estava frio, mas vento estava cortante. Perdera a noção da hora e ficara tempo de mais na casa de Yamato. As ruas estavam vazias, para uma quinta-feira, por isso ficou bastante surpreso quando encontrou Takeru próximo ao parque Odaiba.
O garoto trajava roupas finas, o cabelo estava bagunçado e ele suava em bicas, como se tivesse corrido uma maratona.
“Oi, Takeru” cumprimentou.
“Taichi-san” cumprimentou, com uma leve mesura.
Maldito honorífico, desde que começaram a namorar, o loiro já não o chamava tão formalmente.
“Está voltando para casa?” Perguntou apontando na direção que o garoto seguiria.
“Sim”
“Quer que eu o acompanhe?” Sabia que a resposta seria negativa, mas a conversa com Yamato havia lhe recobrado a coragem.
O loiro não disse nada, mas concordou com gesto. Os dois garotos seguiram em direção a casa dos Takaishi, uma distância considerável entre eles, um profundo silêncio. O menor tremia de frio, os lábios estavam azulados e ele se abraçava da melhor forma possível, tentando evitar as rajadas de vento.
“Você estava na casa do Onii-chan?” Takeru quebrou o silêncio, presumiu que o maior estava com o irmão, pelo caminho do qual vinha.
“Sim.”
“Estavam acertando os preparativos da mudança?”
“Os últimos detalhes, já está tudo pronto.” Yamato e Taichi dividiriam o apartamento em Tóquio.
“Que bom” a voz saiu ligeiramente melancólica.
A conversa morreu, caindo em um incômodo silêncio.
“Eu fui a sua casa”, o loiro quebrou o silêncio, após alguns quarteirões.
Taichi parou, ficou encarando o menor sem entender. Por que Takeru fora até sua casa?
“Eu fui a sua casa” repetiu. “Mas sua mãe me disse que você tinha saído.” Percebeu a confusão no rosto do maior. “Eu fui para me despedir.”
“Ah” Taichi sentiu seu sangue gelar, se por um segundo criara alguma esperança, ela acabava de receber um balde de água fria.
Os dois permaneceram em silêncio até chegar ao prédio onde Takeru morava. O menor se virou para Taichi, diante do portão.
“Muito obrigado por me acompanhar, Taichi-san.”
“De nada.”
“Eu desejo muita sorte na sua nova vida, e que você seja muito feliz em Tóquio.” Embora suas palavras fossem doces e em seu rosto permanecesse uma expressão suave, suas mãos puxavam desconfortavelmente a barra da camisa.
“Obrigado. Eu também desejo muita sorte para você, no novo colégio, e, por favor, cuide da Hikari por mim.” Então era isso, uma despedida simples, sem choro, sem palavras amargas, tão indiferente. “Até mais” fez um aceno e virou as costas.
“Eu não quero que me despedir realmente.” A frase saiu clara e ecoou pela noite, interrompendo os passos do mais velho.
“Você não precisa” respondeu, voltando-se para o menor.
“Mas você vai embora” a voz saiu como um lamento.
“Você pode ir me visitar” Taichi enfiou as mãos nos bolsos. Em parte não queria estender aquela conversa, pois Takeru estava quase congelando, mas aquelas eram as palavras que ele desejava ouvir.
“Você vai conhecer pessoas interessantes lá” os olhos desviaram para o chão.
“Sim, algumas.”
“E você vai se esquecer de mim” sentenciou, encarando o maior.
“Você acha?” inquiriu.
“Você vai ter uma vida diferente agora, não vai haver espaço para mim. É melhor as coisas ficarem do jeito que estão.” Seus olhos não estavam úmidos, sua voz estava firme, e seus temores eram apenas de frio, nunca imaginou que falaria tais coisas com tamanha segurança. Repassara os argumentos milhões de vezes em sua mente, antes de decidir terminar com Taichi, e tinha certeza, aquela era a decisão mais acertada.
“Acredita mesmo nisso?” O moreno sentia-se cada vez mais leve, as palavras de Takeru o faziam ter certeza de que o menor ainda o amava.
“Sim” titubeou. “Um dia você verá que estou certo.”
“Eu posso esperar...” Seus lábios se abriram em um delicado sorriso.
“Esperar?”
“Pelo dia que você verá que está errado.” Taichi sorriu confiante.
Takeru sentiu o rosto corar e desviou o olhar para o chão. Viu os pés de Taichi se aproximarem e sentiu mãos envolverem seu rosto. Sentiu o rosto ser alinhado e a testa incendiar, onde Taichi depositara um beijo. As mãos escorregaram pelos ombros e envolveram as mãos do menor. Os olhos se encontraram. Não havia tristeza ou medo nos olhos castanhos, eles estavam límpidos e pacíficos. Os olhos azuis tremiam levemente, contendo a vontade de chorar, eles revelavam o que suas palavras desejam esconder.
“Eu te odeio” os lábios tremeram, e ele fez uma careta, tentando recobrar o controle das suas emoções. “E te amo tanto.” Era a primeira vez que reunira coragem suficiente para dizer tais palavras, nunca antes conseguira dizer algo além de um “eu gosto de você”.
“Eu só te amo.” Taichi declarou encostando sua testa na do menor e fechando os olhos. Sentia-se incrivelmente leve e em paz. O loiro acompanhou o gesto, também fechando os olhos. Uma lágrima desobediente deslizou pelo rosto. Já não sentia mais frio, medo ou incertezas perfurarem seu coração. Pela primeira vez em semanas, sentia-se bem.
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