Insólito
13 Capítulo 12
Notas iniciais
E chegamos ao final de mais uma jornada. Foi longa, difícil, mas divertida. Agradeço a todos que me acompanharam, seja comentando, criticando, favoritando ou simplesmente lendo.
A companhia de vocês foi incrível e me incentivou muito. E como presente de despedida: postagem dupla! Espero que gostem.
CAPÍTULO 12: UM POUCO MAIS SÁBIO
“Eu também te amo” respondeu com uma voz melosa. Takeru desatou a rir da cara do irmão, que teve que se afastar do caçula para continuar a conversa que tinha com a namorada, através do celular. Era sábado, as coisas de Yamato já estavam encaixotadas e ele só aguardava o pai de Taichi vir buscá-lo. O senhor Ishida conferia pela décima vez se todas as caixas estavam devidamente etiquetadas.
Finalmente, ouviu-se um carro buzinar e o senhor Ishida colocou a cabeça para fora da janela, acenando e gritando. Voltou ao apartamento e mandou Yamato sair do telefone. Enquanto o adolescente se despedia da namorada, o pai pegou algumas caixas e desceu ao encontro do senhor Yamagi. Gabumon pegou a caixa restante e desceu também, acompanhado de Patamon.
Yamato desligou o telefone, conferiu os pertences na mochila, ajeitou-a nas costas e deixou seus olhos passearem pelo apartamento, não voltaria por um longo tempo. Antes que Yamato fechasse a porta, Takeru observou a guitarra, solitariamente abandonada em um canto da sala.
“Você não vai levá-la?” Apontou para o instrumento.
“Não vou ter espaço para ter uma guitarra lá” respondeu enquanto trancava o apartamento.
Os irmãos desceram os lances de escada silenciosamente. Yamato puxava as alças da mochila, ansioso. Takeru o acompanhava, as mãos enfiadas no bolso de canguru do moletom branco. Ele estava feliz pelo sucesso do irmão, e ao mesmo tempo triste, pois não teriam mais suas quartas-feiras.
“Onii-chan” chamou quando atingiram o último lance.
Yamato virou lentamente, observando o irmão parado alguns degraus a cima. O rosto parecia triste e apagado, o mais velho sentiu um aperto no coração. Vagarosamente, Takeru tirou as mãos do bolso, revelando um embrulho em papel verde. O embrulho estava amassado e surrado, como se tivesse sido atropelado por um caminhão, parte do papel havia desbotado e rasgado.
“Takeru, você não precisa me dar um presente de des...”
“É um presente de natal” interrompeu, estendo o embrulho.
“Natal? Mas ainda estamos em julho.” Yamato recebeu sem entender.
“Eu comprei há dois anos” informou.
“E o que aconteceu com ele?” Inquiriu, chacoalhando o embrulho e observando o estado em que se encontrava.
“Eu estava chateado com você, por isso não entreguei antes.”
“Chateado com o quê?”
“A Sora...” Respondeu sem muita certeza.
“Todo esse tempo?” Devolveu-lhe um olhar incrédulo.
“Bem, não...” Takeru estava começando a se enrolar.
“Então, com o quê?”
“Eu não sei ao certo” coçou a cabeça, confuso, o rosto ligeiramente corado. “Mas agora está tudo bem”, sorriu infantilmente.
Yamato sorriu de volta. Só podia imaginar o porquê de Takeru estar chateado com ele por tanto tempo e teve certeza de quem era o motivo. Abriu o embrulho e sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Dentro havia uma harmônica diatônica[1] dourada, com detalhes em madeira. Embora tocasse guitarra, tinha verdadeiro amor pelo instrumento. E uma daquelas custava um bom dinheiro.
“Takeru, eu...” as palavras não saíram. Yamato não era muito sentimental, mas o presente do caçula, mesmo com anos de atraso, o havia emocionado. Yamato subiu um degrau e abraçou o irmão fortemente.
“Você pode tocar para mim, quando eu for te visitar” incentivou, era muito estranho ver seu irmão chorar, ainda mais de felicidade.
Yamato se afastou, secando as lágrimas rapidamente na manga da camisa. Então envolveu a mão do menor na sua e desceram o último lance de escadas.
=8=
Taichi não soube descrever exatamente o que sentiu ao ver os dois irmãos se aproximarem, as mãos entrelaçadas. Não era ciúme, talvez fosse apenas inveja.
“Oi Taichi” cumprimentou o menor, sorrindo. Sem o honorífico.
“Takeru” fez um breve aceno com a cabeça. “Não quer ir com a gente, tem um lugar sobrando no carro”, disse apontando para o veículo estacionado.
“Taichi, o que o Agumon está fazendo aqui?” Perguntou Yamato, ao ver o Digimon dragão pulando no banco traseiro do carro e fazendo caretas para Gabumon e Patamon, que aguardavam ao lado do veículo. “Você sabe que não podemos levar Digimons para o apartamento.”
“Mas eu estou o levando para conhecer Tóquio. Você pode levar o Gabumon também”, respondeu.
“Isso não é uma excursão”, protestou.
“Então, quer ir com a gente, Takeru?” Perguntou ignorando completamente os argumentos do loiro.
“Não, está tudo bem.” Enfatizou sua resposta agitando as mãos.
O senhor Ishida terminou de carregar o carro, e o senhor Yagami acertou a rota no GPS. “Vamos” chamou, antes que ficasse muito tarde.
Yamato se despediu de Gabumon, que estava muito melancólico por ser deixado em Odaiba. Despediu-se do pai e por último do caçula.
“Cuide bem do papai e do Gabumon” disse, espiando o patriarca, que fez uma carranca indignada. “Cuide-se também e vá nos visitar.” Não passou despercebido o uso do plural na frase do irmão. Os irmãos se abraçaram e Yamato bagunçou os cabelos do menor. Sentiria muita falta de Takeru.
O garoto entrou no carro, acomodando-se ao lado de Agumon. Taichi abriu a porta do passageiro, ao lado do motorista e encarou o menor. Milhões de coisas passavam por sua cabeça, frases a serem ditas, sentimentos a serem sentidos. Mas ele não conseguiu fazer nada, apenas ficou encarando o loiro. Takeru levantou a mão e acenou um tímido adeus, sem dizer nada. Taichi retribuiu o gesto, sentindo que se ficasse mais um segundo ali, suas pernas não o deixariam ir embora. Entrou rapidamente, e encarou o para-brisa. Ouviu os gritos de adeus, quando o carro começou a se mover, sentiu grossas lágrimas se formarem, mas engoliu em seco, não tinha porque chorar.
=8=
“Tem certeza que não quer ficar e comer alguma coisa?” Sugeriu o pai.
“Desculpe pai, talvez outra hora” sorriu. Despediu-se do homem e de Gabumon e tomou o caminho de casa, Patamon equilibrado na cabeça.
O dia estava bonito e ensolarado, o céu estava profundamente azul e não havia nenhuma nuvem para atrapalhar o sol. Havia várias pessoas fazendo compras e se divertindo nos parques, fazendo com que Odaiba pulsasse.
Mas Takeru não dividia tal agitação. Seus passos eram lentos e sua mente parecia trabalhar ainda mais devagar que seu andar. Vagava entre as lembranças dos últimos meses. Dor, raiva, alegria, esperança, desespero, desejo, sensações que ele mal conhecia se tornaram suas inseparáveis companheiras. Mas agora quem o acompanhava, era apenas a solidão, que ele conhecia muito bem.
Não seria tão difícil quanto da primeira vez, pensou, não era uma separação realmente, não como fora a dos pais. Mas ainda era doloroso se afastar das duas mais importantes para si.
Instintivamente correu uma das mãos para o bolso da calça e seus dedos envolveram o objeto ali contido, sem perceber soltou um suspiro triste.
“Takeru, está tudo bem?” Perguntou Patamon, que até então permanecia em silêncio.
“Está” sorriu, revirando os olhos, tentando enxergar o Digimon sobre sua cabeça. “Quer um sorvete?”
“Sim!!” respondeu o anjo, animado. Adorava doces.
=8=
Patamon e Takeru estavam sentados no banco do parque Odaiba. O Digimon deliciava-se com o sorvete, como se fosse a coisa mais saborosa do mundo. Takeru observava os transeuntes, sem realmente vê-los, sua mente estava tão distante, que mal identificava os borrões.
Não conseguiria precisar qual era sua situação com Taichi. Na quinta-feira, sentiu o maior desvencilhar suas mãos, mas só teve coragem de abrir os olhos depois de muito tempo e pode vê-lo se afastando a passos lentos. Sentiu algo metálico na mão direita e a abriu lentamente. Era um gesto simples, uma lembrança quase insignificante, mas representava tudo o que ele mais amava no líder.
“Takeru, cuidado!” a voz estridente de Patamon, o tirou de seu devaneio. Bem a tempo de desviar de uma bola de futebol, que vinha acelerada em sua direção.
A bola passou a centímetros do seu rosto e caiu em um canteiro logo atrás do banco onde estava. O loiro pôde sentir os cabelos se agitarem quando a bola passou por ele, e teve certeza, seria uma pancada bem dolorida.
“Desculpe” uma voz masculina gritou. “Takeru?” Parado diante si, Daisuke trajava um uniforme de futebol e chuteiras. “Foi mal.” Desculpou-se, sem jeito.
“Está tudo bem” levantou-se. “Vamos Patamon.” Não deveria ter se lembrado da quinta-feira, sentia-se novamente melancólico e solitário.
“Está tudo bem?” Daisuke perguntou, observando o Digimon alado se aninhar nos cabelos claros.
“Sim, a bola não me atingiu.”
“Não foi por isso que eu perguntei” respondeu analisando as feições do loiro. “Você parece triste.”
Takeru não respondeu, apenas encarou Daisuke, que sustentou o olhar. Os dois garotos se encaram por um tempo, sentindo o sol lhes aquecer.
“Daisuke, vamos logo” chamou um menino, se aproximando.
O ruivo foi até os arbustos, recuperou a bola e atirou ao amigo, anunciando que não iria mais jogar. Não que sua preocupação com Takeru fosse suficiente para fazê-lo desistir do jogo, mas algo em sua mente lhe dizia para fazer isso.
O brasão da esperança se virou e começou a caminhar, circundando o parque. Daisuke apressou o passo até emparelhar com outro e seguiu seu ritmo. O jovem olhava para o outro de esguelha, observando seu olhar vago e perdido, os olhos azuis estavam muito brilhantes, e Motomiya achou que o loiro fosse começar a chorar.
A mão do adolescente foi até o bolso, seus dedos envolveram o objeto metálico e então, parou. Fechou os olhos e deu um longo suspiro.
“Eu estou pronto.” Daisuke apenas o encarou, trocou um olhar confuso com Patamon e voltou a analisar o rosto de Takaishi. “Eu estou pronto para te contar.” As palavras saíram altas e firmes. Takeru abriu os olhos lentamente, neles queimava uma chama de coragem e determinação.
Motomiya revirou os olhos tentando se lembrar do que Takeru estava falando. Então se lembrou da briga no vestiário. Sorriu, incentivando-o. Se finalmente o loiro estava pronto para contar, significava que de alguma forma julgava que Daisuke estava aprovado para ouvir.
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