Insólito

2 Capítulo 1


CAPÍTULO 1: AMIZADE DESCONFORTÁVEL

Takeru se despediu de Motomiya Daisuke e Yagami Hikari e tomou o caminho oposto que fazia todos os dias, era quarta-feira. Quartas-feiras eram seus dias preferidos, pois eram os dias que reservava para passar com Yamato.

Desde o divórcio dos pais, quando era pequeno, o máximo de tempo que Takeru havia passado com o irmão fora durante a estada no Digimundo. Agora os dois estavam muito ocupados com o colégio e atividades extraescolares, e quase nunca tinham tempo de se encontrar, por isso haviam combinado o dia dos irmãos, um dia da semana onde eles poderiam desfrutar da companhia um do outro.

O loiro folheava pela milésima vez o livro de testes para o exame de admissão da Academia T, enquanto rumava para a casa do mais velho. Foi-se o tempo que ele era só um aluno do fundamental despreocupado, onde sua única função era proteger o Digimundo. No ano seguinte ingressaria no ginasial e precisava escolher uma boa instituição.

O jovem decidira que seria bom poder estudar no mesmo colégio que o irmão, mesmo com a formatura de Yamato sendo no mesmo ano, o que impossibilitaria os irmãos de estudarem juntos.

De qualquer forma, todos os digiescolhidos haviam chegado ao acordo de que a Academia T seria a melhor opção e todos prestariam o exame. Inoue Miyako, que era um ano mais velha, já cursava o primeiro ano colegial na instituição, e vivia elogiando o colégio. Ichijouji Ken era um gênio, e estudava em colégio elitista, para ele seria muito fácil passar no exame de admissão da academia. Mas infelizmente para Takeru a situação não era muito boa. Ele quase não tinha tempo para estudar, devido aos treinos de basquete (ele fazia parte do time da escola) e ele não era nenhum gênio ou coisa parecida, e teria que estudar muito para passar, mas toda vez que olhava para o livro, sua vontade diminuía.

Takeru atravessou o parque Odaiba apressado, ansioso para passar algum tempo com Yamato. Estava tão animado que só reparou que esbarrara em alguém quando o livro de testes, que levava nas mãos, foi ao chão. O adolescente fez uma profunda mesura e se desculpou, a pessoa com quem esbarrara estava tão ocupada que seguiu seu caminho sem dar maior atenção ao rapaz. Quando foi abaixar para pegar o livro, uma mão foi mais rápida e tirou-o do seu campo de visão. Ao se levantar para buscar o livro, os olhos de Takeru se depararam com um rapaz usando o uniforme da Academia T, que analisava a capa do livro.

“Você também vai prestar o exame para a Academia T?” perguntou encarando o jovem a sua frente e lhe devolvendo o livro.

“Taichi-san!” exclamou Takeru.

“Hikari vive com a cara enfiada nesse livro, ela está muito dedicada a ingressar no colégio.”

“A Hikari-chan é muito inteligente, tenho certeza que ela se dará muito bem nos exames.”

“Então... você vai com ela?” perguntou o mais velho, curioso.

“Sim” respondeu, só então percebeu as entrelinhas que havia naquela pergunta. “Ah, bem todos nós vamos, os digiescolhidos.” Completou apressado.

“Entendo” disse Yagami, enfiando as mãos nos bolsos. “O que faz por aqui?”

“Vim visitar o Onii-chan.” Informou alegremente. Não importava o quanto Takeru tivesse crescido, ele ainda era bastante infantil ao que se referia ao irmão.

“Eu também estava indo vê-lo, mas acho que talvez não seja uma boa ideia, afinal vocês devem querer passar algum tempo juntos e...”.

“Seria ótimo se você viesse também.”

Taichi parecia indeciso ao aceitar o convite, ele não tinha nenhum assunto realmente sério a tratar com Yamato, iria até a residência do amigo só para matar o tempo. Não achava certo invadir o tempo que os irmãos Ishida passavam juntos, tempo esse que era bem escasso. Mas Takeru o convidara de maneira tão natural e infantil, que provavelmente começaria a chorar se o mais velho não aceitasse. Assim, os dois adolescentes partiram para a residência dos Ishida.

=8=

A reunião não poderia ser mais animada. Yamato estava no fogão preparando comida extra para a visita inesperada, enquanto Taichi e Takeru caçoavam de seus dotes culinários. Gabumon tentava ajudar no preparo, mas o Digimon não era muito habilidoso e acabava estragando o que Yamato fazia, o que rendia mais risadas a dupla de visitantes. Takeru sentiu-se novamente com oito anos, quando o trio passava bastante tempo juntos, protegendo o Digimundo.

“Fique satisfeito com isso” disse o loiro empurrando um prato de panquecas ligeiramente queimadas para o amigo.

“Isso deve estar horrível.” Taichi cutucou o alimento com um garfo enquanto fazia uma careta.

“Aposto que a porta da rua vai te satisfazer com muito mais gosto” provocou Yamato.

“Eu não estou com pressa” respondeu o adolescente dos cabelos castanhos, mostrando a língua para o amigo. “Além disso, o Takeru é bonzinho, aposto que ele vai dividir o delicioso prato dele comigo.”

“Sinto muito, Taichi-san.” Takeru puxou o prato de panquecas para perto de si. As panquecas no prato do menor eram suculentas, Yamato passara horas fazendo o prato à espera do irmão. “Mas prometi ao Patamon que levaria um pouco para ele, ele adora as panquecas do Onii-chan.”

Yamato desatou a rir, implicando com o amigo. Os garotos comeram, conversaram, jogaram videogame, ouviram a nova música que Yamato compusera. A tarde passou lenta e agradavelmente, o sol já tinha se posto, quando a campainha do apartamento tocou. Yamato atendeu a porta e voltou para a sala de mãos dadas com Sora.

“Oi Takeru-kun” cumprimentou educadamente. “Taichi”.

“Sora-chan, tudo bem?” cumprimentou o jovem de cabelos loiros, cordialmente. Taichi apenas fez um leve aceno com a cabeça e se levantou bruscamente.

“Bom, já está na minha hora. Obrigado pelas panquecas, Yamato” disse enquanto dava um soco de leve no ombro do amigo. “Takeru estude bastante, você tem que cuidar da Hikari no novo colégio” acenou para o garoto que estava sentado no sofá. Takeru sentiu o rosto corar e desviou o olhar. “Tchau gente”, se despediu com um aceno e saiu do apartamento.

Após a saída de Taichi, o adolescente ficou encarando a porta, como se esperasse que o outro voltasse. A presença de Sora incomodava o melhor amigo do irmão, e Takeru não sabia o porquê, isso passara a incomodá-lo também. Gostava da tenista, mas sabia que quando ela estava perto, Taichi procurava uma desculpa para se afastar. Tentou convencer-se de que o incômodo era porque via Taichi como um irmão, mas suspeitava que o real motivo não fosse esse.