Notas iniciais
Oii cupcakes.
Eu agradeceria se vocês lessem o que vou escrever agora.
1° Novamente vou deixar claro que Os instrumentos Mortais pertencem a diva da Cassandra Clare.
2° A maioria dos personagens são de autoria de Rick Riordan.
3° Essa é minha primeira fanfic aqui na plataforma dos Spirit, então não tenho grandes expectativas que essa história seja boa.
4° Já vou adiantando que qualquer erro ortográfico, me desculpem.
5° Eu não terei um dia exato para atualizar os capítulos pois é complicado transcrever o livro original para uma versão de Percy Jackson.
6° Desde já, já agradeço por terem lido isso e espero de coração que gostem da história.

— Você só pode estar brincando — disse o segurança, cruzando os braços sobre o peito imenso. Ele encarou de cima o garoto com a jaqueta vermelha de zíper e balançou a cabeça raspada. — Você não pode entrar com isso.

Os cerca de cinquenta adolescentes na fila da boate Pandemônio se inclinaram para a frente, a fim de ouvir a conversa. A espera para entrar na boate sem restrição de idade estava longa, principalmente para um domingo, e, em geral, não acontecia nada demais nas filas. Os seguranças eram ferozes e cortavam instantaneamente qualquer um que aparentasse estar prestes a provocar confusão. Annabeth Chase, de 15 anos, na fila com seu melhor amigo, Jason, se inclinou para a frente, assim como todas as pessoas, esperando alguma agitação.

— Ah, qual é. — O menino levantou o objeto por cima da cabeça. Parecia uma viga de madeira, com uma das pontas afiadas. — É parte da minha fantasia.

O segurança ergueu uma sobrancelha.

— Que seria de quê?

O menino sorriu. Ele parecia normal o suficiente para o pandemônio, pensou Annie. Tinha cabelos pintados de azul que pendiam de sua cabeça como os tentáculos de um polvo assustado, mas não tinha tatuagem no rosto ou grandes piercings nas orelhas ou nos lábios.

— Sou um caçador de vampiros — disse,apertando o objeto de madeira. Dobrava com a mesma facilidade que uma folha de grama dobraria de lado. — É falsa. De borracha. Está vendo?

Os olhos grandes do menino eram verdes, excessivamente brilhantes, Annie notou: cor de grama da primavera. Lentes de contato coloridas, provavelmente. O segurança deu de ombros, repentinamente entediado.

— Tá bom...! Pode entrar.

O menino passou por ele, rápido como um raio. Annie gostou do movimento dos ombros dele, do jeito que mexeu no cabelo ao entrar. Existia uma palavra que a mãe dela teria usado para descrevê — lo — despreocupado.

— Você o achou bonitinho — disse Jason, parecendo resignado. — Não achou?

Annie deu uma cotovelada nas costelas dele, mas não respondeu.

Lá dentro, a boate estava cheia de fumaça de gelo-seco. Luzes coloridas enfeitavam a pista de dança, transformando-a em um multicolorido reino de azul,verde, rosa-shocking e dourado.

O menino da jaqueta vermelha passou a lâmina afiada na mão, com um sorriso indolente nos lábios. Havia sido tão fácil — algum encantamento na lâmina, para fazer com que parecesse inofensiva. Outro encantamento em seus olhos e, assim que o segurança o encarou, ele entrou. Evidentemente, ele poderia ter passado sem toda a comoção, mas aquilo fazia parte da diversão — enganar os mundanos, descaradamente, na frente deles, curtir os olhares vazios naqueles rostos que tanto lembravam ovelhinhas de rebanho.

Não que os humanos não tivessem utilidade. Os olhos verdes do menino examinaram a pista de dança, onde braços vestidos em peças de seda e couro preto apareciam e desapareciam nas colunas giratórias de fumaça enquanto os mundanos dançavam. Garotas mexiam em seus cabelos longos, garotos balançaram os quadris vestidos de couro e peles nuas brilhavam com suor. Vitalidade simplesmente transbordava deles, ondas de energia que os enchiam de uma tontura inebriante. O lábio do menino se contraiu. Eles não sabiam a sorte que tinham. Desconheciam o que era prolongar a vida em um mundo morto, no qual o sol se pendurava vacilante no céu como uma brasa queimada. Tinham vidas que flamejavam tão brilhantes quanto chamas de velas — e eram igualmente fáceis de ser apagadas.

A mão do menino do menino apertou a lâmina que carregava. Havia começado a adentrar a pista de dança quando uma menina surgiu da multidão de dançarinos e começou a caminhar em sua direção. Ele a encarou. Ela era linda, para uma humana — cabelos longos castanhos da cor de chocolate, olhos caleidoscópio. Vestido branco até o chão, do tipo que as mulheres usavam quando este mundo era mais jovem. Mangas de renda desciam se abrindo por seus braços finos. Em volta do pescoço havia uma corrente grossa de prata, na qual um grande pingente vermelho-escuro se pendurava. Ele só precisou apertar os olhos para ver que era de verdade — de verdade e precioso. O menino começou a ficar com água na boca à medida que ela ia se aproximando. Energia vital pulsava dela como sangue fluindo de uma ferida aberta. A menina sorriu, passando por ele, acenando com os olhos. Ele se virou para segui-la, sentindo nos lábios o doce sabor de sua morte iminente.

Sempre era fácil. Ele já podia sentir o poder da vida que evaporava da menina, correndo por sua vida como fogo. Os humanos eram burros demais. Tinham algo tão precioso mas cuidavam mal daquilo. Jogavam a vida fora por dinheiro, por saquinhos de pó, pelo sorriso charmoso de um estranho. A menina era um fantasma pálido passando através da fumaça colorida. Ela chegou à parede e virou-se, segurando a saia com as mãos, levantando-a enquanto sorria para ele. Sob a saia usava botas que iam até a coxa.

Ele foi até ela, sentindo a pele pinicar com a proximidade da menina. De perto, ela não era tão perfeita: dava para ver o excesso de maquiagem sob os olhos, o suor grudando o cabelo ao pescoço. Ele podia farejar a mortalidade, o doce apodrecer da corrupção. Te peguei, pensou ele.

Um sorriso descontraído curvou os lábios dela. Ela foi para o lado, e ele pôde ver que a menina estava se apoiando em uma porta fechada. ENTRADA PROIBIDA — DEPÓSITO estava escrito em tinta vermelha. Ela alcançou a maçaneta e girou-a, entrando. Ele avistou várias caixas empilhadas e fios emaranhados. Um depósito. Deu uma olhada para trás — ninguém estava olhando. Muito melhor se ela quisesse privacidade.

Ele entrou na sala depois dela, sem perceber que estava sendo seguido.

— E aí — disse Jason — , a música é boa,não é?

Annie não respondeu. Estavam dançando, ou fingindo que estavam — muito balanço para a frente e para trás, e investidas ocasionais em direção ao chão como se algum deles tivesse derrubado uma lente de contato — em um espaço entre um grupo de meninos adolescentes trajando espartilhos metálicos e um jovem casal asiático que se beijava apaixonadamente, com apliques coloridos se enrolando como vinhas. Um menino com piercing labial e uma mochila de ursinho de pelúcia estava distribuindo tabletes gratuitos de êxtase de ervas, sua calça de paraquedista balançando com a brisa da máquina de vento. Annie não estava prestando muita atenção aos arredores imediatos — estava de olho no menino de cabelos azuis que havia passado uma conversa no segurança para entrar na boate. Ele estava passando pela multidão como se estivesse procurando alguma coisa. Havia algo familiar na maneira como ele se movia...

— Eu, por exemplo — continuou Jason –, estou curtindo bastante.

Isso parecia improvável. Jason, como sempre, destacava-se na boate como um dedão machucado, vestindo calça jeans e uma camiseta velha que dizia MADE IN BROOKLYN na frente. Os cabelos recém-escovados eram loiros, e não verde ou rosa, e os óculos apoiavam-se na ponta do nariz. Ele não parecia tanto alguém que estivesse refletindo sobre poderes obscuros, mas sim uma pessoa a caminho de um clube de xadrez.

— A-hã. — Annie sabia perfeitamente bem que ele só tinha ido para o Pandemônio porque ela gostava, e que na verdade ele achava chato. Ela nem sabia por que gostava — as roupas, a música, tudo fazia aquele lugar parecer um sonho, a vida de outra pessoa, nada como sua verdadeira vida monótona . Mas Annie era sempre tímida demais para falar com qualquer outra pessoa que não fosse Jason.

O menino de cabelo azul estava saindo da pista de dança. Ele parecia um pouco perdido, como se não tivesse encontrado a pessoa que estava procurando. Annabeth imaginou o que aconteceria se ela fosse até ele e se apresentasse, e se oferecesse para mostrar o lugar. Talvez ele só ficasse olhando para ela. Ou talvez fosse tímido demais. Talvez se sentisse grato e gostasse, e então tentasse não demonstrar, como os meninos faziam — mas ela saberia. Talvez...

De repente o menino de cabelo azul se recompôs, evitando atenção, como um cão de caça preparado. Annie seguiu o olhar dele, e viu a menina com o vestido branco.

Fazer o quê?, pensouAnnie, tentando não se sentir como um balão de festa murcho. Acho que é isso. A menina era linda, o tipo de menina que Annie gostaria de ter desenhado — alta e esbelta, com longos cabelos castanhos. Mesmo a distância, Annie podia ver a joia vermelha em volta de seu pescoço. Pulsava sob as luzes da boate como um coração fora do peito.

— Eu acho que — continuou Jason — o DJ Bat está fazendo um trabalho particularmente excepcional esta noite. Você não acha?

Annabeth revirou os olhos e não respondeu; Jason detestava música trance. Ela estava com a atenção voltada para a menina de branco. Através da escuridão , da fumaça e da neblina artificial, o vestido claro brilhava como um farol. Não era de se estranhar que o menino de cabelo azul a estivesse seguindo como que enfeitiçado, distraído demais para perceber qualquer outra coisa ao redor — até mesmo as duas criaturas sombrias que o seguiam, atravessando a multidão.

Annie diminuiu o ritmo da dança e encarou as criaturas. Ela só conseguia identificar que eram meninos altos e que usavam roupas escuras. Ela não sabia dizer como percebera que estavam seguindo o outro garoto, mas tinha certeza disso. Dava para perceber pela maneira como acompanhavam o ritmo dele, pelo cuidado com que observavam tudo, pela graciosidade de seus movimentos sinuosos. Uma leve apreensão começou a tomar conta de seu peito.

— Enquanto isso — acrescentou Jason —, eu queria te dizer que ultimamente tenho me vestido de mulher. Além disso, estou transando com a sua mãe. Achei que você deveria saber.

A menina chegou à parede e estava abrindo uma porta que dizia ENTRADA PROIBIDA. Ela deu uma olhada para o menino de cabelo azul atrás dela, e eles entraram. Não era nada que Annabeth nunca tivesse visto, um casal entrando sorrateiramente em um dos cantos escuros da boate para dar uns amassos, mas isso só fazia o fato de estarem sendo seguidos parecer ainda mais estranho.

Ela ficou na ponta dos pés, tentando enxergar por cima da multidão. Os dois rapazes tinham parado na porta e pareciam estar consultando um ao outro. Ambos tinham cabelos negros, um deles tinha olhos verde-mar, enquanto o outro tinha olhos como carvão. O de olhos verde-mar colocou a mão no casaco e alcançou um objeto longo e afiado que brilhava sob as luzes estroboscópicas. Uma faca.

— Jason! — Annie gritou, e agarrou o braço dela.

— O quê? — Jason parecia alarmado. — Eu não estou transando com a sua mãe de verdade. Só estava tentando chamar sua atenção. Não que sua mãe não seja uma mulher atraente para a idade dela.

— Você está vendo aqueles caras? — ela apontou fervorosamente, quase atingindo uma curvilínea menina negra que estava dançando ali perto. A menina lançou um olhar furioso a Annie. — Desculpe, desculpe! — Annie voltou a atenção para Jason. — Você está vendo aqueles caras ali? Perto da porta?

Jason cerrou os olhos, depois deu de ombros.

— Não estou vendo nada.

— Aqueles dois. Eles estavam seguindo o garoto do cabelo azul...

— O que você achou bonitinho?

— É, mas a questão não é essa. O de olhos verdes pegou uma faca.

— Você tem certeza? — Jason estreitou o olhar para enxergar melhor, balançando a cabeça. — Continuo não vendo nada.

— Tenho certeza.

Repentinamente sério, Jason alargou os ombros.

— Vou chamar um daqueles seguranças. Você fica aqui — ele se afastou, empurrando a multidão.

Annie virou bem a tempo de ver o menino de olhos verdes entrar sorrateiramente pela porta que dizia ENTRADA PROIBIDA, com o amigo logo atrás. Ela olhou em volta; Jason ainda estava tentando atravessar a pista de dança, mas sem muito êxito. Mesmo que ela gritasse agora, ninguém escutaria, e até que Jason voltasse, alguma coisa horrível já poderia ter acontecido. Mordendo o lábio inferior com força, Annabeth começou a correr pela multidão.

— Qual é o seu nome?

Ela se virou e sorriu. A pouca luz que havia no depósito entrava pelas grandes janelas com grades completamente sujas. Pilhas de cabos elétricos, juntamente com pedacinhos de bolas de discoteca espelhadas e latas vazias de tinta sujavam o chão.

— Piper.

— É um nome bonito. — Ele caminhou em sua direção, passando cuidadosamente pelos fios, caso algum deles estivesse ativo. Sob a fraca luz, ela parecia semitransparente, desprovida de cor, envolta em branco como um anjo. Seria um prazer derrubá-la... — Eu nunca te vi por aqui.

— Você está me perguntando se eu venho aqui sempre? — Ela sorriu, cobrindo a boca com a mão.

A menina tinha uma espécie de pulseira em torno do pulso; dava para ver pela renda do vestido. Então, ao se aproximar dela, ele viu que não era uma pulseira, mas um desenho marcado na pele, um emaranhado de linhas entrelaçadas.

Ele congelou.

— Você...

Ele não terminou. Ela se moveu com a potência de um raio, atacando-o com a mão aberta, um golpe no peito que o derrubaria e o deixaria sem fôlego se ele fosse humano. No entanto, ele apenas cambaleou para trás. Logo depois havia algo na mão dela, um chicote que brilhava dourado enquanto o golpeava, enrolando os tornozelos dele e fazendo com que seus pés saíssem do chão. Ele caiu, contorcendo-se, o metal penetrando sua pele. Ela riu, de pé sobre ele que, completamente tonto, pensou que deveria ter percebido. Nenhuma garota humana usaria um vestido como o que Piper estava usando. Ela o estava vestindo para o cobrir a pele — toda a pele.

Piper puxou o chicote com força, segurando-o. Tinha um sorriso que brilhava como água venenosa.

— Ele é todo de vocês, meninos.

Uma risada baixa soou atrás dele, e agora mãos o agarravam, erguendo-o, lançando-o contra um dos pilares de concreto. Ele podia sentir a pedra úmida sob a coluna. Estava com as mãos presas atrás do corpo, atadas com um fio elétrico. Enquanto se debatia, alguém circulou o pilar, aparecendo em seu campo visual: um menino, tão jovem e bonito quanto Piper. Seus olhos verde-mar brilhavam.

— Então — disse o garoto. — Há mais algum com você?

O menino de cabelo azul podia sentir o sangue se acumulando sob o metal excessivamente apertado, deixando -o com os pulsos escorregadios.

— Mais algum o quê?

— Ora, vamos! — O menino de olhos verde-mar levantou as mãos, e as mangas escuras desceram, mostrando os símbolos que tinha tatuados nos pulsos, nas costas e nas palmas das mãos. — Você sabe o que eu sou.

No crânio do menino algemado, o segundo grupo de dentes dele começou a ranger.

Caçador de sombras — sibilou.

Ooutromeninosorriu.

— Te peguei — disse ele.

Annie abriu a porta do depósito e entrou. Por um instante, achou que estivesse vazia. As únicas janelas eram no alto e tinham grades; um barulho fraco da rua entrava através delas, o som de carros buzinando e freando. A sala tinha cheiro de tinta velha, e uma pesada camada de poeira cobria o chão, marcado por sinais de pegadas.

Não ninguém aqui , elapercebeu , olhando em volta espantada. A sala estava fria, apesar do calor de agosto lá fora. Sua coluna estava gelada de suor. Deu um passo para a frente, enrolando os pés em fios elétricos. Ela se abaixou para se livrar dos cabos, e ouviu vozes. A risada de uma menina, um menino respondendo, mordaz. Ao se ajeitar, ela os viu.

Era como se eles tivessem passado a existir em um piscar de olhos. Lá estava a garota com o longo vestido branco, os cabelos castanhos escorrendo da cabeça. Os dois meninos estavam com ela — o mais alto de cabelos escuros como os dela e olhos verdes, e o menor, mais claro, cujos os olhos negros brilhavam sob a fraca luz que entrava pela janela do alto. O menino de olhos verde-mar estava de pé, com as mãos no bolso, encarando o garoto punk, que estava amarrado a uma coluna com o que parecia um fio de piano, com as mãos esticadas para trás do corpo e as pernas amarradas pelos tornozelos. Seu rosto expressava dor e medo.

Com o coração batendo forte no peito, Annabeth se abaixou atrás da coluna de concreto mais próxima e espiou em volta. Ela assistiu enquanto o menino de olhos verde-mar andava para a frente e para trás, com os braços cruzados por cima do tórax.

— Então — disse ele. — Você ainda não me disse se há mais alguém da sua espécie aqui com você.

Sua espécie? Annie tentou imaginar sobre o que ele estaria falando. Talvez ela tivesse se metido em alguma guerra de gangues.

— Eu não sei do que você está falando. — O tom do menino de cabelo azul era dolorido, porém firme.

— Ele está falando de outros demônios — informou o menino de olhos negros, falando pela primeira vez. — Você sabe o que é um demônio, não sabe?

O menino amarrado à coluna virou o rosto, mas continuava movendo a boca.

— Demônios — disse o menino de olhos verde-mar, escrevendo a palavra no ar com o dedo. — Religiosamente definidos como habitantes do inferno, os servidores de Satã, mas entendidos aqui, para o propósito da Clave, como qualquer espíritos malevolentes cuja origem se dê fora da nossa própria dimensão habitacional...

— Basta, Percy — disse a garota.

— Piper tem razão — concordou o menino de olhos negros. — Ninguém aqui precisa de aula de semântica, nem de demonologia.

Eles são loucos, pensouAnnie. Loucos de verdade.

Percy levantou a cabeça e sorriu. Havia algo de feroz naquele gesto, alguma coisa que fazia com que Annie se lembrasse de documentários sobre leões que virá no Discovery Channel, de como os grandes felinos erguiam a cabeça e farejavam o ar à procura de presas.

— Piper e Nico acham que eu falo demais – disse, baixinho. — Você concorda com eles?

O menino de cabelo azul não respondeu. Sua boca continuava se movendo.

— Eu poderia dar informações — disse ele. — Eu sei onde Felipe está.

Percy olhou de volta para Nico, que deu de ombros.

— Felipe está debaixo da terra — disse Percy. — O coisinha só está brincando com a gente.

Piper mexeu no cabelo.

— Mate-o, Percy — disse ela. – Não vai nos contar nada.

Percy levantou a mão, e Annie viu a luz fraca reluzir na faca que ele estava segurando. Era estranhamente translúcida, a lâmina clara como cristal, afiada como um caco de vidro, o cabo decorado com pedras vermelhas.

O menino amarrado arfou.

— Felipe está de volta! — protestou ele, lutando contra os nós que o atavam atrás do corpo. — Todos os Mundos Infernais sabem, eu sei, posso te dizer onde ele está...

Repentinamente, uma raiva chamuscou nos olhos gélidos de Percy.

— Pelo Anjo, toda vez que capturando um de vocês, desgraçados, alegam saber onde Felipe está. Pois bem, nós também sabemos onde ele está. Ele está no inferno. E você... — Percy virou a faca no punho, a ponta brilhando como uma linha de fogo. — Você pode se juntar a ele lá.

Annie não aguentaria mais. Ela saiu do esconderijo atrás da coluna.

— Pare! — gritou ela. — Você não pode fazer isso.

Percy rodopiou, tão assustado que a faca caiu de sua mão e bateu ruidosamente no chão de concreto. Piper e Nico giraram junto com ele, com as mesmas expressões de choque. O menino de cabelo azul ainda preso, também estava chocado e de queixo caído.

Nico foi o primeiro a falar.

— O que é isso? — perguntou, olhando de Annie para os companheiros, como se eles pudessem saber o que ela estava fazendo ali.

— É uma garota — disse Percy, recuperando a postura. — Você certamente já viu garotas antes, Nico. Sua irmã Piper é uma. — Ele deu um passo em direção a Annabeth, cerrando os olhos como se não conseguisse acreditar muito bem no que estava vendo. — Uma garota mundana — disse ele, um pouco para si mesmo. — E ela consegue nos ver.

— É claro que consigo vê-los — disse Annie. — Não sou cega, sabia?

— Ah, é sim — disse Percy, abaixando para pegar a faca. — Você só não sabe disso. — Ele se recompôs. — É melhor sair daqui, se souber o que é melhor para você.

— Não vou a lugar algum — disse Annie. — Se eu for, você vai matá -lo — ela apontou para o menino de cabelos azul.

— É verdade — admitiu Percy, girando a faca pelos dedos. — Por que você se importa se vou matá -lo ou não?

— Por-porque... — engasgou-se Annie. — Você não pode sair por aí matando pessoas.

— Você tem razão — disse Percy. — Não se pode sair por aí matando pessoas. — Ele apontou para o garoto de cabelo azul, cujos olhos estavam fechados. Annie imaginou se ele tinha desmaiado. — Isso não é uma pessoa, garotinha. Pode até parecer uma pessoa, e falar como uma pessoa, e pode até sangrar como uma pessoa. Mas é um monstro.

Percy – disse Piper em tom de aviso. — Já basta.

— Você são loucos — disse Annie, afastando -se dele. — Eu já chamei a polícia, se vocês querem saber. Eles vão chegar a qualquer momento.

— Ela está blefando — disse Nico, mas havia dúvida em sua expressão. — Percy, você...

Ele não chegou a concluir a frase. Naquele instante, o menino de cabelo azul se desvencilhou dos fios que o prendiam à coluna com um berro alto e avançou em Percy.

Eles caíram no chão e rolaram juntos, o menino de cabelo azul atacando Percy com mãos que brilhavam como se fossem cobertas de metal. Annie se afastou, querendo correr, mas prendeu os pés em um monte de fios e caiu, ficando completamente sem fôlego. Ela conseguia ouvir Piper gritando. Ao se levantar, Annie viu o menino de cabelo azul sentado no peito de Percy. O sangue brilhava nas pontas das garras afiadas.

Piper e Nico correram na direção deles; Piper pegando o chicote com a mão. O menino de cabelo azul atacou Percy com as garras esticadas. Percy levantou o braço para se proteger, e as garras o atingiram, derramando sangue. O menino de cabelo azul atacou novamente — e o chicote de Piper atingiu sua coluna. Ele gritou e caiu para o lado.

Rápido como um golpe do chicote de Piper, Percy rolou para o lado. Havia uma lâmina brilhando em sua mão. Ele afundou a faca no peito do menino de cabelo azul, e um líquido quase preto explodiu em volta do cabo. O garoto se contorceu, gorgolejando e girando. Com um sorriso, Percy se levantou. Sua camisa preta agora estava ainda mais escura em alguns pontos, molhada de sangue. Ele olhou para o chão, para a figura que se contorcia a seus pés, abaixou-se e retirou a faca. O cabo estava pegajoso, encharcado de um líquido preto.

Os olhos do menino de cabelo azul abriram repentinamente. Estavam fixos em Percy, e pareciam queimar. Entredentes, ele sibilou:

Que seja! O Renegado pegará todos vocês.

Percy pareceu rosnar. Os olhos do menino rolaram para trás. Seu corpo começou a se debater e a se contorcer enquanto ele se curvava, abraçando a si mesmo, diminuindo cada vez mais, até desaparecer completamente.

Annabeth se levantou cambaleando, livrando-se dos fios elétricos. Ela começou a recuar. Nenhum deles estava prestando atenção nela. Nico havia alcançado Percy e estava segurando o braço dele, arregaçando a manga, provavelmente tentando dar uma olhada melhor no machucado. Annie se virou para correr, mas foi bloqueada por Piper, com o chicote dourado na mão, sujo de líquido preto. Ela o lançou em direção a Annie, e a ponta se enrolou no pulso da menina, prendendo-se com firmeza. Annie exclamou de dor e surpresa.

— Mundana idiota — disse Piper, entredentes. — Você poderia ter causado a morte de Percy.

— Ele é louco — disse Annabeth, tentando puxar o pulso de volta. O chicote penetrou ainda mais sua pele. — Você são todos loucos. O que pensam que são? Matadores vigilantes? A polícia...

— A polícia geralmente não se interessa, a não ser que haja um corpo — disse Percy. Apoiando o braço, ele passou pelo caminho cheio de fios em direção a Annie. Nico o seguiu de perto, com o rosto completamente franzido.

Annie olhou para o ponto no qual o menino havia desaparecido, e não disse nada. Não havia uma única gota de sangue ali — nada que mostrasse que o menino havia existido um dia.

— Eles voltam às suas dimensões de origem quando morrem — disse Percy. – Caso você esteja se perguntando.

— Percy — Sibilou Nico. — Cuidado.

Percy puxou o braço de volta. Uma gotinha fantasmagórica de sangue marcava o rosto dele.

— Ela pode nos ver, Nico — disse ele. — Ela já sabe demais.

— Então, o que você quer que eu faça com ela? — perguntou Piper.

— Deixe-a ir — disse Percy silenciosamente. Piper lançou-lhe um olhar surpreso, quase irado, mas não discutiu. O chicote deslizou, libertando o braço de Annie. Ela esfregou o pulso dolorido e pensou em como conseguiria sair de lá.

— Talvez devêssemos levá-la conosco — disse Nico. — Aposto que Hodge gostaria de falar com ela.

— Não vamos levá-la para o Instituto de jeito nenhum — disse Piper. — Ela é mundana.

— Será que é mesmo? — disse Percy, suavemente. Seu tom quieto era pior do que as agressões de Piper ou a raiva de Nico. – Você já interagiu com demônios, garotinha? Já andou com zumbis, ou falou com crianças noturnas? Você já...

— Meu nome não é "garotinha" — interrompeu Annie. — E não faço ideia do que você está falando. — Não faz? , disseumavoznofundodesuacabeça. Você viu aquele menino desaparecer no ar. Percy não é louco, você apenas gostaria que ele fosse. — Eunãoacredito em... em demônios, ou o que quer que seja que você...

— Annie? — Era a voz de Jason. Ela rodopiou. Ele estava de pé do lado da porta do depósito. Um dos seguranças truculentos que estava carimbando mãos na entrada estava do lado dele. — Você está bem? — Ele a espiou pela escuridão. — Por que está aqui sozinha? O que aconteceu com os caras, você sabe, os que estavam armados com facas?

Annie o encarou, depois olhou para trás, onde Percy, Piper e Nico estavam; Percy ainda com a camisa ensanguentada e a faca nas mãos. Ele sorriu para ela e deu de ombros meio desculpando-se, meio zombando dela. Ele claramente não estava surpreso por não ser enxergado nem por Jason nem pelo segurança.

De alguma forma, Annie também não estava. Lentamente, ela se virou para Jason, sabendo como deveria estar parecendo aos olhos dele, sozinha em um depósito mofado, com os pés enrolados em fios de plástico.

— Eu achei que eles tivessem entrado aqui — disse, dando uma desculpa. — Mas acho que me enganei. Foi mal. — Ela olhou de Jason,cuja expressão estava mudando de preocupada para envergonhada, para o segurança, que só parecia irritado. — Foi erro meu.

Atrás dela, Piper deu uma risadinha.

— Não acredito — disse Jason com um jeito teimoso enquanto Annie, na esquina, tentava desesperadamente chamar um táxi. Os limpadores de rua haviam passado enquanto os dois estavam na boate, e a Orchard Street estava Preta com a água suja.

— Eu sei — Ela concordou. — Tinha que ter pelo menos alguns táxis. Aonde todo mundo está indo à meia-noite de um domingo? — ela olhou novamente para ele, dando de ombros. — Você acha que teremos mais sorte na Houston?

— Não estou falando dos táxis — disse Jason. — Você... eu não acredito em você. Eu não acredito que os caras com as facas simplesmente desapareceram.

Annie suspirou.

— Talvez não houvesse nenhum cara com faca, Jason. Talvez eu tenha imaginado tudo.

— Não mesmo. — Jason ergueu a mão por cima da cabeça,mas os táxis passaram por ele, respingando água suja. — Eu vi o seu rosto quando entrei no depósito. Você parecia completamente assustada, como se tivesse visto um fantasma.

Annie pensou em Percy com os olhos verde-mar indecifráveis. Ela olhou para o Próprio pulso, cercado por uma fina linha vermelha onde o chicote de Piper havia enrolado. Não, não foi um fantasma, elapensou. Foi uma coisa ainda mais estranha que isso.

— Foi um engano — disse fracamente. Ela ficou imaginando por que não contava a verdade. Exceto,é claro, pelo fato de que ele pensaria que ela estava louca. E havia alguma coisa sobre o que havia acontecido, alguma coisa sobre aquele sangue preto borbulhante na faca de Percy, alguma coisa na voz dele quando perguntou , Você falou com as Crianças Noturnas? , queela queria guardar para si.

— Bem, foi um baita erro vergonhoso — disse Jason. Ele olhou de volta para a boate, onde ainda existia uma pequena fila, da porta até metade do quarteirão. — Duvido que voltem a nos deixar entrar no Pandemônio.

— Que diferença faz para você? Você detesta o Pandemônio — Annie levantou a mão novamente ao ver uma forma amarela se aproximar deles através da neblina. Dessa vez o táxi parou na esquina, o motorista buzinando com vontade, como se precisasse chamar a atenção deles.

— Finalmente tivemos sorte. — Jason abriu a porta do táxi e entrou no banco traseiro coberto por um plástico. Annie o seguiu, inalando o conhecido cheiro de táxi nova-iorquino de fumaça velha de cigarro, couro e spray de cabelo. — Vamos para o Brooklyn — Jason disse ao motorista, depois olhou para Annie. — Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe?

Annie hesitou por um instante, depois fez que sim com a cabeça.

— Claro, Jason — disse ela. — Eu sei que posso.

Ela bateu a porta, e o táxi partiu noite adentro.

Notas finais
Se vc está lendo as notas finais é pq leu o capítulo. Espero que tenham gostado.
Eu tenho expectativas de conseguir transcrever todos os seis livros para essa versão, dependendo do nível de pessoas que lerem é claro.
Até o próximo capítulo.
Bjs cupcakes.