Instrumentos Mortais - versão Percy Jackson
2 Segredos e Mentiras
Notas iniciais
O príncipe das trevas montava seu cavalo arisco, com a capa negra voando atrás de si. Um aro dourado prendendo os cabelos loiros, o rosto belo e frio com a ira da batalha, e...
— E o braço dele parecia uma berinjela — Annabeth murmurou para si mesma, exasperada. O desenho não estava dando certo. Com um suspiro, ela arrancou mais uma folha do bloco, amassou e atirou contra a parede cinza do quarto. O chão já estava cheio de bolinhas de papel, um sinal claro de que a criatividade não estava circulando da maneira que ela esperava. Ela desejou pela milésima vez ser um pouquinho mais como a mãe. Tudo que Atena Chase desenhava, pintava ou esboçava era lindo, e parecia ter sido feito sem grandes esforços.
Annie tirou os fones de ouvido — interrompendo no meio a música " Unstoppable " — E esfregou as têmporas doloridas. Foi só então que ela percebeu que o som alto e agudo do toque do telefone estava ecoando no apartamento. Jogando o bloco de desenhos na cama, se levantou de um pulo e correu para a sala, onde o telefone verde antiquado ficava sobre uma mesa próxima à porta da frente.
— Quem fala é Annabeth Chase? — A voz do outro lado da linha soava familiar, embora não fosse imediatamente identificável.
Annie enrolou o fio do telefone no dedo, de forma nervosa.
— Siiiim?
— Olá, eu sou um dos encrenqueiros que carregava facas que você conheceu ontem à noite no Pandemônio. Acho que não causei uma boa primeira impressão e gostaria que você me desse uma chance de compensar por...
— JASON! — Annie afastou o telefone da orelha enquanto ele começava a rir. — Não tem a menor graça.
— Claro que tem! Você só não está captando o humor.
— Idiota. — Annabeth suspirou, apoiando -se contra a parede. — Você não estaria achando tão engraçado se estivesse aqui quando eu cheguei ontem à noite.
— Por que não?
— Minha mãe. Ela não gostou nem um pouco do nosso atraso. Deu um ataque. Foi péssimo.
— O quê? Não foi nossa culpa termos enfrentado trânsito! — protestou Jason. Ele era o caçula de três irmãos e tinha um senso consideravelmente aguçado de injustiça familiar.
— Bem, ela não encara dessa forma. Eu a decepcionei, pisei na bola, fiz com que ela se preocupasse, blá-blá-blá. Eu sou a perdição da existência dela — disse Annie, imitando as palavras exatas da mãe com uma pontinha de culpa.
— Então, você está de castigo? — perguntou Jason, um pouco alto demais. Annie podia ouvir um emaranhado de vozes atrás dele;pessoas falando de forma atropelada.
— Ainda não sei — disse ela. — Minha mãe saiu hoje de manhã com Fred, e eles ainda não voltaram. Mas onde você está? Na casa do Leo?
— Sim. Acabamos de terminar o ensaio. — Um prato bateu atrás de Jason. Annie franziu o rosto. — Leo vai fazer uma leitura de poesia no Java Jones hoje à noite — continuou Jason, falando de um café na esquina da casa de Annabeth, onde às vezes havia música ao vivo. – A banda toda vai assistir. Quer ir?
— Claro, vamos sim. — Annie passou, puxando o fio do telefone ansiosamente. — Espere. Não.
— Silêncio, gente,por favor? — gritou Jason, a fraqueza em sua voz fez com que Annie suspeitasse de que ele estava segurando o telefone afastado da boca. Ele voltou um segundo depois, soando perturbado. – Isso foi um sim ou não?
—Não sei. — Annabeth mordeu o lábio. — Minha mãe ainda está chateada comigo por causa de ontem. Não sei se quero irritá-la pedindo favores. Se eu for arrumar problemas, não quero que seja por causa da porcaria da poesia do Leo.
— Ah, vamos, não é tão ruim assim — disse Jason. Leo era vizinho de porta dele, e eles se conheciam há muito tempo. Não eram tão próximos quanto Jason e Annabeth, mas haviam montado uma banda de rock no segundo ano,junto com Austin e Sherman, amigos de Leo. Eles ensaiavam na garagem da mãe de Leo, toda semana, religiosamente. — Além disso, não é um favor — acrescentou Jason —, é uma noite de poesia na esquina da sua casa. Até parece que estou te convidando para uma orgia em Hoboken. Sua mãe pode ir junto se quiser.
— ORGIA EM HOBOKEN! — Annie ouviu alguém, provavelmente Leo, gritando. Outro prato bateu. Ela imaginou sua mãe ouvindo a poesia de Leo e deu de ombros.
— Não sei. Se todos vocês aparecerem aqui, ela vai ter um ataque.
— Então vou sozinho. Posso te buscar, e nós vamos juntos até lá e encontramos os outros. Sua mãe não vai se importar. Ela me ama.
Annie teve de rir.
— Sinal de que ela tem um gosto questionável, se quer saber minha opinião.
— Ninguém quer saber. — Jason desligou, entre gritos dos companheiros de banda.
Annabeth desligou o telefone e olhou em volta da sala. Havia evidências das inclinações artísticas de sua mãe por todos os lados, desde as pilhas de almofadas de veludo feitas à mão no sofá vermelho escuro, até as paredes preenchidas pelos quadros de Atena, cuidadosamente emoldurados — A maioria eram paisagens: as ruas curvilíneas de Manhattan acesas com luzes douradas; imagens do Prospect Park no inverso, os lagos cinza cercados por filmes de gelo branco que pareciam laços.
Na lareira havia uma foto emoldurada do pai de Annabeth. Um homem louro com olhar pensativo vestido em trajes militares, no canto dos olhos rugas características de risadas. Ele tinha sido um soldado condecorado que servira no exterior. Atena tinha algumas de suas medalhas guardadas em uma pequena caixa ao lado da cama. Não que as medalhas tivessem servido para alguma coisa quando Jonathan Clark bateu o carro em uma árvore perto de Albany e morreu antes que sua filha nascesse.
Atena voltara a usar o nome de solteira depois da morte do marido. Ela nunca falava sobre ele, mas guardava a caixa com suas iniciais, J.C., ao lado da cama. Junto com as medalhas, havia uma ou duas fotos, uma aliança de casamento e um cacho de cabelo louro. Às vezes, Atena pegava a caixa, abria é segurava o cacho louro delicadamente antes de guardá-lo e de voltar a fechar a caixa.
O ruído da chave girando na porta da frente despertou Annie de seu devaneio. Apressadamente, ela se jogou no sofá e tentou aparentar estar compenetrada em um dos livros que a mãe deixava na ponta da mesa. Atena concebia a leitura como um passatempo sagrado e normalmente não interromperia Annie no meio de um livro, nem para gritar com ela.
A porta abriu com uma batida. Era Frederick, com os braços cheios do que pareciam pedaços quadrados de papelão. Quando os repousou, Annie percebeu que eram caixas de papelão dobradas. Ele se ajeitou e virou para ela com um sorriso.
— Oi,ti... oi, Fred — disse ela. Ele havia pedido para que ela parasse de chamá-lo de tio Fred há mais ou menos um ano, alegando que o fazia sentir velho e também fazia com que lembrasse da cabana do tio Tom. Além disso, ele a lembrou gentilmente que não era realmente tio dela, apenas um amigo próximo de sua mãe que a conhecia desde que ela nasceu. — Cadê a mamãe?
— Estacionando a caminhonete — ele disse, ajeitando-se com um resmungo. Ele estava vestindo seu uniforme tradicional: jeans surrados, camisa de flanela e um velho par de óculos de grau com a armação dourada apoiada no alto do nariz. — Refresque a minha memória quanto ao motivo pelo qual este prédio não tem elevador de serviço...
— Porque é velho e tem personalidade — Annabeth disse imediatamente. Frederick sorriu. — Para quê são essas caixas? — ela perguntou.
O sorriso dele desapareceu instantaneamente.
— Sua mãe queria empacotar algumas coisas — disse ele, evitando o olhar de Annie.
— Que coisas? — ela perguntou.
Ele acenou vagamente.
— Coisas extras que estão soltas pela casa. Atrapalhando. Você sabe que ela nunca joga nada fora. Então, o que você está fazendo? Estudando? — Ele tirou o livro da mão dela é começou a ler em voz alta: — " O mundo ainda está cheio daqueles seres heterogêneos descartados por uma filosofia mais sóbria. Fadas e duendes, espíritos e demônios, ainda andam por aí..." — Ele abaixou o livro e olhou por cima dos óculos para ela. — Isso é para a escola?
— O ramo de ouro? Não. As aulas só começam daqui a algumas semanas — Annie pegou o livro de volta. — É da minha mãe.
— Já imaginava.
Ela o colocou de volta na mesa.
— Fred?
— Hã? — Com o livro já esquecido, ele estava mexendo na caixa de ferramentas ao lado do aquecedor. — Ah,aqui está – ele pegou uma pistola de plástico laranja e olhou para ela com grande satisfação.
— O quê você faria se visse alguma coisa que mais ninguém pudesse ver?
A pistola caiu da mão de Fred, no aquecedor. Ele se ajoelhou para pegá -la, sem olhar para Annabeth.
— Como se eu fosse a única testemunha de um crime, é desse tipo de coisa que você está falando?
— Não. Quero dizer se houvesse outras pessoas por aí, mas você fosse o único que conseguisse enxergar alguma coisa. Como se fossem invisíveis a todos, menos a você.
Ele hesitou, ainda ajoelhado, a pistola dentada firme em punho.
— Sei que parece loucura — disse Annie de forma nervosa —, mas...
Ele virou-se para ela. Os olhos extremamente azuis atrás dos óculos encaravam-na com um olhar de profunda afeição.
— Annie, você é uma artista, assim como sua mãe. Isso significa que vê o mundo de um jeito que as outras pessoas não veem. É seu dom ver a beleza e horror em coisas ordinárias. Isso não faz de você uma pessoa louca, apenas diferente. Não há nada de errado em ser diferente.
Annie abraçou as pernas e apoiou o queixo nos joelhos. Em sua mente, ela viu o armazém,o chicote dourado de Piper, o menino de cabelo azul sofrendo convulsões e espasmos enquanto morria e os olhos verde-mar de Percy. Beleza é horror. Ela disse:
— Se meu pai tivesse sobrevivido, você acha que ele também teria sido um artista?
Fred parecia completamente abalado. Antes que pudesse responder, a porta se abriu e a mãe de Annabeth entrou na sala, os saltos das botas ecoando barulhentos ao tocarem o chão de madeira polido. Ela entregou a Fred o molho de chaves do carro e virou-se para encarar a filha.
Atena Chase era uma mulher alta e esguia, de cabelos castanho escuro. No momento, estavam enrolados em um elástico vermelho, presos por uma lapiseira que mantinha o penteado no lugar. Ela vestia um macacão coberto de tinta por cima de uma blusa lavanda e botas esportivas de cor marrom,cujas solas estavam cobertas de tinta a óleo.
As pessoas sempre diziam a Annabeth que ela se parecia com a mãe, mas ela não via semelhança alguma. Só o que tinham em comum era os olhos: olhos grandes da cor cinza tempestuoso. Ela sabia que não era linda como a mãe. Para ser bonita, era preciso ser alta é esguia. Quando se era baixinha como Annie, com pouco mais de um metro e meio, a pessoa era no máximo bonitinha. Não bonita ou linda, apenas bonitinha. Acrescente cabelos louros e o fato de ser magra, ter peito pequeno e quadril estreito, e ela não passava de uma boneca de pano em comparação à Barbie que era sua mãe.
Atena também tinha um andar gracioso que fazia com que as pessoas virassem a cabeça para vê-la passar. Annie, ao contrário, vivia tropeçando. As pessoas só paravam para olhar quando ela passava depressa por elas enquanto caía da escada.
— Obrigada por ter trazido as caixas aqui para cima — a mãe de Annabeth disse a Fred, sorrindo. No entanto, ele não retribuiu o sorriso. O estômago de Annie embrulhou de forma desagradável. Claramente alguma coisa estava acontecendo. — Desculpe por ter demorado tanto para encontrar uma vaga. Deve ter milhões de pessoas no estacionamento hoje...
— Mãe? — interrompeu Annie. — Para quê são essas caixas?
Atena mordeu o lábio. Frederick olhou para Annie,silenciosamente impelindo Atena a continuar. Com um movimento nervoso de pulso, Atena colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e foi de juntar à filha no sofá.
De perto, Annie podia perceber o quão cansada a mãe estava. Tinha olheiras enormes sob os olhos, e as pálpebras estavam pesadas de sono.
— Isso é por causa de ontem à noite? — perguntou Annabeth.
— Não — ela respondeu rapidamente e,em seguida , hesitou. — Talvez um pouco. Você não deveria ter feito o que fez ontem à noite. Você sabe muito bem.
— E eu já pedi desculpas. O que está acontecendo? Se você está me colocando de castigo, coloque logo.
— Não é isso que estou fazendo — disse a mãe. — Não estou te colocando de castigo. — Ela estava com a voz tensa como um fio. Ela olhou para Fred, que balançou a cabeça.
— Fale logo, Atena — disse ele.
— Será que vocês poderiam deixar de falar de mim como se eu não estivesse aqui? — Annie disse irritada. — E como assim, me contar? Contar o quê?
Atena soltou um suspiro.
— Vamos sair de férias.
A expressão de Fred ficou vazia, como uma tela em branco, sem qualquer pingo de tinta.
Annabeth sacudiu a cabeça.
— Então é isso? Vocês vão sair de férias? — Ela se apoiou nas almofadas. — Não estou entendendo. Por que tanto rebuliço?
— Acho que você não está entendendo. Quero dizer que vamos todos sair de férias. Nós três: você, Fred e eu. Vamos para o sítio.
— Ah. — Annie olhou para Fred, mas ele estava com os braços cruzados sobre o tórax, olhando pela janela, com o maxilar rígido. Ela ficou imaginando o que poderia estar incomodando-o tanto. Ele adorava o velho sítio ao norte do estado de Nova York – ele mesmo havia comprado e restaurado há dez anos, e ia para lá sempre que podia. — Por quanto tempo?
— Até o fim do verão — disse Atena. — Eu trouxe as caixas caso você queira levar livros, materiais de pintura...
— Até o fim do verão? — Annie sentou -se empertigada, com indignação. — Eu não posso fazer isso, mãe. Tenho planos, Jason e eu íamos fazer uma festa de volta às aulas, e tenho várias reuniões com o meu grupo de arte, e mais dez aulas na Tisch...
— Sinto muito pela Tisch. Mas as outras coisas podem ser canceladas. Jason vai entender, e o grupo de arte também.
Annabeth identificou o tom implacável na voz da mãe e percebeu que ela estava falando sério.
— Mas eu paguei por essas aulas de arte! Passei o ano inteiro economizando! Você prometeu. — Ela girou, voltando-se para Fred. — Fale para ela! Fale que isso não é justo!
Fred não desgrudou o olhar da janela, embora um músculo da bochecha tenha saltado.
— Ela é sua mãe. A decisão é dela.
— Eu não entendo — Annie olhou para a mãe. — Por quê?
— Preciso viajar, Annabeth — disse Atena, com os cantos da boca tremendo. — Preciso de paz e sossego, para pintar. E estamos com pouco dinheiro agora...
— Então venda mais algumas ações do papai — esbravejou Annie. — É o que você sempre faz,não é?
Atena encolheu-se.
— Você não está sendo justa.
— Olha só, pode ir se quiser. Não me importo. Eu fico aqui sem você. Posso trabalhar; posso arrumar um emprego no Starbucks, ou coisa parecida. Jason disse que eles sempre estão contratando. Já tenho idade suficiente para cuidar de mim...
— Não! – A dureza na voz de Atena fez com que Annie desse um salto. — Eu reembolso as aulas de arte, Annie. Mas você vem conosco. Não é opcional. Você é nova demais para ficar aqui sozinha. Alguma coisa poderia acontecer.
— Tipo o quê? O que poderia acontecer? — indagou Annabeth.
E então um barulho. Ela virou surpresa para ver que Fred havia derrubado um dos porta-retratos apoiados na parede. Com a expressão claramente incomodada, ele ajeitou a foto. Ao se recompôs, estava com uma expressão ligeiramente rígida.
— Estou indo.
Atena mordeu o lábio.
— Espere. — Ela correu atrás dele na entrada, alcançando-o bem no instante em que ele segurava a maçaneta. Virando-se no sofá, Annie podia ouvir o sussurro aflito da mãe. — ...Solace – Atena dizia. — Tenho ligado para ele sem parar nas últimas semanas. A secretária eletrônica diz que ele está na Tanzânia. O que eu posso fazer?
— Atena. — Fred balançou a cabeça. — Você não pode ficar recorrendo a ele para sempre.
— Mas Annie...
— Não é Jonathan — sibilou Fred. — Você nunca mais foi a mesma desde que aconteceu, mas Annabeth não é Jonathan.
O que o meu pai tem a ver com isso? , pensou Annie, assustada.
— Não posso simplesmente segurá-la em casa, impedir que saia. Ela não vai aceitar.
— É claro que não vai aceitar! — Fred parecia extremamente irritado. — Ela não é um animal de estimação, é uma adolescente. Quase adulta.
— Se estivéssemos fora da cidade...
— Fale com ela, Atena. — A voz de Fred era firme. — Estou falando sério. — Ele colocou a mão na maçaneta novamente.
A porta se abriu. Atena gritou.
— Meu Deus! — exclamou Frederick.
— Na verdade sou só eu — disse Jason. — Mas já me disseram que somos muito parecidos. — Ele acenou para Annie da entrada da casa. — Você está pronta?
Atena tirou a mão da boca.
— Jason, você estava ouvindo atrás da porta?
Jason piscou os olhos.
— Não, Acabei de chegar. — Ele olhou do rosto pálido de Atena para o austero Fred. — Está acontecendo alguma coisa? É melhor eu ir embora?
— Não se incomode — disse Fred. — Acho que já acabamos — ele passou por Jason, e foi descendo pelas escadas em ritmo acelerado. Lá embaixo, a porta da frente bateu.
Jason andou de um lado para o outro na entrada, com expressão de incerteza.
— Posso voltar mais tarde — disse ele. — De verdade. Não seria problema algum.
— Isso poderia... — Atena começou a dizer, mas Annabeth já estava de pé.
— Esqueça, Jason. Estamos saindo — disse ela, pegando a bolsa que estava pendurada em um cabide perto da porta. Colocou-a no ombro, encarando a mãe. — Até mais tarde, mãe.
Atena mordeu o lábio.
— Annabeth, você não acha que devemos conversar sobre isso?
— Vamos ter muito tempo para conversar durante as " férias" — disse Annie com um jeito venenoso, e teve a satisfação de ver a mãe titubear. — Não me espere acordada — ela acrescentou e, agarrando o braço de Jason, o arrastou para fora da porta.
Ele hesitou, olhando sobre o ombro de forma solidária para a mãe de Annie, que parecia pequena e desamparada na entrada, com as mãos entrelaçadas.
— Tchau, senhora Chase! — gritou ele. — Tenha uma boa-noite.
— Ah, Simon, cale a boca. — Irritou- se Annabeth, e bateu a porta, cortando a resposta da mãe.
— Ai, meu Deus, garota, não arranque o meu braço — protestou Jason enquanto Annie o arrastava pelas escadas atrás dela, seus sapatos verdes fazendo barulho ao bater no chão de madeira a cada passo enfurecido que dava. Ela olhou para cima, como se esperasse ver sua mãe olhando para baixo, mas a porta do apartamento permaneceu fechada.
— Desculpe — sussurou Annie, soltando o pulso de Jason. Ela parou ao pé da escada, com a bolsa batendo no quadril.
O prédio de Annabeth, como a maioria em Park Slope, tinha sido uma única casa, de uma família rica. Indícios do antigo proprietário ainda eram evidentes na escadaria curvilínea, o chão de mármore lascado na entrada, a vasta claraboia acima. Agora a casa era dividida em apartamentos independentes, e Annie e a mãe dividiam o prédio de três andares com a proprietária que morava no andar debaixo, uma jovem que gerenciava uma loja mística no próprio apartamento. Ela quase não saía, embora as visitas dos clientes fossem raras. Uma placa dourada afixada na porta declarava que ela era CALIPSO, VIDENTE E PROFETISA.
O aroma doce e carregado de incenso vazava da porta entreaberta e invadia o saguão. Annie podia ouvir um murmúrio baixo de vozes.
— Bom ver que ela está conduzindo um negócio em expansão — disse Jason. — É difícil se firmar como profetisa hoje em dia.
— Você tem que ser sarcástico com tudo? — disparou Annabeth.
Jason piscou os olhos, claramente espantado.
— Eu pensei que você gostasse quando sou irônico e sagaz.
Annie estava prestes a responder quando a porta de Calipso se abriu completamente e um rapaz saiu de lá. Ele era alto, bronzeado e tinha olhos azuis com um toque de dourado e cabelos loiros desarrumados. Ele sorriu para Annie, exibindo dentes brancos e afiados.
Uma onda de tontura abateu-se sobre ela, uma forte sensação de que iria desmaiar.
Jason olhou desconfortavelmente para ela.
— Você está bem? Está com cara de que vai desmaiar.
Ela piscou para ele.
— O quê? Não, eu estou bem.
Ele não pareceu disposto a encerrar o assunto.
— Você está com cara de quem viu um fantasma.
Ela balançou a cabeça. A lembrança de ter visto alguém zombou dela, mas, ao tentar se concentrar, esvaiu-se.
— Não é nada. Eu pensei que tivesse visto o gato de Calipso, mas acho que foi uma sombra. — Jason encarou-a — Eu não como nada desde ontem — acrescentou defensivamente. — Acho que estou um pouco zonza.
Ele colocou um braço reconfortante nos ombros da amiga.
— Vamos. Vou comprar alguma coisa para você comer.
— Eu não consigo acreditar nisso — disse Annie pela quarta vez, raspando um resto de guacamole do prato com a ponta de um nacho. Eles estavam em um restaurante mexicano da vizinhança, um murquifo chamado Nacho Mama. — Como se me colocar de castigo semana sim, semana não, não fosse o suficiente. Agora vou ficar exilada pelo resto do verão.
— Mas você sabe que a sua mãe fica assim às vezes — disse Jason. — Como quando ela respira, por exemplo. — Ele sorriu para ela por cima do burrito vegetariano.
— Isso, muito bom, pode agir como se fosse engraçado — disse ela. — Não é você que está sendo arrastado para o meio do nada por Deus sabe quanto tempo...
— Annie — Jason interrompeu a declamação. — Não é de mim que você está com raiva. Além disso, não é algo permanente.
— Como é que você sabe disso?
— Bem, porque eu conheço a sua mãe — disse Jason após uma pausa. — Quero dizer, você e eu somos amigos há quanto tempo, uns dez anos? Eu sei que ela fica assim de vez em quando. Ela vai pensar melhor.
Annabeth pegou uma pimenta do prato e a mordeu de forma pensativa.
— Será mesmo? — disse ela. — Que você conhece a minha mãe, quero dizer? Às vezes eu fico pensando se alguém no mundo a conhece.
Jason piscou os olhos.
— Agora você me confundiu.
Annie respirou fundo para refrescar a boca, que estava queimando.
— Quer dizer, ela nunca fala sobre si mesma. Não sei nada sobre o começo da vida dela, da família, e quase nada sobre como ela conheceu meu pai. Ela nem sequer tem fotos do casamento. É como se a vida dela tivesse começado quando eu nasci. E é isso que ela sempre diz quando pergunto a respeito.
— Ah. — Jason fez uma careta. – Isso é bonito.
— Não, não é. É estranho. É estranho eu não saber nada sobre os meus avós. Quer dizer, eu sei que os pais do meu pai não eram muito legais com ela, mas será que foram tão ruins assim? Que tipo de gente não quer conhecer a própria neta?
— Talvez ela os odeie. Talvez fossem intrometidos ou coisa parecida. — sugeriu Jason. — E ela tem todas aquelas cicatrizes.
Annabeth o encarou.
— Ela tem o quê?
Ele engoliu um pedaço enorme de burrito.
— Aquelas cicatrizes fininhas. Por todo o braço. Eu já vi a sua mãe de maiô, sabia?
— Eu nunca notei cicatriz alguma — disse Annie, afirmativa. — Acho que você está imaginando coisas.
Ele a encarou, e parecia estar a ponto de dizer alguma coisa quando o celular dela, enfiado na bolsa, começou a tocar insistentemente. Annie pegou-o, olhou para os números que estavam piscando na tela e franziu o rosto.
— É a minha mãe.
— Deu para perceber pela expressão do seu rosto. Você vai falar com ela?
— Agora não — disse Annabeth, sentindo aquela pontinha de culpa quando o telefone parou de tocar e a ligação caiu na caixa postal. — Não quero brigar com ela.
— Você sabe que sempre pode ficar na minha casa — disse Jason. — Por quanto tempo quiser.
— Bem,vamos ver se ela se acalma primeiro. — Annie apertou o botão do correio e voz no telefone. A voz da mãe parecia tensa, mas ela claramente estava tentando transmitir um tom de leveza: " Querida, desculpe se despejei em você o plano de férias. Volte para casa e vamos conversar." Annie desligou o celular antes que a mensagem fosse concluída, sentindo -se ainda mais culpada e ao mesmo tempo com raiva. — Ela quer conversar a respeito.
— Você quer conversar com ela?
— Não sei. — Annie esfregou os olhos com a parte de trás das mãos. — Você ainda vai para a leitura de poemas?
— Prometi que ia.
Annabeth se levantou, empurrando a cadeira para trás.
— Então eu vou com você. Eu ligo para ela quando acabar. — A alça da bolsa escorregou pelo braço de Annie. Jason puxou-a de volta para o lugar quase inconscientemente, com os dedos repousando no ombro exposto da amiga.
O ar lá fora estava denso com tanta umidade, que congelada o cabelo de Annie e deixava a camiseta azul de Jason grudada nas costas dele.
— Então, como vai a banda? – perguntou ela. – Alguma coisa nova? Ouvi muitos gritos ao fundo quando falei com você mais cedo.
O rosto de Jason se iluminou.
— As coisas estão ótimas — disse ele. — Austin disse que conhece alguém que pode nos arrumar um show no Bar Scrap. E também estamos discutindo nomes outra vez.
— Ah, é? — Annabeth conteve um sorriso. Na verdade, a banda de Jason nunca havia produzido música alguma. Eles passavam boa parte do tempo sentados na sala de Jason, brigando a respeito de possíveis nomes e logotipos para a banda. Às vezes ela ficava imaginando se algum deles realmente sabia tocar algum instrumento. — Quais são as opções?
— Estamos escolhendo entre Conspiração dos Vegetais Marítimos e Rock Solid Panda.
Annie sacudiu a cabeça.
— Ambos são péssimos.
— Leo sugeriu Crise na Cadeira de Grama.
— Talvez o Leo devesse se dedicar aos esportes.
— Mas aí teríamos que arrumar um novo baterista.
— Ah, é isso que o Leo faz? Eu achei que ele desse dinheiro pra vocês e saísse por aí dizendo para as garotas da escola que ele fazia parte de uma banda para impressioná-las.
— De jeito nenhum — Jason disse com toda leveza. — Ele virou a página. Arrumou uma namorada. Então juntos há três meses.
— Praticamente casados — disse Annie, desviando-se de um casal que empurrava um carrinho de bebê no caminho: uma garotinha com presilhas de plástico amarelas no cabelo, que segurava com toda força uma boneca com asas azuis. Com o canto do olho, Annabeth pensou ter visto as asas baterem. Ela virou a cabeça apressadamente.
— O que significa que eu sou o único integrante da banda a não ter namorada. O que, você sabe, é o único objetivo de se ter uma banda. Arrumar garotas.
— Eu achei que fosse a música. — Um homem com uma bengala cruzou o caminho dela, caminhando em direção à Berkeley Street. Ela desviou o olhar, temerosa de que, se olhasse para alguém por tempo demais, a pessoa criaria asas, braços extras ou grandes línguas aforquilhadas como cobras. — Quem se importa se você tem uma namorada ou não?
— Eu me importo — disse Jason de um jeito sombrio. – Logo,logo, as únicas pessoas do mundo à não terem namorada seremos o Wendell, o zelador da escola, e eu. E ele tem cheiro de limpador de vidro.
— Pelo menos você sabe que ele ainda está disponível.
Jason olhou para ela.
— Não teve graça, Chase.
— Tem sempre a Scheila " tanga" Barbarino — sugeriu. Annie havia sentado atrás dela na aula de matemática durante todo o primeiro ano do Ensino Médio. Toda vez que Scheila derrubava o lápis – coisa que acontecia com frequência —, Annabeth era agraciada com a visão da roupa íntima de Scheila levantando-se sobre a cintura da sua calça superbaixa.
— É ela que Leo está namorando há três meses — disse Jason. — Enquanto isso,o Conselho dele foi para que eu simplesmente decidisse quem é a garota mais gostosa e a convidasse para sair no primeiro dia de aula.
— Leo é um porco machista – disse Annabeth, repentinamente não querendo saber quem era a garota mais gostosa da escola na opinião de Jason. — Talvez vocês devessem chamar a banda de " Porcos Machistas"
— Tem sonoridade — disse Jason sem se incomodar. Annie fez uma careta para ele, sua bolsa vibrava enquanto o telefone brilhava. Ela o pegou no bolso da frente. — É a sua mãe outra vez? — perguntou ele.
Annie assentiu. Ela podia imaginar a mãe sozinha na entrada do apartamento. Um sentimento de culpa se espalhou em seu peito.
Ela olhou para Jason, que a observava com uma expressão sombria de preocupação naquele rosto tão familiar; ela poderia desenhá-lo até dormindo. Annabeth pensou sobre as semanas solitárias que passaria sem ele, e colocou o telefone de volta na bolsa.
— Vamos – disse ela. — Vamos nos atrasar para a apresentação.
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