Notas iniciais
Oi, gente! Como devem notar, minha frequência tá um pouquinho maior. Bom, isso se deve por Cassandra Clare e Cidade das Cinzas, um sobrenatural sempre me inspira a escrever em minhas estórias sobrenaturais e poxa, como eu tava lenta no início da estória! Vou, tornar tudo mais excitante, animados pro filme?
O capítulo tá bastante longo, então, vou colocar mais algumas músicas do que a da frase, ok?
My Immortal - Evanescence (dança.)
Radioactive - Imagine Dragons
Just Give me a Reason - P!ink
Possibility - Lykke Li
Boa leitura!

You can say what you mean. But it won't change a thing. I'm sick of the secrets. Stood on the edge, tied to the noose. And you came along and you cut me loose. (Amsterdam – Coldplay).

Agora sim, a Grande Noite para todas as pessoas tinha chegado.

Eu estava no espaçoso quarto de Shaunee. Ainda faltava um tempo para que nossos acompanhantes nos buscassem, mas Shaunee e Stevie estavam completamente animadas com a grande hora. Shaunee estava com uma esponjinha cheia de pó, aplicando-o sobre todo o meu rosto.

- Porque vocês ficam tão animadas? – Indaguei, com o rosto erguido, fitando o teto.

- Oras, Nora. – Shaunee respondeu. – Porque todo o Submundo participa. As Almas daqui e os Seres de lá. É realmente incrível, ver que tudo pode ser alterado por essas horas. Ver que até os Escolhidos do Castelo Divino entrarão aqui. – Sua voz estava carregada de memórias que passaram apenas por sua mente, como um filme criado por si mesma.

- Tudo bem. – Respondi, sentindo que ela passava outras coisas por minha pele. Eu entreguei meu rosto completamente a ela, confiando em seus dotes para maquiagem, por conta de como o rosto de Stevie estava lindo, com uma sombra azul e cobre.

- Este é o Segundo Baile de Stevie. – Shaunee comentou, mandando beijos no ar para sua amiga.

- Estou rezando internamente para que minha irmã não coloque fogo em tudo. Não que ela tenha feito isso da última vez. – Stevie lamentou, indignada com suas próprias lembranças, enquanto caminhava de roupas íntimas para cima e para baixo pelo quarto.

- Sua irmã? – Indaguei, arqueando as sobrancelhas e recebendo um olhar significativo de Shaunee, sorri fingindo estar encabulada.

- É. Ela é do Divino. Você pode ter conhecido ela. – Stevie comentou, se aproximando com dois pares de brincos e avaliando-os diante do espelho.

- Como era o nome dela? Só conheci o Comandante, meu Guardião Daniel...

- Ah! Ele é ex dela. – Ela me cortou, animada por reconhecer um dos nomes.

- ... e conheci uma tal de Aphrodite. Eca. – Comentei, tomando memórias de como ela passava uma imagem nada amistosa.

- É ela. – Stevie respondeu, parecendo estar chateada com meu comentário.

Ah, droga. Eu não sabia. Parecia que ambas estavam no Castelo contrário.

- Sempre disse, Ste. Vocês parecem ter ido para o Castelo contrário. Mas ainda amo ter você aqui. – Shaunee concluiu meus pensamentos em voz alta, deixando-me menos traumatizada.

*

Eu liguei uma das minhas músicas favoritas no máximo. O computador de Shaunee tinha ótimas caixinhas de som, pois reproduziam o som por todo o cômodo.

Meus lábios se moviam com a canção que começava lenta e ia aumentando o ritmo da batida, animando minhas pernas e meus quadris.

- Tudo bem. – Eu disse, ouvindo os passos das garotas chegando. – Eu vou precisar de...

Minha boca se calou completamente quando me virei e as fitei de verdade. Elas estavam elegantes nas longas roupas, mas também se pareciam com guerreiras aladas. Saídas de histórias de tribos antigas, contadas em torno de uma fogueira laranja. Pareciam prestes a conquistar rapazes, e prestes a apertar suas gargantas caso se machucassem sentimentalmente.

Eu sorri. – Estão lindas.

Eu olhei o vestido longo e azul-claro que Stevie vestia. Ela deu uma voltinha, sentindo meus olhos nela e mostrou aquilo que seus fios curtos e tecido não cobriam: suas costas. Nuas, a mostra e tornando-a sensualmente bela. Ela estava mais longa com a roupa, que se alinhava a sua curvatura. Os cachos em torno de sua cabeça destacavam seu rosto.

E Shaune... estava tão fada e humana, que deixava-a ainda mais incrível. O vestido laranja entrava em contraste com toda sua cor âmbar e a maquiagem que ressaltava seus olhos. Suas pernas longas e torneadas estavam à mostra por duas fendas do alto da coxa para baixo. Seu corpete só pegava a parte da cintura, deixando as finas mangas do vestido despencarem do topo do ombro, deixando-os desnudos.

- Só falta você. – Shaunee puxou meu punho, seguindo o caminho até meu vestido.

Primeiro eu subi a saia longa pelas pernas, amarrando um simples fio na cintura alta e vendo o efeito provocado ao caminhar. As faixas se afastavam, revelando minhas pernas. Peguei o corpete, enquanto as meninas me vislumbravam com olhares animados. Prendi-o diante do corpo e Shaunee deu a volta em mim, tomou a amarra em seus dedos e puxava-as com força, para no fim dar um laço bem bonito.

Meus seios se ergueram e ao colocar os saltos, eu não pareci uma garota com a idade que tinha. Não parecia que eu tinha dezoito anos. Parecia que eu tinha muito mais. O batom vermelho combinando com o vestido e os cachos controlados contornando meu rosto. Um pingente de rubi se postava no alto do início dos meus seios e minha mancha de nascença estava alta no seio esquerdo também.

- Você está linda. – Stevie disse, aproximando-se e olhando meu reflexo no espelho de corpo inteiro.

Eu acenei em positivo.

- Está mesmo. Você sabe, né? – Shaunee indagou, erguendo as sobrancelhas. Abanei a cabeça em negativo. – Quem ajuda a escolher o vestido é o acompanhante. Ou seja, Patch ajudou a escolher, quis ver você nesse vestido ultra sensual.

*

Saímos do quarto e caminhamos juntas em direção ao hall. Não caminhamos inteiramente sozinhas, pois o restante dos residentes do Castelo também ia em direção ao hall onde o Baile ocorreria. Stevie e Shaunee estavam animadas. Shaunee iria acompanhada de um de seus amigos fada. E Stevie foi convidada por Damien. Eu achei bem fofinho, mesmo sabendo, depois de um tempo, sobre a opção sexual do mesmo.

Diante da porta dupla que nos separava do baile, continha alguns rapazes aqui e ali, aguardando suas acompanhantes. Muitas delas estavam atrás de nós e a quantidade de acompanhantes foi diminuindo. Foi quando o vi. O garoto que despencou em socos no meu estômago. Naquele momento, meu coração deu um pulo, emitindo sons de alarmes por meu corpo, liberando uma grande quantidade de adrenalina corporal. Minhas pernas ficaram meramente bambas. Ele me olhou nos olhos, e desviou com extrema pressa, como se fosse errado fazê-lo, ou como se algo o punisse ao fazê-lo.

E então a visão de Patch me liberou do torpor causado por aquele medo repentino. Eu não queria encará-lo tão cedo, mas sabia que seria obrigada a afronta-lo por ser meu acompanhante, então, aproveitei para fita-lo de todas as formas. Seus fios estavam penteados para trás, deixando o rosto limpo e a mostra. Seus olhos negros também me fitavam; detalhe por detalhe do meu corpo. Ele usava um smoking inteiramente negro, mas era como se houvesse algo nele, que deixasse o smoking simples com um ar superior. Sapatos bem polidos e sorriso cafajeste pendurado em um canto de sua boca, assim que ele se aproximou, seu cheiro de menta veio junto, derrubando todas as minhas barreiras.

Sem uma palavra, apenas me olhando, ele procurou por minha mão escondida entre as faixas da saia e espalhou a sua por ela quando entrelaçou seus dedos aos meus. Os burburinhos das conversas dos que esperavam diminuíram, todos fitavam a cena, embasbacados. Por saber o que aquilo ressaltava na estória deles. Eu também tenho medo, tive vontade de gritar. Mas não podia. E nem queria demonstrar que tinha medo de estar com Patch.

Segurei sua mão e deixei que ele me guiasse enquanto os rapazes que aguardavam abriam caminho silenciosamente, demonstrando algum tipo de medo por Patch. Eu me segurei em seus dedos, e realmente o desculpei naquele instante. Não porque ele não estava acompanhado de Dabria, mas porque, de alguma forma, eu o compreendia.

Ele se aproximou de mim, descendo um pouco o nível da sua altura e deixando sua boca na altura do meu ouvido. – Farei algumas apresentações, hoje. – Ele sussurrou, e mesmo as palavras não tendo referência alguma a nós, eu me arrepiei.

Os rostos se viraram para nós. O som dos calçados batendo contra o assoalho laminado parou subitamente. Os burburinhos das conversas diminuíram. A música clássica continuou ao fundo, e eu sentia diversos odores distintos. Como hortelã, alguns odores adocicados e outros que pareciam se misturar. Minha visão estava completa por cores completamente opostas se misturando, enquanto grupos salpicavam o salão aqui e ali.

Eles tentaram voltar ao normal, mas não conseguiram. Era como se algo ainda mais grandioso lhes chamasse a atenção. Talvez fosse como Patch e eu estávamos, sendo que juntos, causávamos o caos total. Suspirei, cansada.

Patch, sem se incomodar com os olhares sobrecarregados de questões, me puxou pelo salão. Por onde passava, Patch arrancava suspiros e olhadas de cima a baixo. Ele realmente tinha uma aura impossível de ignorar, todo elegante em um smoking e lindo pra cacete. Primeiramente, ele me arrastou em direção a Kalona que movimentou a cabeça, me cumprimentando. Dessa vez os cabelos dele estavam controlados e seus dedos másculos seguravam uma taça com extrema graciosidade. Patch foi para uma direção oposta e só parou de caminhar quando ficou diante de um belo casal. Na verdade, eles pareciam um casal até chegarmos, mas depois, seus rostos pararam com o súbito carinho e as costas ficaram rijas.

- Ora, Patch. Mais rápido do que esperávamos. – O rapaz de cabelos verde-escuros nos saudou. Seus olhos, também verdes, me fitaram de cima a baixo, como se me escaneasse e guardasse a imagem em sua memória. Para sempre. – É um prazer, enfim conhece-la, Nora. Nossos Topos do Clã não aguentavam mais tanto segredo.

Eu sorri, fingindo estar lisonjeada com seu flerte. – Obrigada.

- Este é Tamani, o Comandante dos Elfos. – Patch indicou o homem de cabelos verdes. Notei que a ponta de suas orelhas despontava dente seus sedosos fios. Sua pele era branca, e seu semblante meigo, mas por trás dos seus olhos límpidos de um verde-musgo, eu enxergava o guerreiro que ele podia se tornar. Ele estava descalço, com os pés provocando um contraste contra o chão do hall. Uma calça escura pendia em seus quadris e uma camisa, com as mangas puxadas até os cotovelos, quase transparente. Em seu pulso, notei uma pulseira de espécies naturais e também um colar sob o tecido da camisa. Ele acenou com a cabeça, e me avaliou da mesma forma.

Então Patch me virou pelo ombro, para me apresentar uma menina de cabelos que se moviam em si, em torno dos ombros magros dela. Os cabelos eram louro-branco, quase como as nuvens idênticas a algodão. Seus olhos também eram verdes, mas verde-claro, e sua pele, ainda mais branca, quase translúcida. Ela era magra e esguia, mas exercia certos músculos que indicavam suas batalhas também. Notei que seus pés não tocavam o chão, enquanto ela aparava com sua mão uma taça de maneira graciosa. Seu vestido era azul-marinho rodopiando em torno de sua cintura fina e deixando seus seios cheios, mas parcialmente cobertos por filetes de seda do pescoço ao colo. – Está é Laurel, Comandante das Fadas.

- Sua amiga Shaunee, a Guardiã das Fadas, já havia me dito sobre você. – Sua voz soou quase como uma canção de ninar, doce, calma, emergindo por todos os pontos, atingindo-me de maneira graciosa.

- Sim, somos amigas. – Respondi, sorrindo, encontrando um afeto maior nela.

- Não. – Respondeu com firmeza, sem retirar o sorriso afetuoso dos lábios. – Fadas não criam vínculos com outras espécies, querida.

Com isso, Patch pediu licença e caminhou entre a multidão. Sua frase ainda estava me atingindo contra a mente. Não que eu desconfiasse de Shaunee, mas suas palavras pareceram verdadeiras demais.

- Aquilo que ela disse...

Eu não tive oportunidade de terminar a questão, Patch respondeu-a sem ouvi-la. – Fadas não mentem.

Meu coração se apertou ainda mais, com a probabilidade do pontinho que me ajudara não ser meu amigo verdadeiro.

- Porque está fazendo isso? – Indaguei, caminhando lado-a-lado com Patch, sua mão ainda esquentava a minha e a maioria das pessoas ainda nos olhava de soslaio.

- Porque Kalona ordenou. Não que eu queira. Ninguém precisa ficar vendo seu decote tão de perto. – Disse ele, pervertido.

Eu enrubesci, mas não tive tempo de resposta. Chegamos bem diante de uma mulher de longos e pesados cabelos ruivos. Seu vestido era o mais antiquado em todo o salão. Corpete de couro e mangas de renda, abrindo-se em desenhos de flores negras e mostrando a pele branca de seu braço. Percorri as linhas rijas de seu rosto, marcadas com traços escuros e profundos, mas não dispensando sua beleza e nem deixando seus olhos negros para trás. Suas sobrancelhas ruivas se ergueram, em reconhecimento e as bochechas subiram em um sorriso aberto. Seu vestido era completamente rodado, e ela parecia inteiramente confortável com aquilo. Saia que se misturava com couro negro brilhando, veludo no tom de vinho e tiras de seda saindo em alguns lugares da mesma.

- Olá, Patch. Sem apresentações. Prazer, Nora. – Seus olhos se transbordaram aos meus e despencaram por minha roupa, realmente admirando-a. – Sou Neferet, Comandante das Bruxas Negras e Brancas, tentando manter a calma por essa pequena diferença. – Ela afirmou, erguendo as sobrancelhas.

- Prazer. – Sorri com sua sinceridade. – Eu...

Queria prolongar a conversa de alguma forma, mas Patch me puxou novamente pela mão e caminhamos até um grupo. Eu reconheci um deles e não me importei com a pressa de Patch para me apresentar a todos. Me soltei de sua mão e só parei de correr, quando os braços de Harrisson enrolaram minha cintura. Eu quis chorar e rir. Abraçar e indagar, e acima de tudo, eu quis fugir...

Harrison estava o mesmo de sempre. Cabelos alinhados e olhos cálidos em seu rosto bronzeado naturalmente. Roupas céticas e escuras o cobriam.

- Querida. – Ele disse, suas mãos seguravam meu rosto. – Quantas saudades. Estão te tratando bem aqui?

- Melhor do que no Castelo Divino. – Bufei, lembrando-me da última memória de lá.

Ele riu, abalado por minha sinceridade. – Entendo.

- Harrison, nos apresente. – Eu me virei ao som de uma voz mágica. E me contive com os olhos dourados de gato que encontrei, com filetes puxando-se de cima para baixo. Os cabelos do homem eram negros, despencando em sua testa. Ele segurava uma taça entre os dedos enfeitados por anéis de diferentes cores. Sua boca estava sutilmente erguida em um sorriso. E usava calça escura combinando com o sobre tudo cobrindo-o por completo, completamente a vontade. – É de extrema beleza essa garota.

- Essa é minha... filha. O nome dela é Nora. – Ele disse e o homem teve um pequeno espanto. – Este é Magnus Bane, querida. O Feiticeiro Comandante. – Sussurrou, me apresentando.

Sorri de leve. – Olá.

- Que voz adorável. – Magnus murmurou estendo sua mão e puxando a minha até seus lábios, beijando um do encontro dos meus dedos. – Serei digno de uma dança depois?

- Não. – Me virei ao som da voz de Patch e fiquei fula com a ideia de ele me privar de algo. Oras, ele nem sabia se eu queria ou não.

- Quanta honra. – Outra voz conhecida se atreveu dentre nossa conversa.

Me virei e fitei os olhos da vampira que me enfrentara. Suas presas se mostravam sobre o lábio inferior. Sua pele era branca, em contraste enorme com seus longos cabelos negro e olhos escuros. Ela usava uma blusa sem mangas, e diferente de todas as mulheres, uma calça de couro colada ao corpo e botas de cano alto.

- Eu que o diga. – Respondi, ignorando as pessoas ao meu redor.

Seu sorriso era contido, mas seus olhos demonstravam o que sabíamos.

- Já se conhecem? – Patch indagou, e voltei a sentir sua presença atrás do meu ombro.

Acenei em positivo. – Infelizmente. Você deve ser a Comandante dos Vampiros.

- É claro. – Ela respondeu, erguendo as sobrancelhas.

- Se contenha, Zoey. – Mais uma voz se intrometeu e em meio a tanta delas, quase não conseguia escutar o violino ao fundo, ou o som das teclas do piano.

Zoey encarou a mulher atrás de si e senti que ela iria responder, mas segurou-se em si, apenas movimentando a cabeça. – Olá, Nora. É um prazer conhece-la. – A mulher disse e me deparei com incríveis olhos azuis e cabelos curtos e louro-escuros. Seu sorriso era doce e não existiam pernas para segurarem seu corpo abaixo da cintura, ela terminava em uma forma bruxuleante e azul, onde eu enxergava o outro lado do salão. Só havia conchas adornadas por musgos em seus seios e seu corpo parecia úmido. Havia estrelas coloridas em pontos distintos de sua pele. Uma sereia encantadora.

- Você deve ser a Comandante das Sereias. – Palpitei.

Ela sorriu. – Em cheio. Meu nome é Erin, a propósito.

E então, antes que mais alguma comoção se enrolasse em torno de nós a iluminação caiu, despejando escuridão ao nosso redor. Ninguém se espantou, todos eram acostumados com ela. Mas havia alguns contidos em certos pontos e deduzi que aqueles eram seres da Luz; do Castelo Divino para ser exata.

E então, uma canção suavemente lenta começou a soar ao nosso redor. Um piano emitia notas românticas ao fundo e uma voz doce, mas grave, emitia uma canção de amor bela para se dançar com quem se ama.

Alguns casais salpicaram aqui e ali, dançando emaranhados em braços e sorrisos.

- É estranho como os jovens se entregam a paixão tão facilmente. – Ouvi Zoey dizer de um ponto distante, enquanto risos baixos surgiam com seu comentário.

Eu esperei que Patch me puxasse suavemente para ele, mas ele não o fez dessa maneira. Ele me abraçou pelos ombros e andou comigo até estarmos abaixo do globo dourado pendurado, os floquinhos de luz se espalhavam em todas as direções. Suas mãos apertaram a parte baixa da minha cintura e ele tocou sua testa na minha, e então nossos pés começaram a ir de um lado ao outro, e eu rodeei meus braços em torno do seu pescoço. Seus lábios estavam tão próximos, facilmente ao alcance dos meus para nos beijarmos. E eu o queria... ah, como queria. Mas também não queria que as pessoas ao nosso redor desconfiassem do que eu sentia.

E todos deduziriam que meus sentimentos se davam pelo fato da Maldição nos forçar a isso... mas não era verdade. Eu realmente sentia algo por ele. Inexplicável demais para diminuir em palavras. Suas mãos enviaram correntes elétricas cálidas pelo restante do meu corpo. Eu relaxei em suas mãos, sentindo seu cheiro, seu calor... tudo bem próximo. Dançávamos no ritmo certo. Nossos quadris pressionados um ao outro com força, nos movíamos suavemente sobre o som das teclas do piano. Eu enterrei meus dedos no seu cabelo, enquanto uma de suas mãos subiu por minhas costas, passando por meu cabelo e depois, sorrateiramente seus dedos percorreram pelo meu braço, durante todo o restante da música. Nos mantivemos com as testas fielmente coladas, sem parar de encarar um ao outro.

- Relaxe. – Ele sussurrou, e eu quase não vi seus lábios se moverem.

Mas, depois de milésimos de segundos, eu os senti se moverem... sobre os meus. E então, todas as minhas barreiras se dissolveram em torno de mim. Esqueci Dabria. Esqueci o que havia acontecido entre nós. Esqueci as pessoas ao nosso redor e esqueci a porcaria da Maldição. Choques percorreram o caminho do meu rosto onde suas mãos me seguravam. E minha língua queimou quando eu abri meus lábios sob a pressão dos seus. Eu me entreguei. Colei todo meu torso no dele, sentindo-o por todos os lados. Uma mão se aprofundou na minha nuca, intensificando o beijo e a outra desceu até a minha cintura, sua mão grande tomando conta de quase toda a minhas costas, me prensando contra seu corpo. Nossos pés ainda se moviam em uma direção a outra. E eu o apertava mais junto a mim entre meus braços.

Ele se afastou de mim e acalmou a ardência em nossos lábios com alguns selinhos, depois roçou seu nariz ao meu e colou nossas testas novamente. – Só quero que se lembre. – Começou em um sussurro contido, como se fosse complicado dizer o que quer que viesse a seguir em voz alta. – Que tudo que eu vou fazer daqui em diante, é por você.

Meu coração se amoleceu por suas palavras, e eu acenei em positivo, incapaz de dizer qualquer coisa que respondesse seu sentimentalismo por palavras. Eu estava segura onde estava; em seus braços.

Foi quando a gritaria começou. A mulher parou de cantar, e o piano se interrompeu em uma nota aguda. E então, Patch começou a fazer jus a suas palavras. Naquele momento, elas realmente significaram algo para mim. Senti o ar espesso ao meu redor. Era por isso os olhares de alguns. O abraço muito longo de Harrison, que nunca curtiu dar muitos abraços. O sumiço de Cameron e a pressa de Patch.

Eu ergui meus olhos e cooperei quando ele agarrou meu pulso e me puxou logo atrás de si, correndo entre a multidão, me forçando a apertar o passo. As pessoas abriam caminho com pressa, enquanto a porta dupla de entrada era arrombada por algo que não consegui vislumbrar ao longe.

O vestido também fazia parte do pacote do plano de Patch, as faixas abertas facilitavam na corrida, assim como o corpete segurando meu corpo. Eu corri com o calor de sua mão na minha. Corria até pararmos na sacada, onde alguém vestido inteiramente de branco nos esperava.

- Graças. – Patch suspirou, com um assobio de satisfação no final.

Todas as janelas foram fechadas, enquanto as cortinas longas e pesadas eram soltas, cobrindo qualquer coisa do lado de fora. Entendi que a grande maioria estava do lado daquilo que estava acontecendo agora.

E então, o homem que estava de costas se virou, era Daniel. Seus olhos me fitaram de cima a baixo, com um sorriso de contentamento. Ele usava um terno branco, gravata de cetim e braços atados atrás do corpo. Cabelos bem delineados, sem nenhum fio fora do lugar.

- Cumpro com minhas palavras, caído. – Daniel respondeu, calmo.

O olhei de cima abaixo, feliz por tê-lo por perto, ele fora uma das únicas pessoas simpáticas do Castelo Divino. Seu rosto se iluminou em um grande sorriso.

- Vamos? – Ele indagou, seus olhos violetas se destacando por conta de seus fios dourados.

- Nos encontramos lá em baixo. – Patch ressaltou. – Vá até onde combinamos com Cameron.

Eu sabia que se tratava de algo com um longo planejamento, mas ainda assim estava completamente confusa.

- Espero que me expliquem...

Mas já era tarde para indagar algo. Braços longos e quentes abraçaram minha cintura, prendendo-se sobre meu abdômen e erguendo meus pés do chão em um susto. Olhei para cima e Daniel sorria para mim.

- Vão logo. – Patch alertou, em uma postura de combate com os pulsos cerrados e olhos céticos.

- Como quiser. – Daniel ressaltou.

Um sopro veio de trás de nós, afastando meus cabelos dos ombros e enxerguei as pontas das asas que Daniel possuía. Era toda felpuda e branca, macia e que me instigava a toca-la. A mesma começou a se mover graciosamente, nos elevando enquanto eu enxergava Patch cada vez menor, mas uma enorme fúria contida em seu par de olhos negros.

*

- Até que enfim. – Cameron sussurrou quando pousamos diante dele.

Suas roupas estavam estranhas, e meu estômago estava revirando pela altura em que Daniel e eu estivemos há segundos. Cam segurava um baú antigo em mãos, colocando alguns dispositivos pendurados em seu cinto. Ele estava com uma calça escura pendendo nos quadris, jaqueta de couro e sapatos escuros, um cinto de camurça se amarrava a cintura, com vários tipos de armas penduradas.

- Venha. – Cameron chamou, me puxando pelos dedos e deixando Daniel para trás. – Tome essas coisas, vou virar de costas. – Ele garantiu com uma piscadela. – Talvez eu dê uma espiada, mas...

- Quieto. – Eu sussurrei. – Nem sei o que está acontecendo. – Respondi, olhando para as coisas no baú. – Isso é meu?

- Tudinho. Enterramos há uns dias. – Ele respondeu, enquanto eu puxava um short com a cintura alta e com o comprimento no alto da coxa de dentro do baú.

- Isso é muito curto. – Comentei, olhando a peça e encontrando em baixo da mesma, botas de canos longos até a altura dos joelhos e sem saltos. – A gente vai a alguma boate?

- Quem me dera. Adoraria vê-la fazendo pole-dance com essas pernas de matar, que me mataram durante dias infindáveis naqueles lençóis. – Eu ficaria corada, mas era Cameron, e ele sempre fazia aquele tipo de brincadeira.

- Que bom que os dias acabaram. – A voz de Patch surgiu, bem atrás de mim. – Saia daqui. – Ele ordenou para Cameron.

- Nora e eu estamos conversando. – Cameron ficou repentinamente sério, teimoso. Encarou Patch com as sobrancelhas erguidas.

- Pode ir. – Eu garanti. – Continuamos depois.

Com isso, Cameron foi até onde Daniel estava e ambos ergueram os olhos para o Castelo Sombrio, uma gritaria contida pelas paredes de pedras vinha lá de dentro.

Os grilos cantavam ao nosso redor, e a tensão tomava conta do ar. A neblina deixava minha pele gélida e minha garganta doendo para respirar. Minha mente estava confusa, prevendo acontecimentos nada agradáveis. Me virei.

- O que está acontecendo? – Indaguei, colocando o baú que Cameron deixou para trás no chão e segurando o short de couro entre meus dedos trêmulos.

- Vá se vestindo enquanto conto. – Patch pediu com uma piscadela. – Não podemos demorar. Não vou deixar ninguém olhar para você.

- Você vai olhar para mim. – Argumentei, com o short em mãos.

- Meus olhos estão nos seus. – Ele garantiu, olhando-me com profundidade.

Não tínhamos tempo, e depois de tanto dormir na mesma cama que ele, eu não tinha tanta vergonha assim. Afastei as faixas e retirei a saia pequena que cobria parte das minhas pernas, enquanto Patch falava acima de mim.

- Assim que anunciamos o baile, burburinhos começaram a surgir. – Patch iniciou com voz distante, enquanto eu subia o short pelas pernas, e sentia seu olhar acompanhar o movimento. – E então, depois de tanto investigar, nós descobrimos. Os Renegados estavam armando com Demônios e alguns do Submundo que estão fora da Lei, pra sequestrar você e devolver Vee. – Meu coração saltou com o nome. – Acreditamos incialmente, e o plano era outro. Mas depois descobrimos que Vee não viria com eles. O Castelo Abandonado dos Renegados está parcialmente vazio. Temos de ir pela mata, e entrar lá o quanto antes e te tirar daqui o quanto antes. Eles podem sentir sua presença. Ou a falta dela.

Quando ele terminou, um tremor percorria meu corpo e estava vestida com a roupa, inclusive coloquei um cinto de couro vinho com algumas armas e utensílios distintos pendurados.

- Pelo caminho a gente vai ir encontrando ajuda, Nora. – Patch me assegurou, tocando meu rosto e arrumando meus cabelos, seus olhos passeando por meu semblante. – Confie em mim.

Aquilo não soou como ordem. Mas sim um pedido para que eu realmente confiasse nele. E eu confiava. Mesmo sabendo que estava sem treinamento, e nem estava completa na minha transformação. Eu tinha duas Sombras e um Divino para me proteger contra aquilo que encontrássemos no caminho.

- Vamos? – Cameron indagou ao longe, suas mãos estavam enterradas em seus bolsos da frente.

Daniel deu um aceno seco e seguiu na frente de todos. Eu sentia muito por sua linda roupa branca, mas tinha certeza que ela se acabaria em lama, ou em algo pior. Meu coração pulsava contra o peito, fazendo com que o som ressoasse em meus tímpanos. Meu queixo tremia, mas não sentia frio algum depois de me tornar Alma. Instantaneamente, meus olhos correram para baixo, como que para me certificar de que as tatuagens estavam lá. E estavam, assim como estavam antes e assim como estariam para o resto dos meus dias. Suspirei.

Patch caminhava diante de mim, enquanto o silêncio da mata nos percorria. O vento batia nas folhas das árvores e o som ressoava ao nosso redor, trazendo o cheiro de mato forte. Os grilos cantavam, como se a noite fosse o único momento em que pudessem fazê-lo. Nossos passos soavam contra as folhas secas caídas ao chão sobre a terra.

Cameron desacelerou os passos e parou ao meu lado, olhei para cima e seu rosto estava imbatível.

Pelo canto do olho, algo me chamou a atenção e desviei a cabeça. Um ponto brilhante se mexia ao meu lado. Fitei-o de perto. Era uma borboleta vermelha, a mesma me rodeou, abanando meus cabelos e pousando sobre a unha do meu indicador. Subi a mão e olhei para a forma coberta de luz de Shaunee. Suas garras finas, como um fio de cílios se soltaram do meu dedo e diante dos meus olhos, ela se transformou. Como uma garota normal, vestida como eu, mas no lugar dos saltos, ela também usava botas sem saltos, mas com o cano no início do tornozelo. Eu sorri ao vê-la, feliz por ter sua companhia.

- Eu não aguentei esperar. – Ela suspirou, ajeitando os cabelos, enquanto o brilho sobre o contorno do seu corpo diminuía.

Ela começou a caminhar ao meu lado. – Isso é estranho. – Sussurrou, e Cameron diminuiu os passos, ficando atrás de nós, sabia que era por pura segurança.

- Você é a Guardiã das Fadas, não tinha que protege-las? – Indaguei, desviando de um pequeno tronco no meio do meu caminho.

- Estou protegendo-as, Nora. É isso que estou fazendo agora, e era isso que cada Guardião devia fazer. Resgatar sua melhor amiga te salvará e nos salvará. – Ela respondeu com uma pontada de tristeza adornada por esperança no fundo da voz.

Meus ombros pesaram com a responsabilidade invisível sobre eles. Eu sentia que era a Guardiã de todos eles, mesmo que muitos não aceitassem minha presença. Carregava esse fardo por ser filha de Blythe Grey, com algum desconhecido. Ao pensar em minha mãe, nas fotos que via dela e nas visões que tive de alguma coisa do seu passado, o ambiente ao meu redor estourou como uma bolha de sabão e com um brilho fantasmagórico tudo foi substituído por outro cenário...

Ao invés de árvore, o que se erguia ao meu redor eram paredes de pedra. Pedras lascadas e inteiras, mas todas no tom de grafite, ao longe o som de ondas quebrando na beira do mar soava, tranquilizando as batidas do meu coração. Eu estava com as mesmas roupas, e me sentia caminhando pela mata, mas com olhos rolados nas órbitas...

- Blythe. Que bom que veio. – Uma voz que reconhecia surgiu, mas a impressão sumiu relativamente depois de escutá-la. – Estava com tantas...

- Quero saber do meu filho! – Minha mãe exigiu, surgindo da escuridão atrás de mim e caminhando em direção ao homem com feições bagunçadas. Como o rascunho de um desenho. As cores se misturavam aos traços, não revelando seu verdadeiro semblante.

Mas, ao longe, vi o brilho opaco de um sorriso determinado surgir.

Os ombros de minha mãe se moviam com sua respiração descompassada, o desespero estava evidente na forma em que seu corpo se encontrava, quase corcunda. Seus cabelos encaracolados e inteiramente negros em torno do seu belo rosto, e, naquele momento, eu só quis tocá-la, mas a voz raivosa do homem me espantou.

Me virei para seu corpo.

- Eu o protegi, minha querida. Nosso querido filho está seguro, agora. – O homem respondeu pacífico, mas sentia o ar denso, sabia que ele estava escondendo algo.

- Conte para ela! – Ordenei em um berro, mas minha voz não ressoou ali, ressoou na mata em que eu ainda caminhava às cegas...

- Eu sei que o odeia. – Minha mãe respondeu com dentes cerrados e lábios prensados.

De certa forma, eu podia sentir a dor emocional e corporal que ela sentia naquele momento. A raiva queimando em suas veias.

E eu me interessei pela conversa. Principalmente porque ela se referia a alguém do sexo masculino, então, não era eu. A compreensão veio em seguida, um irmão...

- Não o odeio. Ele é sangue do meu sangue. Mas não é da minha Espécie. Não aceito aqueles que não são. – O homem respondeu, não escondendo mais. Abrindo seu coração para a mulher diante dele, e pela posição de seus ombros, enxerguei que ele realmente a amava, mas era como se o nojo pela espécie distinta o controlasse nas decisões.

- Você vai o caçar. Sinto isso em seus ossos. Você sabe que iniciei o Ritual das Sombras, e que sou uma Sombria agora. Ele também é, você não...

E então, a caverna se dissipou junto ao som do mar e diante de mim, o Medalhão se erguia, brilhando diante do meu rosto...

Notei que meus pés não tocavam o chão e olhando para a esquerda, enxerguei o rosto de Patch, seus olhos atentos na mata a frente e ao brilho do Medalhão.

- Eu tenho um irmão... – Sussurrei.

- E o Medalhão. E não contou para ninguém. – Patch sussurrou com os lábios prensados, estávamos caminhando mais depressa que antes.

Ao longe, Cameron se virou em minha direção, e a troca de olhares foi fielmente entendida. Ele havia guardado nosso segredo.

Notas finais
E aí? Imaginavam isso tudo? Me contem pelos comentários! Espero vocês! *-*