Instrumento Tempestuoso.
12 2ª pt: Verdade.
Notas iniciais
Olhei para Shaunee ao meu lado.
- Você enxerga a porta? – Ela indagou, acordando-me de meus súbitos devaneios de fuga.
Acenei em positivo, realmente vendo a porta diante dos meus olhos. Aquilo tudo já estava sendo demais para mim.
- Ai, droga. Então agora temos de ir em frente. – Shaunee se lamentou, abrindo a porta dupla e mostrando-me um corredor sinuoso. Com portas distantes umas das outras.
Ela fechou a porta atrás de nós e caminhou com certa paz até a última porta do lado direito, abriu-a e quando pensei que viria seu quarto, com sua cama e sua personalidade imposta em produtos, na verdade vi um corredor formado por plantas sobrepostas em plantas de outro tipo. O corredor iniciava de maneira escura, mas me dava certa confiança em continuar.
- Bem vinda ao Mundo das Fadas, Nora. – Shaunee sussurrou ao meu lado.
Só então passei a realmente acreditar em suas palavras. Sim, eu não precisava mais duvidar. Nos últimos dias eu vi tanta cosia distinta, que eu poderia acreditar em tudo que me contassem a partir de então. Nada seria mais estranho que ter duas tatuagens de coisas distintas em um único corpo: o meu.
- Vamos em frente. – Shaunee disse, puxando-me delicadamente pelo pulso.
O caminho começou a ficar mais iluminado. Mais brilhante que o normal. Flores de diferentes estados, cores e tipos surgiam ao nosso redor. Borboletas cintilantes passavam em torno de nosso corpo.
E foi então que um intenso brilho se espalhou pelo escuro corredor. Com os dedos procurei pela mão de Shaunee, em um reflexo. Mas ela não estava lá. Notei que o brilho não provinha de uma maldade pelo Castelo Sombrio, ou que ele de alguma forma fosse me atingir de má forma. Notei que era Shaunee quem brilhava. Semicerrando os olhos um pouco eu a vi no centro de todo o brilho. Sues olhos abertos, enquanto seus fios escorriam por seus ombros, descendo longos e sedosos por suas costas. Ela parecia em paz, de uma forma que nunca pensei em ver alguma pessoa.
Suas pupilas estavam rodeadas por círculos finos e escarlates. E a cor dos olhos combinava com os tecidos que ela utilizava como roupa. Eu já não era tão boba para não ver e não saber que ela era uma fada. As asas coloridas em tons de vermelho, laranja e amarelo, com brilho nas pontas me chamavam a atenção e me mostravam certa delicadeza. Elas pareciam com um “b” em maiúsculo em direções opostas. Seus seios foram arredondados pelo top avermelhado e brilhoso. Uma saia despontada cobria sua pele do umbigo até acima da metade das coxas. Aquilo realçava o tom amêndoa de sua pele. Assim como as rodelas vermelhas de seus olhos. Ela era uma bela fada. O fogo na palma de sua mão expandiu-se pelos dedos.
Eu não tinha o que dizer diante daquilo. Meus lábios só souberam se repuxar para várias direções. Abrindo-se, impressionados com o que viram. Sim, Shaunee era uma fada.
- Cameron, aquele cretino, me fez mostrar isso a você. Há muitas atrás desta porta. – Shaunee despertou-me do transe e meus olhos subiram até os seus.
- Muitas? – Indaguei, olhando para as diversas portas que se estendiam pelo corredor.
- Sim. Há as transformadas, as que assim nasceram e as que estão em fase de transformação. Eu as guio por esta jornada. Eu sou a guia do mundo das fadas. – Ela se revelou e aquilo parecia ser um extremo alívio para ela. Pude notar por como seus olhos brilhavam que aquilo era seu topo máximo e que lá era exatamente onde ela gostaria de estar.
- Ok. Isso é demais pra mim. – Sussurrei, prensando os olhos. – Tudo isso existe.
- Sim. Mas hoje não vou te mostrar o resto e pelo amor de Deus, não conte para ninguém que te mostrei isto. – Shaunee pediu, e quando olhei novamente em sua direção, a fada não estava mais lá. Roupas normais, cabelos normais e olhos extremamente normais.
- Quando iria me contar a verdade? – Tomei coragem e indaguei a Patch, que estava deitado em sua cama, remexendo em umas bugigangas dentro de um antigo baú. Aquilo poderia ser macabro aos olhos de qualquer pessoa.
- Sobre? – Ele indagou de maneira despreocupada. De onde estava, conseguia notar que sua atenção estava completamente voltada para as coisas com que mexia.
- Sobre existir fadas e tudo o mais. – Eu sabia que estava quebrando a promessa com Shaunee, mas não podia desperdiçar a chance de encurralar Patch de alguma forma.
Patch não engasgou, ou se ergueu como imaginei que faria em um momento de alguém impressionado com a revelação. Ele pareceu inabalável, sem mover seus músculos de forma brusca, ou qualquer coisa a respeito. – Nunca tive a oportunidade. – Respondeu, dando de ombros.
- Nunca teve. Ou nunca quis me contar mesmo? – Investiguei, levantando-me do chão e sentando na beirada da cama, fazendo o colchão de casal ceder um pouco.
Era constrangedor saber que dali a algumas horas dormiríamos juntos no mesmo colchão. E era impossível negar a ansiedade de sentir seu toque de qualquer forma.
- O que tanto procura? – Me interessei, erguendo o pescoço e espiando dentro do pequeno baú.
Lá dentro continha coisas antigas e, ao meu ver, empoeiradas. Ele fechou-o rapidamente e ficou apenas com um aparelho preto e esquisito em mãos. Levantou-se e vestiu sua blusa seguida por sua jaqueta negra.
- Vamos. – Ele chamou.
Eu não queria e nem iria protestar, por isso o segui.
Seus dedos se curvaram sobre os meus, esquentando-os. Tínhamos entrado por uma porta de um dos corredores. A porta de madeira pesada estava longe de nós agora. Estávamos andando por um longo corredor, iluminado por tochas de tempos em tempos. Paramos diante de uma porta dupla de madeira.
- Consegue enxergar? – Indagou, olhando-me de cima, sem desgrudar sua mão da minha, balancei minha cabeça em positivo e como prova, toquei a maçaneta da porta abrindo apenas uma fresta.
Eu não estava apreensiva, como fiquei quando Shaunee passou por uma porta com os mesmos desenhos dourados. Com Patch ao meu lado, eu sentia que poderia enfrentar o inferno, se bem, que comparando onde estávamos, não havia – assim – tanta diferença.
Ele abriu a porta por inteiro, revelando um interior impressionante. Não havia paredes de concreto, ou chão de pedra. E muito menos um teto. Havia árvores construindo um corredor, no chão havia folhas e pedras espalhadas sobre pura terra e acima havia o céu negro com pontilhados de estrelas. Sorri, pensando que depois de muito tempo sairia do Castelo, mesmo escutando a vozinha que dizia que aquilo era uma ilusão.
- O feitiço diz que se você não tiver medo de passar por parte do corredor, ele logo se transformará. – Patch disse, fechando a porta em um alto baque atrás de nós.
Seguimos adiante, com nossos sapatos fazendo barulho nas folhas secas. O corredor era escuro, com bichos surgindo de lugares esquisitos, mas ainda sim eu não tinha medo. Passamos por um arco baixo de folhagens das árvores e a paisagem se alterou. Um pôr-do-sol mesclado em rosa e laranja iluminou o local ao nosso redor. Borboletas jamais vistas rodopiaram por meu corpo e um cheiro adocicado tocou minhas narinas. Patch pareceu calmo ao meu lado. Andamos por mais um tempo e ele se sentou em uma pedra diante de um lago.
Algo colorido se mexeu dentro da água e me aproximei o suficiente para me assustar quando um rosto subiu, jorrando água para todas as direções, avaliando-me com estranho interesse.
- Ai, minha nossa. – Me expressei, saltando para trás.
A garota encharcada levantou um longo dedo com uma unha pintada em vermelho, mas assim que me aproximei a cor se alterou para um rosa-bebê. Ela sorriu com seus dentes brancos e seus olhos com rodelas vermelhas me instigaram para perto.
- Ariane. – Patch falou em voz alta.
Os cabelos curtos e negros da garota se chacoalharam para o lado e ela apoiou os antebraços no chão, apoiando a cabeça em seguida, olhando-me com um sorriso amistoso... será?
- Olá, profecia. Você é bem conhecida nesse pântano. Adoramos você. – Ela disse, sorrindo de canto a canto.
Seus olhos se apaziguaram e ela mergulhou na água, revelando uma enorme calda de... sereia. Droga, era aquilo mesmo. Eu não estava impressionada, mas maravilhada. Tanto pela atitude de Patch, tanto por estar no pântano que lhes pertencia.
Patch estava mexendo no pequeno aparelho e uma música que não me era estranha começou a soar. A luz ao nosso redor diminuiu e quase ficamos no completo escuro. Não fosse a água brilhando em tons diferentes e acompanhando o ritmo da música.
Eu me arrepiei instantaneamente, vendo a água explodir em cores a cada alteração de tom da música “Secret”, aquilo era maravilhoso. Tons azuis e verdes se acendiam, mas logo depois davam espaço para o rosa acompanhado do vermelho. As caudas começaram a se balançar ao ritmo da música, assim como os tons. A dança estava sendo feita para mim. O pântano se aproximou ao nosso redor. O silêncio ajudou a ecoar a música ao nosso redor e Patch conseguiu me fazer sorrir de paixão pela primeira vez.
Nós poderíamos ter inúmeros encontros. Inúmeros momentos, mas nenhum iria se comparar àquele. Aquele era nosso beijo aceso. A comprovação dos fatos. Eu não podia negar que sentia algo só de olhar para ele. Foi ele quem revelou o melhor do mundo escondido para mim. Mostrando com uma das minhas músicas preferidas. As cores começaram a ficar mais fortes, se propagando por toda a mata e iluminando o belo rosto bronzeado de Patch, só então notei que ele não deixou de me encarar, com um sorriso pendurado em seus lábios. As luzes o deixaram mais lindo do que era. Eu estava apaziguada, sem mover meus músculos do resto do corpo sem ser do rosto. Ao final da canção todas as sereias se ergueram, sorrindo com rodelas vermelhas nos olhos, enquanto suas caldas se apagavam e a luz do pôr-do-sol mágico retomava a iluminar o pântano do Castelo Sombrio.
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