Instrumento Tempestuoso.

8 2ª pt: Intensidade.


Notas iniciais
Acredito que era para eu ter postado este capítulo as 19h, mas meu vício por Candy Crush não permitiu. E aí pessoal!!! Como vocês estão? Hoje vai um capítulo com mais um personagem e é por isso que o dedico a minha grande amiga Stella. Espero que você curta!
Gabriela! Como você havia perguntado sobre a aparição deste personagem, chegou a hora!
Trilha Sonora do cap:
Far Away - Nickelback
Only If for a Night - Florence
Gravity - Sarah Bareiller (super Natch!)
Running up that Hill - Placebo.
Boa leitura! s2

A água da banheira estava bem quentinha. Consegui me despir bem lentamente e encontrei alguns utensílios de fazer espuma ao redor da banheira. Despejei vários e agora estava de molho em toda aquela água, a espuma sobre o topo do líquido. Meus músculos estavam relaxando aos poucos. Consegui mover os dedos dos pés com mais facilidade. Assim como o pescoço sem dor e minha garganta não ardia mais. Assim como minha cabeça.

— Com licença! – Uma voz um pouco cantante falou ao pé da porta, já abrindo-a e logo depois fechando-a.

A mulata linda entrou. Seus olhos com rodelas vermelhas faiscando. E algumas peças de roupas em sua mão.

— Olá! – Ela cumprimentou, abanando a mão para mim. Um sorriso ganhava destaque em seu rosto.

— Oi. – Cumprimentei.

— Que falta de animação, menina! – Me repreendeu. – Vou te levar para conhecer o Castelo hoje. Isso se Patch não passar na minha frente. Ninguém nunca o viu tão... entrosado. Sério. – Ela disse, se sentando no chão, próximo a banheira.

Por incrível que pareça não estava com vergonha por estar nua emergida na água. Desde nosso primeiro encontro, ela me passara certa confiança absurda.

— Estou preocupada. – Suspirei. – Tá tudo muito estranho.

— Sei que se sente assim. Mas hoje, talvez, suas dúvidas irão se diluir. Você sabe quem sou eu? – Ela indagou, sorrindo de maneira cúmplice.

— Você é aquele pontinho brilhante que me trouxe para cá pela primeira vez. – Respondi, sorrindo, enquanto me lembrava daquele dia. Parecia que havia se passado tanto tempo.

— Que bom. Patch deve ter dito algo, com certeza. Naquela noite, eu a encantei para que dormisse e ninguém exigisse mais de você. Eu a levei em casa, não sei se se perguntou. – Ela disse, remexendo um pouco os ombros.

Realmente. Nunca tinha me questionado sobre aquilo.

Sorri de lado. – Obrigada.

— Vamos! Saia desta banheira. Temos um dia, minimamente longo. – Ela disse, se erguendo nos calcanhares e me chamando com a mão.

Peguei a toalha e me ergui, já me enrolando. Depois pisei no tapete próximo a escadinha que saía da banheira e me enxuguei.

— Essas peças íntimas eu comprei pra você. Não acho adequado. Mas espero que as roupas sirvam. – Ela disse, estendendo tudo em minha direção.

Minhas pernas estavam mais firmes agora.

Shaunee se virou de costas quando comecei a tirar as peças íntimas. Me vesti mais à vontade e caminhei até diante do espelho ao terminar.

Ou Shaunee era pequenina, ou era alta demais. Ou ao contrário. Eu apostava na segunda opção. A camiseta ficou momentaneamente larga, cobrindo o cos do short jeans que fiou folgadinho nas coxas, mas as roupas íntimas ficaram certinhas.

— Agora seu cheiro está melhor. – Patch se fez ouvir, seu reflexo no espelho parecia mais belo.

Seus olhos descendo pela minha silhueta pelo espelho. Um sorriso cafajeste se pendurava no canto de sua boca.

Sorri um pouco.

— Tudo bem... – Shaunee pigarreou. – Vamos!

Ela me puxou pelo punho. As pontas dos meus cabelos pingavam gotinhas geladas que escorriam por minhas costas.

Passamos pelo quarto e pela porta do mesmo. O corredor era parcialmente escuro. Na verdade, as cores eram escuras. Carpete vinho, papel de paredes com desenhos em negro e fundo vermelho morto. O gesso que se adornava lá no alto, entre a parede e o teto, era dourado. A cada distância mínima, continha uma lâmpada iluminando aquele corredor, levando a outros corredores e várias outras portas de madeira pesada.

— Bom, essas portas dão para os quartos dos Sombrios. – Shaunee informou, sua voz se propagando mais alta pelo corredor longo.

— Dos Sombrios já transformados e dos que estão no período de transformação. – Patch informou atrás de mim, como se para mostrar que Shaunee havia esquecido uma parte.

Pareciam extremamente confortáveis com aquela situação. Sair conhecendo os arredores. Apresentando o lar deles para alguém que eles mal conheciam. Assim como eu. Nem os conhecia para me sentir tão bem naquele local. No meio de tanta Trevas. Eu deveria me sentir mais confortável no Castelo Divino? Mas, era completamente ao contrário... e aquilo era aterrorizante, me sentir bem no centro de pura escuridão.

Seguimos mais adiante e entramos no amplo hall de entrada. Aqueles Sete Tronos estavam lá, vazios, mas mesmo assim emitindo seu poder para quem quisesse, ou quem não quisesse enxergar. Caminhamos durante mais alguns instantes e parei abruptamente com a parada repentina de Shaunee diante de mim.

Estávamos fitando uma porta dupla de madeira antiga.

— Estão todos aí, não é? – Era Patch, sua respiração estava batendo no alto da minha cabeça, atrás do meu ombro direito.

Shaunee olhou sobre seu ombro. As rodelas vermelhas estavam lá, acesas... O que aquilo poderia significar? Eu podia jurar que não as via toda hora. Só quando ela se virava abruptamente para mim. As rodelas sumiram, deixando a vista apenas seus olhos castanhos escuros.

Shaunee acenou em positivo, engolindo em seco.

Eu não estava entendendo o porquê de tanto cuidado com as atitudes e ações. Simplesmente abra a porta. Não sou anormal e estou limpa agora.

Shaunee o fez, revelando muita gente lá dentro. Conversas foram interrompidas. Assim como os talheres batendo nas bordas dos pratos. Muitos olhos se viraram para mim. Algumas rodelas vermelhas acesas também, mas como acontecia com Shaunee, elas logo sumiram.

Shaunee deu passos para trás e se apoiou em meu ombro. – Esta é a cozinha.

— Você deve estar com muita fome, Anjo. – Patch disse sobre meu ombro direito.

Acenei em positivo.

Nunca fui uma garota que curtia olhos voltados para sua presença. Nunca gostei de toda a atenção voltada para mim. Eu nem os conhecia, por isso mesmo deixava tudo mais intimidador. Mesmo eles sentados, comendo, demonstravam suas forças e alguns demonstravam que com apenas um pensamento, poderiam me derrubar de joelhos ali mesmo, diante de todos, deixando-me vulnerável.

Não pude deixar de admirar aquele... refeitório. Várias mesas longas de madeira escura, com bancos longos para ocupar um grande grupo de pessoas em cada. O chão sob meus pés se misturava entre preto e branco e as cortinas pesadas que cobriam as janelas altas eram do tom vinho escuro.

Me assustei com a mão de Patch pousando no centro de minhas costas e me guiando por um caminho entre duas mesas. Meu estômago se animou com o cheiro doce que subiu pelo cômodo, em direção as minhas narinas.

Patch pegou um prato e começou a servir a comida misturada. Segui seus passos, colocando um pouco de cada comida. Minha boca já estava salivando pelo cheiro bom que se propagava do alimento.

Notei que continha alimentos diferentes. Carnes. Comidas salgadas, apimentadas. Mais legumes que o necessário e variedades imensas de frutas.

Ao final peguei uma das frutas. O prato de Patch continha carne e alimentos salgados, quase parecido com o meu. O prato de Shaunee estava repleto de legumes e frutas picadas. Nada de carne, ou algum alimento salgado. Shaunee se sentou em uma mesa apenas com algumas meninas. Seus olhos surgiram com os círculos vermelhos rodeando a pupila.

Elas acenaram com a cabeça e algumas abanaram os dedos. As mesas pareciam conter o mesmo tipo de pessoas. A mesa em que Shaunee se sentou, por exemplo, continha meninas com roupas pequenas. Os fios sedosos demais, e as blusas com dois furos atrás... estranho. Mas, repentinamente, todos os lugares livres sumiram e só sobrou uma mesa ao fundo com dois lugares.

Patch caminhou até lá. Hesitei durante alguns instantes e o segui.

Sentei em uma cadeira vazia, de costas para os demais. Patch colocou seu prato ao meu lado.

— Chega mais para lá. – Ele pediu sem delicadeza, empurrando meu ombro de leve.

Arrastei a cadeira, o som provavelmente chamou a atenção dos demais atrás de nós e ele arrastou sua cadeira para o meu lado.

Eu gostei da proximidade. Do seu cheiro se estendendo sobre o incomodo que eu estava sentindo por ser o centro das atenções. Também gostei do seu braço cheio de músculos e completamente morno encostando-se momentaneamente enquanto eu mastigava a comida aos poucos.

— Eles não gostam de Novatos. – Patch disse, entre uma mastigada e outra.

— Não sou uma Novata. – Resmunguei, dando de ombros.

E não era mesmo. Na verdade eu nem sabia o que diabos estava fazendo ali, comendo junto com todos, a comida que pertencia apenas a eles. Comendo com pessoas que nem conhecia a existência há alguns dias. Eu precisava da rotina de sempre. Das risadas companheiras de Vee. Dos beliscões de Scott e dos beijos matinais na testa de Harrison. Eu precisava da normalidade.

Os olhos de Patch estavam presos em mim, ocupados, avaliando. Fiquei encabulada, enrubescendo no mesmo instante. Meus olhos, automaticamente, vagaram para o prato sob eles. Minhas mãos estavam suadas e meu cérebro não conseguia raciocinar qualquer outra coisa.

— Patch. Comendo? – A voz fora irônica e pela primeira vez, notei alguém se dirigir a Patch sem embaraço, ou receio.

Patch e eu nos viramos no mesmo instante.

— Cameron. – Patch acenou com a cabeça, firme.

Mesmo sem conhecer aquele rapaz de olhos esmeraldas atentos, pele translúcida e cabelos negros como o céu noturno, senti uma rivalidade entre ambos. Todos os olhos se voltaram para eles, atentos e receosos. Fiquei com medo de estar tão próxima, mas meu sexto sentido também ficou aguçado. Meu coração acelerou, com o pequeno vislumbre da possibilidade de Patch se machucar de qualquer forma. Que estranho.

— Sim. Ele mesmo. Em carne e osso. – Seus olhos verdes estrondosos se voltaram para mim, e apenas um se fechou, em uma piscadela sexy.

— A comida está apetitosa? Ah, desculpe, me esqueci que você não tem essa necessidade. – Cameron disse, abanando a mão no ar, como se pedisse para esquecer o que acabara de ser dito.

Espontaneamente, ele puxou uma cadeira de uma mesa próxima e sentou nela com o encosto para frente. Seus antebraços demonstravam seus músculos, enquanto ele se apoiava na mesma.

Meu apetite havia acabado por completo.

— E você parece muito interessado em minha vida, Cam. – Patch disse.

Seus braços se cruzaram atrás de sua cabeça, demonstrando estar em uma pose mais relaxada que o próprio Cameron.

Olhei em volta e ninguém estava comendo normalmente. Olhos vidrados na cena. Ombros tensos.

Respirei fundo, sem realmente saber o que fazer. Meus tímpanos só escutavam as fortes batidas do meu coração, o sangue corria apressado pelas veias. Eu estava com muito medo do que poderia ocorrer. Foi então que vi...

Os olhos de Cameron se alteraram diante dos meus olhos. Moveram-se em si, formando círculos em torno de sua pupila, até que um pequeno círculo em vermelho surgisse. Maxilar travado, sorriso petrificado no rosto.

Mas, eles nem estavam conversando...

Foi então que a resposta me abateu. Ambos poderiam estar conversando como Patch fazia comigo, pela força do pensamento. Mantendo uma conversa íntima, mas perfuradora. Dava para notar no olhar de ambos. O estranho era que o par dos olhos negros de Patch continuava negro, sem tons de escarlate rodeando a pupila. Diferentemente dos de Cameron. Olhos verdes como esmeraldas, com chamas acesas. Vermelhas. Redondas.

Tremi. E aquilo não foi pela forte brisa que me atingiu repentinamente, mas por medo a reação que Cameron teve, desferindo seus punhos cerrados contra a mesa. Todo o meu jantar caiu do prato – meu estômago roncou ainda mais, eu nem havia terminado de comer – e me sujou mais do que no início. As outras pessoas levantaram. Alguns com os pratos em mãos. Outros de mãos dadas e outros ainda mais apavorados... correndo porta afora.

Várias opções me passaram em mente. Correr junto. Me levantar e agarrar a mão de Patch. Mas olhei fundo nos olhos de Patch. E por mais incrível que possa parecer. Ele continuava impenetrável. Braços apoiados na nuca, ombros relaxados e sobrancelhas erguidas...

— Mas... que...

— Cale a boca! – Pulei na cadeira, com a forte interrupção de Cameron. Seu dedo esticado diante do meu rosto.

— Mas...

— Pode sentar aí. – Só então Patch saiu de sua posição, vociferando as palavras com mais raiva do que aparentava. Seu torso se aproximou da mesa e seus olhos iam de mim – conferindo – a Cameron – certificando-se.

Olhos rudes em direção ao garoto. O mesmo se virou, fitando-o de soslaio.

— Odeia admitir. Mas sabe que toda essa merda é verdade... Não vou estragar a surpresa da gatinha. – Cameron terminou e deu uma piscadela para Patch.

Se levantou de forma relaxada e mesmo de longe, arrumou a cadeira em seu devido lugar ao mexer os dedos. A mesma se arrastou sozinha até seu local em um baque alto e forte. Mostrando para mim que tudo tinha mudado. Que nada voltaria ao normal depois de tudo aquilo... tudo começou com a procura da minha melhor amiga e agora, só Deus sabia como iria terminar.

Notas finais
O que acharam da aparição? Coloquei bem em contraste esta rivalidade ente Patch e Cameron, mas ela tenderá a ficar maior e só no finalzinho eles COMEÇARÃO a se entender. O que acharam de aparição dele? E de toda esse intimidade gostosa de Natch? Até depois! ♥