Instrumento Tempestuoso.
11 1ª pt: Verdades.
Notas iniciais
A reunião estava sendo passada no hall. Patch saiu antes de mim, pois – conforme suas palavras – precisava falar com Kalona inicialmente. Então, eu fui sozinha e ao chegar, me arrependi, pois havia muitas pessoas lá. Acabei ficando no fundo com pouca visão apropriada. Lá em frente a tudo se ostentava Kalona e os Sete Tronos ocupados. Todos os corpos relaxados cobertos pela túnica negra e sedosa. Procurei Patch ao meu redor e vi seu rosto ao longe, bem no início das fileiras e mais fileiras de corpos... eu nunca chegaria lá.
- Após uma pequena reunião chegamos a um consenso e então chamamos todos aqui, pois é com vocês que queremos guardar este segredo. – Kalona fez-se ouvir, institivamente, todos ficaram em silêncio.
- Haverá um de nossos típicos bailes para resolvermos nossos problemas, então, espalhem a notícia. Espalhem o máximo que puderem.
Eu não estava entendo nada, mas me sentia inclusa naquilo tudo, no meio de todos. Todos ao meu redor ostentavam um dragão serpenteando o braço, mas cada um com um brilho diferente, assim como a importância. Eu não encontrava Shaunee em lugar algum.
O burburinho retornou e Kalona virou-se de costas para todos, conversando em tom baixo – ou quem sabe de uma maneira mais discreta – com as Sete pessoas lá atrás. Que grande reunião, pensei.
Comecei a seguir o ritmo dos demais, ouvindo comentários que me faziam sorrir animadamente.
- Vai ser demais, temos que espalhar no Reino. – A voz era dramática e doce.
- E as roupas? O que faremos? – Aquela entonação parecia preocupada e parecia-se com a voz da Shaunee.
- Essa droga toda de novo? O que será que eles estão armando, hein? – Um pouco desconfiado um rapaz indagou.
Sorri e parei subitamente quando o medalhão em meu bolso começou a esquentar demais, como quando na vez em que o intruso esteve em minha casa. Retirei-o com cuidado e o escondi entre os dedos. Parei durante alguns instantes, para fita-lo de verdade pela primeira vez. Ao encaminhar meus olhos para ao brilho opaco entre meus dedos, meu ombro foi jogado para frente com muita força e cambaleei nas pernas para me equilibrar. Uma mão forte agarrou a minha, antes que eu tocasse o chão, desconcertada, e foi então que o cenário ao nosso redor se desfez por uma luz dourada, cortante aos olhos.
E então juntos, o desconhecido e eu, vimos o cenário ir para um enorme descampado.
Blythe sorria encantada para as feições de seu amado. Seus braços serpenteados ao redor do pescoço dele. Enquanto ele dizia coisas encantadoras a seu respeito. Blythe sabia que aquele era o momento de lhe revelar um segredo que deveria ser compartilhado unicamente com ele. Aquele homem tinha aquele direito. Direito de saber a respeito de sua gravidez.
- Preciso lhe contar algo. – Ela disse, sua voz embargando ao final da frase.
Os olhos cintilantes do rapaz se levantam até os seus. E ela ganhou ainda mais força para continuar com a confissão que vinha resguardando a tempo demais.
- Pode contar, Bly. – Ele pediu com seu apelido carinhoso.
A língua acariciou as palavras aos ouvidos de Blythe e ela fechou os olhos momentaneamente, deixando-se levar por aquela ótima sensação que era seu nome nos lábios dele.
- Você precisa me prometer que...
- Qualquer coisa. Sabe que faço qualquer coisa por você.
Ela confiava em suas palavras. Só não confiava no destino. Não confiava nos desenhos impostos em seus braços. Nas escalas distintas. Ela precisava fugir, mas ali, olhando em seus olhos, também precisava ficar.
- Não me abandone. – Seu pedido fora sincero, e como que para provar suas palavras uma borboleta cintilante passou entre o rosto de ambos, depois serpenteou todas as madeixas escuras de seus fios, relaxando-a. – Por favor, é só isso que lhe peço. É a única coisa que te peço, de verdade.
- Eu nunca faria isso. Quantas vezes terei de repetir. Pode me contar agora. – Ele pediu, ficando um pouco irritado.
Blythe sabia daquilo pelo unir de suas sobrancelhas. Por seus olhos ansiosos e por seus lábios semiabertos.
- Estou grávida. – Ela conseguiu sussurrar, sem tirar seus olhos dos dele.
E foi por isso que ela não se arrependeu. Não se arrependeu por não ter deixado de olhar em seus olhos. Pois fosse qual fossem as palavras, os olhos o entregaram.
Um sorriso surgiu em seus lábios, mas a reação real ficou presa no poço azul que eram seus olhos cintilantes. As bordas dos mesmos levemente pressionadas, deixando sua pele clara mais vulnerável.
- Que maravilha. – Ele conseguiu falar ao fim, abraçando-a.
Blythe não conseguiu respirar aliviada. Nunca conseguiria depois de ver seus olhos com aquele brilho esquisito que vira pela primeira vez. Blythe sabia que teria que fugir para o mais distante possível. Ter seu primeiro filho longe dele. Seu pequenino – seja o que fosse – precisaria dela.
Blythe teria de fugir de seu amado. Para dar uma boa vida ao seu primeiro filho.
— Que merda toda foi essa? – A voz indagou.
Só então abri os olhos, pouco desesperada por notar que aquela mulher era sim minha mãe. Mesmas feições. Mesmos cabelos... mesmos olhos das fotografias antigas. Meu coração parecia uma bomba prestes a explodir. Meu sangue rodeava minhas veias a quilômetros por hora. Meus olhos ardiam, pois não consegui ver as feições do homem. Aquele poderia ser meu pai. Poderia ser ele... que realmente abandonara minha mãe. O que mais me espantou foram as tatuagens. Andorinhas no antebraço direito dele e um dragão no esquerdo dela. Aquilo era aterrorizador.
- Como isso aconteceu? – Só então ergui o rosto.
Cameron me fitava um pouco curioso. Avaliando minhas feições. Suas mãos brutas me seguravam pelo braço. E nós estávamos lá, parados no meio de um corredor do Castelo... olhei para minha mão com o Medalhão e vi seu tom dourado reluzir pela fraca luz.
- Foi essa merda. – Ele sussurrou.
- Pare de falar tanta palavra suja. – Pedi, olhando um pouco abismada. Acabamos de ver algo de extrema importância e ele continuava bruto como antes.
- Isso nem chega a ser um palavrão. – Ele teimou.
- Não significa que precisa ficar repetindo.
- Tudo bem, tudo bem. – Ele desistiu com um sorriso pendurado no canto de seus lábios. – Porque vimos isso tudo?
- Isso nunca tinha acontecido antes. – Murmurei fitando o medalhão entre meus dedos.
- Pela sua reação isso foi óbvio. – Disse ele, fitando-me diretamente nos olhos.
Me senti desconcertada com a força que eles emitiam e baixei os meus até meus dedos novamente, guardando o medalhão em meu bolso.
- Kalona sabe que isso está com você? – Ele indagou, vendo-me guardar o medalhão com certo receio.
- Não.
- Acho melhor ele ficar...
- Não acha nada. – Disse, segurando o medalhão com mais força, criando um extinto protetor por ele, pelo simples fato de ele ter sido o único a me levar tão próximo de minha mãe. – É sério. – Reforcei pelo brilho dos seus olhos.
- É você mesmo. – Ele disse, seus olhos céticos, lábios em uma linha reta.
- Sim. Eu sou a droga da garota da Maldição e Profecia. – Disse frustrada, bufando.
- Calma aí. – Ele pediu, seus dedos se soltaram um pouco e acariciaram minha pele. – Sinto que teremos de nos ver mais vezes para entender isso. Estou aqui há anos e posso dizer que isso foi uma visão do passado e que se refere a nós dois, como você disse que nunca tinha visto nada antes.
- Isso é medonho. – Suspirei ao final da frase, me perdendo nas recentes informações.
Todas muito rápidas. Se misturando. Se unindo.
- Dá para perceber. – Seus lábios quase não se moveram ao dizer as verdadeiras palavras.
- Nora, nós... – Shaunee entrou pelo corredor, interrompendo minha conversa com Cam. – Desculpe, eu só ouvi sua voz.
- Eu já estava de saída, fada. – Cameron rosnou, entrando em uma porta qualquer.
A palavra pesou em minha mente. Eu estava ainda mais confusa.
- Temos muito o que fazer depois dessa frase. Kalona não vai gostar nada quando eu fizer isso. – Shaunee resmungou tomando meu pulso entre seus dedos.
- O que? Como assim? – Consegui perguntar em meio à penumbra que me confundia.
Shaunee – finalmente – parou de reclamar sobre tudo diante de uma porta de madeira pesada. Desenhos em dourado estavam adornados pela madeira, subindo e descendo e serpenteando as maçanetas. Uma estranha sensação me abateu. Um pedido oculto do meu cérebro de: “Fuja o mais rápido que puder!”
Notas finais
PS.: Desculpem a demora!!! É que fiquei dodói, com suspeita de dengue ]=
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