Instituto Pietro di Castiglia - Interativa

7 VII - A Batalha dos Corpos Secos - Parte 2


Notas iniciais
RAPAZ, hoje vamos acabar com a paulera, mas assim, hoje reservei para implementar futuros plots, pessoais e gerais na trama. Espero que gostem.

“No dia e hora certa, Itaúna se libertará para mostrar sua face, ela está escondida dentro daquilo que sempre protegeu. Ela está condenada pro resto de sua vida.”

Poranga estava sendo rodeada por corpos secos, era como ver a visão do inferno diante dos olhos. Seu coração acelerou com adrenalina, sua mente ficou pulsante e sua visão turva, sentiu como se alguém pegasse sua mão e levasse até a pedra brasiliana que ela carregava em pingente no peito. Uma energia estranha percorreu por todo o seu corpo de forma eletrizante, assim como o poder da Garrafada de Tupã, os corpos secos tocavam na pele da índia que parecia não sentir os efeitos do Toque Necrótico, e isso atiçou a curiosidade de Luison.

Uma fumaça escura começou a rodear aquele grupo de mortos vivos, uma rajada de vento forte começou a engolfá-los com aquela fumaça preta que surgia do chão. Uma espécie de tornado começou a brotar em um local de céu limpo, os raios que Poranga expelia graças a poção foram sendo soltos no meio do turbilhão de fumaça e ventos fortes. No olho do furacão, Poranga estava com os olhos pretos com algumas veias de essência escura vazando de seus olhos.

Moacir olhou pra cena com um leve assombro, uma magia tão forte brotando de uma aluna novata, com certeza não era ela quem estava manipulando tal poder. Luison estava um pouco assustado com aquele poder, até que um dos raios que saíam do tornado o atingiu no peito e o jogou diretamente de costas no chão, fazendo a entidade sentir algo raro, a dor. Corpos secos de todo o terrenos estavam sendo engolidos pelo vento forte daquele redemoinho negro, atingidos por raios ou batendo violentamente um contra o outro, e caindo ao chão já sem “vida”.

Só quando não existia mais nenhum morto vivo para contar história, é que a poeira do furacão cessou e caiu por terra, assim como quem o fez, Poranga desmaiou e parecia estar exausta ou até mesmo morta por causa do excesso de poder que acabara de soltar. Por isso que novatos não iam para lutas, sem o controle de medida do seus poderes, poderiam exagerar no uso e acabar por ter uma coisa chamada “Taquicardia Mágica” que era uma parada do coração dado ao excesso de poder circulando no corpo.

— Rápido, levem ela pra Ala de Cura. — Disse Hector para seus Caçadores.

Enquanto os veteranos acataram a ordem de seu professor, no campo aberto, onde só havia Luison e Jaci, o deus da morte estava com um olhar catatônico de choque, apertava seu peito para ver se aquilo era real, a dor, uma reação que só sentiu poucas vezes, quando seu pai desferiu golpes nele em surras que levou quando era mais jovem. Só um poder incrivelmente forte era capaz de realizar aquilo, e uma mortal acabou de fazer isso.

Jaci se aproximou do irmão, o deus da morte notou que aquele pequeno ser esperto iria apagá-lo usando Pó de Siesta, mas antes que isso pudesse acontecer, ele virou nas sombras e fugiu na forma de fumaça escura. Deixando um gosto amargo na boca de Jaci, que sabia muito bem que o irmão não deixaria essa peleja barata como ficou, iria retornar de algum jeito, e bem pior do que agora.

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A Ala de Cura era um local bem simplório que pertencia a parte do prédio dos bruxos, mas era comandado por inteiro por clérigos da Cura, eram alunos com dons de aplicar a canalização divina em pequenos milagres para curar feridas, doenças, tirar venenos e outras categorias de cura. Alguns clérigos com a Bênção da Paz e da Palavra estavam ali para dar apoio de tranquilidade. O local era repleto de leitos perto das paredes, grandes janelas estreitas e altas, e um pequeno altar com uma cruz de madeira e imagens de santos relacionados a cura.

Amorim foi guiando Tony e Kathe para o local, estavam carregando Otávio que ainda estava mau, sentindo dores fortes no peito e abdômen. O jovem clérigo estava um pouco fraco, e logo foi interrogado por uma das noviças. Existiam fases de freiras, as Noviças eram as que tinham poucos anos como clériga, já as Freiras tinham anos avançados de devoção, e as Madres Superioras eram as mais sábias e antigas no voto.

— O que houve com o rapaz? — Perguntou a Noviça, usando um traje de tons claros, branco com verde azul claro, ela tinha a pele negra, e olhos grandes e escuros que davam um tom meigo a ela, era BEM nova, uma das mais novas dentre as noviças, era muito prestativa.

— Maria, ele levou um golpe de um Corpo Seco, é uma criatura que causa necrose mortuária, já leu sobre? — Perguntou Amorim.

— Sim, é uma mau que corrói a pele e órgãos de quem foi atingido. Coitado do garoto. — Maria Aparecida era uma clériga com a Bênção da Palavra. — Acha que se eu rezar pra ele vai melhorar?

— Sua rezas são bem fortes, então sim, reze. A Necrose Mortuária é uma doença obscura, causada só por feitiços malignos ou seres demoníacos, a fé pode cortar o efeito ou impedi-lo. Cuida dele pra mim? Vou conversar com os caçadores amigos dele.

— Pode deixar, vá com Deus. — Disse Maria.

— E você fique com Deus. — Amorim respondeu, um breve mantra dos clérigos.

O rapaz saiu e pediu para que os caçadores deixassem o amigo descansar, e isso já deixou Kathe meio preocupada, pelo modo que Amorim disse, parecia que Otávio estava perto de bater as botas.

— Calma, ele está bem, só precisa de repouso. — A voz dele estava em um tom tão pacífico que realmente se acreditava que estava tudo bem.

— Me sinto culpada por não ter reagido a tempo pra ajudá-lo. — Comentou Kathe com pesar na voz.

— Não fiques assim, Senhorita. — Antony a encarou nos olhos para que passasse confiança. — Otávio me parece ser um rapaz forte, e com a ajuda dos clérigos, ele sairá dessa pra outra batalha. E não foi culpa sua, estávamos ocupados demais nas nossas lutas para auxiliá-lo.

— Tens razão. — Mas não parecia que Kathe estava convencida de fato.

Vendo aquele olhar caído de culpa, fez com que Tony ficasse sem alternativas para tentar amenizar as coisas, só que o elo dele com o Rex era algo tão forte que o Lobo Guará começou a ganir para Kathe, abanava o rabo e parecia se agitar. O que fez a garota sorrir e se abaixar para fazer cafuné entre as orelhas do guardião, e isso ocupava um pouco a mente dela.

— Vou dar um presentinho pra vocês, Caçadores. — Disse Amorim tirando dois frascos de vidro marrom com conta gotas. — Vocês andam muito estressados, quase sempre, eu tenho aqui, água de Melissa junto com extrato de Camomila, de três a quatro gotas em um copo de água antes de dormir, vocês dormirão com os anjos.

— Obrigada. — Kathe pegou seu frasco.

— Obrigado. — Antony pegou o seu.

Enquanto isso, no leito da Ala de Cura, Otávio estava apagado em com dor, estava suando muito, o que preocupava Maria Aparecida. Na mente do rapaz ele estava de volta naquele momento que lhe perturbava demais, estava no sítio de uma parente dele que cuidava dele, na sua frente estava um rapaz negro acorrentado em uma tora. Uma voz gritava com ele: BATE NESSE PRETO, AGORA!

Ele não conseguia acordar, mas o que desesperou a freira perto de seu leito foi o fato dele estar chorando e dormindo. Ao lado da cama tinha um suporte com uma bacia de ferro e água benta, alguns panos novos e ela foi passando a água gelada pela testa e rosto do garoto, que estava com dor e febre. O pesadelo só piorava a sua situação, Maria então escutou novamente aquela voz na sua mente:

Reze, meu anjo, reze. Ele precisa das suas palavras, isso sanará a dor dele.

Um Clérigo com a Benção da Palavra tem poderes mistos, entre paz, cura e até poderes de repreensão ou repelir inimigos, era um dos poderes mais poderosos e tinha que ser bem utilizado, caso contrário, o mal poderia vir através da corrupção. A noviça levava na cintura presa em um cinto de pano, um rosário de contas um pouco grandes de madeira escura e uma cruz de ferro, acompanhava ela desde quando era apenas um bebê.

Ela começa a rezar agarrada em seu rosário, enquanto passava o pano com água benta na testa do rapaz, em uma espécie de reza particular, onde ela pedia que Otávio pelo menos acordasse do pesadelo, o livrando daquele estado. E foi quase que na hora, o peso saiu dos olhos dele, acordou um pouco tonto e olhou pro lado, vendo aquela jovem moça vestindo branco e com uma espécie de véu branco com uma faixa azul claro sob seus cabelos.

— Acordaste, graças a Deus. — Maria sorria aliviada.

— Eu morri? És um anjo? — Ele sentiu uma pontada. — Eu ainda sinto dor?

— E-Eu… Errr… — Maria ficou desconcentrada. — Não, você não morreu. Estamos tratando do seu ferimento.

— Ainda bem. — Ele fechou os olhos sentindo aquele pano, que parecia um carinho que estavam lhe fazendo no rosto. — A senhorita é muito cuidadosa, já te disseram isso?

— Já sim, e agradeço o elogio. — Maria não gostava de ser desrespeitosa com seus pacientes, sempre aprendeu que o elogio vindo do coração não é ofensa.

— Aliás, posso saber vosso nome, senhorita?

— Maria Aparecida.

— Otávio Rosa de Gutierres. — Mesmo enfraquecido, ele leva a mão até a cabeça pra fazer uma reverência. — Prazer em lhe conhecer.

Ele soltou um sorriso franco mas que já encheu o coração de Maria de felicidade, gostava de ver que suas preces funcionavam, essa era sua Bênção, ajudar com a Palavra.

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Depois que tudo se amenizou, os alunos voltaram a circular pela escola, os caçadores recebiam uma pequena leva de fãs. Millo estava ao lado de Poliana, o rapaz ficou muito preocupado com a saída repentina de Poranga e Poraquê da sala, não sabia se eles tavam bem, os dois foram andando pelo campus da escola, o rapaz estava com seu gato preto perto do colo, abraçando-o como se fosse um bebê.

— S-Será que a Poranga tá bem? Vimos aquele tornado. — Poliana não falava muito pra fora, era até meio difícil de saber o que ela queria expressar.

— Não sei, Poli. — Comentou o rapaz fazendo carinho no gato preto.

— Poli? É uma abreviação muito meiga, gostei. — Ela soltou um sorriso tímido.

— Todo mundo me chama de Millo. — Ele encara o meio da multidão dos alunos, mesmo o Poraquê sendo um pouco menor que os alunos da sua idade, Camillo o avistou e correu na direção dele. — Poraquê, como foi lá?

— Esgotante, bruxo, mas foi satisfatório também.

— E Poranga? — Disse Poliana de forma bem baixinha, parecia se esconder logo atrás de Camillo.

— É o que? — Poraquê não havia escutado.

— Ela perguntou sobre a Poranga, vimos uma espécie de tornado e ficamos com medo que fosse uma magia solta contra ela. — Respondeu Millo.

— Ah, ela foi pra Ala de Cura ou algo desse tipo, deve ser local dos curandeiros. E digo, a Icamiaba é poderosa, ela destruiu todos os inimigos de uma vez só. — Disse o índio de forma impressionada.

— Vamos pra lá então, Poli. — Camillo ofereceu o braço para que a garota enganchar nele e timidamente ela tomou o braço do rapaz.

Poraquê estava desgastado, esse era o efeito depois de usar um combo de Garrafada de Tupã e Bênção de Abaçaí, era pra poucos aguentar tal poder. Uma pessoa o acompanhava de longe, Moacir, estava de olho no garoto desde que entrou em campo completamente extasiado de raiva e energizado de raios, lutava como se nascesse para aquilo, um grande guerreiro com mente de um alquimista.

O rapaz logo sentiu como se algo fosse jogado nele, uma pequena pedrinha, e logo avistou um saci zombeteiro rindo dele, e Moacir estava do lado do pequeno diabrete, o olhar dele não era um dos melhores. Para todos os filhos de índios, o Professor era Cacique e Pajé na mesma figura, então seu respeito tinha que ser o mesmo do que em qualquer tribo.

— Posso saber qual foi seu intuito de entrar em uma batalha mortal de peito aberto? Se quiser morrer é só falar que eu te faço um veneno. — Moacir estava com pinturas de proteção no rosto, assim como o jovem aluno. — Caçar uma onça, um queixada que seja, não se compara a lutar contra seres obscuros.

— E deixar os inimigos tomarem a terra? — Perguntou Poraquê. — Não queria isso.

— O que você quer ou deixa de querer, fica para você, curumim. Agindo como um guerreiro sem rito, estava com rapé na mente?

— Não, Professor. — Poraquê estava quieto diante de Moacir, a figura daquele homem era gigante e amedrontadora agora. — Minha intenção foi boa.

— Sei que foi, mas que não se repita. Os Caçadores de Pesadelos já existem para sanar esse mal, somos Alquimistas, só usamos nosso conhecimento em batalha quando estamos com guerreiros do nosso lado. Não gastando favores divinos com lutas exageradas.

— Armas de fogo deles são atrasos, tem que carregar pela boca e…

— Está bem desatualizado, Xin. — Xim era pequeno na língua Kaingang. — Eles agora possuem Munições e recarga rápida, eliminando dez inimigos em poucos segundos, mais do que qualquer guerreiro habilidoso com arco ou funda.

— Estranho, só vi um que era de um tiro só, depois o guerreiro usava a arma como uma espécie de tacape. — Poraquê lembrava de ter visto um caçador errar um tiro contra um porco do mato.

— Poraquê, quero que me faça um favor. Na próxima lua cheia, que é daqui a cinco noites, vá até o Santuário dos Alquimistas, quero propor uma função a você. Até lá, você controle seus impulsos, Mente Sã…

— Corpo São… — Ele completou olhando para Moacir. — Meu pai e meu avô, ambos diziam isso.

— Então escute os mais velhos, eles carregam o ensinamento da Terra. Descanse, tome um gole de erva-mate, restaura as forças. Os daqui chamam de Chimarrão.

Moacir saiu dali em silêncio, e Poraquê ficou pensativo nas suas ações, realmente não acabou pensando muito, só queria agir em uma situação de perigo, parecia querer provar algo para si mesmo. Isso tinha muita ligação com a situação que teria que provar quando voltasse para sua tribo, teria que escolher o caminho da Sabedoria sendo Pajé como seu Avô, ou o caminho da Força sendo líder da tribo como o novo Cacique assim como seu pai.

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Enquanto isso…

Luison estava voltando para o local de origem, perto de Jurupari, emergindo de uma espiral de essência negra que parecia uma mistura de fumaça com líquido. Os olhos dele estavam em um tom vivo de vermelho. Jurupari estava sentando em uma espécie de trono que ele fez usando seus poderes e ossadas de pessoas de muitos anos atrás. Ele estava com um sorriso no rosto.

— Falhei, sócio. — Disse Luison. — Falhei.

— Não, meu consagrado. Você me ajudou a finalmente achar a encarnação de Itaúna, a Pedra Negra. Itaúna foi uma antiga bruxa que usava as pedras Brasilianas muito antes dos Brancos saberem do uso delas. — Disse Jurupari fazendo focos de luz ilustrarem sua história.

“Muitos e muitos anos atrás, Itaúna recebeu esse nome graças aos seus olhos de tons escuros como pedras raras. Só que ela foi considerada uma afilhada de Ticê, a Deusa Bruxa da Escuridão, Rainha do Planos dos Mortos, e depois de anos ganhou poderes mágicos de uma pedra brasiliana que tomou o tom escuro de seus olhos e agradando assim sua Madrinha, já que Itaúna era envolta nas sombras. Contra isso tudo, meu pai, Guaraci, o Deus do Sol, abençoou uma outra garota chamada Kuarashí, a garota parecia resplandecer a luz do sol, ela foi destinada a acabar com a onda de escuridão que estava para nascer dos poderes de Itaúna. As duas foram destinadas a uma luta do bem contra o mal, mas Itaúna nunca foi esse monstro que pintaram. Ambas morreram, uma pela mão da outra, o sangue delas se juntaram no solo, e Anhangá resolveu que um dia elas voltariam como irmãs para que nunca mais brigassem...”

— …Sendo assim, irmãs que seriam a paz, se fossem criadas juntas. — Um sorriso brotou no rosto de Jurupari. — Mas não foi isso que aconteceu, agora Itaúna está de volta, só que em um local onde o poder dela só vai aumentar, logo sua força será imparável, até para aqueles que ensinaram tudo a ela.

No instituto, Poranga ainda estava desacordada graças ao seu exagero de poder na luta contra os Corpos Secos, mas seu pingente começou a reluzir um leve tom roxo em alguns pulsares, como se fosse um coração batendo. Um coração na Pedra Negra. Janaína que estava indo para sua cabana, sentiu uma lufada de vento que lhe arrepiou o corpo inteiro, sentindo que algo não estava certo.