Notas iniciais
BUENAS! Bem, hoje a festa começa, mas não sei se para aqui, talvez tenha novidades legais no próximo capítulo, mas por enquanto, fiquem com o esquenta de uma boa festa. Boa leitura. AAAAAAAH, a sugestão de trilha sonora É SUGESTÃO, não é necessário ouvir, mas é uma boa maneira de imersão nas cenas.

Trilha sugerida: Alvorada — Carlos Gomes (Instrumental)

Longe dali, nas estradas de pedra e lageado da região, uma comitiva com várias carruagens de diligência chegavam perto da escola. As diligências, bem ao modo do velho oeste, tinham inscrições ao lado, com referências a Deuses ou símbolos sagrados no caso dos padres e freiras. Na Carruagem de Tupã, o Deus dos Raios, Trovões e Clima, que tinha uma decoração excelente, as rodas reluziam em um brilho de lantejoulas, na pequena porta da diligência dois raios cruzados faziam o símbolo dela.

A viagem foi de um dia e uma noite, chegariam na escola perto do meio dia. Durante a noite, o céu era tão limpo e estrelado que se dava pra contar as constelações. Na diligência Tupã, haviam apenas três pessoas, já que as demais já estavam preenchidas. No dia do embarque estava ocorrendo uma pequena algazarra sobre os locais, a cidade onde estavam antes teve que hospedar todos em um Hotel chamado Lar dos Bruxos, que era amiga antiga do Instituto e ganhou esse nome. Uma moça com roupas simples, e diferentes, uma saia preta que ia só até o joelho, pés descalços uma blusa vermelha e seus cabelos eram soltos e longos.

Onde passava, tirava o olhar de todos, uma beleza natural da pele morena escura, uma índia, não era a única ali, muitos Alquimistas Nativos também tinham sangue nas tribos nativas espalhadas pelo Brasil inteiro. Um senhor mais velho, de barba branca e uniforme formal de transportadora, fumava um cachimbo que expelia fumaça branca azulada.

— Seu nome, senhorita? — Perguntou o homem para a índia.

— Poranga, filha de Raoni, cacique dos Tupis de São Paulo. — Ela era firme no que falava e tinha uma dicção muito boa.

— Sua diligência é a de Tupã, você é a última nela. — O homem apontou a direção onde estava a diligência.

Era quase que um grandioso estacionamento cheio de carruagens e alunos conversando, boa parte já estava embarcado nos seus devidos veículos. A de Tupã não tinha muito mistério para achar, era até que óbvia. Quando Poranga chegou no veículo e entrou com sua mochila de palha trançada que ela mesma confeccionou, avistou ali dentro duas figuras.

A primeira era um rapaz que havia pegado um canto da diligência para ficar encarando a janela e paisagem, no seu colo tinha um caderno de folhas brancas e um pequeno pacote de giz de cores. Os cabelos ondulados e volumosos davam um charme no rapaz que tinha brincos nas orelhas, suas roupas eram do formal ao simples, colete aberto, uma camisa simples de pano, calças sociais pretas e um sapato confortável.

Do lado de Poranga estava uma moça diferente, ela deveria ser uma caçadora de pesadelos só pelos trajes, uma roupa quase masculina em um corpo bonito, calça de couro, botas de campo pretas, coldres com dois revólveres e uma faca estilo Bowie. Um corselet de couro escuro e por baixo uma blusa azul marinho, só faltou um chapéu pra ser uma vaqueira. Seus cabelos eram morenos, e quando encarou Poranga, a índia viu os belos olhos azuis que davam contraste a pele alva clara e de aparência aveludada.

— Diligência Tupã? — Perguntou Poranga de forma séria.

— Oui, digo, sim. — Respondeu a moça de forma animada com um sorriso aberto, tinha um traço bem amigável. — Venha, podes sentares do meu lado.

— Obrigada. — Elas ditou sua mochila de palha e deixou com perto de si. — Primeira vez no Instituto?

— Isso, sou novata. Prazer, Katherine Lafayette da Costa e Silva, mas podes me chamar só de Kathe. — Ela estende a mão para a índia que responde de volta. — E você?

— Me chamo Poranga, sou de uma tribo Tupi na Casa de São Paulo. — Ela encara o jovem rapaz quieto ali no canto dele. — E ele?

— Não falou muito desde que entrou. — Kathe cutucou a canela do rapaz com sua bota. — Então, tens nome?

— Desculpas. Me chamo Camillo Martinez Del Rio, eu só não queria incomodar muito, estava só admirando uma paisagem bonita, hoje o sol está bonito e o céu aberto.

— Desenha? — Perguntou Poranga.

— Sim, mais paisagens do que qualquer outra coisa. — Ele soltou um sorriso calmo e pegou seu bloco de desenhos. — Eu não me dou muito com giz de cera, espero que tenha tintas boas lá.

As duas praticamente puxaram o rapaz para se sentar no meio delas e conferirem seus desenhos, Millo não era de ser muito tímido, só era reservado pelo fato de não saber lidar com alguns tipos de situação, aquela era uma delas. O dia passou aos trotes de cavalos, Poranga havia colocado na mochila algumas frutas naturais que ainda estavam bem boas, ofereceu aos demais que provaram o melhor que a terra poderia oferecer.

Umas coisas que Kathe trouxe com ela foi um salame, queijo colonial e pão caseiro dados de presente por um comerciante amigo dela na cidade de Joinville no Condado de Santa Catarina. Isso serviu de almoço, jantar e possivelmente, café da manhã no dia seguinte. A noite de céu estrelado e sem lua, era um deleite aos olhares apaixonados e contemplativos, Kathe e Millo viram algumas estrelas cadentes e fizeram desejos para eles mesmos. Poranga gostava de acreditar que as estrelas eram as filhas de Jaci, a deusa da Lua, e quando ela não aparecia no céu, suas filhas tomavam conta do local até ela voltar da sua guerra com a Onça Celeste.

^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^

No dia seguinte, as diligências foram parando no grandioso quintal com quaresmeiras roxas e ipês amarelos, fora que tinha um pomar lindíssimo com frutas da estação, por magia, elas sempre mudavam para frutas que davam em certas estações. Então na mesma árvore que dava maçãs no inverno, no verão tinha ramos de melancias brotando das raízes.

Todos foram notando coisas diferentes, os veteranos notaram decorações diferentes de bandeirolas e a iluminação de piras e tochas multicolores, o local estava lindo por ser um dia belo de fim de verão. Quando todos saltaram de seus veículos para pegarem as bagagens, foram surpreendidos por ventos fortes e risos altos e meio medonhos, pequenos turbilhões de ventos e folhas chegaram perto das diligências, logo todos foram surpreendidos por pequenos seres de pele escura e orelhas pontudas, tinham apenas uma perna, os narizes eram esguios e achatados, só tinham um gorro como vestimenta.

Eles davam puxões nos cabelos das meninas, chutes nas canelas, normalmente dos novatos, era como um rito de passagem, os veteranos sabiam que se falassem: “Eu tenho uma garrafa pra você, saci!” eles se acovardam e vão embora. Poranga só tinha ouvido falar sobre os sacis, eram como diabretes que obedeciam ordens de um mandante. Tinha uma lenda pra esse mandante.

Um cajado foi batido no chão, e todos os sacis pararam onde estavam e pediram desculpas e foram pulando pra quem bateu o cajado. Diante dos alunos estava um ser baixinho como um anão ou duende. De cabelos louros e olhos claros, pele alva e aparência meio élfica se assim podemos dizer, Vestia roupas soltas como mantos e túnicas, em tons claros, estava tomando uma pequena cuia de chimarrão e andava apoiado no cajado.

— Bem-vindos, alunos do Instituto. Eu sou Jaci Jaterê, sou guardião dessas terras e do instituto. — Ele era simpático e agora estava sendo cercado pelos sacis.

— Filho da Tau?! — Disse um rapaz de aparência indígena.

— Sim, isso é uma longa história, explico depois. — Ele cutucou o cajado de madeira dele no chão pra que os sacis sossegassem. — Vocês vieram cedo, meus queridos sacis estavam bem enérgicos. Hoje é dia de festa, nosso instituto está completando 80 anos, e com isso, vocês vão receber um festerê daqueles. Venham, antes de tudo.

Ele falou algumas palavras de um dialeto antigo, e ordenou que os sacis, que eram um pequeno batalhão, agora em transe e nas ordem de Jaci, que estranhamente tinha esse nome da Deusa da Lua por sua pele pálida e brilhosa como a lua cheia. Os Sacis ao receberam a ordem pegam as mochilas e levam pra longe, na direção dos chalés, iriam deixar na entrada dos chalés para que os alunos fossem descansar mais tarde.

— Regra de ouro, garotos e garotas, todos aqui precisam ter seus momento de descanso, se tiverem insônia ou tensos com as provas estudantis, não tenham medo de me chamar. — Jaterê segue na frente e passa a guiar todos os alunos.

Entraram no prédio principal que tinha um ar de construção gótica como um castelo antigo e cheio de gárgulas. No Hall, tapetes vermelhos davam contraste ao chão de mármore, pinturas antigas estavam espalhadas pelas parede, pequenos vagalumes davam cor e luz natural ao ambiente, incrível que eles insetos tinham colorações diversas, do verde florescente até o rosa cintilante.

Passando por um corredor imenso e cheio de portas que Jaterê dizia ser as salas de aulas convencionais, estudos humanos variados e algumas sendo específicas para os bruxos. Eles chegaram em uma porta grande que quando foi aberto, dava acesso ao campus interno, todo arrumado, hastes com bandeirolas, mesas largas com toalhas de mesas quadriculadas, um pequeno palco arrumado com alguns músicos tocando animadamente, os professores ficaram animados ao verem os alunos deles e gritaram juntos:

— BEM-VINDOS! — Era nítida a empolgação deles para mais um ano.

— Posso agora, diretor Euclides? — Perguntou um dos professores sacando dois revólveres escuros.

— Pode. Eles chegaram.

Esse professor soltou um sorriso e começou a atirar pra cima com os dois revólveres, assim que as balas chegaram em uma certa altura, explodiram em efeitos diferentes, pós coloridos ou fogos de artifícios multicolores, algo que encantou a todos. Ali na festa todos podiam sentar onde quisessem, havia alguns alunos ali já, eram os veteranos auxiliares, ficavam no instituto durante o verão, muitas vezes por não terem lares fora dali ou por extrema dedicação ao instituto ou os estudos.

Era bem perto do almoço e todos estavam com fome, Poranga se sentou perto de Kathe, quando foram surpreendidas por micos-leões-dourados, bugios e saguis que carregavam tiaras e colares de flores a mando se uma professora que tinha controle da natureza, os bichinhos eram dóceis e amavam dar abraços também. O almoço foi servido por alguns dos alunos veteranos, já que a cozinha da escola poderia ser uma bela forma de se aprender algo novo.

Os pratos voaram de um carrinho de chás, sendo botados na frentes dos alunos, isso serviu pra comida que estava sendo multiplicada e colocado em cada mesa da festa, todas as mesas foram servidas fartamente, comidas diversas e diferentes. Bebidas eram diferentes, existia o Suco de Tutti Frutti, feito por um aluno italiano que combinou os sabores mais diferentes e maravilhosos de frutas, tinha a Chá de Maçã com Baunilha, Suco de Guaraná, e outras tantas bebidas que era só pegar de grandes barris antigos que pareciam de chopp alemão.

Trilha Sugerida: Chumbo Grosso e Copo Largo — Tiregrito

Depois de uma boa refeição, os músicos começaram a animar ainda mais, melhor método de se baixar uma comida da barriga, dançar! Poranga estava com o pé seguindo o ritmo da música, e olhou para Kathe.

— Vamos dançar? — Ela perguntou animada, Kathe se engasgou com um suco, dada a surpresa da pergunta. — Algum problema?

— Não, é que… — Tossia um pouco mais. — Eu realmente não estava esperando por essa. Bem, pelo visto, não tem rapazes com cara lavada pra tirar a gente pra dançar. Vamos nós então.

— É assim que se diz. — Disse Poranga animada, e já se levantando da mesa.

Alguns pares, maior parte dos veteranos que já tinham algum romance antigo foram dançar juntos, as duas pararam no começo a pista de dança, que era um local com chão de taco para dançar. As duas se entreolharam e fizeram uma reverência que os casais faziam antes de bailar, já que Kathe estava usando calças no dia, elas meio que guiou a dança, mas diferente dos outros pares que faziam de tudo pra seguir uma ordem de passos, elas entraram animada e saltitantes, entre rodopios, risos e passos diferentes.

A irreverência delas foi o diferencial que fez os demais pares mudarem o ritmo para algo animado, os professores mais empolgados amaram a ideia, mas sempre tinha a parcela de alunos e professores que eram muito prendidos as tradições clássicas da sociedade que abominavam o diferente e extrovertido.

Camillo encarava a situação com um sorriso, e Poranga viu ele de longe e fazia sinal pra ele chegar perto, mas o rapaz preferiu ficar ali, olhando toda a situação, ficava fascinado pelas cores e alegrias diferentes da cena, saias rodantes de seda, tons de pele diferente, uma impressão que tais cores vibrantes ficariam em uma tela, era tudo que Millo queria naquela hora.

— Alunos, perdão interromper a dança. — Disse o diretor saindo da grande mesa dos professores. — Mas chegou a hora de entregar aos bruxos aquilo que almejam, os veteranos já receberam, mas os novatos terão o primeiro contato com as famosas Pedras Brasilianas. Depois, vamos fazer os processos dos outros alunos.

Todos ficaram felizes e ansiosos, por ordem alfabética, um por um foi chamado para ir diante do diretor para receber suas pedras, primeiro elas ganhavam suas dores respectivas aos sentimentos verdadeiros de cada aluno, o reflexo de sua alma. Para depois então ela tomar um formato escolhido pelo aluno, poderia ser uma anel, uma varinha cravejada de pedras, um cajado, um pingente. Eis que o nome de Camillo é mencionado e ele vai tranquilamente até diante do diretor.

Quando a mão dele é esticada para receber a pedra, antes mesmo de tocar a sola da mão, a pedra que antes era branca leitosa, virou um azul marinho intenso, quase como a roupa de um capitão da marinha, ela tinha pequenos riscos mais claros , como um redemoinho claro em um céu escuro.

— Muito bom, isso indica que és alguém calmo, focado no que quer, que vai ter um bom futuro. — Disse o diretor pegando sua varinha branca com pedras vermelhas, era muito bonita. — Agora pense em um formato para sua pedra, como vai carregá-la?

— Um… — Lembrou de algo no passado, de ver um bruxo com um belo anel em seu dedo, usava pra magias. —… Anel?

Nisso, a pedra começou a transformar até virar um anel de aço escuro e no meio dele uma pedra polida em tom azul marinho, focando naquele redemoinho meio claro. O evento continuou, até chegarmos na letra P, Poranga foi mencionada e todos que já tinham recebido a pedra brasiliana estavam felizes e empolgados, a índia ajeitou seus cabelos longos e negros pra trás, andando a passos devagar na direção do diretor.

Só que parou um pouco antes de chegar e escutou no sopro de um vento: ITAÚNA! Jurupari quer o que pertence a ele! O mundo parou para ela, aquilo não foi só um pensamento besta, mandaram aquilo pra ela. O Diretor estranhou o atraso da moça, mas em um piscar de olhos, tal desconforto saiu de Poranga e com um sorriso rápido, voltou o caminho. Estendeu a mão para receber a pedra, mas antes de sequer sair da mão de Euclides, a pedra tomou um tom forte de uma ônix, mergulhado em escuridão mas com tons reluzentes incríveis.

Ela mal pensou em um colar e ele começou a emanar fios de cipó seco, vinhas se cruzaram para formar um colar de origem natural, a pedra foi envolta por um metal oxidado escuro que combinava com ela.

— Pedra escura. — Alguns professores se entreolharam e o diretor encarou Poranga com calma. — Normalmente, descartamos alunos que tem pedra negra, mas depois de uns eventos passados. Não julgamos mais pela cor da pedra, só tenha a mente sempre afiada e no caminho certo.

— Prometo por Tupã. — Disse Poranga saindo com um sorriso no rosto.

O olhar dela passa por uma mulher mais velha, roupas de madre superiora, um olhar frio e sério. Denotava ser bem mais severa, só com aquele olhar. Poranga sabia que as coisas seriam bem mais difíceis pra ela.